As Crônicas de um Arcanjo
1 Um Antigo Inimigo Retorna, Parte 1 - Universo Paralelo
A cidade parecia calma naquele fim de tarde. Seus moradores continuavam em suas rotinas infindáveis, voltando para seus lares após a jornada diária de trabalho. O clima ameno facilitava todo o serviço. A garota caminhava com um sorrisinho cínico em seu rosto, desviando das pessoas que passavam por ela e sempre olhando para baixo. A densa cortina de cabelos negros tornava quase impossível de visualizar o rosto pálido dela. Ela caminhava sem rumo, até trombar em uma mulher ruiva. Logo, a jovem estranhou toda aquela situação, já que não era comum ver crianças transitando por ai sozinhas. Ela se abaixou perto da pequena e colocou a mão em seu ombro.
– Olá garotinha, você está aqui sozinha? – perguntou.
– Sim... – respondeu num sussurro.
– É perigoso sair por ai andando sozinha. Onde estão seus pais?
– Eu não tenho pai.
– Ok... — a mulher falou surpresa por aquele tipo de resposta. Mesmo que o pai tivesse morrido, a mãe não devia permitir que sua filha saísse por ai daquele jeito. – E sua mãe? Onde está?
– Minha mãe foi assassinada – respondeu. Surpresa, a mulher tirou a mão de seu ombro e ficou novamente de pé.
– Mesmo assim, não devia ficar sozinha por ai, é perigoso. Para onde está indo?
– Tártaro. – falou, e voltou a caminhar, desvencilhando-se da mulher, que logo a seguiu.
– O Tártaro é um pouco longe... Vai caminhar e muito. Mas, me diga, o que procura no Tártaro? – indagou, colocando a mão novamente no ombro da garota, forçando-a parar e virar-se. – Uma garota como você não deve ter muitos assuntos a tratar em um lugar como aquele.
A garota levantou a cabeça, tirou os cabelos do rosto e encarou a mulher.
– Vingança. – respondeu e deu um sorriso. Seus olhos ficaram completamente negros. Antes que a mulher se afastasse, a menina encostou a palma de sua mão na bochecha da ruiva, que se desintegrou subitamente.
Ela voltou a caminhar, mas dessa vez não foi como antes. Uma nevoa negra partia das costas daquela garota e tudo o que aquela espessa nevoa tocava se desintegrava. Pessoas corriam desesperadamente, tentando fugir, em vão, daquele nevoeiro maligno.
– Apenas vingança... – sussurrou, com o mesmo sorriso cínico de antes. Toda a cidade fora envolta em trevas.
Um dos anjos da guarda da cidade viu o que se passava no centro do universo e voou em direção ao Tártaro, mas durante a fuga teve sua perna direita consumida pelas trevas.
Gabriel se encontrava flutuando sobre um pedestal, em sua meditação diária, quando os portões do Templo da Harmonia foram abertos bruscamente. O Arcanjo abriu lentamente seus olhos, mas não se pronunciou. O celeste que havia vindo da cidade tombou em frente ao Gigante. A escuridão o devorava de dentro para fora. Seus olhos já se encontravam do mesmo modo que os da criatura que o atacara.
– Algo... Retornou. Algo antigo retornou, e ele vem atrás de você... – sussurrou antes de desfazer em frente a Gabriel, deixando apenas um amontoado de cinzas para trás.
O Arcanjo levantou-se e atou a bainha de sua espada em seu cinto. Vestiu uma armadura leve e caminhou até o monte de cinzas e as tocou. Ele conhecia o que atacara aquele anjo. Algo primordial. Gabriel fechou os olhos e sua mente afundou em um mar de memórias. Um grande vazio. Dez seres lutando. Explosões luminosas se espalhando.
Gabriel sentiu a cicatriz que descia de sua orelha até seu queixo queimar, como se fosse recente e logo abriu seus olhos. Caminhou até a porta do tempo e voou em direção ao Palácio Celestial, onde os arcanjos costumavam fazer suas reuniões.
Pousou à porta do templo, sendo saudado por dois querubins que faziam guarda ali. Assim que entrou, Gabriel tratou de fechar a porta do templo, não queria que alguém visse o que acontecia ali dentro. Caminhou até a parte de trás dos cinco tronos e
parou atrás do trono de Miguel. O arcanjo respirou fundo e sussurrou: Etafah (abra-te).
Um ruído ecoou pelo salão e um alçapão empoeirado começou a se abrir, revelando uma larga escadaria que a muito tempo não era usada. Quando terminou de abrir, chamas se acenderam em recipientes nas paredes, iluminando todo o caminho até o fim dos degraus. Gabriel descendo a escada, atentou-se a qualquer ruído que surgisse naquele ambiente. Não queria ser surpreendido por um de seus irmãos, já que não era permitida a abertura daquele lugar sem a permissão de três dos quatro arcanjos que governavam os céus. Ao fim da escada, um novo e empoeirado salão se revelava. Aproveitando-se de sua dominação sobre o ar, Gabriel levantou sua mão direita na altura de sua boca e soprou, forçando qualquer partícula de poeira a sumir daquele lugar.
– O Cofre Celestial. – Pensou, enquanto seus olhos varriam atrás de um objeto único. Espadas, capas, urnas, arcas e tronos. Ali se encontravam os mais poderosos e exóticos objetos que poderiam existir no universo. Sondou toda a sala atrás de uma simples arma. Deitada sobre o pedestal ao fundo da sala se encontrava o que procurava. Caminhou até lá e tocou a haste do cajado, que brilhou revelando sua coloração dourada.
– O Cajado de Arafel – falou uma voz melodiosa atrás de Gabriel, surpreendendo-o – Criada para banir as trevas e canalizar encantamentos. Uma arma bem poderosa nas mãos certas, na minha concepção, é claro. Ou um simples cajado de apoio nas mãos dos fracos.
– Rafael... O que faz aqui e como... – perguntou Gabriel, sendo interrompido pelo irmão.
– Já fui reconhecido pela habilidade de ocultar totalmente a minha aura. Não é coisa pra me gabar. O modo com que os céus andam hoje, quase qualquer um pode fazer isso.
– Mas não ao ponto de parecer que morreu – completou Gabriel – O que quer?
– Apenas saber o que pretende fazer com isso...
– Um antigo inimigo, nada com o que se preocupar.
– Você sabe melhor do que ninguém que isso não pode sair daqui. – Rafael se aproximou e colocou a mão no ombro do irmão — Se isso cair nas mãos de seu “inimigo”...
– Não acredito que você está me subestimando. Você lê mentes, Rafael, faça uso disso.
Gabriel saiu de perto de seu irmão e caminhou até uma arca dourada com duas estatuas de querubins sobre ela. Abriu-a e retirou la de dentro um cajado.
– Isso deve servir – Falou, medindo o tamanho das duas armas – Deve ser igualmente útil. – Completou, dando um sorriso e saiu da sala. – Não se esqueça de fechar quando sair, Rafael... – Gritou ao subir as escadas, deixando Rafael sorrindo para trás. O Mestre do Fogo caminhou até uma mesa que havia à direita dos tronos, a mesa do escriba, e puxou um pergaminho, tomou uma pena e escreveu uma carta. Ao terminar, enrolou o pergaminhou e o selou com o símbolo do Tartarus, uma chama, e guardou-o no mesmo bolso onde estava o livro.
Gabriel retornou ao Templo da Harmonia. Caminhou até o pedestal onde antes meditava e pousou os dois cajados sobre ele. Ele analisou profundamente o cajado de Arafel e passou a mão sobre o cajado de Arão, retirado da arca.
– Pronto – sussurrou ao terminar, levantando os dois cajados iguais à sua frente – Agora ninguém sai prejudicado.
Colocou o cajado original em pé sobre o pedestal e retirou o livro de dentro de um bolso de sua armadura e começou a ler. Quando acabou o encantamento, um campo de força surgiu em volta do objeto, impossibilitando qualquer um de tocá-lo, exceto o próprio arcanjo. Ele prendeu o cajado falso em suas costas e abriu suas asas.
Gabriel sabia o que o esperava, ou melhor, quem o esperava. Sabia qual era o seu destino e mesmo assim, não hesitou em sair voando do templo em direção ao centro do universo.
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