Notas iniciais
Mais um

21 – Indícios


Depois daquela tarde em Rotherhithe Percy já não era mais o mesmo. Ele tentou, nos dias seguintes, se convencer de que era só cansaço acumulado, o jet lag emocional de uma manhã comum demais para doer tanto quanto doeu. Voltou à rotina com uma disciplina quase militar — aulas, escritório de Crawford, jantares com Scarlet, o Porsche cortando as mesmas ruas de sempre — mas havia um atraso em tudo que fazia, um segundo de hesitação antes de sorrir, antes de responder, antes de fingir que estava inteiro em algum lugar que não fosse aquela varanda em Rotherhithe.


Scarlet notou antes dele admitir.


O brunch de ex-alunos de Balliol acontecia todo outono na propriedade dos Ashcombe, um casarão de pedra clara nos arredores de Oxford que Percy já tinha visitado uma vez, no ano anterior, e jurado nunca mais pisar se pudesse evitar. Dessa vez não havia como evitar — Mary tinha insistido pessoalmente, e Scarlet deixara claro, num tom que não admitia negociação, que a presença dele era esperada.


— É só um brunch — ela disse no carro, ajeitando os brincos de pérola no espelho retrovisor — Ninguém vai fazer discurso sobre sua reputação dessa vez. Provavelmente.


— Provavelmente não é uma palavra reconfortante, Scar.


Ela usava um vestido cor de champanhe, corte reto, um casaco curto cor de areia por cima, um lenço de seda branco amarrado no pescoço com precisão. O perfume Chanel Nº5 preenchia o carro inteiro, quase como uma armadura própria.


Percy estava trajado para a ocasião — um paletó de tweed marrom-claro, gola alta de lã por baixo, calça de alfaiataria cinza-escura. Os Wayfarer dele, os pretos de sempre, estavam pendurados na gola do suéter. Arregaçou as mangas do paletó no meio do caminho, sem pensar, e uma das tatuagens do antebraço ficou à mostra — Scarlet notou, revirou os olhos, mas não disse nada.


— Você parece quase respeitável — ela comentou, séria o suficiente para ele não saber se era elogio.


— Quase é a palavra chave.


A propriedade já estava cheia quando chegaram — tendas brancas armadas no jardim, mesas com toalhas de linho, garçons circulando com taças de Bellini e bandejas de croissants recém-saídos do forno. Um quarteto de cordas tocava baixinho perto da fonte de pedra. Era exatamente o tipo de evento que Percy tinha aprendido a atravessar com um sorriso automático e o mínimo de conversa possível.


Mary os encontrou antes mesmo de eles chegarem à tenda principal.


— Scarlet, querida — ela beijou o ar perto do rosto da filha, depois virou-se para Percy com aquele sorriso medido — Sr. Jackson. Que bom que veio.


— Sra. Windsor — ele apertou a mão que ela estendeu — Obrigado pelo convite.


— Nem sempre os convites são aceitos com tanta boa vontade — ela disse, o tom leve, quase casual — Imagino que o senhor tenha andado ocupado demais ultimamente. Compromissos, aulas e esse tipo de coisa.


Percy sentiu o estômago gelar antes mesmo de conseguir formular uma resposta.


— Sempre há correspondência demais nesta época do ano — ele jogou verde, mantendo a voz o mais neutra possível. Afinal, o selo das cartas era certamente o dos Windsor.


— Sem dúvida — Mary sorriu, o sorriso não chegando aos olhos — Balliol tem uma tradição admirável de… zelar pelos seus. Eu mesma estudei lá, sabia? Há muitos anos. Antes de tudo isso — ela fez um gesto vago para o jardim, para as tendas, para o próprio nome que carregava — Fico feliz em ver que a instituição continua tão atenta aos detalhes.


Ela se afastou antes que Percy conseguisse decidir se aquilo tinha sido uma ameaça ou só o comentário casual de uma mulher que gostava de manter as pessoas em polvorosa. Scarlet, ao lado dele, franziu ligeiramente a testa.


— O que foi isso? — ela perguntou, baixinho.


— Não sei — Percy mentiu, sentindo o peso das duas cartas guardadas na gaveta da escrivaninha como se estivessem, de alguma forma, ali no bolso do paletó. Ele refletiu em silêncio sobre a autoria daquelas cartas.


O barão os encontrou perto da mesa de queijos, o mesmo desdém de sempre esculpido no rosto, como se o tempo entre um evento social e outro não passasse para ele — só se acumulasse.


Jackson — ele rosnou o nome de Percy, sem oferecer a mão dessa vez — Ainda por aqui, vejo.


— Bom dia, senhor.


— Não vou fingir surpresa. Minha esposa insiste em manter as aparências — ele serviu-se de vinho branco sem oferecer a Percy, um gesto pequeno o suficiente para ser deliberado — Suponho que ainda esteja se dedicando à arqueologia. Ou skate. Nunca tenho certeza qual das duas carreiras o senhor prioriza.


— Consigo fazer as duas coisas, senhor. É uma questão de organização.


— Impressionante — o barão não sorriu — Uma pena que organização não seja sinônimo de compromisso.


Ele se afastou antes que Percy pudesse responder, deixando o mesmo gosto amargo de sempre no ar. Scarlet suspirou ao lado dele.


— Ele nunca vai parar — ela murmurou.


— Eu sei.


Foi então, no meio de uma taça de Bellini que Percy segurava mais por hábito do que por vontade, que Scarlet o puxou de leve pelo braço, afastando-o alguns passos da multidão, perto de uma das colunas de pedra que sustentavam a tenda.


— Calma, tem gente olhando — ele sorriu meio malicioso.


— Não — Scarlet logo o cortou — Você está diferente.


Ele tentou o sorriso de sempre, aquele que normalmente resolvia qualquer situação incômoda.


— Diferente como?


— Não banque o idiota comigo, você sabe exatamente do que estou falando — os olhos âmbar dela o encaravam com uma seriedade que ele raramente via — Desde o fim de semana. A última vez que você foi visitar o Ty e sua mãe no subúrbio. O que foi que aconteceu lá em?


Percy sentiu o peito apertar. Considerou mentir, considerou desviar, considerou qualquer uma das dúzias de estratégias que já tinham funcionado antes.


— Estou só cansado, Scar. Turquia, o doutorado, sua família me odiando profissionalmente — ele tentou uma piada, e ela nem se abalou.


— É a Annabeth.


Não era pergunta. Percy sentiu o sangue gelar de um jeito muito parecido com o das cartas.


— Não é isso.


— Percy.


— Não é — ele repetiu, e dessa vez encontrou algo parecido com convicção na própria voz, mesmo sabendo, no fundo, que não era inteiramente verdade — Ela é uma parte antiga da minha vida, Scarlet. Isso não muda o que eu sinto por você.


Scarlet o encarou por um longo instante, o tipo de olhar que ele já tinha aprendido a temer — aquele que via através de qualquer coisa que ele tentasse esconder.


— Ninguém consegue mentir pra mim — ela o fuzilou com o olhar e pareceu irredutível. .


— Não estou mentindo — ele se aproximou, baixando a voz — Olha, hoje é sobre sua família, sobre esse evento, sobre sobreviver ao seu pai sem que ele me expulse com segurança armada. Podemos discutir o resto depois?


Ela ficou em silêncio por um segundo longo demais, os olhos ainda presos nos dele, e então assentiu, devagar, sem convicção total — exatamente como acontecera semanas atrás, no jantar em Marylebone.


— Depois — ela concordou — Mas isso não desaparece só porque você decidiu adiar, Percy.


— Eu sei.


Foi nesse exato momento, quando Percy já respirava aliviado por ter, ao menos temporariamente, escapado da conversa, que um burburinho começou a se espalhar pela tenda principal — o tipo de sussurro coletivo que precede algo importante o suficiente para interromper conversas paralelas.


— O reitor Crawford chegou — alguém comentou perto deles.


Percy ergueu os olhos, mais por reflexo do que por real interesse, esperando ver o rosto conhecido do reitor cumprimentando as pessoas de sempre. E viu.


Só que não estava sozinho.


Ao lado de Crawford, um vestido verde-água estruturado que ela definitivamente não possuía há um mês, os cabelos dourados presos num coque impecável com apenas alguns fios soltos emoldurando o rosto, maquiagem básica mas que nela parecia ter sido feita pelo cabeleireiro da finada rainha — mas ainda assim, inconfundivelmente ela — Annabeth caminhava ao lado do reitor, cumprimentando rostos que ela obviamente não conhecia com um sorriso educado e ligeiramente desconfortável.


— Meus senhores, minhas senhoras — Crawford anunciou, erguendo a voz o suficiente para que a tenda inteira ouvisse — Permitam-me apresentar uma de nossas alunas mais promissoras. A Srtª Annabeth Chase, cujo trabalho em arquitetura clássica tem recebido atenção considerável do departamento. Fizemos questão de convidá-la para este evento de ex-alunos ilustres, na esperança de que, em breve, ela própria integre essa lista.


Um aplauso educado se espalhou pela tenda. Annabeth sorriu, o tipo de sorriso que Percy reconhecia como puramente performático, e então seus olhos percorreram a multidão até encontrarem os dele.


Ela parou.


Percy viu o instante exato em que ela avistou Scarlet ao lado dele, o braço dela ainda enroscado no dele por hábito, e o sorriso de Annabeth vacilou por uma fração de segundo antes de se recompor, rápido demais para qualquer pessoa que não o conhecesse há anos perceber. Mas não Percy, ele percebeu o pequeno deslize na feição da mulher.


Mary, que observava tudo de perto da mesa principal, ergueu a taça de champanhe na direção do reitor, o sorriso cordial de sempre no rosto — mas os olhos, por um instante, pousaram sobre Percy com uma atenção que ele não soube decifrar, e que o deixou com a sensação incômoda de que aquele encontro, de alguma forma, não era coincidência nenhuma.


Ficou ali, parado, a taça de Bellini esquecida na mão, observando Annabeth conversar com um casal de ex-alunos que ela obviamente não conhecia, o jeito como ela inclinava a cabeça de leve ao ouvir alguma coisa, o gesto automático de prender uma mecha atrás da orelha que ele reconhecia de anos atrás, de uma sala de música vazia, de uma muralha bizantina, da varanda de sua mãe em Rotherhithe que ele ainda martelava em sua mente diariamente.


— Percy.


A voz de Scarlet chegou baixa, mas com uma aresta que ele conhecia bem.


— Que foi?


— Você está babando — ela disse, o tom controlado, quase divertido, mas os olhos âmbar tinham perdido qualquer traço de humor — Na frente de sessenta pessoas, dessa vez.


— Não é isso, só estou orgulhoso pois uma aluna minha foi convidada para um evento privado repleto de autoridades — até ele se surpreendeu com aquela resposta — Qualquer professor ficaria maravilhado. Eu incluso.


Percy sentiu o calor subir pelo rosto de um jeito que não conseguia disfarçar direito. Annabeth ainda não tinha olhado de novo na direção deles — estava presa numa conversa educada com Crawford, que gesticulava animadamente sobre algum assunto que Percy não conseguia ouvir do outro lado da tenda — mas era questão de segundos até que ela o visse de fato, até que Crawford o visse, até que alguém fizesse a pergunta óbvia sobre por que o professor de arquitetura jônica parecia ter visto um fantasma.


— Preciso fumar — ele disse, de repente, já se afastando um passo.


Scarlet ergueu uma sobrancelha.


— Você não fuma há meses.


— Voltei semana passada. Cinco minutos — ele já estava recuando, os olhos ainda de relance na direção de Annabeth, calculando o ângulo, a distância, o tempo que tinha antes que o reitor decidisse apresentá-la a mais alguém e virasse na direção errada — Prometo.


Ele não esperou resposta. Saiu contornando a tenda pelo lado mais afastado, cumprimentando ninguém, o coração batendo mais rápido do que qualquer brunch deveria justificar, e só respirou de verdade quando alcançou os jardins nos fundos da propriedade, longe o suficiente do burburinho principal para que ninguém reparasse nele.


Encontrou uma sombra sob um velho carvalho, tirou o maço amassado do bolso interno do paletó — o mesmo que carregava há semanas sem realmente usar, mais por hábito do que por vício — e acendeu um cigarro com as mãos levemente trêmulas.


Ficou ali, olhando para o gramado bem cuidado, para as estátuas de mármore que pontuavam o caminho até a fonte, tentando não pensar no vestido verde e no sorriso que vacilara por meio segundo antes de se recompor.


Não durou muito.


Scarlet o encontrou dez minutos depois, os saltos afundando de leve na grama, o casaco cor de areia ainda impecável apesar do vento que começava a soprar mais forte entre as árvores. Ela não disse nada de imediato — só ficou ao lado dele de pé olhando para as esculturas e pro terreno da propriedade Ashcombe.


Ela está olhando pra você — Scarlet disse por fim, a voz baixa, sem nenhuma inflexão que Percy conseguisse decifrar direito — Desde que você saiu. Ficou destraída até o reitor precisar chamar a atenção dela duas vezes.


Percy seguiu o olhar de Scarlet e viu, de longe, através do vão entre duas tendas, Annabeth parada perto da mesa de queijos, o corpo virado educadamente para Crawford, mas os olhos claramente perdidos na direção do jardim — na direção deles.


— Scar…


— Não — ela o interrompeu, ainda sem olhar para ele, a voz mantendo aquela calma perigosa de sempre — Não vou fazer cena aqui. Meu pai já tem material suficiente pra me atormentar pelos próximos dez anos.


Ela se mexeu ajeitando o vestido com cuidado, e então, antes que Percy conseguisse dizer qualquer coisa, se inclinou e beijou-o devagar, deliberadamente, o tipo de beijo que não deixava dúvida nenhuma para quem estivesse olhando à distância.


Quando se afastou, os olhos âmbar dela brilhavam com algo que não era exatamente ciúme — era mais calculado do que isso, mais afiado.


— Ela ainda está olhando? — Scarlet perguntou, a voz baixa, quase um sussurro contra o ouvido dele.


Percy não precisou olhar para saber a resposta. Sentiu o silêncio do jardim inteiro parecer, por um instante, carregar o peso de três pessoas que definitivamente não deveriam estar naquele mesmo evento.


Provavelmente — ele admitiu.


— Bom — Scarlet respondeu, endireitando as costas, o sorriso social de volta ao lugar como uma máscara perfeitamente ensaiada — Então acho que cumprimos nosso papel por hoje.


Ela voltou andando na direção da tenda principal sem esperar por ele, os saltos batendo firmes contra a pedra do caminho, e Percy ficou ali por mais um instante, o cigarro já apagado entre os dedos, sentindo que qualquer coisa que ele tivesse construído nos últimos meses — o teatro, as aparências, a rotina cuidadosamente reconstruída — tinha acabado de rachar um pouco mais, bem na frente de sessenta convidados que nem sequer sabiam o que estavam testemunhando.


O momento chegou mais rápido do que Percy esperava — inevitável, no fim das contas, com sessenta convidados e um jardim pequeno demais para manter duas mulheres afastadas para sempre.


Foi perto da mesa de sobremesas, entre uma torre de macarons e uma travessa de scones que ninguém parecia querer tocar, que Scarlet e Annabeth acabaram frente a frente, Percy ainda alguns passos atrás, tarde demais para intervir antes que a coisa começasse.


— Srtª Chase — Scarlet disse primeiro, o tom impecavelmente educado, do tipo que soava mais afiado do que qualquer grosseria direta — Não sabia que Balliol andava recrutando talentos tão… variados para eventos como este.


Annabeth ergueu uma sobrancelha, o sorriso de canto surgindo devagar.


— Variados é uma palavra interessante pra “não nasceu com sobrenome suficiente”.


— Eu não disse isso.


— Nem precisou — Annabeth pegou um macaron da travessa com uma calma estudada, como se aquilo fosse só mais uma conversa qualquer — Vocês britânicos têm um talento incrível pra insultar sem sujar as mãos. Devo admirar isso mais.


Scarlet sorriu, o tipo de sorriso que não chegava aos olhos.


— E os americanos têm um talento incrível pra confundir franqueza com falta de educação.


— Prefiro chamar de honestidade.


Percy, ainda parado a poucos passos, sentiu o instinto de intervir e a certeza absoluta de que qualquer palavra sua só pioraria as coisas. Ficou quieto.


— O reitor deve estar muito orgulhoso — Scarlet continuou, os olhos percorrendo o vestido de Annabeth com uma avaliação rápida e cirúrgica — de trazer uma aluna tão… promissora. Deve ser um alívio, imagino, ser reconhecida por mérito acadêmico e não por outra coisa qualquer.


Annabeth parou de mastigar o macaron por um segundo, os olhos cinzentos estreitando de leve.


— E deve ser um alívio pra você, imagino, nunca precisar se preocupar com mérito nenhum. Deve simplificar bastante a vida.


O silêncio que se seguiu durou só um segundo, mas foi denso o suficiente para que Percy sentisse a temperatura do ar mudar.


— Cuidado, Srtª Chase — Scarlet disse, a voz baixando, perdendo pela primeira vez qualquer traço de verniz social — Meu pai adoraria ter mais um motivo pra desprezar alguém ligado ao Sr. Jackson. Seria uma pena se esse motivo fosse você.


— Seu pai já despreza o Percy o suficiente por conta própria — Annabeth respondeu, sem se abalar, embora Percy visse, de perto, o jeito como os dedos dela apertavam de leve o pires — Duvido que eu faça alguma diferença nessa equação.


— Você se surpreenderia.


As duas se encararam por um instante longo demais, o tipo de silêncio que carregava mais do que O momento chegou mais rápido do que Percy esperava — inevitável, no fim das contas, com sessenta convidados e um jardim pequeno demais para manter duas mulheres afastadas para sempre.


Foi perto da mesa de sobremesas, entre uma torre de macarons e uma travessa de scones que ninguém parecia querer tocar, que Scarlet e Annabeth acabaram frente a frente, Percy ainda alguns passos atrás, tarde demais para intervir antes que a coisa começasse.


— Srtª Chase — Scarlet disse primeiro, o tom impecavelmente educado, do tipo que soava mais afiado do que qualquer grosseria direta — Não sabia que Balliol andava recrutando talentos tão… variados para eventos como este.


Annabeth ergueu uma sobrancelha, o sorriso de canto surgindo devagar.


— Variados é uma palavra interessante pra “não nasceu com sobrenome suficiente”.


— Eu não disse isso.


— Não precisou — Annabeth pegou um macaron da travessa com uma calma estudada, como se aquilo fosse só mais uma conversa qualquer — Vocês britânicos têm um talento incrível pra insultar sem sujar as mãos. Devo admirar isso mais.


Scarlet sorriu, o tipo de sorriso que não chegava aos olhos.


— E os americanos têm um talento incrível pra confundir franqueza com falta de educação.


— Prefiro chamar de honestidade.


— Prefiro chamar de falta de filtro.


Percy, ainda parado a poucos passos, sentiu o instinto de intervir e a certeza absoluta de que qualquer palavra sua só pioraria as coisas. Ficou quieto.


— O reitor deve estar muito orgulhoso — Scarlet continuou, os olhos percorrendo o vestido azul-marinho de Annabeth com uma avaliação rápida e cirúrgica — de trazer uma aluna tão… promissora. Deve ser um alívio, imagino, ser reconhecida por mérito acadêmico e não por outra coisa qualquer.


Annabeth parou de mastigar o macaron por um segundo, os olhos cinzentos estreitando de leve.


— E deve ser um alívio pra você, imagino, nunca precisar se preocupar com mérito nenhum. Deve simplificar bastante a vida.


O silêncio que se seguiu durou só um segundo, mas foi denso o suficiente para que Percy sentisse a temperatura do ar mudar.


— Cuidado, Srtª Chase — Scarlet disse, a voz baixando, perdendo pela primeira vez qualquer traço de verniz social — Meu pai adoraria ter mais um motivo pra desprezar alguém ligado ao Sr. Jackson. Seria uma pena se esse motivo fosse você.


— Seu pai já despreza o Percy o suficiente por conta própria — Annabeth respondeu, sem se abalar, embora Percy visse, de perto, o jeito como os dedos dela apertavam de leve o pires — Duvido que eu faça alguma diferença nessa equação.


— Você se surpreenderia.


As duas se encararam por um instante longo demais, até que Annabeth, com um sorriso pequeno e nada sincero, inclinou a cabeça de leve.


— Foi um prazer, Srtª Windsor.


— Igualmente, Srtª Chase.


Ela se afastou primeiro, o vestido verde desaparecendo entre os convidados na direção de Crawford, que já acenava para ela do outro lado do jardim. Scarlet ficou parada onde estava, os olhos ainda fixos no ponto onde Annabeth tinha desaparecido, e só então percebeu a presença de Percy ao seu lado.


— Não diga nada — ela avisou, sem olhar para ele.


— Eu não ia dizer nada.


Percy fechou a boca, e os dois ficaram ali, lado a lado, olhando para o mesmo jardim cheio de gente que não fazia ideia do que tinha acabado de testemunhar por trás de duas xícaras de chá e uma travessa de macarons intocada.


***


O jardim já estava mais vazio quando Percy decidiu que era hora de procurar Scarlet e ir embora — os convidados começando a se dispersar em pequenos grupos, alguns já se despedindo perto do portão principal, o quarteto de cordas encerrando com algo mais lento, quase cerimonioso.


Foi perto da fonte de pedra, longe o suficiente das tendas para que ninguém mais ouvisse, que Mary o interceptou.


— Sr. Jackson — ela disse, surgindo ao lado dele com uma taça de champanhe quase intocada na mão, o tom tão casual quanto sempre — Espero que tenha aproveitado a manhã.


— Bastante, Sra. Windsor. Obrigado novamente pelo convite.


— Imagino que tenha sido… instrutivo — ela deu um pequeno gole na taça, os olhos fixos num ponto qualquer do jardim, longe dele — Ver tantos rostos diferentes reunidos num só lugar. Às vezes as coincidências são mesmo fascinantes, não acha?


Percy sentiu o estômago apertar.


— Coincidências?


— A Srtª Chase, por exemplo — Mary continuou, o tom perfeitamente leve, como se comentasse sobre o clima — Uma aluna tão promissora, convidada justamente para este evento. O reitor Crawford tem bom gosto para escolher quem merece destaque.


— Ele sempre teve.


— Certamente — ela sorriu, o sorriso não subindo até os olhos — Sabe, Sr. Jackson, Oxford é uma cidade pequena, apesar de toda a pompa. As pessoas se cruzam. Repetidamente. Às vezes em lugares que ninguém esperaria.


— É uma cidade universitária, Sra. Windsor. É de se esperar.


— É — ela concordou, virando-se finalmente para encará-lo, os olhos calculando algo que Percy não conseguia decifrar — Espero, sinceramente, que o senhor saiba diferenciar coincidência de descuido. São coisas muito diferentes, e algumas pessoas pagam caro pela confusão entre as duas.


Ela não esperou resposta. Deu mais um gole na taça, ajeitou o casaco sobre os ombros, e se afastou em direção a um grupo de senhoras que já a chamava, deixando Percy parado junto à fonte com a sensação exata de ter acabado de receber uma terceira carta — só que dessa vez, em voz alta, com um sorriso educado no rosto e uma taça de champanhe na mão.


Encontrou Annabeth por acaso, ou talvez não tão por acaso assim, perto do portão lateral da propriedade, onde o carro de Crawford já esperava com o motor ligado. Ela estava sozinha por um instante, o casaco já sobre os ombros, os cabelos escapando aos poucos do coque impecável de mais cedo.


— Achei que você tinha desistido de vir me cumprimentar — ela disse, sem se virar de imediato, como se soubesse que era ele antes mesmo de olhar.


— Estava criando coragem pra vir — Annabeth corou ao ouvir o comentário.


Ela se virou então, e por um segundo os dois só se olharam, o barulho do jardim ao fundo parecendo mais distante do que realmente estava.


— Foi estranho te ver aqui — ela admitiu, a voz mais baixa agora — Desse lado da mesa, quero dizer. Cercado de tudo isso.


— Foi estranho te ver do lado de cá também.


Annabeth deu um meio sorriso, cansado, real, o tipo que ele reconhecia de uma varanda em Rotherhithe.


— Sua namorada sabe se defender.


— Pois é, dizem que faz parte do charme Windsor. Veja o pai.


— Percebi — ela ajeitou a alça da bolsa no ombro, os olhos ainda presos nos dele por um instante longo demais para ser só cortesia — Bom, o reitor está esperando.


— Annabeth.


Ela parou, meio virada já para o carro.


— Foi bom te ver — ele disse, sem saber exatamente se aquilo era o suficiente, ou o certo, ou apenas tudo que conseguia dizer ali, no meio do jardim, com Scarlet a poucos metros de distância e Mary talvez o observando de algum lugar pronta pra vê-lo cometer um deslize.


— Bom te ver também — ela respondeu, e o sorriso dela, dessa vez, chegou até os olhos, breve, mas real o suficiente.


Ela entrou no carro sem dizer mais nada, e Percy ficou parado no portão vendo o veículo se afastar pela estrada de cascalho.