As Crônicas de Guerra de Alastírr
1 O Discurso
— Majestade. — Uma sanärim chegou ao lado de Zyria, curvando-se sobre a barriga e ajoelhando em uma perna.
— Pois não? — Zyria interrompeu a caminhada ao lado de suas guardas, virando-se para encará-la. Pelo diadema que carregava na cabeça, a sanärim era uma das sentinelas do vilarejo.
— Houve retorno no contato com a tribo ao norte. A líder delas a espera nas raízes.
Zyria olhou para as guardas ao seu lado e acenou com a cabeça. Em movimentos rápidos da cauda, ela deu meia-volta e começou a nadar para as Raízes Submersas, nas profundezas do lago. Os olhares a acompanhavam pela vila, como se as habitantes conseguissem sentir a tensão fluir pela água, invisível e contagiante. E talvez fosse mesmo. A informação que havia chegado ainda pela manhã, de que o último Begolkinkan do Leste estava sendo transportado era a melhor desde o começo da guerra. Com o exército da Begol Muntak fragilizado após perderem a batalha, não teria como a escolta ser muito grande, e o coração era o que elas precisavam para um suprimento de mana poderoso, confiável e infinito. Além de que havia um único caminho até a tribo do Norte, a Planície de Eustak, entre o Pântano do Regresso e o Nevoeiro Sombrio. A não ser que eles arriscassem caminhar pelas águas lamacentas do pântano. De qualquer forma, Zyria iria assegurar ambas as rotas.
As Raízes ficavam numa das partes mais profundas do lago, uma pequena caverna submersa com os rizomas expostos, seguindo por dentro da terra até sabe-se lá onde. Tudo que sabia era que conseguia se comunicar com a tribo Sanärim ao norte. No pé das raízes, duas outras Sanärim aguardavam, uma sentinela e a guardiã, ambas se curvando à presença de Zyria.
— E então? — Zyria perguntou, pairando em frente as raízes.
— A líder delas a aguarda na comunicação. — A guardiã se curvou, apontando para as raízes.
— Zadria, não é? — Zyria falou mais para si do que para os outros. Ela não gostava muito de situações diplomáticas, mas aquele momento era importantíssimo. Ela se aproximou das raízes, enrolando-as nos pulsos e se concentrou. Sentiu a onda de choque em seu corpo percorrer todo o subterrâneo até a nascente do rio na cadeia de montanhas, onde ficava a outra tribo. — Zadria? — Disse em seu pensamento.
— Estou aqui, Zyria. Vamos direto ao ponto, tudo bem?
— Direto ao ponto então. — A falta de formalidade incomodou um pouco, mas até onde sabia, Zadria era uma líder jovem, até mais do que ela. Havia assumido o posto de sua mãe, Kofrinne, quem Zyria conheceu em pessoa quando mais nova. — O que quer perguntar? — Por outro lado, conversas rápidas e diretas a agradavam, cortando qualquer formalidade diplomática.
— Quão confiável é a informação do Begolkinkan? — O tom indicava certa desconfiança, mas nada que não fosse esperado.
— Confiável o suficiente. — Zyria fez um certo silêncio para ver se a frase surtia efeito. Visto que nada aconteceu, ela prosseguiu. — A informação vem direto das margens na região do vulcão, e a fonte é segura. Posso contar com vocês para assegurarem a rota da planície?
— E o que vocês vão fazer?
— Asseguraremos a rota pelo Pântano do Regresso. — Zyria captou o começo de um espasmo de espanto abafado do outro lado e olhares surpresos daquelas à sua volta. Aquela afirmação deveria ser o suficiente para garantir o apoio total.
— E se conseguirmos o Coração?
— Como assim?
— Se conseguirmos o Coração, o que fazemos com ele?
— Vocês devem guardá-lo na tribo até que eu chegue. — Zyria já estava prevendo onde aquilo iria chegar.
— Não podemos ficar com ele? Afinal, vocês tem a Jóia de Tiamat. Nada mais justo que —
— Não seja tola, Zadria. Nem pense que poderá manter tamanho poder para si. — Zyria mudou de tom, assumindo uma postura mais agressiva. Afinal, ela era a Rainha. — Nós levaremos o Coração até as Turbilhão das Correntes e garantir que a mana seja distribuída para as outras tribos também. Estamos entendidas?
— Sim, Majestade. — As palavras vieram junto de uma engolida em seco, em um tom de voz decrescente.
Zyria não pode deixar de sorrir. Não era a primeira vez que alguma líder tribal queria se destacar, ainda mais a tribo do norte sendo a segunda maior de todas as outras. E por isso ela não podia vacilar. Qualquer artefato de poder e o tênue equilíbrio poderia ser quebrado, e ela não queria entrar em uma guerra interna, não era hora para isso. Assim que se desenrolou das raízes, parou para encarar as sanärins à sua volta com um sorriso cansado no rosto. Era a hora de ir contar à todas sobre a incursão ao Pântano. O dia não estava sendo fácil.
O Pântano era um lugar à ser temido por todos, não somente por elas. Nenhuma raça ousava cruzar as águas escuras e lamacentas, nem com os melhores motivos. Nem mesmo elas que possuíam tamanha afinidade com a água. E aqueles que se dispunham à atravessá-lo nunca mais eram vistos. As histórias sobre o pântano começaram ainda na época de sua mãe, Lívina, que afirmava lá ser o lar dos Lamvort Ancestrais, uma modificação dos seus conterrâneos capazes de manipular Mana Profunda, acessando as próprias veias mágicas do mundo, extraindo poder como o próprio deus da terra, Ælfric. Mas a existência deles nunca sequer foi comprovada e os Elfos nunca se pronunciaram, deixando a dúvida pairar sobre todos.
Toda essa história fazia qualquer um temer chegar perto do local, quanto mais atravessá-lo. Mas se os humanos estavam transportando um Begolkinkan, e sendo ele Malakvek, o mais poderoso de todos, talvez, apenas talvez, eles decidiram arriscar tal rota. E elas precisariam cobrir essa possibilidade. O coração de um Begolkinkan era valioso à esse ponto.
Zyria pairou os olhos mais uma vez sobre a tribo. As casas feitas nas pedras, por entre as grandes algas alimentadas pela mana do lago. As sanärins exibiam suas belas caudas arco-íris naquela imensidão azul cristalina, nadando de forma graciosa e contaminando a água com seu reflexo colorido. Cada vez que ela parava para admirar a beleza de sua raça, ela agradecia à Deusa Tiamat, a criadora de sua raça e divindade soberana das Águas. E era para ela que a rainha pedia forças. Em breve teria que encarar suas guerreiras e anunciar a missão até o pântano, e tinha que fazer de forma que não deixasse dúvidas sobre o sucesso. Nada era mais mortal para uma guerreira quanto à dúvida no campo de batalha. A menor hesitação e nem as escamas que as revestiam seriam suficientes para assegurar-lhes a vida.
Não seria fácil convencê-las à ir até a superfície. Afinal, o mundo exterior poderia estar em guerra, mas ali, dentro daquele lago, era a paz que reinava. E Zyria sabia que ali dentro sua raça estaria segura, pois não havia nenhuma outra capaz de confrontá-las em seu território. A prova viva era os restos de embarcações que agora as serviam de abrigo. Em água elas eram imbatíveis, mas não era isso que estava prestes à acontecer. Apesar de também serem fortes em terra a alta dependência de mana em suas formas bípedes era um ponto de desvantagem. Apenas a transformação de suas caudas em pernas era o suficiente para debilitá-las se não estivessem preparadas, e poucos lugares na superfície forneciam mana como o Rulvik Zaphyrr. E esse era o motivo para elas serem tão odiadas pelas outras raças, a fome por mana.
— Majestade. — Kallya, uma das guardas reais, à chamou atenção. — Desculpe interrompê-la, mas precisamos ir até o Coral fazer o anúncio.
— Claro. — Sob o alerta, Zyria percebeu que ainda estava à poucos metros das Raízes, sem ter se movido. — O anúncio, não é? — Tentou abrir um sorriso mais uma vez, mas seus lábios sequer tinham a força para se curvarem para cima. — Vamos para ele. — Ainda dali olhou para o Coral, a pedra mais alta de todo o lago e onde os discursos oficiais eram feitos.
Zyria passou a nadar seguida de suas duas guardas. A população parava tudo que estavam fazendo para se curvar em sua presença, mas apenas as crianças sorriam. As adultas e mais velhas traziam uma expressão de suspense e dor, como se soubessem a decisão tomada. Ao menos sabiam se tratar de algo importante, já que as Raízes haviam sido usadas. As tribos Sanärim não costumavam se comunicar muito, uma vez a cada ciclo da lua por mera formalidade. Qualquer contato fora dessa data sempre trazia uma notícia que iria mudar o rumo de muitas vidas, e agora não havia sido diferente.
Como rainha e líder, era o dever de Zyria passar tranquilidade para o seu povo, não importando as circunstâncias. Ou foi assim que sua mãe a ensinou, mas o que ela não disse foi como fazer uma boa liderança. Talvez porque não houve tempo, ou talvez porque ela queria que Zyria descobrisse sozinha. Sim, parando para pensar, a última opção era mais provável. Mas agora não era hora para saudosismo, era hora de dar mais um grande passo na história das Iguisun Sanärim, assim como sua mãe e sua avó fizeram, tornando-as quem são hoje, temidas e respeitadas. Então Zyria respirou fundo, abrindo ao máximo as guelras na sua cintura, e forçou seu melhor e mais simpático sorriso, acenando para quem passasse. Notou também as escamas de sua cauda irem para o azul-lazúli, reconhecida como a cor da liderança, de quem está certo de sua decisão.
— Majestade... — Kallya recomeçou.
— Eu sei, o discurso. — Zyria olhou mais uma vez para o Coral. — Chega de enrolação.
— Na verdade, ia perguntar quanto ao conselho.
Zyria a fitou, levantando uma sobrancelha e depois arregalando os olhos. Tinha esquecido do conselho por um instante. Como Rainha ela poderia tomar qualquer decisão sozinha, mas não era nem um pouco inteligente passar por cima do conselho. — Não há tempo para convocá-lo, mesmo uma reunião de emergência. — Cerrou os olhos para tirar qualquer dúvida da subordinada. — Cada raio de sol que se passa é menos uma chance de os encontrarmos, não podemos desperdiçar tempo. — E se virou na direção do Coral. O conselho ia ter que engolir essa decisão.
Zyria respirou fundo mais uma vez e olhou para frente. Todas as guerreiras estavam reunidas ali, nas primeiras fileiras. As cidadãs comuns estavam mais afastadas, algumas como se se escondessem nas rochas, dando a impressão de que caso não conseguissem ouvir o comunicado, nada iria mudar. O conselho chegava apressado, dando a volta para também subir no coral e Zyria sentiu um frio subir-lhe a barriga.
— O que está acontecendo aqui? Qual a urgência do comunicado? — Merida, a mais antiga das conselheiras se aproximou com rapidez, apesar de sua idade. Ela estava com uma sobrancelha erguida e segurava seu cajado escamado à frente.
— Logo vocês saberão, assim como todas as outras. — Zyria lançou um olhar rápido, verificando a presença das outras duas conselheiras e voltou a encarar a multidão.
— Que falta de respeito! Sua mãe nunca tomaria uma decisão sem antes nos consultar. Espero que não seja nada imprudente.
Zyria ignorou, se aproximando ainda mais da beirada. — Olá minhas queridas Sanärins! Como sabem, o mundo lá fora está em uma grande guerra. Uma guerra que nos abstemos até agora, permanecendo seguras dentro de nossas águas. — Notou algumas escamas serem contaminadas por um leve tom de laranja nas guerreiras, talvez ansiedade. Outras mudaram para tons de verde, demonstrando preocupação. — Como algumas de vocês devem ter ouvido, a Begol Muntak do Leste perdeu a batalha contra os anões e chegou a notícia de que... — Fez uma pausa, tentando aumentar a tensão. — De que eles estão transportando Malakvek até a tribo do norte.
Houve alguns gritos de surpresa, mas nenhum tão chocante quanto o som esquisito feito por Merida. Ela parecia tentar falar algo, mas a evidente surpresa a impedia de completar a primeira palavra, repetindo as sílabas iniciais.
— Sei o que vocês devem estar pensando. — Zyria continuou. — Não podemos deixar essa oportunidade passar. E digo que não iremos! — Ela apontou para a direção das Raízes. — Já entrei em contato com Zadria ao norte e ela se comprometeu à procurar e monitorar as vias da Planície de Eustak. — Algumas guerreiras balançaram a cabeça e fizeram um coro de comemoração, mas o silêncio de outras foi mortal e contagiante, como se adivinhassem o que viria a seguir. — Restando para nós vigiarmos o Pântano do Regresso.
— Você não ousou... — Merida resmungou atrás. — Lá é território proibido!
Merida não era a única. Diversas ninfas por entre a multidão começaram a conversar entre si e os semblantes murcharam. As escamas mudaram para tons de amarelo e verde enquanto as guerreiras que haviam erguido o braço agora os abaixava devagar se entreolhando, a ponta de suas armas indo de encontro ao chão. O Pântano havia sido declarado um local proibido ainda no governo da mãe de Zyria. Ninguém no governo atual alegava saber o motivo por detrás da proibição, ainda mais numa época de paz, quando os humanos serviam ao seu propósito e monitoravam todas as raças inteligentes em Alastírr. Os boatos sobre os Lamvorts Anciões sempre existiram e apesar de serem a resposta mais provável, nunca nada foi confirmado.
— Não vou nem citar a possibilidade dos Lamvort, mas como você pretende passar pela Iguisun Muntak? — Merida girou Zyria pelos ombros, de forma a forçar contato visual. — Eles ainda estão nos vigiando.
— Eu sei. — Zyria retirou as mãos da anciã de seu corpo, olhando-a serena. A Iguisun Muntak era a Tribo Humana da Água, responsável por monitorar as atividades de todas as Sanärins. Eles não ficavam tão distantes das tribos e sempre possuíam rondas ativas. Junto com a Ribukin Muntak, a tribo do Ar, eram as duas tribos que haviam permanecido um tanto quanto imparciais quando a guerra eclodiu. Não seria fácil passar por ela. Os humanos eram abençoados, e a decisão dos Deuses de tirar-lhes a capacidade mágica não afetou aqueles que já a tinham. Era a única raça até então capaz de usar o poder de todas as divindades, os escolhidos para manter a paz. E por mais que toda a raça tivesse caído na mundaneidade, houveram aqueles que permaneceram fiéis aos seus deveres. Zyria preferia não ter de enfrentá-los, ou sofreria baixas desnecessárias. Sua mãe sempre a alertou para manter uma relação amistosa com a Tribo da Água.
— Sei o que vocês devem estar pensando! — Zyria berrou, voltando a encarar a multidão e calando à todas. Merida ainda falou algo, ignorada. — Mas nada implica que teremos que adentrar o Pântano. — Prescisava transmitir tranquilidade e confiança à todo custo. — Tudo que precisamos fazer é vigiar seu perímetro. Mas para isso precisamos nos afastar ainda mais de nosso lar, de nosso lago. Passar pela Iguisun Muntak e adentrar no território dos Elfos e da Lamin Muntak. São terras longínquas e hostis, ainda mais em tempos de guerra. Por isso preciso de vocês, guerreiras. — Algumas levantaram os braços, gritando em um coro de encorajamento. — Tiamat nos fez a raça mais forte. Ninguém é capaz de nos derrotar em água, e vamos mostrar que somos tão letais em terra também!
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