As Crônicas de Reddie Hunter
13 Somente sendo feliz
Por dois meses minha vida foi resumida em: Skate, zoeira, séries, maluquices com Martina, um sentimento (Que eu prefiro ignorar) por Guilherme que me acompanhou em todas as TPM’s, sessões de cinema e maratonas, estudar as estrelas junto com Adam, conversar com Lisa sobre arte e culinária (Finalmente meus talentos culinários estão indo além de ovos torrados e uma cozinha em chamas!), muito doce e... Ah, obrigar Guilherme a se alimentar decentemente.
Eu me sentia viva, não de modo de sentir meu coração batendo acelerado por causa da montanha-russa que estou descendo em alta velocidade no momento, mas sim por estar sendo feliz, aproveitando todo e qualquer dia como se fosse o último.
Até o dia em que eu conheci os pais de Guilherme, Elizabeth e Arthur Jordan são pessoas maravilhosas. Me acolheram praticamente como uma filha, Eliza me encheu de tortas maravilhosas e Arthur, embora tenha tentado me persuadir para a carreira empresarial, foi bastante gentil. Foi um jantar bem legal e eu me senti como se tivesse uma segunda família.
A montanha-russa parou e eu, Martina e Lisa saímos cambaleando. Os meninos foram tomar sorvete, mas estavam demorando. Martina se recuperou rapidamente.
— Essa foi fraquinha. Fomos mais rápidas descendo a ladeira no carrinho de supermercado. – Reclamou colocando as mãos na cintura.
— Atropelamos uma velhinha naquela velocidade, Tina. – Retruquei.
— Ah, qual é? Ás vezes acho que você usa drogas – Lisa estava meio verde.
— Já falei que não uso. Minha filha, eu já sou louca por natureza, se eu fumar uma maconha o mundo que se cuide! – Na realidade Martina contou o verdadeiro porquê de não usar drogas nem tomar bebida alcoólica. E não é porque ela é menor de idade.
Sua mãe era alcoólatra, bebia demais, fumava demais, o marido a amava muito para se separar e as clinicas de reabilitação não funcionavam. Ela acabou tendo uma overdose e faleceu. Martina tinha onze anos, mas superou, já sabia que iria acontecer isso uma hora com a mãe. Ela contou a história como quem fala que uma vez ralou feio o joelho, mas cicatrizou no final e ela estava bem, determinada a não viver no passado. Ou seja, Martina é incrível.
Isso e faz um tempinho que eu percebi umas olhadas discretas de Adam para ela. Só tô de olho...
Encontramos os meninos conversando numa mesa da lanchonete, me sentei ao lado de Guilherme e peguei seu sorvete de chocolate. Ele me olhou indignado.
— Hey! Pegue o seu.
— Este é o preço pela minha presença, ué. – Dei um sorriso, mas o mesmo desapareceu ao ver Danielle se aproximando.
Eu não fui com a cara dela desde que a conheci na pista, o seu cabelo é pintado de loiro com água oxigenada (Olha que eu nem entendo porra nenhuma de pintura, mas aquilo ali foi uma cagada, ela deveria processar o cabeleireiro), olhos castanhos, estava usando uma blusa vermelha escrito I’m Bitch (Nunca uma camiseta falou tantas verdades) com colete e short jeans meio rasgado. Ela não tem quase nenhum talento em cima do skate. Só consegue ficar em pé e deslizar. Nem entrar na pista entra.
Na verdade eu não vou com a cara dela pela aparência, é simplesmente pelo fato dela ser de fato uma vadia, um maldito grude sem um único neurônio que parece só saber falar em roupas e garotos. Ela só vem na nossa direção para dar em cima de Adam e Guilherme.
Parece até que acha que os guris é oxigênio. Por favor, né? Isso e ela ter tentado trapacear para vencer Martina, mas ela desviou da misteriosa onda de bolinhas de gude que surgiu no seu caminho. Sem convite nenhum, Danielle sentou-se do outro lado de Guilherme e agarrou seu braço entrelaçando suas mãos enquanto exibia um grande sorriso. Quis pegar óculos escuros.
— Oiiiii! — Até a voz de Danielle me irrita – Tudo bem? Que coincidência te encontrar aqui!
Ás vezes eu acho que esse demônio segue a gente, eu não posso ter tanta falta de sorte pra esbarrar nesse nariz de plástica quase todo dia.
— Oi, e aí? – Guilherme sorriu, ele é gentil com todo mundo. Elizabeth educou até demais o menino.
— Estou ótima, e vocês?
Danielle cruzou as pernas e deu uma boa olhada na mesa, fixando seu olhar em Adam que estava sem expressão nenhuma, provavelmente em seu mundinho particular. Ele deve ter sentido que estava sendo encarado porque olhou de volta pra Danielle, mas não deu importância e só continuou tomando seu sorvete que havia derretido bastante enquanto ele sonhava.
— Então... Quem te convidou pra mesa mesmo? – Martina perguntou casualmente.
Danielle a fuzilou.
— Ora, é claro que o Gui ama com a minha companhia! Não é, Gui? – Ela perguntou piscando os olhos e quase que descola o seu cílio postiço. Fiquei torcendo mentalmente pra cair.
— Hã... Claro que gosto – O que custa ele ser mal educado uma vez na vida?
— Ele até pode não se importar, mas eu ligo, então tira esse traseiro murcho daqui. – Eu falei num tom tão casual quanto Martina.
Danielle ficou ofendida e abriu a boca num perfeito “O”.
— Eu não vou sair, sua imitação de tomate! – Guilherme fez uma careta e olhou pra mim com um pouco de medo, logo fechando os olhos.
— Uh, imitação de tomate é? – Ri irônica.
— O que é tão engraçado?
— É que eu não te perguntei nada, vadia. – Dei um sorriso de canto e olhei fixamente pra ela adquirindo uma expressão séria e fria.
Eu posso até ser humana, mas tenho um poder bem legal. Eu já assusto naturalmente as pessoas com a cor dos meus olhos, mas quando eu olho ameaçadoramente... Bom, eu tenho o poder de estremecer os outros.
Com a loira oxigenada não foi diferente. Ela nem perguntou, mas só pela sua cara ela já sabia que eu não usava lente. Se levantou abruptamente, separando-se de Guilherme, Danielle estava praticamente apavorada e me olhava como se eu fosse o Satanás em pessoa. Sorri como se eu fosse mesmo ele.
— Você não vai sair, Danielle? – Minha voz saiu rouca e ela se virou e andou apressadamente para fora da lanchonete.
— Obrigada, cereza. Não aguentava mais a vadia.
Martina tinha feito um apelido pra mim, cereja em espanhol. Finalmente descobri que seu sotaque vinha da Argentina. Fiquei aliviada quando não enxerguei mais a vaca. Isso, volta pro pasto, infeliz.
— Não precisava usar o olhar com a Dani. – Guilherme falou corando.
— Eu te livrei de uma! Vai que a pele da cobra solta veneno! E desde quando você a chama de Dani? – Coloquei um dedo na boca e fiz uma careta como se fosse vomitar.
— Ela nunca me fez nada ué, só estava sendo gentil.
— No dia que você parar de ser ingênuo, eu vou parar de ser sarcástica. E sério que ela tentou me ofender com imitação de tomate? Até meu vocabulário de palavrões é melhor que o dela. – Gargalhei.
— Ela quer te estuprar isso sim. – Guilherme arregalou os olhos com o comentário de Martina – Aliás, vocês dois, fiquem ligados e não andem perto de becos escuros.
Ela falou de modo tão sério que por um momento achei que não fosse piada, mas ela começou a rir, então a acompanhamos.
— Sei de nada dessas tretas – Lisa levantou as mãos.
— Falta ela não faz. Parece que não tem nada no cérebro – Adam revirou os olhos. Mais uma coisa que eu gosto nele, ele só anda com pessoas íntegras. O que faz eu me sentir ligeiramente lisonjeada por ele gostar da minha companhia.
— Muito obrigada! – Martina ficou contente pelo olhar de desdém de Adam na direção que Danielle foi embora.
— Gui, paga meu sorvete. – Lisa pediu com um sorriso fofo que se fosse comigo quase me enganaria se não fosse pelo fato dela estar pedindo dinheiro.
— Por quê? Você não tem seu próprio dinheiro?
— Minha condição financeira está que nem o meu nome. – Ela lamentou e Guilherme revirou os olhos.
— Está bem. Mas trate de administrar melhor sua mesada e... – E Guilherme começou um discurso digno de um irmão mais velho.
— Pare pelo amor de Deus! – Fiz uma careta.
— Quê?
— Discursos são inúteis, Guilherme. Não dá pra comer, não dá pra usar pra comprar algo, só serve para desperdiçar tempo de vida com palavras e mais palavras. E ela já gastou a porra da grana. Já era!
Ele fez uma cara frustrada.
— Aqui tá chato. Vamos pra pista. – Martina falou e pagamos a conta. Correção: Adam, Guilherme e eu pagamos a conta.
Saímos do parque de diversão. Eu estava com raiva porque Guilherme gostava de Danielle, ou pelo menos se esforçava pra demonstrar isso. Eu gosto dele, poxa. Eu poderia falar isso de boas, mas prefiro ignorar. Uma hora some essa praga. Que Deus me ouça porque ter um garoto ocupando 30% dos meus pensamentos é bem chato.
Fiquei com uma expressão normal no rosto e continuei conversando normalmente. Pelo menos eu sei disfarçar. Tem gente que já pega a faca se o namorado olha pra outra menina e ameaça cortar as partes íntimas. Eu chamo isso de ciúme doentio que não faz bem para nenhum dos dois.
Martina andou um pouco mais devagar e eu entendi isso como um sinal que ela gostaria de falar comigo, os meninos e Lisa ficaram na frente e ela cochichou pra mim.
— Eu gosto do Adam – Ela falou como se tivesse matado alguém e eu arqueei uma sobrancelha.
— Fala então.
— Isso não é o problema! Nunca acho ele sozinho, daqui a pouco vou ter que falar no meio da pista mesmo! Eu não posso forçar Adam a adivinhar que gosto dele. É muita idiotice, tenho que ser rápida porque vai que a galinha resolve estudar. – Ela revirou os olhos.
— Fica de boas, você é uma garota incrível e...
— Disso eu sei, viada!
— Okay... Eu sou péssima com conselhos, não tenho nada no meu histórico de relacionamentos e não curto livro de romance porque os personagens enrolam pra caralho. Se o problema é achar ele sozinho eu posso sequestrar ele.
— Tá louca menina? Também não precisa sequestrar meu crush.
— Ah, então vai se lascar – Ela riu e eu acabei rindo junto e foi na distração que a gente tropeçou e caiu bonito no chão, minha calça ficou um pouco mais rasgada. E continuamos rindo feito duas retardadas.
Guilherme nos ajudou enquanto Adam e Lisa gargalhavam. Foquei em não focar no sorriso dócil e preocupado de Guilherme. Meu Deus, gostar de alguém é pedir pra ser trouxa. Eu não me inscrevi pra isso. Me lembrei de Jacob, mas o caso dele era mais sério.
— Puta que pariu, mas okay, eu tô bem meu povo – Martina se levantou e eu também. – A cereza que é um desastre até andando.
— Você que caiu primeiro e ainda me puxou junto vaca.
— Shiu, rapariga! – Chegamos na pista e pegamos os nossos skates, eu havia comprado um pra mim com estampa de chamas em tons de degradê de roxo, azul escuro e preto. Lisa foi pra um banquinho colocar seus patins, ela era um desastre em skate, mas anda de patins perfeitamente. Vai entender.
Franzi o cenho ao ver que Adam e Guilherme já estavam na pista. Somos uma equipe e eles sempre nos esperavam.
— Estamos desafiando vocês. – Adam falou e eu e Martina arqueamos as sobrancelhas. – Vamos ver qual dupla é melhor.
— Ah, que bonitinho, é motim isso aí? Tá pensando que é o quê, papai? – Martina cruzou os braços. – Mais fácil Guilherme ser rude do que vocês vencerem e...
— Cala a boca! – Guilherme gritou e deu uma gargalhada. Fiz uma careta. Meu Deus. O que fizeram com o guri? Quase fui lá colocar a mão na sua testa pra ver se ele estava com febre – E agora?
— A treta é séria. – Falei imitando o gesto de Martina – Mas se vocês estão a fim de dar um beijo no asfalto já não podemos fazer nada.
Eu dei de ombros e batemos as mãos subindo nos skates. Martina praticamente fuzilou os dois que riram, logo disparando.
— São bons adversários.
— Mas não tão bons quanto nós – Martina sorriu e pegamos impulso numa velocidade modo recorde.
O quarteirão passou voando, nós tentávamos derrubar uns aos outros, Guilherme e Adam estavam mais rápidos do que nunca, mas eles só ficavam emparelhados conosco.
— Vocês querem brincar? Vamos brincar – Eu sorri e junto com a argentina corremos ainda mais pegando um atalho pelo corrimão de uma escada, na ponta saltamos e pousamos muito mais próximas do fim, mas Guilherme e Adam haviam nos seguido e novamente estavam empatados.
Cada um dava o melhor de si, mas chegamos em igual, eu havia visto e todos os skates cruzaram a linha de chegada sem diferença alguma de distância. Talvez por isso sejamos uma equipe. Ainda assim bufei frustrada.
— Eu venci! – Martina gritou.
— Que nada, Tina. Foi empate. Uma merda. Eu quero tentar de novo – Revirei os olhos.
— Ouch! Que absurdo é esse? Eu exijo revanche! E você é míope garota!
Começamos a discutir e os meninos deram de ombros, aparentemente satisfeitos. Eles foram comer churros e me deixaram sozinha com Martina.
— Nem venha! Eu me recuso a acreditar que foi empate!
— Martina! Deixa de ser convencida!
— Eu? Convencida? Eu sou leonina com ascendente em leão, meu amor, dá licença! Brilhar é o meu dever no universo.
Dei um tapa na minha cara e revirei os olhos. Ninguém merece.
Mais tarde cada um foi pra sua casa. O que significa que Guilherme e Lisa foram comigo. Lisa se despediu e foi para seu quarto, mas antes de subirmos no elevador, Guilherme disse que queria que eu o acompanhasse num lugar, dei de ombros e aceitei. Ele estava meio vermelho.
— Pra onde está me levando?
— É surpresa.
— Não gosto de surpresas, Jordan.
— Garanto que dessa vai gostar.
Ele pegou na minha mão e me levou para fora do hotel, andamos um pouco e eu notei que nunca tinha ido naquela parte da cidade, pelo menos não a noite. Depois de uns 15 minutos andando, chegamos a um velho edifício.
Ele me fez subir por uma escada de metal enferrujada e que rangia até o topo, então tapou meus olhos com as mãos.
— Okay, eu não gosto da sensação de não enxergar!
— Confia em mim?
— Estou em cima de um prédio abandonado onde ninguém me ouviria gritar sozinha contigo. É claro que confio em você, idiota! Não faça eu me arrepender disso.
Ele riu e me guiou pela cobertura e acho que paramos no meio. Ele tirou suas mãos do meu rosto, mas eu não abri os olhos.
— Pode abrir agora.
Guilherme estava segurando um buquê de lírios brancos, minhas flores favoritas. Acima de nós o céu estava lotado de estrelas brilhantes. O vento soprava suavemente balançando meus cabelos. Era tão clichê, mas tão fofo.
Gostava tanto quando meu coração só bombeava sangue pelo corpo. Pra quê que ele tá fugindo dessa tarefa e foi se juntar com a escola de samba, pelo amor de Deus? Gui estava tão corado que seu cabelo loiro se destacava ainda mais. Senti meu rosto esquentar. Minha cara deveria estar tentando fazer cosplay do meu cabelo.
— Okay, eu tinha preparado um discurso e estava parecendo um robô, então vou no improviso. Eu gosto do seu sorriso, dos seus olhos, da sua risada fofa, do seu cabelo, das suas roupas e essa mania que você tem de andar com um canivete na bota. Red, você é perfeita, eu amo o seu jeito, acho engraçado que tenha uma resposta pra tudo na ponta da língua e que não se importa com a opinião de ninguém, mesmo que no fundo seja um amorzinho de pessoa, sempre disposta a ajudar as pessoas. E se você sentir algo por mim, eu posso ser seu namorado?
Eu fiquei paralisada até ouvir a palavra namorado. Eu sabia que pelo menos uma vez na vida eu não podia deixar ele no vácuo porque agora a coisa que eu mais queria era respondê-lo.
— Puta que pariu, é claro que sim! – Sorri e o abracei, Gui acabou deixando as flores caírem no chão, mas eu não estava nem aí pra elas.
Passei minhas mãos em volta do seu pescoço e o beijei, ele retribuiu e senti como aquelas palavras foram sinceras. Podia ser muito clichê, mas para mim a noite estava perfeita com o céu salpicado de estrelas, a lua cheia e com a gente sorrindo.
Nove meses depois...
Pensa na pessoa mais feliz que você conhece? Multiplique a felicidade dela por cem e talvez chegue no meu nível. Eu posso continuar sendo irônica, dando patada a torto e direito, ás vezes parecendo uma velha rabugenta quando me recuso a sair por preguiça, mas este foi definitivamente o melhor ano da minha vida.
Eu contei meu passado pra Guilherme, Martina, Lisa e Adam. Eles mereciam saber e eu não queria viver com uma mentira sobre os ombros. Eles ficaram meio assustados até porque eu falei tipo “Então né, monstros existem. Até aí tudo bem, mas minha família queria me obrigar a ser caçadora de monstros, imaginem aí a merda que seria!”. Por que eu mentiria? Era melhor falar a verdade na lata mesmo.
Guilherme ficou paralisado por um tempo tentando assimilar que monstros existem e que sua namorada era parte de uma das famílias caçadoras dos tempos do Antigo Egito.
Adam ficou contente e muito curioso, ele ficou tanto tempo me perguntando fatos e que tipo de monstros existiam que achei que ele tivesse batido o recorde de tempo ancorado na realidade.
Martina me perguntou porque eu não quis ser caçadora e revirou os olhos ao ouvir que eu preferia ser fotógrafa, mas aprovou a decisão de eu querer seguir meu próprio caminho e xingou Patrick.
Lisa ficou de boas. Disse que era formada em temporadas de Supernatural e eu falei que tinha monstros piores do que os da série o que abalou sua confiança um pouquinho.
Somente depois de alguns dias eles se acostumaram com a presença sobrenatural no nosso mundo, quer dizer, pelo menos aceitaram. Mas Guilherme não conseguia assistir um filme de terror sem estremecer sabendo que o que estava na tela existia de verdade. Fazer o quê, né?
De vez em quando senti falta de Jacob, ficava me perguntando o que ele estaria fazendo, por quanto tempo ele e minha mãe me procuraram (Eu sabia que Patrick já havia me deserdado), se Anne ainda continuava linda mesmo com seus 39 anos. Eu quis ligar no aniversário deles, mas era arriscado me rastrearem. Por mais que tivesse saudade em alguns momentos, nunca desejei voltar. Eu havia achado meu lugar.
A família de Guilherme me chamou para passar o natal em sua casa.
Fomos num helicóptero do Sr. Jordan até a casa de veraneio em Yakima. Foi bem legal. Até eu descobrir que sinto enjôo em viagens de helicóptero. Contive gemidos, Guilherme ficou preocupado ao ver meu rosto verde. Porém cheguei viva, isso que importa.
Era 22 de dezembro quando chegamos, Elizabeth fazia doces e biscoitos de chocolate e me chamava de filha ás vezes. Eu me sentia acolhida como um passarinho no ninho. Que fofa. Mas me chama de fofa pra tu ver se eu não te meto porrada.
Eu estava lendo as histórias que Guilherme criava. Eram incríveis. Ele tinha talento. E não falo por ser meu namorado e pelo fato de amar ele, mas sim porque não tirava os olhos de seus textos de aventura e ação. Mas também fazia poesias lindas pra mim.
— Ah, vamos Guilherme, tente publicar! Suas histórias são ótimas!
— Estou começando a me arrepender de ter te mostrado.
— Que nada! Elas são boas, estou falando a verdade. Você sabe que se estivesse ruim eu falaria.
— Me diga uma única vez que você não foi sincera!
Pensei por um tempo.
— Quando disse a Patrick que seria caçadora. Mas agora estou na casa do meu namorado escritor, lendo suas histórias e comendo biscoitos com chocolate quente.
Sorrimos e ele me abraçou. Uma TV acima da lareira acesa estava a frente do sofá peludo que estávamos sentados. Na janela da parede amarela a esquerda dava para ver a neve caindo. Estava num clima perfeito.
— Sabe, estamos com nove meses de namoro e você ainda me dá patada.
— Você se apaixonou por mim do jeito que eu sou. Não vou mudar merda nenhuma. E tu ainda não se acostumou?
Ele riu e me aconchegou mais em seus braços. Passamos a noite assistindo filmes, em especial reclamando de detalhes importantes que faziam parecer que os diretores não leram o livro de fato.
No dia seguinte, Guilherme foi no banco e Lisa a uma floricultura, ela amava jardinagem e tinha uma pequena horta e um canteiro de rosas. Eu quis ir pra um parque desenhar um pouco.
Antes tivesse acompanhado algum dos dois.
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