As Crônicas de Reddie Hunter

25 Lá vem a merda do vício de novo


Notas iniciais
Heey, tudo bom com vocês? ^-^ Sorry pela demora (Olha a semaninha de prova aí) mas aí vai dois caps pelo menos Feliz páscoa e boa leitura!

Jack subiu as escadas atrás de Selena e eu ouvi uma discussão entre eles, mas não entendi quase palavra nenhuma. Suas vozes alteradas aumentaram e eles estavam na beira da escada brigando. Selena tentou acertar um soco em Jack que desviou e deu uma rasteira, Selena caiu em cima dele e os dois rolaram escada abaixo.

Posso ver como a harmonia reina nessa casa. Ainda bem que já vi de tudo nessa vida. Na verdade não. Nunca vi uma foca com uma bolinha equilibrada no focinho. Eu queria ver isso.

Uma pequena caixa caiu do bolso de Selena, e do sofá deu para ver que era uma caixa de cigarros.

Ora, ora, a lobinha fuma. Excelente partido que o Nicho foi arranjar. Ela catou rapidamente a caixa, mas não antes de Nicho avistar. Porém acho que ele não percebeu que era de cigarros. E tampouco se importou com o fato de Jack e Selena estarem se engalfinhando no pé da escada. Então isso é normal? Okay. Jack direcionou um olhar de aviso para Selena que o ignorou e voltou para onde quer que seja seu quarto.

Cerca de uma hora depois Selena desceu, agora usando um moletom largo com um grande unicórnio na frente e um short branco.

— E aí, gente? – Ela disse sorrindo – Reddie, você gosta de marshmello no seu chocolate quente?

Chega deu um arrepio. Foco no fitness, Reddie. Doces são proibidos. Foco nisso.

— Eu não como doces. – Falei convicta após respirar fundo e Nicho me olhou como se eu tivesse virado uma aberração.

Ah, é. Esqueci que essa pessoa me conhece.

— Menina, quem é você? – Ele colocou a mão no peito se fingindo de ofendido – Você sempre foi viciada em doces.

Eu bufei e Ethan e Luna me olharam curiosos. Eu tinha negado todos os doces que eles ofereceram. Aqui não seria diferente.

O problema era Nicho que sabe o quanto eu amo doces.

— Nicho, cala essa boca pelo amor de Deus.

— Que nada, você come mais doce do que eu.

— Sério? – Selena arregalou os olhos – Pensei que ninguém superava o diabético aqui.

— Eu parei, tá?

— Parou nada, garota. – Ele foi até a cozinha e pegou um pote de doce de leite, fuzilei ele com o olhar. – Bora, dá uma colherada. Eu sei que é seu favorito.

— Não como doces, Nicho.

Pelo amor de Deus alguém tira esse pote de perto de mim antes que eu vire uma doente mental.

— Não me obrigue a pegar pesado.

— E tu já não tá? Tira esse pote de perto de mim!

Ele pegou um monte de jujubas e jogou no pote. Engoli em seco.

— Isso é pegar pesado.

— Nicho, demorou muito pra eu perder esse vício.

— Sinto lhe dizer que aqui 80% de sua alimentação serão doces.

Eu desviava o olhar daquela oitava maravilha com um esforço do caralho, mas Nicho me estendeu uma jujuba com doce de leite.

— Vamos...

— Só essa – Estreitei o olhar e comi a jujuba.

Como devem imaginar, assim que eu comi, meus neurônios começaram a trabalhar mais rápido e eu senti aquela sensação maravilhosa de entorpecimento.

— Me dá esse pote aqui. – Arranquei o pote das mãos de Nicho que deu risada e Selena sorriu.

O mundo estava ficando mais colorido a cada colherada.

Quê que eu fiz?

— Vai querer marshmello?

— Moça, eu amo qualquer doce. Fica a vontade. – Suspirei de olhos fechados.

Já sinto a diabetes chegando. Nem reclamei quando Ethan se sentou do meu lado. Só reclamei quando ele tentou roubar uma das minhas jujubas.

— Elas são minhas. Sai.

— Não era você a Srta. Fitness?

— Para com isso que a culpa já tá demais.

Ele tentou me roubar mais uma vez e dei um tapa em sua mão.

— Se quer comida, vai pegar, essa aqui é minha! – Ele revirou os olhos.

— Se eu morrer de fome é culpa sua.

— Não me importo se morrer.

— É, deixou isso bem claro hoje. – Ele bufou e eu demorei um pouco para perceber do que ele falava. Então recordei que enquanto ele estava prestes a morrer eu não fiz absolutamente nada para impedir. Fiquei em silêncio e um bolo se formou na minha garganta.

— Toma. – Estendi meu pote pra ele.

— Por que...?

— Essa é minha forma de dizer que se você morrer, talvez eu me importe. – Ele deu um sorriso – Eu disse talvez. Não preciso encher mais sua bola. Ela já é cheia demais.

Ethan riu e pegou duas jujubas. Espero que elas não façam falta na minha barriga.

Voltei a comer tranquilamente com aquela sensação maravilhosa de paz que tenho ao comer doces que não tinha fazia tempo. É tão bom, cara.

— Desculpa dizer, mas pela sua cara parece que você tá se drogando.

— Me deixa, homem. – Dei de ombros.

— Não dá pra te deixar, crush.

— Sou sua crush agora?

— Sim.

— Puta que pariu, que azar hein. Desculpa cara, tenho relacionamento sério com meu trabalho. – Pisquei pra ele e fui para a cozinha que combinava o estilo rústico da casa com uma decoração mais moderna.

Selena colocava marshmellos nas xícaras de chocolate quente. Mas na verdade comia a maioria. Me sentei numa cadeira.

— Eu quero te matar. – Falei e ela levantou o olhar calmamente – Mas não sou burra de te atacar sem saber o que você é.

— Então é inteligente. Boa sorte em tentar me matar. Acredite, isso é bem difícil.

— Eu já sei que um cano de moto não te mata.

— Isso aí. – Ela me estendeu uma xícara de chocolate fumegante e eu agradeci ao sentir o calor atravessar meu corpo ao tomar um gole. – Sobra agora um milhão de outras armas.

— Verdade. Mas também sei que Nicho confia em você. E eu confio em Nicho.

— Então confia em mim? – Ela arqueou uma sobrancelha.

— Não. Estou disposta a saber mais sobre você. É só.

— Okay – Ela tomou sua xícara. – Também quero saber mais sobre você. Sei que é uma boa lutadora. E que é uma caçadora de monstros.

— Não precisa saber de mais nada. — Estreitei o olhar e ela sorriu.

— Que tal começar com você tirando essas lentes?

Dei uma risada pelo nariz e fui ao banheiro, guardei as lentes numa caixinha e voltei para a cozinha onde Selena agora comia um salgadinho. Acho que ela tem uma lombriga na barriga.

Wow, olha quem fala.

— Mano! Que genial, seus olhos são vermelhos, que divo, me dá? Sério, você é tão fofa, posso te guardar num potinho?

— Não me chame de fofa. – Franzi o cenho.

— Vai ficar aqui quanto tempo? Uma ou duas semanas?

Eu não sei porque esse povo gosta tanto de hóspedes.

— Três dias.

— Só? Que triste. Os seus amigos parecem legais. – Ela deu uma olhada pela moldura da cozinha e Ethan conversava com Rafa, Luna com Bryan e Aaron e Jack com Nicho. Pareciam estar se dando bem.

Menos Ethan e Nicho que por vezes olhavam feio um pro outro.

— É. Mas eu realmente não sou do tipo que anda em grupo, Selena.

— Me chama de Sel, Selena parece que tá me dando uma bronca – Ela deu de ombros.

Olhando de perto, agora dava para ver as pequenas sardas em seu nariz e bochechas. Jack se aproximou de Luna que gesticulava enquanto falava do seu amor pela saga Senhor dos anéis.

— Sabe, você não é a capital de Roraima, mas é uma boa vista.

Mas que desgraça.

Luna ficou processando por uns bons tempos, e aí bateu com uma mão na testa.

Selena começou a rir tanto que caiu no chão com as mãos na barriga parecendo uma hiena com dor de estômago. Ethan e Bryan praticamente secaram Jack com o olhar.

Onde que eu tô? Por que eu não estou no meu trailer?

— Meu Deus, me ajuda! Eu não tô bem, socorro! – Sel gargalhava sem parar – Você não tinha usado essa semana passada com uma garçonete.

Jack mandou um olhar do tipo “Não tenta estragar meus esquemas mulher”. Selena voltou a se sentar no sofá e passou os braços ao redor dos pescoços de Ethan e Bryan e começou a conversar com eles. Nicho se levantou e foi até a cozinha onde me olhou parecendo meio nostálgico.

— O que aconteceu com você? – Ele perguntou.

E eu quis chorar. Somente de pensar em tentar falar aquilo de fato fazia um bolo surgir na minha garganta. Apenas tomei mais um gole do meu chocolate já não tão quente.

— Eu não quero falar disso – Minha voz saiu firme, para minha surpresa.

— Sabe que pode contar comigo. – Ele me abraçou fortemente.

Eu tinha tanto medo de me aproximar de alguém de novo. Não conseguia ser egoísta a ponto de pensar somente na minha felicidade e ver novamente pessoas se machucarem por minha causa. Se Nicho sofrer um arranhão, eu sei que a culpa que carrego será pesada ao dobro.

— Falar com você de novo já é alguma coisa. – Sorri.

— Tenta me explicar o básico – Nos sentamos nas cadeiras ao lado da bancada de mármore branco.

— Eu... – Tentei começar de alguma forma, mas as palavras não saíam, sabia que precisava apenas de um aperto no gatilho para jorrar tudo, mas eu não conseguia apertar esse gatilho. – Eu não consigo.

Pra quê falar dos meus problemas para Nicho? Ele ainda tinha, ao contrário de mim, aquele brilho nos seus pequenos olhos. E eu tenho motivos pra não conseguir falar. Como se diz “Hey, cara, todos que eu amo foram mortos pelo alfa do lobisomem, é só isso que tá me chateando mesmo, inclusive não quero que você tenha o mesmo fim”. É meio difícil falar isso, sabiam?

— Você sabe que eu sei me virar, Yamazaki. Estou bem.

Talvez “estou bem” seja uma das maiores mentiras da humanidade. Nicho suspirou, não parecia tão disposto a desistir de me fazer falar, mas compreendeu que eu não queria falar disso.

Ele somente roubou meu chocolate quente e tomou tudo num só gole.

— Então né, isso era meu.

— Tá dentro do meu estômago, se quiser esperar...

— Pode ficar.

Minutos depois todos estavam reunidos na sala, assistindo tranquilamente Gotham na Netflix. Sel comia os biscoitos na mesinha de centro, até que seus olhos se arregalaram e ela sorriu.

— Ei, vamos jogar! Eu quero jogar.

— Vamos jogar, Just Dance, querida! – Aaron falou e os dois começaram a gritas com os braços pra cima.

Caramba, eu tô entrando numa bad do caralho. Me lembrei que aprendi a dançar só pra ganhar de Guilherme e Lisa no Just Dance. É graça isso agora? Tô parecendo aqueles emos.

Eu estava agarrada numa almofada com cara de cu enquanto eles gritavam. Povo barulhento. Selena foi programando na televisão.

— Quem quer jogar?

— Não, valeu. – Eu e Bryan falamos em uníssono, mas o resto quis jogar.

Sei dançar bem pra caramba, porém a preguiça domina meu corpo.

— Nha, a Red é um desastre dançando. – Nicho disse.

— Nunca me viu dançando. E eu tô com preguiça.

— Exato. Estou te desafiando.

— Isto aqui – Levantei o dedo do meio – Pro seu desafio.

— Que grosseria.

— Não viu nada... – Ethan murmurou.

Aaron e Selena foram primeiro, mas Aaron parecia tão sedentário quanto Bryan (Que por sinal estava com a cara enfiada no sofá) e Sel acabou ganhando.

— Fiquei com mais pontos que você, seu otário! – Selena berrou apontando para Aaron que ria ao mesmo tempo que apoiava suas mãos nos seus joelhos e ofegava.

Eles ficaram alternando as duplas e eu nem sei quem ganhou, porque estava entretida brincando num joguinho que eu tinha baixado no celular. Só me dei conta da realidade quando Selena gritou.

— Meu Deus do céu, Cristo Nazareno! Já são três da manhã! JACK! A programação! Acordar cedo! – Jack tomou um susto e de repente assumiu a pose de um militar.

— Programação, acordar cedo, entendi! Já tá com as coisas na mochila? E as máscaras? Selena pega as coisas, pelo amor!

— Pega as coisas, boy! Pega as máscaras que eu pego o resto – Eles começaram a correr pela casa – As máscaras estão no meu guarda roupa!

— Girl, as outras coisas estão no meu guarda roupa!

Só pra tranqüilizar vocês, eu também não tô entendendo merda nenhuma. Então vamos ficar aqui de boas, boiando.

— Boy! Pega minha mochila de arco-íris.

— Toma! – Ele jogou a mochila. – Tá tudo na caixa térmica – Sel estava pegando uma caixa e colocando na mochila junto com umas pistolas de água.

— Dormir agora! Todo mundo indo dormir, querem biscoitos? – Eles negaram e os amigos de Selena fizeram uma fila.

Sel deu um beijo na bochecha de cada um e Nicho exigiu dois, o terceiro foi negado aos risos. Ela olhou para Ethan e Bryan e sorriu.

— Ah, vem cá, eu sei que vocês querem – Ela os abraçou e deu um beijo no rosto de cada um. – Se virem lá com os meninos pra dormir com eles.

— E a gente? – Luna perguntou.

— Vocês vão dormir comigo, querem pijama emprestado?

— Eu queria saber se você tem um de panda...

— Awn que fofa, claro que eu tenho, lá em cima te empresto.

— Não e, só perguntando, vocês não são do tipo que sonham com maratonas, certo? – Perguntei arqueando uma sobrancelha.

Elas riram e acenaram que não com a cabeça. Hey, se vou dormir com duas garotas, tenho que saber se vou conseguir dormir mesmo. Subimos para o quarto de Selena, que tinha uma cama de casal com a roupa de cama de Star Wars, a iluminação era azul por causa do pisca-pisca, seus móveis eram brancos e as paredes azul turquesa.

Acho que a cor favorita dela é azul... Só um palpite.

Luna vestiu um pijama com capuz de panda emprestado pela Sel. Eu fiquei com a roupa que estava mesmo. Selena colocou um pijama da mulher maravilha.

Desejamos boa noite e deitamos na cama. Eu não queria ter pesadelos. Se tivesse, Selena e Luna iriam perceber e eu não queria isso. Implorei para ter um sono tranquilo, mas não fui atendida.

— Ora, ora, quem são seus amiguinhos, Reddie? Vai matar eles também?

— Eu não matei ninguém. – Falei de cabeça baixa, minhas mãos fechadas em punho.

— Ah, matou... Nós somos a prova disso. Queria poder avisar as garotas que estão dormindo com o perigo.

Rangi os dentes, tentando conter a ardência nos meus olhos. Nunca me acostumaria com o cadáver de Guilherme acabando com minha sanidade a cada vez que dormia.

— O de olhos azuis é sua próxima vítima? Ele gosta de você. Também gostávamos e olha onde fomos parar. – A cabeça de Anne falava mesmo com sua boca costurada, o sangue vazando dos pontos e os olhos opacos e vidrados – Será que esse vai ser decapitado também?

— Cale a boca.

— Isso é jeito de falar com nossa mãe? – Disse Jacob, metade do seu peito dilacerado e corroído pelo ácido – Você sabe que ela tem razão. Sabe que todos nós temos razão.

— Também sei que não são vocês de verdade. Os verdadeiros sabem que eu teria dado minha vida por vocês.

— Você não soube nos proteger. Dizia que nos amava e agora estamos todos mortos – Lisa gritou, um vazio onde deveria estar seu coração, dava para ver os ossos em seu interior. – Você não vai conseguir proteger eles também.

Eu saí correndo pelo mesmo corredor, tossindo por causa do odor da podridão. Queria chorar, mas por quê? Era talvez o milionésimo pesadelo. Talvez seja por que agora eu me lembrava do risco que estava oferecendo ao me aproximar de tantas pessoas.

Será que agora mesmo um monstro espreita Nicho, na chance de matá-lo da forma mais dolorosa possível? Ou Luna, Bryan ou até mesmo Ethan? Tudo para me atingir? Tudo por que sou uma Hunter? Senti um aperto no peito e de repente chego a sala onde novamente sou cercada pelos mortos-vivos, se revolvendo numa multidão e discutindo em grunhidos quem iria se vingar de mim primeiro.

Um grito se entala na minha garganta quando mãos gélidas e ossudas me agarram pelos braços. Meus olhos se fecham e minha mente apenas foca no desejo de acordar, mas eu sabia que não iria acontecer naquele momento.

— Reddie! Hey, acorda, moça.

Meus olhos se abrem rapidamente e percebo que estou de volta ao quarto de Selena, a mesma em cima de mim, me olhando confusa.

— Você estava gritando.

— Eu... Eu só tive um sonho ruim. – Murmurei e deixei soltar um suspiro, me virei, minhas costas estavam molhadas de suor.

— Entendo – Selena mordeu o lábio fazendo uma careta e voltou pro seu lugar na cama.

Eu tinha me preocupado que elas poderiam atrapalhar meu sono, mas fui eu quem atrapalhei o delas. Como se eu tivesse tido um único sono tranquilo em tantos anos. Fechei os olhos, e adormeci quando meu coração parou de bater acelerado no peito.

Não houve tempo para mais pesadelos. Antes que eu percebesse, Selena me sacudia levemente. Mantive os olhos fechados na esperança de que fosse mais um pesadelo.