As Divassas do Zodíaco
21 21 - FINAL - A lenda
Notas iniciais
Havia um homem parado no meio da rua, diante de um beco qualquer. O dia estava muitas coisas, sobretudo, cinzento como seu sobretudo. Era um dia chuvoso como muitos outros, e igual a nenhum deles. O homem não se demorou muito ali: entrou no beco apertado, sem que ninguém percebesse.
O dia virou noite de repente. O barulho da rua e das pessoas virou o barulho de risos e copos. O homem não pareceu se importar. Só havia um estabelecimento aberto, para onde o homem se dirigiu sem hesitar um único instante.
Era um bar.
Entrou. Lá dentro, outro homem da sua altura e uma mulher mais alta que os dois pareciam estar lhe esperando. Sem trocar uma palavra nem serem incomodados por ninguém, os três se dirigiram ao fundo do bar e entraram em uma espécie de escritório, onde encontraram um terceiro homem, maior que os dois e a mulher, com um charuto no canto da boca.
– Então você voltou... – disse o homem pelo canto livre da boca, com uma voz grave e misteriosa.
– Promessa é dívida, “patrão” – respondeu o primeiro, se sentando do outro lado da mesa de escritório, frente a frente com o terceiro. O outro homem e a mulher sentaram no sofá de couro que havia em um canto da sala.
– E você conseguiu o que eu pedi?
– Uma história que pode se tornar uma lenda. Está aqui, e eu a trouxe vivo e suficientemente inteiro para contar-lhe todos os detalhes, como combinado.
– Será...? – respondeu o homem, soltando uma longa e debochada gargalhada. Após isso, apagou o charuto e se ajeitou na cadeira – E onde está essa futura lenda?
– Na sua frente.
Após alguns instantes de silêncio, o homem gargalhou novamente, mais alto e mais demorado que da primeira vez, batendo várias vezes na mesa e demorando um tempo para recuperar o fôlego.
– Você é ótimo, Sensei! Realmente deveria trabalhar no circo!
– Raitun – disse Sensei, fazendo o homem do outro lado da mesa mudar completamente sua expressão. – Me chame de Raitun. Escute com atenção, James. A história que eu vou contar vai lhe fazer rir em alguns momentos, confesso. Mas se é um pouco comédia, é muito mais épica e trágica.
E então Sensei, ou melhor, Raitun começou a contar-lhe sua própria história. O Sensei Raitun era mestre em muitas coisas, e em outras que não fora, havia sido aprendiz. Uma das coisas que dominava era a arte de contar. E para isso, precisava ser mestre daquilo que conta. E não há nada que possamos contar melhor do que a nossa própria história. E então, ele contou. Era uma história com muitos mistérios, coisas fantásticas, criaturas místicas, um outro mundo, sangue, luta, romance, ódio, vingança, ostracismo, loucura, sanidade e pessoas, pessoas de todos os tipos. Uma história escrita com letras estranhas, prateadas, douradas e brilhantes como glitter.
Não era apenas uma história qualquer. Era a história dele. Ele era a lenda.
Os três homens e a mulher ficaram em um silêncio profundo por alguns instantes. Pareciam satisfeitos. Depois de algum tempo, James acendeu outro charuto, deu algumas baforadas e disse:
– Como você sobreviveu a tudo isso? O que diabos você é, Raitun?
– Eu sou quem eu sou. Sobrevivi porque era inevitável, graças ao meu talento, minhas habilidades, um muito de ajuda e um enorme de sorte. A sorte é brutal às vezes, mas quando resolve te salvar o faz, mesmo que seja te esmurrando no processo. É quando o destino quase te derruba, mas consegue te agarrar no último instante antes da queda fatal. Mas uma coisa me intriga desde sempre. O que diabos VOCÊ é, James?
– “Informação confidencial”, como costumam dizer os seus. Em uma próxima oportunidade, caso seja inevitável, quem sabe eu não te diga? – respondeu ele, como se sua aura misteriosa fosse sua própria pele e ninguém pudesse arrancá-la. – E agora que o destino te agarrou muito firme, onde você acha que ele vai te colocar?
– Talvez nem ele mesmo saiba. O que sei é que estou aqui, e foi inevitável que eu estivesse para descobrir que essa história ainda não acabou. O que sei é que preciso terminar essa lenda, custe o que custar. E fazer o impossível além de torcer muito para tudo terminar bem.
– E você acha que vai conseguir? Como? – perguntou James, terminando o segundo charuto.
– Não sei. O que sei é que preciso tentar para descobrir. Foi bom trabalhar com você, mas preciso ir. – disse, se levantando. O dono do bar levantou-se, apertou sua mão e o guiou até a porta.
Saíram os dois do escritório para um bar vazio. Apenas o barman estava lá, encarando-os com uma expressão séria enquanto limpava os copos. Não disse nada, apenas encarou os dois por alguns instantes e voltou a seus afazeres.
– Tudo e todos estão contra você – comentou James. – Você acha mesmo que pode fugir do seu destino?
– Não. Ninguém pode. Nem eu, nem você, nem os deuses. Mas é tentando fugir do nosso destino que chegamos até ele – respondeu o professor, se dirigindo à saída do bar.
– Entendo...
– Estranho... É a primeira vez que vejo esse lugar vazio e todo apagado – disse, já do lado de fora, apontando para o letreiro.
– Quando tudo está escuro ou se está sem rumo, geralmente as duas coisas, esse o único lugar nesse mundo que está sempre aberto e disposto a socorrer qualquer um que dele precise. E o seu caso não é mais o primeiro, muito menos o segundo. Você já sabe o que deve fazer. Só precisa se lembrar disso.
– Lembrarei. Até sempre. – disse, acenando e se afastando a passos lentos do bar.
– Até! Boa sorte. E fique de olho nos postes, garoto. Você é muito bom. Quem sabe eu não contrate novamente seus “serviços”? Obtive ótimos feedbacks!
– Espero sinceramente que não, meu caro. Já passei glitter demais na minha história!
Os dois riram. Sensei atravessou o limite do beco e voltou à rua chuvosa. Olhou para trás e não viu nada além de um beco vazio qualquer. Sorriu. Lembrou-se de algo engraçado. Lembrou-se que precisava apenas se lembrar. Como se isso fosse fácil...
Saiu andando, torcendo que chovesse mais vezes. Para ele era como tomar um banho no corpo, na alma, e na memória. A chuva lhe lembrava uma pessoa. A cada vez que chovia, lembrava que não era tão louco assim. Era apenas diferente de todos daquele mundo cinza, e havia passado por coisas que praticamente ninguém acreditaria (a não ser vocês, para quem eu resolvi contar tudo isso). Ele lembrava a cada vez que chovia que era quem era. E eu acabei de lembrar algo que preciso relembrar a vocês: eu sou apenas aquilo que conta, e no momento, só preciso contar-lhes mais uma coisa.
A chuva lhe lembrava muitas coisas, inclusive aquelas de que um dia iria precisar.
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