As Estrelas Caem: o rei e o caçador
23 Grovandia final
E da lamina de prata presa ao solo brotavam raios como a água de uma nascente faz. O objetivo de Cacieri, o objeto que tomará o rumo dos reinos, estava bem à sua frente.
Entretanto, enquanto tentavam se esgueirar pela colina de onde observavam tal relíquia, Ronan Rolix solta um terrível urro de dor que fora seguido pelo som do paraíso chamando-o. Com sua lâmina agora em mãos, Cacieri confronta o bárbaro que mata seu companheiro chamando a atenção dos rebeldes. Horace e Cacieri lutam o quanto podem, e logo partem em retirada. Fora tudo em vão. Com temor da reação bárbara contra seu mais sábio conselheiro, Davi resolve pactuar a anexação o mais rápido possível. Mas para evitar a revolta dos rebeldes, o príncipe maligno resolve investir suas riquezas na reconstrução das ruínas de Zasal, porém agora outro local teria de ser escolhido.
Pedra por pedra, após mais três anos, uma nova Zasal fora erguida e assim nomeada. Possuindo dimensões nunca antes vista, possuíam muros decorados feitos de rochas brancas perfeitamente partidas, suas flâmulas de vermelho nobre enfatizavam o brasão real da antiga Zasal em todo seu esplendor. Fundada sobre o lago Ignis, ao norte do reino leproso e ainda distante da área gélida e inóspita, possuía um clima perfeito para agricultura. Nos muros do castelo central, o qual era protegido pelo muro, suas vilas e os canais de água que a cercavam e adentravam entre todas as vilas, além das belas bandeiras, repousavam túneis diretamente ligados a barris de óleo negro, a mais bela tática de defesa projetada pelo caçador Cacieri. Atravessando a via aquática que cercava o castelo, apenas uma forte ponte de madeira barata e de fácil incendeio. Em exatos quarenta e nove pontos nos muros do castelo, além dos postos de observação, repousavam bestas gigantes com uma caixa de mármore em cima feita para suportar vinte e oito flechas por vez e cujo maquinário devia ser operado por três homens.
Nesse tempo, Artelas e seu amado passaram vivendo no baixo continente como simples treinadores para o exército do rei Lyn, que já em sua velhice permanecia a procurar por seu desaparecido neto e aquele que herdaria todo o controle sobre os reinos do continente. Durante esse período, Danael buscou o anonimato mesmo como o comandante da guarda branca; seu nome não deveria ser pronunciado. Assim, ao raiar do sol da manhã gélida do quinto mês, o capitão Danael fora chamado à presença do rei Lyn.
E assim foi anunciada a entrada do capitão. Como é comum, Danael trouxe à presença do rei sua esposa e uma peça de ouro. Ao entrarem, ambos se ajoelham a exatos trinta passos do rei, sem tocar nas bordas do tapete dourado ícor. Lyn possuía um cabelo negro com fios brancos e uma barba negra espessa; seus olhos se mantêm fechados e suas vestes são simples para um rei. O rei pede que eles se ergam.
Ao se levantarem, Artelas e Danael observam enquanto Lyn se levanta vagarosamente. Com um gesto, ordena que os guardas se retirem, e estes o fazem.
O rei ainda de olhos fechados desce os degraus de seu palco, caminha pelo tapete vermelho e dourado com vagarosos passos, e a duas passadas de Danael, se ajoelha.
– Salve o rei dos caídos, Danael. Que mesmo em seu atual estado deixa clara a grandeza que representa.
– Me reconheces meu rei, sem abrir teus olhos, me conhece sem que nunca tivéssemos nos visto, mesmo em meu estado como capitão da guarda, sabes quem eu sou. Como isso?
O rei Lyn se levanta com auxilio do rei dos caídos e sua rainha, e se voltando à Danael, diz:
– Você com certeza já ouviu a expressão “Lyn, o cético”, não? Eu adquiri esse título em meus anos de infância. Quando eu vislumbrava este mundo, ele ainda era jovem e repleto de encantos, mas eu me recusava a crer no que meus olhos viam, mesmo que tudo indicasse que é real. Depois, já aos vinte e três anos, eu ganhei um dom e perdi outro – Lyn abre seus olhos azul-claros como o mar castelense, mas agora pupilas brancas podiam ser observadas. — Eu perdi o símbolo do ceticismo, mas ganhei a visão das estrelas. Eu as vejo e elas me permitem ver, observar, vigiar mesmo sem estar presente. Abandone seu ceticismo você também, Davi não é mais teu irmão, e sozinho você não poderá detê-lo. Não me permita usar meu latim em vão. Você tem meu exercito e meu povo a sua disposição. Utilize a livraria do castelo de Firmamento, com certeza a rainha July permitirá se você for até lá em meu nome.
– Você estará nos observando, meu rei? – questiona Artelas.
– Infelizmente não, “mea regina”. Há um espetáculo maior se desenrolando no grande continente.
“Davi”, ecoa o nome pela cabeça do rei dos caídos que lança um suspiro penoso.
– Mas vocês não poderão ir a meu nome se usam vestes maltrapilhas. Há tempos eu mandei meus artesãos construírem esses trajes para vocês; as estrelas me pediram, eu não sei o que ocorrerá, mas elas depositam fé em vocês.
Lyn se dirige a um baú construído com rebites de chumbo e um magnífico buraco de fechadura de ouro. Ele passa a mão por um dos rebites no topo e o contorce, retirando-o do caminho e revelando uma nova fechadura.
Ao abrir o imenso baú, pode se observar que compõem sua tampa milhares de peças que se movem em perfeita harmonia, provavelmente trabalho do grande artesão Sir Pircyn. O fundo do baú, com um estalo, se ergue, trazendo os trajes dos dois caídos.
O traje de Danael, uma cota de malha, possuía uma ombreira composta no braço direito que se estendia em aros partidos até suas manoplas, e, assim como seu peitoral e suas perneiras, era feita de aço com adornos majestosos; da frente da ombreira às costas da mesma, um tecido vermelho sangue formava uma capa e escondia seu braço esquerdo, suas costas e a bainha de sua espada recém afiada. E Artelas com uma mistura de tecidos e armaduras dignas de uma rainha.
Danael e Artelas, ao saírem do castelo, veem corcéis à sua espera; eram aqueles animais majestosos os mesmos que Danael encontrara no fundo do lago Flamma.
Cavalgando, em pouco tempo a cidade de Firmamento chegou até eles.
A chegada fora anunciada e, em pouco tempo ali estavam, na sala do trono de Firmamento, reino de July, a rainha. Ao adentrarem a sala do trono, a rainha desce ignorando os degraus e saltando-os; suas vestes eram as mais belas que uma rainha poderia usar; lembravam-se vagamente as de Leandra. Filha de Martyn e esposa de Zasalem. Seus cabelos negros e lisos tocavam seus ombros claros dando um contraste majestoso. Sua aparência madura era meiga e pavorosa, dando um conforto e certa desconfiança, e sua aparência sugere amizades e catástrofes.
— Olá Artelas, Danael – sua voz lembrava a de Kendel -, a pedido de Lyn, a biblioteca de Xenox estará à sua disposição, somente lhes peço que no caminho ignorem meus quadros.
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