Notas iniciais
"Estamos no sul"

Cacieri segue então, em direção à Zasal, porém antes, ele constrói o tumulo para Davi e, como estava sem seu glorioso e bravo animal, ele toma para si o do falecido rei.

Vendo as estrelas da noite em contraste vivo ao radiante dia dos campos Elíseos, Danael que com o peito ainda em brasas pelo urro, continua a subir, enquanto Davi perseverava com força para não desistir após tal grandiosa dor. Esfolamentos e arranhões nada eram para ambos, que apenas desejavam o fim deste pavoroso sonho. Depois de um pequeno momento de pavor por ter deslizado seu pé sobre o limo e ser salvo da queda pelo próprio pé que havia ficado preso nas rochas do poço causando-lhe torção, Davi mantém-se firme em seus objetivos.

Um pedaço de relva verde foi a primeira coisa que os dedos dos irmãos tocaram no mundo dos vivos e que contribuíram para sua subida que, mesmo com poucas forças e com fome, foi realizada. O céu estrelado encontrava-se com o mar à sua frente e, atrás uma estreita faixa de terra, guiava os olhos dos dois reis para uma densa mata fechada.

- Estamos no sul. – Danael possui a razão, o norte estaria pronto para o inverno, e os sinais alaranjados do outono pareciam pouco presentes ali naquela mata, diferente da região de Zasal e Landraynor.

Danael faz uma pequena fogueira com alguns gravetos, cascas e partes de troncos encontrados em beira à mata e põe-se a observar o céu. Estrelas dão o sinal de que ele precisa; sinal de que não irá chover, mas que serviria para espantar predadores até o amanhecer.

Davi então derrama em profundo sono, nem seus batimentos ele poderia ouvir e assim teve início um sonho.

Enquanto suas vestes concebidas pelo sangue de Cérbero esquentam seu corpo, Danael sonha com a imensidão negra. À sua frente surge uma luz branca e incandescente. Uma voz atinge os tímpanos de Danael e aparece grave como trovões.

- Danael, está aqui, mas sabes, porém, quem somos ou por que está nos vendo?

Danael nada disse. Seus olhos mal conseguiam enxergar sua própria mão, mas mesmo assim estava ouvindo tudo atentamente.

- Foi o que eu pensei – A voz segue. — Há duvidas sobre teu estirão, duvidas sobre figuras que conheces e amas. Tua alma, filho de Zasalem, curiosa é por natureza, e é essa a razão pela qual o vosso caminho será de grande ardor.

Danael respira e segue a ouvir tão poderosa voz.

- Não te preocupes, porém, há mais aliados do que possas ter de inimigos.

Danael finalmente consegue falar.

- Eu não preciso de aliados, se tão ardente será meu estirão, que eu o cumpra só.

Danael nada mais diz. De repente se vê a frente do fogo que produzira posteriormente. Ele observa ao redor. Davi não dorme e se ergue-se também.

- Danael, se és tu realmente meu irmão, por que eu não recordo de ti?

- Davi, tudo o que fiz foi necessário, é tudo o que precisas saber.

- Mas, e aqueles de quem dizes que pensavam que você mergulharia o mundo em trevas?

- Então Davi. Essa é a parte mais complicada de meu estirão, mas enquanto não possuo nenhuma confirmação estou eu fadado a lhe proteger – Danael retira as botas de Hermes, limpas por causa do rio Lete, mas um pouco sujas com o limo do poço e jogando por cima do fogo nas mãos do garoto. – Isso é teu.

Davi agradece e o restante da noite foi silenciosa, até que o sol lançou na madrugada a luz que aos poucos dissipou as trevas. Davi acorda Danael para que pudessem adentrar na densa mata sulina, e assim foi. Danael improvisou um arco com cipós e um espesso e longo galho. Depois de poucos Grins de caminhada, Davi avista uma cachoeira e um lago, perfeito para um rápido banho. Enquanto o irmão se divertia, Danael vai à caça. Com um rápido movimento e uma mira quase tão boa quanto a de Davi, logo ele acerta a esfinge, com corpo de um cavalo e rosto de falcão e asas azuis e douradas de águia. Era da raça alada, que não possuía nenhum traço humano sequer.

- Criatura! Tu segue com vida porém, nessas condições terás que ir a teu ninho.

Seguindo o animal ele não deixava de se recordar de teu caminho e, no ninho ele capturou ovos o suficiente para satisfazer os teus dias de jejum no submundo.

Ao chegar às ruínas de Zasal, Cacieri observa entre as cinzas um pedaço de papel totalmente intacto.

“Chegou a hora do estirão mudar seu curso. Há quatro cartas para se ler para que o sangue pulse novamente.”