As Damas de Guertena

2 Parte II - A Dama de Verde


Notas iniciais
Segundo capítulo com mais explicações, quem não ama? o/ (?) Curiosidades que talvez possam ser interessantes: a teoria é que as damas pintadas por Guertena eram na verdade moças que tentavam um bom casamento com ele, já que pertencia a uma família muito rica. Boa leitura!

Parte II

— Vou me casar.

Weiss continuava mexendo em suas tintas, tentando obter a combinação perfeita de cores, sem olhar diretamente para Edelina. A moça estava à beira das lágrimas e o tempo chuvoso não ajudava a cena ser menos deprimente.

— Não vai me dizer nada?

O pincel deslizava sobre a superfície manchada, um degradê de cores para o fundo de sua obra sem nome definido, o gato preto que sempre espiava com seus olhos amarelos, parecendo zombar de sua prisão de potes de tinta e pinceis. Guertena o via emoldurado por sua janela, a divisa do vidro fazendo o felino parecer o verdadeiro condenado, preso ao mundo entre o resto das pessoas mesquinhas e falsas, moralistas de igreja, mentirosos que jamais sentiram amor, apenas eram devotos da matéria, jamais apreciadores da arte.

Vidas vazias para pessoas vazias.

— Parabéns aos noivos.

Edelina engasgou tentando conter o choro. Seu romance com Weiss estendia-se já há algum tempo e de tão apaixonada e perdida em seus devaneios amorosos, não percebeu quando Phillip Wagner se aproximou sempre tão educado com suas flores e doces finos. Grata às cortesias, não notou as segundas intenções do rapaz e, quando se deu conta, seus pais já estavam negociando seu dote, pagando apenas um terço do que famílias ricas pediriam por casamentos arranjados. Em desespero, tentou conversar com o jovem herdeiro, mas ele foi irredutível em sua proposta;

— E não tente procurar pelo pintor – zombou em tom de deboche, fazendo Edelina empalidecer. Phillip sabia? Mas como? — o acordo já foi fechado.

Saiu correndo no mesmo instante, apavorada. Suas lágrimas fundiam-se com as gotas de chuva, a trança soltando com algumas mechas colando em seu rosto molhado. Ela não podia ser tratada como uma mercadoria, não poderia se casar, não agora e não com ele!

— Eu estou grávida, Weiss... – murmurou ela, mas ele continuou pincelando, respondendo displicente.

— Parabéns. Quem é o pai?

Sentiu a lateral de seu rosto arder com o tapa dado por Edelina, que só não ardia mais que seu ciúme, sua incerteza sobre a fidelidade de sua amada. A família de Guertena era inacreditavelmente rica e as demais famílias fariam de tudo para terem suas filhas casadas com o único herdeiro de toda aquela fortuna. Weiss, cada vez mais enojado da sociedade que o cercava, se enclausurou em seu ateliê, fazendo de sua janela a vitrine do mundo.

Edelina estava chorando, seus olhos castanhos tristes o encarando com dor. Não conseguiu pedir desculpas a ela e voltou a erguer o pincel, prosseguindo com sua pintura, enquanto a moça saía pela porta. Pode vê-la se afastando a passos lentos, desolada, sem rumo. Um trovão rugiu do lado de fora, o clarão iluminando todo o céu a sua volta e assim Guertena conseguiu ver o último olhar de dor e confusão que ela lhe deu antes de virar as costas para a casa, para o que viveram, para ele, para tudo.

Nessa hora Weiss gritou.

Atirou seus potes de tinta e solventes na parede, derrubou sua recém-terminada escultura no chão até que restassem apenas cacos, golpeou inúmeras vezes suas réplicas de cabeças de gesso e por fim arremessou uma de suas molduras longe. De joelhos no chão, entre os cacos e destroços de sua arte perturbadora, ele chorou em silêncio. O olhar de desalento de Edelina o fazia querer novamente sair daquele quarto e procurar por ela, mas estava preso àquele lugar, era mais forte que qualquer ideia, qualquer sentimento.

Era mais fácil se entregar ao desespero.

Com cuidado, se levantou e limpou o estrago feito. Deixou o rosto do gato inacabado por um momento, o suficiente para retratar um novo quadro, seu tormento, a dor eternizada em seu semblante triste, seu rosto atordoado.

Chorou durante todo seu trabalho, no entanto, sabia merecer aquela dor, ainda mais depois de ter afugentado de forma tão monstruosa a musa de todas as suas artes.

Com a mão trêmula, conseguiu terminar de assinar o quadro, a pintura da dama de verde que, em toda sua dor, parecia vestir negro.

"Guertena, 1877"

Notas finais
Reviews? *-*