Eu, o narrador, sou uma Valkyrja que a tudo observa nesta guerra.

Leif, chega atrasado ao flanco leste e vê todos os lanceiros inimigos indo em direção aos homens negros de Ericsson. Eles foram com toda a velocidade e fúria para cima dos danes, que em parede de escudos ficaram imóveis no beco de acesso ao paço. Ali eles esperavam resistir aos francos, onde o número não importa, onde não há como flanquear a parede de escudos. A carga dos francos foi muito forte. Mas os Vikings permaneceram imóveis, com a força de um mar violento resistiram ao ataque. Com o ataque em carga defendido, os primeiros francos caíram ao chão, tornando-se presas fáceis para os danes, que matavam, pisoteavam e avançaram dois passos.

Após as primeiras baixas dos francos eles se recuperaram e em meio a selvageria da luta eles começaram a reagir. Na parede de escudos as lanças entram pelos buracos entre os escudos, estocando os Vikings. Eles revidam empurrando os francos e usam seus sax para matar os que caem desequilibrados e pisoteiam terminando de matar, machado era inútil a uma distância tão curta.

Brida sozinha matou vinte besteiros. Ela correu como um lobo atrás da presa em direção a eles. Chegou chutando um na face, derrubando e começou a usar seus dois machados que iam certeiramente nos pescoços de seus inimigos que nada podiam fazer a uma distância tão curta. Ela era indomável em combate. Só não matou todos os homens porque suas guerreiras chegaram em apoio. Uma de suas guerreiras saltou com as duas pernas no pescoço do inimigo que quando caiu arrancou sua orelha com os dentes. Os gritos agonizantes eram ouvidos na cidade toda. Fumaça, névoa e corpos estirados no chão eram o cenário de desolação em Saint Diniz que resistia ferozmente com seus lanceiros, mas caía facilmente se dependesse dos besteiros, que um a um foram todos massacrados, escapelados e mutilados por Brida e suas guerreiras. Harold e seus homens estavam cansados de tanto protegerem as guerreiras de Brida. Pararam com a luta e foram pilhar a cidade, começando pela abadia que estava próxima ao paço.

Na parede de escudos, os homens de Ericsson começaram a demonstrar cansaço. As lanças francas eram cruéis e encontravam brechas entre escudos redondos. Eles cediam espaço ao francos, estavam lentamente perdendo o ímpeto pelo cansaço. A ajuda não vinha. Harold estava esgotado, Brida ainda cuidava dos besteiros e Leif estava muito longe e mesmo tendo chegado ao paço estava confuso. Ele não sabia quem apoiar. Ericsson e seus homens estavam sozinhos contra o grosso do exército Franco.

Ao olhar para o cansaço de seus homens, ao ver que a ajuda não iria chegar ele pensou em Brielle. Ao lembrar-se dos cabelos negros dela e de sua pele branca ele sai da formação. Em um ataque feroz e solitário repleto de fúria e paixão a parede de escudos fica para trás. Ericsson empurra com escudo o inimigo a sua frente, que cai ao chão, em seguida ele estoca o olho do adversário ao seu lado esquerdo com o sax e o joga para frente caindo no peito do franco que corria em sua direção. Empunhou o machado e foi avançando contra os inimigos. Se abaixa para desviar do ataque, e usa o escudo para acertar a barriga do adversário que o atacou pelo lado direito. Com o machado ele acerta o joelho do inimigo a direita e se levanta. Encara o próximo frente a frente, esquivando-se da lança e cortando-a com o machado, ao acerta-lo no nariz ele se volta para trás e vê a parede de escudos se recompondo. Lentamente eles avançavam, passo a passo. Mas ele estava muito longe para retornar. Ainda haviam muitos inimigos, houve uma quebra parcial da linha dos francos.

Quando ele se volta para enfrentar os francos, sente o peso no braço do escudo, o cansaço e tinha um olhar tão distraído que não viu um escudo franco indo em direção à sua face. Cambaleando ele dá dois passos para trás e tem sua coxa esquerda e barriga perfuradas por lanças. Ele vai ao chão. Derrotado, perfurado e pisoteado pelos inimigos, a batalha tinha de continuar com ou sem ele.

Somente com a queda total do Jarl que Leif e seus homens se lançam ao apoio dos guerreiros negros pegando os inimigos por trás. Brida e suas guerreiras ao acabarem com os besteiros vão fazer o mesmo. Os francos percebem e esboçam uma formação em diamante, para resistir nas duas frentes. Homens para isso eles tinham.

* * *

Eu, o narrador, sou Jarl Ericsson de Gothland.

Lembro-me claramente de ver em nossa direção os francos, clamando por sangue, vingança, querendo dar suas vidas pela sua cidade. Eles correram com todo o ímpeto. Eram valentes. Seu choque contra a nossa parede de escudos foi muito grande, resistir a ele foi uma dádiva de Thor, premiando nossa audácia de atacar uma cidadela com menos homens.

As batalhas em parede de escudos são brigas muito feias, é necessário ter muita resistência, força, coragem e estômago para ver tantas pessoas morrerem na sua frente. Já havia passado do meio-dia, quando estávamos no paço, enfrentando o último contingente inimigo. Estávamos sozinhos e cansados de tanto matar, correr, subir e descer muralhas da cidadela.

A nossa parede estava cedendo. Lembro-me de ter dito em uma das cartas a Brielle que meu amor por ela me fazia lutar com a força de 100 homens. Quando pensei ter mentido sobre isso, fechei meus olhos, lembrei-me dela, e saí da formação. Ataquei os francos sozinhos, queria quebrar o ânimo deles e a linha da vanguarda.

Lembro-me de ter matado pelo menos quatro homens. Deveria ter matado muito mais. O cansaço parecia ter ido embora, era a força de 100 homens que eu havia dito. Não sabia que era capaz de tais coisas. Admirado comigo mesmo, volto meu olhar para meus homens que pareciam ter se reanimado. A parede de escudos avançou um passo.

Depois disso eu não me recordo de absolutamente nada. Tudo ficou preto. Não sei quanto tempo se passou, não fiquei sabendo como vencemos. Só lembro de gotas de água caindo em minha face e de uma voz que dizia:
— Tu és um osso duro de roer, acho que o apelido "desprotegido" cabe melhor a ti do que em mim, meu amigo — Era Leif que sorriu ao me ver acordando.

Lentamente fui abrindo os olhos e reconheci sua face. Sorri. Fiquei feliz de estar vivo. Eu estava deitado nas escadarias de acesso à abadia. Apalpei lentamente os degraus para sentir onde estava. Foi então que percebi que as gotas de água não eram de água, eram lágrimas. Eu estava deitado, repousando sobre o colo de uma mulher. Quando olhei para cima pude ver quem era. Era Brielle.