As Crônicas de Reddie Hunter
17 Voltando a ativa
Notas iniciais
Eu voltei para o Canadá me sentindo um tanto mais leve. Era como se houvesse tirado um peso dos meus ombros. Tinha muitas coisas a fazer. Eu ainda tinha pesadelos, porém pareciam mais fracos, agora conseguia diferenciar a realidade do sonho. Não deixava de ser aterrorizante ser cercada por um monte de zumbis, mas já era algo.
Não havia me esquecido verdadeiramente de ser caçadora, tinha dito que criaria uma nova vida em Seattle, mas ás vezes eu pensava na diferença entre um zumbi e um ghoul. Mas eu só lembrava do básico. Minha memória é pior que cocô de passarinho.
Eu cheguei de táxi a minha antiga casa. Continuava igualzinha. Vermelha com detalhes em branco e tals. A mesma janelinha pela qual o Nicho entrou no meu quarto com uma corda de lençóis. Dei um sorriso de canto com a lembrança.
Se estava preparada pra entrar ali?
Claro que não.
Mas é aquele ditado: vamos fazer o quê? Por acaso eu vou dar meia volta e ficar esperando até pensar "É, agora posso entrar em casa!"?
A porta estava destrancada graças a Deus já que eu não tinha mais a chave. A sala claramente foi um cenário de luta e tive ânsia de vômito. Tinha corpos de lobisomens por toda parte, velho. Nem é por estarem mortos que eu estava com nojo, era o cheiro podre, pois estavam se deteriorando. Fazia mais de um mês que estavam ali. As poltronas reviradas (inclusive tinha um corpo em cima de uma delas), a TV simples caída com a tela rachada, tinha manchas de sangue no tapete listrado, a parede bege perfurada com marcas de balas, armas espalhadas pelo chão. Tinha até uma bazuca jogada num canto e balas de prata estavam por todo lado. É, minha família lutou.
Mas não vim aqui pra me lamentar. Eu desci ao arsenal no porão secreto. Provavelmente Patrick não havia recorrido a ele. O arsenal era tão amado que capaz de Patrick ter tido pena de usá-lo. Dei uma fraca risada ao imaginar Anne dando um tapa em seu rosto e agarrando o colarinho de sua camiseta gritando “Estamos sendo atacados, seu idiota! Não é hora para frescuras! Vamos usar essa porra!”.
Continuava incrível com todos os tipos de armas, o que me fez continuar o pensamento com Patrick ignorando Anne dizendo que o básico serviria. Quem dera ele tivesse usado.
Eu poderia treinar intensamente, comprar um carro e começar a matar monstros pelo país afora enquanto procuro o desgraçado do Edward, porém...
Tem um minúsculo detalhe que acaba com meu plano.
Tenho 15 anos, portanto não tenho carteira de habilitação. Seria tenso subornar todo guarda de trânsito que pedisse minha carteira. Então vou ter que esperar a merda de um ano pra poder fazer essa praga. É a vida. Imaginem minha cara quando já tava bem empolgada imaginando eu viajando de carro pelo país matando geral e aí pensar “Putz, caralho, eu não tenho carteira”. Foi bem triste. É tipo você quando sua mãe faz injustiça e você já sai de casa dizendo que nunca mais volta e aí tu lembra que não tem um tostão pra jujuba e volta.
Sim, eu recuperei um pouco do meu humor. Graças a Deus, porque não tem como voltar atrás na vida, só seguir em frente e assim vamos. E também eu sei que vocês vão parar de ler se eu continuar só falando dos meus pesadelos diários. Não sou a Bella de Crepúsculo pra viver na depressão, não.
Ao olhar mais detalhadamente pro arsenal eu percebi que não caberia num porta malas. Eu ia ter que comprar um trailer ou algo do tipo. Eu fico pensando como é que eu vou tomar banho... Tipo, eu não vou viver pagando um lugar pra dormir a cada estado que viajar. É um absurdo. Dormir e comer no trailer não são problema. Eu só quero saber como vou tomar banho. Eu não tô a fim de noucatear os monstros com mau cheiro.
Caraca, até faca de osso Patrick colecionava. Tinha uma etiquetinha em todos. Tentei me recordar pra quê servia o osso de presa de javali e... Nada. Olhei para a prateleira lotada cujos livros eu tinha lido há dois anos atrás. Sério que eu vou ter que reaprender tudo de novo? Eu já sofri demais.
Bufei e revirei os olhos. Vai ser um longo ano. Isso e eu vou ter que me preparar pra tirar a carteira. Se eu esperar esse ano e perder ainda por cima capaz de esganar o fiscal só de ódio. Dei de ombros e comecei pegando o primeiro do alto da prateleira. Nem do título eu lembrava. Estava tudo empoeirado. Caralho mano, eu sou alérgica a poeira. E a nozes, mas isso não vem ao caso.
Estranhei ao ver uma chupeta em cima da mesa. Minha mãe tinha dito que eu nunca gostei de usar. Ela era cor de rosa o que me causou uma careta, odeio rosa. Talvez algum parente tenha vindo com um bebê e esqueceu aqui. Bom, se eu conhecesse esse bebê, eu daria uma chupeta preta pra ele. Será que tem dessa cor? Provavelmente era menina. Afinal tem essa coisa chata de acharem que rosa é pra menina e azul é pra menino. Merda de estereótipos de gênero. Sou a prova viva que nem toda garota gosta de rosa. Prefiro azul e preto. Revirei os olhos mais uma vez.
Eu ás vezes perdia a noção do tempo. Minha vida se tornou novamente dieta (Eu tinha que entrar em forma, chega tava criando aquela gordurinha do tchau, tava muito estranho), treinar e ler sobre monstros. Eu limpei a sala de estar, troquei a TV, tapei os buracos nas paredes, só deu trabalho de tirar as manchas do tapete e os corpos. Uns braços até saíram quando tentei puxá-los para dentro do saco preto. A idosa que era nossa vizinha estranhou ao me ver novamente. Ela tinha um cheiro estranho, então nunca troquei algo a mais que um “oi” ou ”boa tarde” com ela. Exceto pela falta dos Hunter, estava igual a antes de eu fugir de casa.
Já tinha decidido que não sairia de casa a não ser pra comprar coisas essenciais. Praticamente só me divertia quando algum cara me paquerava na fila do supermercado e eu dava um coice que o fazia calar a boca no mesmo momento. Não precisava de amigos. Eu precisava ficar sozinha e focar nos meus objetivos. Eu ignorava até aquelas velhinhas que gostam de conversar contigo sobre a vida.
Embora muitas vezes batesse saudade de Adam e Martina. E eu sabia que mesmo se tivesse o número deles ainda não iria falar com eles. Não precisava arrastar mais ninguém pro fundo do poço junto comigo.
O café era meu único amigo. Até doce de leite parei de comer. Eu dava uns olhares pra ele na prateleira do mercado, mas balançava a cabeça e seguia em frente em direção a verduras. Era uma dura vitória.
Ás vezes olhava pro parque. Não sei porque tinha esperança de encontrá-lo, mas durante todo o ano, eu não vi Nicho. Provavelmente ele se mudou. Não sei se ficava aliviada ou triste.
Eu tinha aprendido tudo de novo, e foi no primeiro treino que percebi um lamentável fato. Eu tinha perdido minha mira e acabei acertando uma faca num vaso que Anne amava. Queria que ela estivesse ali pra ficar furiosa e me tacar uma panela.
Fiz uma careta na hora e pedi desculpa mentalmente. Só depois de dois meses eu voltei a ficar impecável. E Deus, isso deu trabalho. Criaram-se bolhas e calos em minhas mãos. Eu tive que aprender a cozinhar perfeitamente. E foi com imensa tristeza que notei que o almoço de um caçador realmente tinha que ser uma salada sem sal. Droga, sou uma guerreira, preciso de comida de verdade e não dessa comida de coelho.
Deu um tédio da porra ler todos aqueles livros, tipo, eu prefiro Percy Jackson, Jogos Vorazes, Harry Potter e tals... Não é essa coisa meio estranha de sugadores de almas e coiotes feitos de sombra líquida. Eu sentia bastante falta de desenhar, mas tratei de tirar essa distração da minha mente. Mas eu estava com medo. Uma merda de medo de me tornar um Patrick 2.0. Mas okay. Eu ainda tinha meu vício em cafeína que ainda me fazia honrar o nome de Reddie Violet Hunter.
Sim, meu nome do meio é Violet e isso me dá um ódio da desgraça. Pode ser o nome do meio da minha mãe, mas pelo amor de Deus que coisa mais sem cabimento. Meu nome era pra ser Ariel Violet Hunter, mas eu nasci tipo, desse jeitinho né? Aí resolveram mudar pra Reddie. Ainda bem, Ariel é o fim da picada. Nada contra os nomes, mas é que é nome de princesa, coisa que eu definitivamente não sou. A família é de caçadores, mas o nome da filha é de princesa. A ironia veio antes de eu nascer.
Que merda hein.
Eu saí de casa no Natal, mas voltei na mesma hora. A rua estava decorada e cheia de pessoas felizes confraternizando. E aquele era meu segundo natal sozinha. Pra quê eu ia ficar vendo a felicidade alheia sendo que a minha está morta? Posso sobreviver se não comprar batatas hoje.
Então finalmente fiz dezesseis anos. Parabéns Reddie. Uhul. Acordei nessa animação mesmo. A idade é 16, mas o humor é de 60. Era meu segundo aniversário só com minha xícara de café. Ignorei o fato que não tinha ninguém pra me dar parabéns na hora que descesse as escadas. No mesmo dia fui tirar a carteira. O funcionário franziu o cenho ao ver que aquele era meu aniversário.
— Que foi? Nunca viu uma adolescente louca para dirigir, não? Já tenho dezesseis.
— Hã... Okay. Aqui está sua ficha. Hoje está vazio.
Claro que sim, pelo amor de Deus, olha a data do meu aniversário: 31 de dezembro. Quem é que para no ano novo e pensa “Legal cara, vou ali tirar minha carteira de habilitação, me espera que eu chego até meia noite!”?
Por sinal, sim, sou capricorniana e com ascendente e lua em libra. Só fiquei sabendo disso porque Martina é louca dos signos e fez um mapa astral. É muito engraçado ver o povo dizendo que capricórnio tem pacto com o diabo. Poxa, como será que as freiras descobriram que sou capricorniana?
Aliás, quem são os infelizes que trabalham no ano novo?
Só tinha um carro e a pista estava lotada de neve. Odeio neve. Um homem barrigudo me cumprimentou e disse que veria como eu me saio. Fico pensando como esse fiscal deve ser solitário e entediado pra trabalhar me feriado. Entramos no carro, sei lá qual era, não entendo nada de carro, só sei que era prateado.
Eu tinha treinado, então me saí bem, foi muito fácil. Sou uma musa do skate praticamente, o que é um carro pra mim? Recebi minha bendita carteira de habilitação (Que incrivelmente só demorou meia hora. Achei que iam testar minha paciência dizendo que entregariam em 20 dias úteis) e mandei um “Feliz ano novo” pro cara barrigudo. Tadinho. Ele mandou outro pra mim e depois entrou no carro e começou a tirar um cochilo.
As concessionárias estavam fechadas o que me fez bufar. Eu não tinha um pingo de paciência. Tive que esperar o feriado passar pra poder ir. Eu não entendia nada de trailers, só escolheria o maior possível. De preferência que caiba um arsenal nele.
O homem estranhou quando eu falei que procurava um trailer.
— Senhorita, sinto lhe informar, mas a carteira de habilitação de carros não é a mesma para trailer. Isso a senhorita só pode fazer a partir dos dezoito.
...
— Você tá brincando com a minha cara, certo?
— Não estou.
— Mas eu não acredito nisso...
Tenho certeza que tinha um tique nervoso completamente visível no meu olho. Quem vai esperar mais dois anos é o capeta. Eu já tô aqui esperando. Peguei até uma cadeira e um livro sobre os princípios dos vampiros.
— Moço, eu pago o dobro, mas pelo amor de Deus me vende essa droga.
Ele arregalou os olhos.
— Pra quê a senhorita deseja tanto um desse?
— Não é da tua conta. Eu só quero um trailer. E pago o dobro por ele, se abafar esse lance de habilitação. – Estreitei os olhos enquanto ofertava para o homem.
— Mas...
— Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe... – Gesticulei contando com os dedos.
— Está bem! – Ele concordou em voz baixa com medo de alguém o ouvir.
— Ótimo.
Como podem ver, sou um grande exemplo para crianças. Vivo de suborno.
Escolhi o maior trailer e fiquei com uma peninha de pagar. Poxa, se eu fosse pagar a cada vez que não tenho paciência, não tem cartão fraudado que aguente, assim eu vou acabar morando debaixo da ponte.
Ele era branco, deveria ter uns dois metros de altura (o que pra mim é muito alto, porque... Eu só tenho 1,48), quando entrei havia uma pia e geladeira de, um microondas, um fogão de quatro bocas, uma bancada, ar condicionado, armários que eu sabia que nunca alcançaria (Só se eu crescer mais alguns centímetros), um sofá branco estava na lateral do trailer e parecia tão confortável que contive minha vontade de me jogar nele. Tinha um banheiro com vaso sanitário, chuveiro e pia, o que me fez perguntar seriamente pra onde iriam as minhas necessidades e de onde vinha a água. Sei lá, meu filho eu só vou usar.
As cores consistiam basicamente em madeira preta de mogno, os eletrodomésticos em vermelho e branco. Parecia feito pra mim. Tá certo que eu já tenho vermelho demais na minha vida (E na minha cara, mas não vamos focar nesse detalhe), mas exceto por essa parte e que não consigo alcançar os armários no topo, ele era perfeito. Tinha uma cama no fundo e eu sabia que seria lá que eu implantaria minhas prateleiras e esconderia essa parte com uma parede falsa.
Nem prestei atenção enquanto o vendedor dizia todas suas vantagens ou força de sei lá quantos cavalos. Eu só achei bonito e útil.
— Tem tomada? – Perguntei o mais importante.
— Tem.
Paguei a porra do trailer.
— Foi um prazer fechar negócio com o senhor – Dei um sorriso mais falso que nota de 3 euros e saí dirigindo o veículo.
O pior é que essa porra nem tinha diferença, era a mesma coisa que dirigir um carro! Isso me deu mais raiva que o fato que paguei o dobro. Eu não iria suportar viver mais dois anos mofando naquela casa. Me controlei pra não acabar causando um acidente e perder os pontos da minha recém adquirida carteira. Só respirei fundo e continuei dirigindo. Recentemente tenho respirado fundo muito mais vezes que o necessário, pareço uma cardíaca.
Cheguei em casa. Ah, vou sentir tanta falta desse porão mofado e de viver trancada aqui tendo de companhia uns ratinhos...
Ah, a velha e boa ironia.
Desci do trailer e percebi que teria de ter um pouco mais de paciência. Eu nem sabia onde levaria para colocarem o que eu queria. Acho que é um marceneiro. Tinha uma marcenaria no fim da rua. Fui lá e ele disse que podia fazer o que eu queria, embora tivesse achado estranho o pedido da falsa parede. Também pedi pra ele fazer as prateleiras com caixas de um vidro que não quebrasse. E cada um com chave.
O serviço demorou a desgraça de dois meses, na metade do tempo recebi as chaves. Eram muitas. Passei um bom tempo catalogando as chaves com papéis com o nome das armas e fita adesiva. Eu não sei o porquê, mas não consigo cortar fita adesiva no dente. Sei lá. Mas é meio frustrante. Entretanto estou acostumada com a frustração na minha vida.
Eu sabia que não iria lembrar qual chave era de qual caixa. Pelo amor de Deus, não lembro direito nem o que comi ontem, como vou lembrar qual chave pertence a uma das 30 caixas de vidro que vão estar acopladas nas paredes? Não posso ficar testando de uma em uma até achar. O mundo vai acabar num apocalipse e eu ainda vou estar tentando achar a chave pra pegar a arma.
Depois de muita paciência não existente minha entregue, o marceneiro devolveu o trailer e eu fiquei impressionada. Tinha sido específica com o que queria e ele seguiu o que pedi perfeitamente. Primeiramente porque eu não via mais a cama.
O homem barbudo me mostrou um botão escondido numa saboneteira do banheiro e quando o apertei, a parede subiu com um baixo rangido. Ele tirou os armários que ficavam nas paredes ao lado da cama e deixou só o guarda roupa. O resto da parede que parecia ser feita com algum tipo de inox branco ou sei lá o quê, estava coberta de caixas de vidro escuro retangulares com arestas de mogno. Eu gostava de mogno. Cada uma com uma fechadura como pedi. Dava pra guardar até uma espingarda dentro delas.
Sim, eu iria dormir ao lado das minhas armas. Tinha a impressão de que me sentia mais próxima da minha família com isso. Havia um teto solar, coberto por vidro. Um pequeno quadrado que eu poderia ver as estrelas enquanto dormia. E as estrelas me lembravam Guilherme e da noite em que ele havia me pedido em namoro. Balancei a cabeça, meus olhos tinham começado a arder, sempre acontecia quando eu focava nas lembranças. Não podia chorar agora, do nada.
O marceneiro me mostrou a conta do serviço e aí que eu senti vontade de chorar de verdade.
Mais uma lascada no meu pobre cartão. Merda. Dá trabalho fazer essa coisa, é meu suor e trabalho que está em jogo. Deu uma dor de cabeça braba pensar que teria que ficar pagando os impostos do trailer de mês em mês. A água do chuveiro e da descarga não deve sair barata. Praga de sistema capitalista. Pagar isso vai doer mais que minha cólica. Acho que ainda por cima cai tudo no mesmo dia. Vish.
Porém me controlei e com um leve sorriso sincero, afinal o cara fez tudo como eu queria, paguei ao homem.
Entrei no trailer e senti um leve arrepio. Estava prestes a começar uma longa jornada. Desta vez eu só tinha que pisar no acelerador e seguir em frente.
E também passar no mercadinho pra pegar comida. E passar em casa de novo pra colocar os livros pra dentro que tiveram alguns que eu não li. Obviamente ainda colocar as armas nas caixas. Ah e tenho que sair do Canadá para os Estados Unidos porque aqui não tem muitos monstros. Não sei o porquê. Talvez monstros não gostem da torta de maçã canadense.
Voltei pra casa, (dando uma parada no mercadinho pra pegar comida e meu café sagrado) e passei a tarde colocando as armas no trailer. E percebi que o vidro escuro tinha uma qualidade boa até demais. Eu não conseguia enxergar (Olha que nem sou míope) então tive que usar papel e fita adesiva de novo pra colar em todos os vidros. Enquanto pegava eu até treinava. Há um ano atrás eu não me lembrava pra quê servia o sangue de cabra. Agora me lembro que é pra banhar o osso de presa de javali nele e se usa pra matar luflammas. Que são lobos que conseguem irromper em chamas do nada. Acho eles legais exceto pela parte de serem lobos.
Eu tinha uma visão diferente de monstros agora. Antes eu pensava se eles tinham família. Pensava se eles tinham alguém que amava ou que fosse querido e que sentiria sua falta. Mas agora foi um monstro que tirou todos que eu amava de mim. Por que eu teria piedade? Me relembrei das regras de Patrick.
“Não faça amigos. Amigos são fraqueza e um Hunter nunca é fraco”
Eu não serei fraca. Nada iria me desviar do meu caminho. Eu sou uma Hunter, não importa o quão pesado seja esse sobrenome.
“Mate primeiro. Se vanglorie depois”
Mataria cada um em meu caminho sem me importar.
“Sua obrigação é salvar o máximo de pessoas possíveis”
Eu não vou deixar mais ninguém morrer na minha frente sem eu poder fazer nada. Isso é uma promessa.
“Não faça planos pra velhice, você nunca vai chegar lá”
Não tenho mesmo nenhum plano.
“Leia tudo o que puder, a informação é sua arma mais forte”
Acho que a prateleira de livros do sobrenatural está mais decorada na minha mente que o meu nome.
“Não fraqueje. Não hesite. Atire.”
Eu não vou hesitar nenhum momento. Não vou fraquejar. Somente atirarei com o dedo firme no gatilho.
“Nenhum monstro merece misericórdia. Se derramou sangue, o dele será derramado também.”
Sim. Nenhum merecia. O sangue de Edward sujaria minhas mãos e este será o dia que me sentirei realizada. Não vai preencher o vazio. Mas era minha maneira de seguir em frente. É melhor que suicídio.
Terminei de colocar as armas e até ficou bonitinho. Bateu um medo de pensar que eu poderia perder o molho de chaves. Eu teria que fazer cópias. Mas primeiramente meu bolso está muito ferido no momento, então vamos dar um tempinho pra ele se recuperar desse baque.
O céu estava nublado e a chuva despencou fortemente. Entrei no trailer, pisei no acelerador e caí na estrada.
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