As Crônicas de Gelo e Ferro
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Ao ver o corpo do irmão, Mereena rapidamente começou a chorar. Suas pernas estavam em um ângulo estranho, e a jovem não vi quaisquer sinais de respiração em seu peito magro.
— Bran! Bran, não, por favor! Não morra – Abraçou o menor, deixando que as lágrimas molhassem seus cabelos – Bran, você nunca cai! Você nunca cai! Ah, Deuses...Jory! Meistre Luwin! Pai! Por favor, alguém me ajude – A garota estava entrando em desespero. Tinha medo de carregar Bran e feri-lo ainda mais. Um farfalhar começou a ser ouvido por entre a mata. Era Hodor.
— Hodor? – A moça soltou um suspiro de alívio. Alguém a ouvira.
— Hodor! Que bom que você está aqui. Por favor, me ajude a levar Bran para dentro! Cuidado, assim, isso – Ajeitou o irmão nos braços do homem – Vá. Leve-o até minha mãe, eu já encontro vocês – Assim que Hodor se afastou, começou a andar ao redor daquela torre. Não aceitara a hipótese de que Bran havia simplesmente se desequilibrado. Não, não podia ser. Não tinha como. Fora ela mesmo quem ensinara o menino a escalar, e ela nunca caiu sequer uma vez. Bom, descontando algumas vezes em que inventava de subir o muro de Winterfell sozinha. Era Theon quem sempre a pegava quando escorregava. Mas naquele momento, sua cabeça estava repleta de pensamentos; procurava quaisquer sinais de pedras – quem sabe o irmão tivesse pisado em alguma parte desgastada da construção e esta tivesse se soltado? Não. Bran facilmente se agarraria à outra rocha e ficaria à salvo. Foi então que levantou a cabeça, e ao olhar pra cima, ficou boquiaberta: havia uma janela na torre! Será que haveria alguém ali dentro? E se Bran tivesse sido...empurrado? Não, ninguém seria tão cruel assim.
Mereena realmente não conhecia os Lannister.
Algum tempo depois, a Stark montou novamente em seu cavalo e partiu em disparada ao castelo. Havia desistido de fazer a perícia; o que estava feito, estava feito. Agora, precisava cuidar do irmão. Com um leve chute na perna de Floco de Neve, deslizou em direção à casa.
O que a menina não sabia é que lá em cima, na torre, duas cabeças loiras discutiam feito loucas.
— Jaime, tenho certeza que ela nos ouviu! Você tem que dar um jeito nela. Eu lhe imploro, por favor! Se descobrirem...
— Desde quando você se importa com isso, irmãzinha? Nós sempre fodemos. Por que toda essa preocupação agora? – Cersei cruzou os braços, indignada.
— Porque agora, o rei deve morrer. E se desconfiarem da paternidade de Joffrey...todos os meus planos estarão acabados – O Regicida bufou. O que ele não fazia pela “doce” irmãzinha...
— Discutimos isso depois. Agora, que tal aproveitarmos mais um pouco nosso momento à sós? – Ambos se entreolharam e sorriram maliciosamente um para o outro, recomeçando sua diversão.
Quando Mereena chegou aos portões do castelo, tudo parecia enlutado. Temendo o pior, deixou seu cavalo aos cuidados do cavalariço e zarpou até o quarto de Bran. Batendo levemente na porta, entrou, deixando o medo a abraçar mais uma vez.
O irmão estava deitado com os olhos fechados. A jovem precisava se concentrar para ver sua respiração. Ao seu lado, Lady Catelyn se esvaía em lágrimas, segurando na mão do filho. O lobo do garoto – que ele nem teve tempo de nomear – estava encolhido em suas pernas.
— Bran – A voz da menina saiu como um sussurro, acompanhado de gotas de água salgada caindo dos olhos esverdeados. Avançou até a cama e ajoelhando-se, pegou na outra mão do menininho – Você vai ficar bem. Eu prometo.
— Meistre Luwin disse que não sabe quando ele acordará – A mãe tentava se manter firme, mas era uma tarefa quase impossível – Além disso, ele não pode se mexer da cintura para baixo. Ah, Mereena, por que ele? Por que o meu Bran? Meu garotinho...ele sempre quis ser cavaleiro, e agora... – A primogênita Stark abraçou a mãe, que não largou da mão do filho nem por um minuto.
— Ele vai ficar bem, mãe. Tenho certeza que vai.
Mas na verdade, Mereena tinha os mesmos temores que a mãe. Estava arrasada; odiou ver os sonhos do irmão destruídos por uma queda. Sequer sabia se ele iria acordar! Sentia-se culpada; afinal, fora ela que ensinara Bran a escalar. Após um certo tempo, retirou-se dos aposentos e encontrou com o pai pelos corredores. O senhor do Norte trazia um semblante mais sério do que de costume — talvez pelo o que aconteceu com o filho – mas quando seu olhar encontrou o da filha, seus lábios se curvaram num sorriso misterioso. Mereena abriu a boca para dizer algo, mas Ned seguiu seu caminho até o quarto do pequeno, não dizendo nada. A jovem seguiu para o lugar secreto aonde Jon e Arya iam certas vezes. Sentou-se na grama macia e pôs-se a refletir.
Tensa com tudo o que estava acontecendo, nem notou que certa pessoa havia chegado e se abaixado ao seu lado. Theon riu internamente da cara da menina.
— Pensando na vida? – Mereena se assustou e deu um pulo. O Greyjoy riu – Calma, sou só eu. Soube de Bran – A Stark mudou as feições ao ouvir aquilo e o rapaz a abraçou – Oh, Meri! Não chore! Ele vai ficar bem, eu tenho certeza. Você precisa se distrair um pouco...venha comigo, tenho uma ideia! – Theon se levantou, puxando a garota junto.
— Suas ideias nunca foram boas. Lembra-se de quando inventou aquela competição de quem comia mais tortinhas de limão? Mamãe queria sua cabeça depois daquilo.
— Assim você me magoa. Pode admitir, aquele dia foi ótimo! E você adorou as 21 tortinhas que comeu! – A jovem o olhou boquiaberta.
— Foram só 20, seu mentiroso! E Sansa comeu 30! Ficou com dor na barriga por uma semana. Eu também – O protegido riu da cara de nojo que a amiga fez. Ele a levou novamente até os estábulos, onde pegou seu cavalo e após ajudar a moça subir, fez o mesmo – Para onde estamos indo?
— Você logo verá.
Atravessaram a floresta da Árvore –Coração. Theon estava atrás de Mereena, e tinha suas mãos transpassando a cintura da menina, que corou com aquele contato. O cheiro de almíscar do rapaz agraciava suas narinas e mesmo longe há muito tempo, ela ainda conseguia sentir um pouco do cheiro de litoral que ele exalava.
Após um certo tempo, chegaram à uma cachoeira, algo muito incomum no Norte. Mereena ficou maravilhada; nunca vira algo semelhante. O jovem estava deliciado com a alegria infantil nos olhos da garota, aquela mesma alegria que ela possuía quando ele chegou à Winterfell e ela o requisitou para suas brincadeiras.
— Theon, isso é maravilhoso! Não sabia que existiam cachoeiras por aqui – Sem esperar ajuda, Meri desceu do cavalo e correu para perto do córrego, molhando as mãos na água cristalina e rindo como uma criança.
— Eu também não. Descobri enquanto andava com o senhor seu pai e achei que fosse gostar daqui. Pelo visto, acertei – O protegido riu. O sorriso de Mereena estava estampado em seu rosto, como um bordado, e ele era lindo – Vem, vamos entrar – A primogênita arregalou os olhos esverdeados.
— Perdeu a noção, Greyjoy? Eu não vou entrar ai! – Theon bufou.
— Qual é, Meri! Eu não acredito que eu te trouxe nesse lugar lindo e você vai me desprezar assim! Vamos logo, ponha só os pés então!
A menina se aproximou do rio e começou a levantar as sedas. Descalçou as botas e abaixou-se um pouco para tocar a água com o pé esquerdo, quando de repente, sentiu alguém a empurrando. Sem saber ao certo o que aconteceu, afundou e rapidamente voltou à superfície. O seu antigo protegido estava prestes a engasgar de tanto rir.
— THEON GREYJOY! Seu imprestável, eu vou te matar! Idiota – Antes que Mereena alcançasse a margem, o rapaz se livrou do gibão e da camisa e pulou no córrego, espirrando uma quantidade absurda de água na menina.
— Você não aguentaria – E mergulhou. A jovem começou a procurá-lo por toda a parte, e chegou até a acreditar na hipótese de que este teria sido levado pela correnteza. Estava quase entrando em desespero quando alguém a puxou para baixo, a fazendo novamente afundar. Quando foi tentar submergir, o rapaz passou o braço em volta de seus joelhos e a carregou – Você não era tão pesada assim. Será que foram as tortinhas de limão? – Theon jogou a cabeça para trás e gargalhou. Novamente, Mereena corou. Na posição em que estava, podia sentir perfeitamente todos os músculos – e que músculos! – do Greyjoy. Sem perceber, a mão que estava indo para o pescoço do rapaz parou em seu tórax – Gostou do que sente? – Foi então que ela se tocou e rapidamente, passou o braço em volta da nuca do homem.
— Me leve pra lá – Disse a jovem, meneando a cabeça para a cachoeira. Theon sorriu mais malicioso do que de costume – O que foi dessa vez, criatura?
— Tudo tem um preço para se obter. Você prefere pagar o preço do ouro ou do ferro? – Mereena o olhou confusa. Se lembrava vagamente dessas expressões, mas não do que significavam – o preço do ouro é quando algo é comprado. Já te disse isso.
— Desculpe, mas me esqueci. E o preço do ferro? – Os olhos do protegido brilharam.
— É quando algo é roubado. E então, qual você prefere? – A Stark rolou os olhos. Theon era um idiota mesmo – Não tenho o dia todo. É melhor você se decidir.
— Me leve pra lá – Repetiu – e eu lhe darei seu pagamento. O rapaz concordou e começou a andar, até chegar à cachoeira. Colocou Mereena em uma pedra e se afastou, entrando na ducha. Sentindo a água fria nos cabelos fechou os olhos e suspirou. O que ele não fazia por aquela garota...
A Stark estava tão indefesa em seus braços que ele poderia carregá-la por horas, só para tê-la por perto. Ele podia escutar seu coração batendo descompassadamente, e sabia que ela também estava ouvindo. Aquilo lhe lembrava a infância deles, quando Mereena escalava as muralhas e se desiquilibrava e quando caía, era ele quem a pegava. Ele adorava a expressão de assustada quando ele a colocava no chão.
Saindo da cachoeira, Mereena sorria misteriosamente para o rapaz.
—Theon? Eu já me decidi quanto ao pagamento – Ela desceu da rocha delicadamente, caminhando até ele com o coração acelerado.
— Você realmente acreditou nisso, Meri? Eu estava brincando – Na verdade, ele não estava.
— Mas eu não – Quando o Greyjoy percebeu, estava com os lábios colados com o da loba.
E de repente, ele se esqueceu de como respirar.
Fale com o autor