As Duas Faces Do Amor
3 Pela liberdade.
Senti minhas costas doendo como se tivesse acabado de levar um tiro, levantei do chão olhando para o teto escuro e piscando os olhos para enxergar direito. Havia uma luz em uma canto do quarto, sentei de novo quando percebi que era inútil tentar ficar em pé sentindo aquela dor. Abaixei a cabeça e ouvi passos, a luz foi ficando mais forte e uma figura escura apareceu nela, olhei sentindo meus olhos doerem e meu coração acelerar. Era uma pessoa, ou ao menos parecia ser uma, e foi se aproximando até estar de frente a mim e se abaixou devagar como quem já tinha planejado o que iria fazer, tentei levantar novamente e dessa vez não senti dor, a figura sem rosto na escuridão se levantou junto a mim como se fosse um espelho. Senti alguém me segurando e tapando a minha boca, eu não conseguia gritar, nem me mover, num instante já haviam varias criaturas me segurando como se fossem me comer, me senti inútil e fraca enquanto me desesperava em tentar me soltar das mãos que me prendiam. Ouvi a voz do meu pai me chamando de longe, mas não consegui vê-lo.
— ANNIE! ACORDE! ANNIE! — uma voz masculina me despertou e eu acordei afegante, senti minha franja grudada no rosto pelo suor, acalmei minha respiração e finalmente percebi que quem havia me acordado.
— Jake? — Ele estava sentado na lateral da cama olhando fixamente pra mim.
— Você estava gritando e se contorcendo. — Ele falou perplexo observando que não é normal uma pessoa gritar e se contorcer na cama enquanto dorme.
— Foi só um pesadelo — falei e só então me dei conta do quanto foi bom aquilo nunca ter acontecido de verdade.
— O que acontecia nele? — perguntou preocupado enquanto se apressava em me abraçar. — Senti saudades sua.
— Eu estava numa sala escura e vampiros me atacaram, cheguei a ouvir a voz do meu pai...
— Você precisa beber água — ele percebeu que eu estava confusa.
— Foi a sua voz Jake... Eu nunca ouvi a voz do meu pai na vida, como poderia saber? Só me veio a mente que era a voz dele.
— Você precisa de uma água — repetiu e levantou saindo do meu campo de visão.
Algo me dizia que esse pesadelo quis dizer alguma coisa, eu acostumei a ter pesadelos, mas não assim. Geralmente meus pesadelos envolviam mamãe, Damon, as vezes Kenan, uma vez até sonhei com Alice, uma amiga de infância, a única que tive quando era criança. Eu precisava encontrar meu pai, Carlo... Eu vou te encontrar pai, não se preocupe. Farei isso não por mim, mas por minha mãe, era isso que ela queria, morreu por essa causa naquela noite, eu precisava encontra-lo antes que Damon.
— Aqui está — Jake entrou no quarto com um copo suado e me entregou.
— Obrigada — bebi tudo em alguns goles já que estava morrendo de sede.
— Você não acha que esse sonho quis dizer alguma coisa, acha?— Nós ficamos nos olhando e ele abaixou a cabeça e a balançou negativamente já imaginando que minha resposta seria sim — Ouça bem Annie, você precisa parar de caçar o seu pai assim, se ele quisesse te encontrar ele teria vindo até você durante esses anos. Você sabe disso, porque não aceita?
— O que você veio fazer aqui? — perguntei o fuzilando.
— Não me olhe assim, foi um trabalho dificil encontrar vocês duas. Mas vim trazer uma mensagem. — Ele passou a mão na nuca arrumando os cabelos lisos e finos que passavam do pescoço e realçavam seus músculos.
— De?
— Acho melhor esperarmos Mary chegar. — Jake era um dos melhores mensageiros que eu já vi, eu não podia negar, ele não tinha medo de nada, ao menos não demostrava ter e sempre sabia o que dizer. Mas dessa vez eu pudi ver não só medo, mas tristeza e angustia nos seus olhos castanhos.
— Acho melhor você abrir o bico logo!
— Annie... — ele ficou desconfortável e respirou fundo olhando para o teto. — Você sabe que uma hora terá que aceitar o seu destino do jeito que é. — assenti com a cabeça sentindo raiva dele por só me lembrar de coisas ruins sempre que nos víamos — Então que seja hoje, que seja agora. Eu me preocupo com você... Se você não se alimentar, irá morrer e de nada adiantará tanto buscar por Carlo.
— Se eu encontra-lo antes do prazo posso mudar isso. — falei mesmo sem nenhuma esperança.
— Eu já disse, se ele se importasse teria vindo até você.
— Jake eu não quero matar ninguém — fui clara.
— Vampiros carregam uma maldição nas costas, você, carrega uma benção e não se dá conta disso. Só precisaria se alimentar uma vez pra ser imortal, só uma. — ele ficou quase eufórico.
— E temer a luz do sol pelo resto dos meus dias? Não.— Ergui as costas sentando na cama.
— Você fala como sua mãe. Ela falou a mesma coisa muitos anos atrás.
— E qual foi seu fim? — Arqueei uma sobrancelha.
— A morte, a morte que chegará muito mais cedo pra você se não aceitar seu destino.
— Prefiro morrer ao ter que matar. — dei um ponto final a conversa e ele me observou como quem sentia pena.
— Interrompo alguma coisa? — Mary apareceu na porta do quarto pequeno e sem cor com apenas uma cama no seu centro.
— Não — falei fria.
— Não pedi pra acorda-la Jake. — Mary fez uma expressão de reprovação.
— Eu sei. — ele não fez menção sobre o pesadelo e eu também não.
— Agora você pode falar sobre a mensagem que veio trazer. — Anunciei quase sorrindo.
— Mensagem? — Mary olhou para fora do quarto se certificando que não havia ninguém ali. — Você não falou sobre nada disso quando chegou.
— Não vou fazer cerimonia, quero ir direto ao ponto. — ele olhou pra Mary depois pra mim — Damon está com Carlo, e não dou 24 horas para ele está morto. — Meu coração congelou e percebi o sangue do meu rosto se esvaindo. Tudo que eu não precisava agora era saber que a única chance que eu podia ter de me livrar do "meu destino" havia se perdido e meu pai iria morrer.
— Como sabe? — Mary perguntou, mesmo tendo a certeza de que Jake nunca passaria informações sem se certificar se eram verdadeiras, principalmente essa.
— Eu mesmo vi eles o levando.
— Você viu e não fez nada? — Senti as lagrimas fervilharem de raiva, mas não iria permitir que elas escorressem pelo meu rosto.
— O que eu poderia fazer? Eu sou fraco perto dos Muthiks. Eu estava com Carlo e só me deixaram vivo justamente pra contar isso pra você Annie, eu suponho.
— O que vamos fazer agora? — Mary se indignou.
— Você eu não sei. Mas eu, agora já sabendo onde meu pai está vou até lá. — Levantei da cama e sai do quarto deixando os dois sozinhos provavelmente repreendendo minha decisão.
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