“Um homem deve buscar seu próprio destino”.

”Nenhum homem deve viver à sombra de alguém”.

Os pensamentos tomavam conta de Airon naquela tarde ensolarada. Era a voz de seu pai dizendo aquelas frases. Seu próprio pai, a pessoa quem lhe criou, parecia dizer que seu lugar não era ali. E Airon entendeu que aquele seria o momento de buscar sua própria história, quando ele completara 16 anos, idade que, segundo as tradições do vilarejo onde morava, indicava que a criança se tornara homem e devia arcar com todos os direitos e deveres de seu novo status. Adotado aos três anos, Airon teve todo o carinho e atenção que tiveram as duas filhas de Beltran e Laila. Foi educado pelo melhor tutor do vilarejo e aos 07 anos sabia ler e escrever a língua comum. Teve também aulas com um bom espadachim, nas quais se destacava, quase sempre derrotando garotos dois ou três anos mais velhos que ele. Beltran nunca procurou esconder que Airon fora adotado, não que pudesse, já que o cabelo vermelho do garoto em nada se parecia com os cacheados negros de suas irmãs. Mas desde que pôde compreender, Airon escutou de seu pai a história de como foi adotado de uma família pobre que morava em um vilarejo longínquo que Beltran visitou enquanto jovem, quando ainda ganhava a vida com suas aventuras. Mais tarde, Lorde Beltran se tornou dono da única estalagem da cidade e o lugar fazia parte da rota do comércio das Terras Centrais. Seu estabelecimento recebia diversos viajantes, o que lhe rendia um bom dinheiro. Airon era curioso e sempre interrogava os viajantes que se hospedavam na estalagem de seu pai. A cada nova história, de um novo lugar, seu coração se enchia de entusiasmo. Queria ele também conhecer todos aqueles lugares e pessoas de que ouvia falar. Ouvia também falar de monstros, heróis, armaduras mágicas, dos vários clãs guerreiros e suas poderosas técnicas; de dragões e bruxas, coisas difíceis de acreditar para as pessoas que viviam naquele pequeno vilarejo, ao norte da cidade livre Artória. Mas não para Airon, ele sonhava com todas aquelas coisas desde que nasceu. Sem dúvida seu desejo mais latente era o de conhecer a própria história: saber de onde veio, quem eram seus pais e que tipo de vida ele teria tido se não tivesse sido adotado por aquele bom homem. Não havia mais por que esperar, Airon estava decidido: logo após sua festa de 16 anos iria pedir que seu pai lhe contasse sobre o local onde o encontrou e pediria também sua permissão para viajar até lá. Sem se dar conta Airon passou a maior parte da tarde sentado em uma pedra envolto em seus pensamentos.

— Já é tarde. Os preparativos para a festa já devem estar no fim, preciso me apresar. Pensou.

Airon desata o nó que prendia as rédias de seu cavalo a uma árvore, monta-o e galopa de volta para casa. Não demorou para que ele pudesse avistar a casa onde morava. Tratava-se de uma bela construção, algo realmente elaborado para a época. Era construída em dois pavimentos: o primeiro um grande salão de construído com pedras cinzentas, onde todas as noites seu pai reunia a família e todos os empregados para o jantar. No segundo, todo feito em madeira cuidadosamente trabalhada ficavam os quartos, um para Beltran e Laila, outro para Lola e Pam e um somente para ele. Airon adorava ter um quarto só para si, não conhecia nenhuma outra criança que tivesse tido o mesmo privilégio. Mas de tudo, o cheiro daquela casa era o que Airon mais gostava. Como aquela região era muito fria, a lareira quase sempre estava acesa. Era como se ele pudesse sentir o cheiro do freixo ainda verde, ardendo lentamente na lareira do hall. Isso o fazia lembrar-se de todos os momentos felizes que passou com sua família naquele salão. A comida sempre farta, as estórias contadas por seu pai, ou por algum ilustre convidado, as risadas das irmãs e sua mãe sempre servindo a todos com aquele sorriso no rosto. Tinham vários empregados, é verdade, mas Laila fazia questão de ela mesma servir a família e os convidados. Essa última imagem foi o suficiente para que Airon rompesse em lágrimas. Estava decido quanto a buscar seu próprio destino e não sabia quando cavalgaria de volta para casa outra vez.

— Onde você esteve? Já está quase tudo pronto e os convidados já estão chegando! Perguntou Lola. Lola era a irmã do meio. Quando adotaram Airon seus pais acreditavam que não poderiam ter filhos, e dois anos mais tarde Lola nasceu. No próximo inverno Lola completaria 11 anos, enquanto a mais nova, Pam, havia a pouco completado oito. — É...eu estava...pescando! Respondeu Airon, num tom que nem mesmo ele se convenceu do que disse.

— Sei. Mas onde estão os peixes?

Embaraçado, Airon pensava numa resposta quando Lola se adiantou.

— É melhor você correr e se aprontar. Eu falo com a mamãe que você chegou faz tempo e que estava ajudando a carregar as coisas para o salão. Mas só porque hoje é seu aniversário!

—Como uma garota de 10 anos pode ser tão mais experta que eu? Pensou Airon.

—Obrigado, Lola! Airon agradece, dá um beijo na irmã e sobe apressado para seu quarto. Ele entra em seu quarto e fecha a porta. A maior parte de sua bagagem estava arrumada, já havia dois dias que tomara aquela difícil decisão. De fato, não levaria muita coisa: sua cota de malha – feita sob medida por um dos melhores ferreiros da região – e a Espada Bastarda. Ironicamente, foi a arma com que Airon melhor se adaptou, a espada de “mão e meia”, conhecida assim por não se encaixar no grupo das espadas longas, de duas mãos, nem no grupo das espadas curtas. No entanto, sua forma híbrida permitia que fosse usada das duas formas, sendo possível empunhá-la junto com um escudo, o que acabava sendo uma vantagem. Além de seu equipamento pessoal levaria apenas algumas roupas, provisões e moedas, era tudo o que ele precisava. A noite era de Lua Nova, mas a propriedade de seu pai era bem iluminada. As estradas tinham lampiões por todos os lados e os empregados ascendiam alguns logo que escurecia. Como aquela era uma noite especial, todos estavam acesos, o que tornava o lugar ainda mais bonito. De longe era possível ouvir a música e a conversa vindas do grande salão. A fumaça da lareira fumegava até o céu. Era o clima perfeito para uma despedida. Entrando pela porta do salão Airon ouve o grito de Lola, sua irmã mais nova. — Ele chegou, ele chegou!!! Lola era uma criança fantástica. Dona de uma eloquência fora do comum para sua idade, ela conseguia prender atenção dos adultos por horas. Era realmente difícil não se calar quando ela começava a contar as longas estórias de suas bonecas e bonecos, todos com nomes de reis, rainhas e heróis de Rapsódia. Ao grito da menina todos no salão voltaram seus olhos para o portão e de pé, aplaudiram a entrada de Airon. Entrando lentamente, ele sorria para os convidados e podia ouvir algumas pessoas dizerem que ele havia crescido e se tornara um homem. Escolheu para a ocasião sua melhor roupa, uma Túnica púrpura e carmesim.

Enquanto caminhava Airon sentiu como se o tempo estivesse correndo muito devagar, foi capaz de deslizar seu olhar por cada rosto presente naquele salão. Estavam ali todos os funcionários de seu pai, inclusive Borodan, quem considerava como um irmão por tantas aventuras que viveram juntos. Também vieram os irmãos de sua mãe, Thamides e Ergaton, suas esposas e todos seus dezenove filhos. Seu pai não tinha irmãos, mas sua prima Bernisse havia vindo para representar a família, e fez longa viagem, pois morava na cidade livre de Kal’ A’ Jam, numa das cidades mais ao sul do continente menor. Em seguida suas irmãs, Lola e Pam, filhas do mesmo pai e mãe, criadas sob o mesmo teto, mas com características completamente diferentes: Pam era tímida e quase não falava, sempre preferiu a companhia de seus livros a qualquer outra; já Lola não parava de falar por nada, Airon perdeu a conta de quantas vezes ouviu a mãe gritando para que ela se calasse. Ao lado delas sua mãe, tão jovem e ao mesmo tempo tão sábia, Airon sempre se impressionou com o modo com que Laila resolvia questões consideradas difíceis por seu pai, principalmente no campo da diplomacia, de maneira simples e sem alarde. Talvez fosse seu carisma cativante, seu riso fácil, ele não sabia, mas era mesmo difícil resistir a qualquer pedido que viesse dela. E, finalmente, lá estava ele, o homem a quem Airon devia tudo aquilo, seu pai, Lorde Beltran. Quando pequeno Airon achava que o pai era o mais alto e o mais forte homem de toda Rapsódia. De fato, Beltran era um homem imponente, de ombros largos, seu rosto quadrado e seu queixo duro se faziam ameaçadores. Mas em estatura Airon havia superado o pai aos treze anos. O cabelo de fios negros ficara escasso com o tempo, mas a barba abundante cumpria muito bem seu papel. Noutros tempos Airon imaginava que muitas pessoas deviam temer o rosto do jovem Beltran, mas para ele aquele semblante sério era somente uma máscara que escondia o homem sempre disposto a brincar com os filhos, a lhes contar estórias, ensinar-lhes a cavalgar, entre tantas outras coisas. Airon senta-se ao lado do pai, quem coloca o braço sobre seus ombros.

— Aproveite a festa meu filho, a partir de agora você é um homem! A música e o cheiro da carne de javali ardendo preenchem o salão.

— Elas se empenharam muito, tudo está perfeito. Diz Airon ao pai.

A celebração é animada, e todos se divertem. A bebida farta, a música e a alegria dos convidados conseguem, por pouco, desviar os pensamentos de Airon da decisão que havia tomado. Ele se deixa levar e aproveita a festa que foi feita para ele e marcaria o início de uma nova etapa de sua vida. Aos poucos o salão se esvazia. Airon serve-se de uma bebida forte e, já meio tonto, sai do salão. O vento frio rapidamente chega a seu rosto. Ele dá um gole. A bebida é quente. Ele fecha os olhos e sente seu peito se aquecer lentamente. Então uma mão pesada lhe cai sobre os ombros. Ele não precisa abrir os olhos para saber que é a mão do pai. Os dois permanecem em silêncio por alguns instantes, até que a voz de Beltran sai quase que num suspiro.

— Você é um bom garoto, Airon. Sei que anda angustiado com tantas dúvidas, mas teme nos ofender com suas perguntas. Mas desde que o encontrei soube que um dia esse momento chegaria. Pergunte o que quiser e eu responderei com sinceridade.

— Pai, desde pequeno escuto o senhor dizer que nenhum homem deve viver à sombra de alguém e que todo homem deve ir em busca do próprio destino. E eu sei tão pouco sobre minha origem... Beltran respira fundo e se afasta do filho. Sua face se endurece. — Você cresceu, Airon. Lembro-me como se fosse ontem do momento em que te encontrei. A única criança em meio a tantos adultos e seu olhar era firme, não demonstrava medo algum. E desde então tenho me preparado para o momento em que deveria ter essa conversa com você. Como você bem sabe, sua mãe e eu em vão tentamos por anos ter um filho antes de te conhecer. E acreditávamos naquela época que isso não seria mais possível. Durante uma de minhas viagens visitei um povoado próximo à cidade livre de Kallaham e foi onde te encontrei. Airon nada dizia, mas seus olhos mostravam desapontamento. Ele conhecia aquela história de cor, não era o que espera ouvir de seu pai. Beltran parece tomar fôlego e continua.

— O que você não sabe meu filho, é que aquela era uma caravana de escravos. Você estava sendo vendido juntamente com outros vários escravos, mas você era a única criança.

A notícia cai como uma pedra sobre a cabeça entorpecida de Airon.

—Escravo? Eu era um escravo?

Beltran continua.

—Então pedi a meu grupo que parasse por um momento. Fui até o mercador e perguntei onde ele o havia encontrado. Ele me disse que um ancião o abordou pelo caminho, próximo às Terras Centrais, e perguntou se sua caravana já estava partindo e se iria para longe. Como respondeu que sim, ele o entregou ao mercador gratuitamente e disse que você era órfão de pai e mãe e que ele era velho e não teria mais energia para cuidar de uma criança. Naquele momento eu soube que o queria como meu filho e paguei cento e trinta moedas por você.

— Então eu sou um escravo e valho cento e trinta moedas!

Ainda confuso Airon processa tudo o que ouviu.

— Meu filho, você está acostumado com a fertilidade de nossos campos e a bondade de nossa gente. Mas nós vivemos em um vilarejo afastado e quase esquecido. Lá fora o mundo é bem diferente. As pessoas passam fome e tem de matar para sobreviver. O olhar de Beltran fica frio de repente, como se lembrasse de muita coisa.

Aquela revelação deixou Airon aturdido, mas ao mesmo tempo atiçou ainda mais sua vontade de descobrir sua origem. Airon amava a família que o acolheu, mas secretamente sempre manteve o desejo de conhecer seus verdadeiros pais. Se agora descobriu que os pais morreram há muito tempo, então queria, pelo menos, saber de onde veio e conhecer o lugar onde nasceu.

— É isso que eu quero descobrir, pai. Quero ver o mundo com meus próprios olhos, viver minhas próprias histórias e então voltar para conta-las no Grande Salão.

Os dois se abraçam.

— Você tem minha bênção, filho! Exclama Beltran.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.