Sabe quando toda sua vida passa na sua cabeça como um filme rebobinado? Provavelmente todos que aqui estão lendo nunca tiveram ou não vão ter experiências de quase morte. Se você é uma pessoa quieta que vive a vida tranquilamente, onde não procura viver no fio da morte, então provavelmente essa estatística se cabe a você. Sua vida, eventualmente, não terá essas situações de quase morte.
Mas não é o caso do Will.
Era uma manhã fria como qualquer outra na cidade de Montreal – Canadá, de dentro do quarto, um garoto observava a neve que caíra na noite passada e que deixara um tapete branco em todas as extremidades da rua. Era quase o fim de março e a primavera ainda não era sentida. O frio que perdurava era intenso. O jovem rapaz de 14 anos de idade levantou extremamente agitado como de costume, desceu as escada e encontrou seu pai sentado na poltrona com uma mesinha e uma máquina de escrever em cima, ele estava usando um roupão, a barba estava grande e suja, o odor forte que vinha dele não agradava a Will.
— Père, acorda! Não acredito que você dormiu de novo aqui. – fala Will um pouco decepcionado.
O pai acorda num susto quase derrubando a máquina. Seus olhos focalizam no garoto alto e magro a sua frente, os olhos castanhos que lembravam sua mãe. Então percebe que já é de manhã e se espreguiça.
— Bonjour, Will! – a única coisa que ele consegue falar.
— Père, por que o senhor dormiu aqui? Ficou escrevendo até tarde de novo?
— Fils, você sabe que eu tenho que terminar esse livro. É importante para mim, é para sua... – ele não termina a frase, mas Will sabe o final dela. A mãe dele. A mulher que morrera há mais cinco anos, ele ainda sentia falta dela, mas o pai sofre a perda até hoje.
— Ok! Mas por favor, tome um banho! O meu nariz e a vizinha agradecem. — o pai rir e se dirige ao banheiro.
Will segue para a cozinha, mas o telefone toca e ele logo corre para atender.
— Salut! – ele já sabia quem era, mas mesmo assim tentou aparentar estar desinformado.
— Will, é o Fred. – disse seu melhor amigo do outro lado da linha. – Ei, cara, nós vamos ao Monte Royal hoje. Queremos fazer umas trilhas, escaladas... Vai ser muito irado, cara, “vamo”?! – uma comichão começou a brotar em Will, aquela sensação de adrenalina correndo por seu corpo era algo muito bom, mas por outro lado ele se preocupava com o pai, dormir mais uma noite sentado no sofá não parecia correto, ele estava com um grande problema.
Passados mais quatro minutos refletindo sobre as possibilidades que ele tinha, Fred gritou no celular por uma resposta.
— CARA?! TÁ VIAJANDO DE NOVO? – ele grita.
— Oh, Desculpa! Então, vamos, mas não vou poder demorar, estou preocupado com meu pai, ele passou mais uma noite sentado no sofá, não sei ao certo o que está havendo com ele, provavelmente deve ser por causa da minha mãe, sei lá, mas enfim, eu vou sim, já estou animado...
— A gente se encontra lá, Sr. Bavard! – disse Fred rindo.
Will correu para o quarto e começou a arrumar sua pequena mochila, se preparava para passar, no mínimo, algumas horas, pois queria voltar logo e ver como ia o pai. Ele ainda estava preocupado com ele, mas entre passar o dia inteiro aprisionado dentro de casa ou passar caminhado e fazendo trilhas, ele nem precisava escolher, seu cérebro inquieto fazia isso automaticamente.
— Père? Vou passar o dia fora, meus amigos me chamaram para fazer umas trilhas no Monte Royal, devo chegar aqui só pela tarde. – ele fala ao pai, que só resmunga algo em positivo e volta a se concentrar no livro.
Assim que terminou de arrumar sua mochila, percebeu que tinha esquecido suas cordas de escalar. Procurou embaixo da cama e as viu lá, todas empoeiradas, além de vários outros itens esquecidos que ele acumulava durante anos de negligência de limpeza. Teve que se abaixar para conseguir pegar as cordas. Então começou a limpar a poeira delas, a pequena nuvem que formou enquanto ele limpava, começou a irritar seu nariz, cada vez mais coçava, de repente, a sensação de espirro veio. Ele se lançou para frente e liberou o incômodo da poeira do nariz, mas ao sentir o espirro sair pelas vias áreas, percebeu que uma forte energia era levada junto com o pequeno ar que saia. Viu que, na verdade, não era um pequeno ar, mas simplesmente um vendaval que fez todos os papeis presentes no quarto voarem, os lençóis da cama se desfizeram ainda mais e o abajur que estava perto da janela fora arremessado do outro lado da rua. Aquilo fez com o garoto ficasse desconfiado, não pareceu certo que um simples espirro poderia provocar aquilo. O celular tocou e ele percebeu que estava atrasado, não poderia mais pensar nisso, pelo menos por enquanto.
Will pegou sua bicicleta e seguiu pela ciclovia, sua mente voltou ao pai. A morte da mãe provocou aquilo tudo, o pai não conseguiu superar até hoje o falecimento precoce da mulher, nem ele, Will, conseguiu superar, mas, como a maioria dos garotos, ele não era bom em demonstra emoções, por isso preferia reprimi-las.
Enquanto descia uma grande ladeira, percebeu que o vento que se formava em volta dele era relaxante, sentia-se maravilhoso, como se alguma parte dele, a muito esquecida, tinha sido finalmente acordada. Ele abriu os braços enquanto descia a grande lombada, o ar que se encontrava com Will ia ficando mais forte e mais veloz, a bicicleta quase saltava do chão. Então, de repente, a ladeira termina e um cruzamento vinha a seguir. Carros e mais carros vinham, como o sinal estava aberto, eles avançavam. Will ainda disperso pelo ocorrido, não percebeu a tragédia que se seguia.
Um carro com um homem no volante se encontrou com o jovem na bicicleta, assim que o veículo encontrou o garoto, ele acordou do transe, porém já era tarde demais. Alcançou vôo. Cada momento de sua vida passava na mente. A mãe falecida. O pai em depressão. Fred, seu melhor amigo. Todos que se importava com ele, até sua avó que não falava desde que a mãe morreu. Seu corpo fora arremessado a uma distância surpreendente. Jogado num matagal ao lado da estrada, mas, ainda envolto pelo ar, antes de pousar no chão, flutuava em volta dele parecendo que o protegia. Contudo ele percebeu que o que ocorria com ele, na verdade, era o que ele queria. O ar se comportava daquele jeito porque ele queria que agisse assim, logo caiu a ficha. O vento era, sim, uma extensão dele. Ele se concentrou e o vento o liberou para que pudesse se sentar no chão.
Passados mais de dois minutos, percebe vozes procurando por ele, provavelmente o motorista que o atropelara, estava entre elas. Seu telefone tocou, então ele viu que era Fred.
— Cara, onde você está? Estamos esperando há mais de 30 minutos...
— Você simplesmente não vai acreditar no que aconteceu... – ele ia começar a contar, porém percebeu que nem ele mesmo sabia o que tinha acontecido. – Então, eu fui atropelado, mas está tudo bem, assim que sair daqui, eu ligo para você. – desligou.
Will queria entender o que estava acontecendo primeiro antes de contar ao Fred. De todas as pessoas do mundo, o amigo é a única pessoa que realmente o entende.
Ele analisou seu corpo, tentou sentir a sensação de minutos atrás, logo percebeu que uma grande energia que não estava acostumado se estendia por cada canto do seu corpo. Então resolveu liberá-la. Deixou que os movimentos fossem feitos com naturalidade. Movimentou a mãe direita em círculos e, do nada, um pequeno redemoinho se formou na palma da mão. O ar que se movimentava se estendia e ia crescendo, formava uma grande bolha em volta de Will. Ele parecia se divertir, ria e se encantava cada vez mais com a nova capacidade que acabara de adquirir. O ar foi ficando mais denso e mais forte, logo o menino alcançava uma pequena distância do chão. Resolveu experimentar algo, lançou o braço para frente e uma leve lufada de vento cortante passou por uma árvore derrubando a neve dos galhos. Ele riu ainda mais com isso, quando estava preste a repetir o feito, sentiu uma queimação na palma da mão, um símbolo se formava, o número dois em algarismo romano surgiu no meio do M que as linhas formavam. Ele percebeu de onde vinha aquele símbolo. Na verdade a informação brotou na sua mente. Era o símbolo do seu signo. O signo de Gêmeos.
Logo que olhou para frente, uma luz branca se formava do nada. A figura de uma mulher translúcida apareceu, ela estendeu o braço como se pedisse ajuda. Will ficou curioso, então dissipou o vento em volta dele e se aproximou da imagem. Ele ouviu a voz da figura, uma voz quase como um sussurro.
“Jovem Will, filho de Gemini. Você, meu garoto esperto, a décima segunda geração da constelação de Gêmeos. Experimentou hoje o poder do ar. Venha me encontrar. Venha, Will. Venha para a Ilha Astral...”
A imagem desapareceu num pequeno surto. O garoto, pela primeira vez nada vida, ficou sem palavras sobre o que acabara de acontecer. Fitou o nada sem pensar em nada, mas pensando em tudo ao mesmo tempo. De repente sentiu suas forças sumindo, sua consciência a mil não conseguia se concentrar, então caiu num desmaio ali mesmo no bosque à beira da estrada.
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