As Crônicas de um Gatinho Medroso
10 X. Muitas perguntas, poucas respostas
Notas iniciais
Percebo que sou um vagabundo quando me vejo tentando aprender a lutar com videogames. Lógico. Todos precisam se defender sozinhos, mas não aprendendo com Street Fighter! Eu iria era aprender a mandar um hadouken na cara dos inimigos (lê-se trio idiota)! Não seria legal? Claro que não. É idiotice!
Eu dava socos no ar e tentava me desviar de ataques invisíveis. Até que uma hora acertei minha mão na quina da estante de vidro com toda aquela empolgação.
Ok. Não era uma boa ideia tentar fazer algo do qual eu não manjo.
Estava colocando um band-aid no local atingido. O machucado doía e sangrava. Eu era um besta mesmo! Mas talvez o treino tenha sido bom para alguma coisa. Eu algum dia irei acertar alguém com meu punho e sangue será o que sairá da cara do infeliz. Rá-rá-rá. Sou muito mau.
Fitei o resultado final: um band-aid cor-de-rosa grudado em uma mão que estava inchando. Levei minha mão para o lado esquerdo do peito, batia forte.
Por que aquele idiota vive cuidando de mim?
[...]
Após terminar meus deveres, suspirei fundo e peguei aquela pasta vermelha. Talvez se eu vesse o que dentro ela esconde eu poderia saber de quem era. Poderia até mesmo ser de algum professor e eu estava fazendo um favor para quem a perdeu.
Abri a pasta como se eu estivesse abrindo um cofre de ouro após uma tentativa de sorte ao colocar a senha. Não havia tanto motivo para eu estar ansioso para saber o conteúdo de uma mera pasta escolar, mas, de acordo com animes/livros/séries sempre há algo de interessante e misterioso nesse tipo de coisa. Vai que esse é tipo um death note (em formato de pasta, sei lá), mas tem um disfarce vermelho para não parecer muito “assassino”! Eu não poderia perder.
Na primeira página havia um papel dentro do saquinho com um diploma de algo que estava todo rabiscado com caneta permanente; eram diversos tipos de rabiscos, uns desenhos obscenos, outros coraçõezinhos e outros apenas riscos e círculos sem sentido algum que atrapalhavam a possibilidade de ver algo revelador no documento. Aquilo não dizia nada, mas era interessante. Senti-me como em um filme de mistério.
Na próxima página havia uma medalha dentro do mesmo saquinho. E na seguinte era um desenho realista de um rapaz escrevendo algo sobre uma paisagem muito bonita. A expressão dele estava triste. Tenho que admitir, essa pessoa que desenhou isso desenha bem para caramba.
Fui virando os saquinhos da pasta e os desenhos iam ficando cada vez mais dramáticos. Começava amigos felizes conversando, casais apaixonados, desenhos bonitos de famílias, pessoas bonitas; depois apresentavam pessoas chorando, brigando, expressões tristes; e no final só piorava, eram desenhos mostrando suicídio, pessoas usando drogas e pessoas mortas ao chão; e o mais interessante foi que a habilidade dessa pessoa só ia melhorando à medida que fazia os desenhos mais depressivos.
No último saquinho tinha um pequeno pedaço de papel escrito um poema:
“A ti ofereço uma bromélia
Troco-a por uma rosa
E rompo meu âmago nos espinhos”
Fechei a pasta, jogando-me na cama pensativo.
Bromélias? Rosas? Que sentido isso tinha? E realmente foi burrice da pessoa deixar algo tão escandaloso dentro de uma lata de lixo ou um mal-entendido. Um belo de um mal-entendido.
[...]
Minha manhã se resumia apenas em me esconder da verdade. Aos poucos a escola e seus grupinhos e panelinhas espalhavam sobre o ocorrido de ontem. Sobre o beijo. Sobre aquela maldita encenação que fazia todos os meus pensamentos bons se tornarem uma ilusão. Sobre aquele nome que me atormentava: Jéssica.
Eu driblava os olhares de Lucas para que ele não me encontrasse. Era verdade que eu necessitava mais do que tudo falar com ele, afinal, eu não gostava dele ou algo do tipo. Pelo menos ele não sabia disso. Ele não tem culpa, não é?
Continuei insistindo em me ocultar de sua visão, eu confesso que tinha vergonha de encará-lo após todo aquele acontecimento, e que só de pensar nisso meu rosto se avermelhava e meu coração adquiria batimentos descontrolados. Toda vez que o via por perto, eu fingia estar conversando com outro grupo para que ele não me notasse, embora somente me olhassem feio e deveriam estar se perguntando “mas o que esse retardado está fazendo entrando na nossa conversa do nada?”.
O sinal toca e eu corro direto para classe, vazia, e me sento na última carteira ao lado da janela. Lucas odiava sentar perto da janela, portanto não sentaria ali, eu sei.
Fui retirando meus materiais e pus-me a observar indiscretamente as pessoas que entravam na classe. Ótimo, Lucas não está aí e os assentos perto da janela estão acabando. Suspirei satisfeito logo em seguida senti uma mão tocar meu ombro. Pulei assustado.
— L-l-lucas! — gritei involuntariamente me virando para o garoto, não tendo noção do que dizer no momento. Algumas pessoas que estavam na classe nos encaravam, deixando-me inquieto. — É...
— Por que não veio falar comigo? — ele perguntou me interrompendo. Lucas apresentava uma expressão um pouco embaraçada, engoli a seco. — Bem... Desculpe por ontem.
— N-não... Não foi nada! — a voz saiu em um tom alto novamente e eu forçava algumas risadas estranhas, tentando não olhar fixamente para seus olhos. — Eu nem me lembro do que aconteceu mesmo, hahaha. — deixei as palavras soltarem de minha boca.
Lucas se sentou na cadeira ao lado. Engoli a seco de novo.
— Entendo — Lucas respondeu em um tom baixo e pôs-se a arrumar seus materiais para a aula. — Pensei que estava me evitando por conta disso.
Perspicaz.
— Ah, não...! — disse com uma voz tremida e insegura. — Claro que não. Não sou esse tipo de gente. Aliás, era tudo uma mera encenação. Você mostrou para eles, foi demais.
Lucas soltou um sorriso leve, mas eu não senti firmeza nele. Talvez estivesse chateado comigo por eu tê-lo evitado na hora da entrada. Senti-me mal.
— É. — ele respondeu e em seguida a professora entrou na classe, cortando nossa conversa.
Joguei minha cabeça na mesa, inalando fundo o ar. Distraí-me em meus devaneios, tentando pegar no sono para evitar aquela aula que eu não conseguiria acompanhar.
Eu deveria dar valor às minhas amizades.
[...]
No intervalo pensei em encontrar o dono da pasta. Eu não recorreria a algum professor, mesmo porque o conteúdo daquilo não era muito agradável e talvez a pessoa que era dona do objeto não gostaria que tivesse a privacidade invadida, ainda mais por um professor que lhe faria perguntas e mais perguntas.
Eu teria que encontrar o dono de algum jeito, nem que o meu horário de lanchar acabasse.
— Ô, Victor — Lindsay e seu bonde maluco se aproximavam junto com Victória. — Você não vai comer hoje, não?
Suspirei. Agora não era hora para isso, Lindsay.
— Bom... Não. — respondi.
— Deve ser por isso que está tão magrinho! — Carla, a gordinha, segurando um pacote de fritas, disse. Irônico.
— Vai deixar o Lucas sozinho? — Lindsay cochichou, fazendo-me corar com a pergunta. Olhei ao meu redor e vi Lucas sentado em uma mesa, mas ele não estava sozinho, tinha uns amigos e amigas (agh...) em volta dele. E ele me parecia bem feliz...
— É... — procurei uma resposta, desviando os olhares para o chão. — Bem, eu gostaria de saber se alguma de vocês é dona de uma pasta vermelha. Eu a vi ontem no lixo e achei que ela estar ali só podia ser um mal entendido mesmo, pois o conteúdo dela parece ser realmente importante para o dono.
— Sinceramente — Milena, a gótica, começou. — Se estava no lixo, no lixo deve ficar, não acha?
— Eca, você botou a mão no lixo. — Alemanha, com seu panda esquisito na mão, disse com uma entonação de voz infantil.
— Concordo com Milena. Se alguém colocou lá, é porque não quer mais. — Carla respondeu, mastigando mais fritas, e Lindsay assentiu com a cabeça. Victória permaneceu misteriosamente quieta, o que me fez desconfiar de que era dela aquela pasta.
— Bem, bem... — Lindsay interrompeu a conversa. — Esse não é o caso. Estamos tentando dizer que se você deixar seu seme esperando, uma hora ele acha outro uke. Não é, meninas?
— Com certeza! — elas concordaram em uníssono, exceto Victória, que provavelmente não entende o que essas malucas acabaram de dizer.
O quarteto “fantástico” saiu deixando Victória às sós comigo. Fiquei um pouco acanhado.
— Sobre a pasta, achei superinteressante isso, Vitinho — Victória cortou o silêncio. — Se quiser eu posso te ajudar a encontrar o dono. O que tem de tão importante aí?
Hesitei em um momento em mostrar a ela o que continha dentro da pasta. Não era assunto dela, muito menos meu. Não poderia sair anunciando para todo mundo que temos um depressivo maluco que jogara seus sentimentos no lixo —a meu ver parece isso —, não é?
— Não acho bom sair contando, então peço que guarde segredo até devolvermos para a pessoa, ok? — eu arrisquei-me a dizer, Victória assentiu. Vi a pureza de seu rosto e o brilho de seus olhares, ela parecia estar interessada de verdade, aquilo me encantava de algum modo.
Andamos até a classe e eu mostrei a ela a pasta. Como o previsto, ela teve a mesma reação. Aquilo era engraçado e ao mesmo tempo misterioso.
— Pergunto-me por que alguém teria a burrice de jogar algo tão chamativo e revelador em um lixo de uma sala de aula — Victória disse, fechando a pasta, parecendo estar pensativa. — Provavelmente a pessoa gostaria que alguém visse o conteúdo, porque ao contrário disso teria a queimado, jogado em um local longe, ou simplesmente guardaria aonde ninguém pudesse encontrar!
Por um momento tirei a conclusão de que aquilo era tipo um “death note”. Não, não! Parando com as besteiras. O que a Victória disse podia ser verdade. Ela era uma menina tão comum, mas ao mesmo tempo tão inteligente. Por que eu não me apaixonava logo por ela? Não por... Lucas?
— Sabe quem pode ser o dono? — perguntei, saindo de meus pensamentos.
— Acho que deveríamos desistir — ela respondeu, parecendo ignorar minha pergunta e entregou-me a pasta. Guardei-a em minha mochila. — A pessoa não gostaria de recuperá-la.
Quando fui abrir minha boca para responder, ouvi passos do lado de fora da sala. Torci para que não fosse algum professor, pois ficar na classe no horário de intervalo era contra as regras da escola (apesar de ninguém respeitar, praticamente) e qualquer um pego seria punido.
Virei-me, assim que a pessoa entrou, para poder ver quem era. Era Lucas. Recuei meu rosto, tentando esconder aquele vermelho que me dominava. Cerrei meus punhos ao torcer para que ele não me chamasse para conversar, e nem que me fizesse perguntas como “por que não foi lanchar comigo?” ou “esteve me evitando mais uma vez?”.
Um amigo de Lucas entrara em seguida, junto a ele. Ambos conversavam distraidamente que nem havia nos visto na classe quando a adentraram.
— A Jéssica é mesmo muito gostosa, cara — o amigo dele disse, esforcei-me para ouvir suas palavras e organizá-las. Jéssica. — Você tem sorte de ficar com ela.
— Deve ser, né? — Lucas respondeu a ele, dando risadinhas, até me notar com Victória na classe. O sangue subiu para a cabeça. — Ah, oi, Victor e Victória! — cumprimentou, se aproximando com o amigo. Geralmente ele me chamaria de “Madeira”. Senti-me desconfortável.
— O-oi... — o cumprimentei com desanimo, evitando olhar nos olhos dele, e um pouco envergonhado com a presença de seu amigo.
— Oi, Lucas! Oi, Carlos! — Victória, energética como sempre o cumprimentou os dois e os mesmos lançaram um aceno e um sorriso de volta. Queria ter essa facilidade de socialização...
— P-por acaso vocês perderam uma pasta vermelha ontem? — perguntei, com os gaguejos esquisitos (obviamente e infelizmente).
— Não — Lucas respondeu sério, pegando algo em sua mochila. — Você perdeu, Carlos?
Carlos balançou a cabeça dizendo não, esperando Lucas.
— Bom... Estamos de saída agora. Boa sorte com sua busca aí, Victor. — Lucas disse e foi saindo de conversinha e risadinhas escrotas com o garoto.
— Esse Victor aí é estranho, viu o modo que ele gagueja e fica envergonhado? — o menino perguntou já longe, com risos, mas eu era capaz de ouvir. Uma veia surgiu em minha testa, eu estava começando a ficar irritado. — É engraçado.
Os dois sumiram de minha vista, assim como suas vozes. Lucas estava estranho e isso não me agradava nem um pouco. E essa mudança não poderia ser culpa de eu ter o evitado na entrada, não mesmo! Será que ele se afastou por que eu beijo mal? Ou então ele ficou com medo de sofrer bullying por ter beijado um nerd? Ou então ele está me odiando por eu ter o metido em problemas? OU TUDO ISSO JUNTO?!
— Vitinho, o que foi? — Victória perguntou aparentando estar preocupada. — Está tão vermelho e pensativo.
Corei mais ainda. Não, não! Não era para eu demonstrar o que eu sentia pela cor do meu rosto, não mesmo!
— N-n-nada.
— Ah... — Victória pausou em um momento. — Eu confio muito em você e preciso te contar uma coisa.
Meu coração disparou. Ela me encarava com aqueles olhos grandes de boneca de porcelana. Fiquei mais uma vez encantado.
— P-pode falar!
— Bem... — ela suspirou, olhando para os lados, um pouco corada. Aquilo era tão fofo. — Você acha que eu tenho chances com Lucas?
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