As Crônicas da Tempestade
7 Capitulo 6 - Conselho das Nações
Capítulo 6 – Conselho das Nações
Cidade República.
Dalai não conseguia dormir. Devido aos anos que passara na prisão no Reino da Terra dormindo em pilhas de pedras ou no chão duro o deixara mal acostumado. Seria impossível dormir nas camas molengas das suítes do Kalafar feitas sob medido para os filhos dos homens mais ricos de Cidade República. Ele se contorceu nas cobertas, os músculos doíam de fadiga e ainda sentia os flagelos da desnutrição. Toda vez que fechava os olhos os olhos dele estavam sempre a encará-lo opacos e sem vidas.
— Não perca seu tempo atormentando alguém como eu — Dalai murmurou para si mesmo.
As lembranças foram invadindo seus pensamentos sem serem convidadas trazendo consigo as terríveis visões daquele dia, o dia em que sua vida acabou. Lembrava do cheiro do ar perfumado das montanhas, do som dos bisões voadores cortando os céus e das risadas das crianças do Templo do Ar do Oeste, do som dos ossos se quebrando e do sufocar estridente de Mestre Iann...
— Chega! Controle-se Dalai! — só então percebeu que estava gritando para as paredes e voltou a murmurar — Esqueça essa vida. Não há mais como voltar a trás.
Dormir seria impossível, ele concluiu, e se esgueirou para fora da cama, caminhou até a porta e a abriu o suficiente para uma espiadela. A Capitã Lian Fu ainda jazia sentada no corredor na mesma posição de quando o deixara trancafiado mais cedo. Irritado, Dalai fechou novamente a porta e foi até a varanda da sua suíte. Com dois movimentos rápidos apoiou-se na mureta e se ergueu para o telhado.
— Agora entendo por que desses riquinhos gostarem tanto daqui! — Cidade República resplandecia logo abaixo em diferentes tons e nuances de cores diante do portal para o mundo espiritual em um espetáculo noturno secreto. Mais ao longe da costa estendia-se o memorial do Avatar Aang, o fundador da cidade. Uma bela visão de todo o legado que em breve enfrentaria — Estou mesmo pronto para isso, mestre? Lutar com o Avatar? Posso realmente vencer um ser milenar?
Um longo silêncio momentâneo caiu sobre ele:
— É, também não esperava que me respondesse — Dalai murmurou ao vento e voltou para sua cama.
De manhã cedo batidas na porta trouxeram Dalai de volta ao mundo dos vivos. Sem avisos prévios, Lian Fu adentrou o quarto com sua expressão dura de sempre.
— Eu podia estar nu, sabia? — Dalai a disse enquanto se espreguiçava para fora da cama, mas parou quando notou algo de diferente na expressão da moça. — Ei o que houve? Está mais carrancuda do que o de costume.
Ela fechou a expressão:
— O general o quer no Conselho essa tarde.
Dalai franziu o cenho. Isso queria dizer que ele pretendia dar uma demonstração de poder? Isso não iria acabar bem, as outras nações poderiam tomar isso como um insulto. Seja lá o que o bom general estava tramando era uma jogada arriscada.
— Por que ele quer que eu vá? Será que não consegue puxar o saco de alguns velhotes sozinho? — Dalai respondeu se cobrindo novamente.
— Parece que a situação mudou, — Lian Fu continuou — o Avatar também estará na reunião.
Dalai sorriu por baixo das cobertas e se virou para a moça:
— Então ele quer me esfregar na cara dos líderes da Lótus Branca? — o rapaz se levantou jogou a camisa por cima da cabeça e correu para o guarda-roupa — Diga a ele que não perderia esse espetáculo por nada!
Depois de arrumado, ele desceu para o saguão onde Raidou e o primeiro ministro da Terra já tomavam café. Raidou fez sinal para que se sentasse e ele o fez. Mal havia começado a se servir de quando viu a cara dos mais velhos e largou tudo de lado.
— E então chefe, qual é o plano? — Dalai indagou.
— Tivemos algumas complicações devido ao seu "episódio" de ontem — Raidou disse.
— Já sabem que você está aqui — o primeiro ministro completou do outro lado da mesa — Neste exato momento o líder da Lótus, Firion, tenta convencer a Nação do Ar a se juntar a sua causa. Ele os envenena com ódio.
— Ódio? Ódio de que?
— Não de quê, mas de quem. — Raidou emendou
— De mim.
Dalai trincou os dentes. Se não tivesse sido tão estúpido talvez houvesse alguma chance de deter a guerra antes que ela tomasse forma. Mas agora com os Monges do Ar contra eles, o palco da guerra mundial já estava armado e logo seria banhado pelo sangue. Tudo isso por ter sido descuidado e ter deixado as emoções guiarem seus atos, de novo.
— Por isso não poderemos continuar a escondê-lo, então o colocaremos no olho do furacão — Raidou continuou — Precisamos mostrar que não vão nos intimidar.
Dalai esmurrou a mesa, sua sede de sangue voltou a tomar o controle:
— Não ferra comigo! Acham que isso é um jogo? — ele os encarou. Nesse momento os guarda costas ficaram tensos e até mesmo Lian Fu se preparou para o pior. Observando a movimentação Dalai prosseguiu mais cauteloso — Esta é uma guerra de níveis catastróficos que pode terminar na destruição do mundo e vocês querem me pôr na linha de fogo dos Nômades? Isso vai apenas aumentar tensão entre nós e eles.
— O que quer que façamos? Não fazer nada? — Raidou indagou indignado. — Até onde eu sei você nos colocou nessa posição, não se esqueça disso!
— Isso é um erro, general.
Raidou acenou para dois homens da Nação do Fogo e ordenou:
— Levem-no daqui e escoltem-no aos seus aposentos. — E se virando para o rapaz, completou — Espero que não esqueça quem dá as ordens por aqui.
— Não toquem em mim! — Dalai vociferou quando um dos guardas tentou segurá-lo e virou para o general — Estou te avisando que isso vai dar merda, não se meche com um ninho de vespas se não estiver pronto para tomar ferroadas.
E assim voltou para seu quarto puto da vida quarto.
Mais tarde, Dalai encontrou Raidou e o primeiro ministro Huaq aguardando no saguão onde um carro os esperava para levá-los à prefeitura onde seria realizado o conselho. Gotas de chuva caiam suaves no para-brisas do carro, o tempo escurecera e os ventos assobiavam pelas janelas. Uma tempestade estava por vir. Uma multidão se formara em frente do prédio da prefeitura, centenas de pessoas que esperavam ansiosas para descobrirem o desfecho de seus futuros sombrios. Famílias que protestavam contra a guerra com seus rostos pintados de azul pela paz. Dalai se sentia mal por aquelas pessoas tentando impedir o inevitável que estava por vir.
Os seguranças seguraram a multidão para que os três passassem em meio ao caos que os rodeavam. Dalai puxou o capuz verde por cima do rosto e tentou não chamar atenção, odiava multidões, ainda mais depois de passar tanto tempo sozinho, toda aquela gente o enlouquecia.
Lá dentro foram guiados até uma enorme câmara onde outras 13 pessoas já se acomodavam em torno de uma gigantesca mesa oval de carvalho. Dalai pôde reconhecer importantes figurões ali presentes: o presidente de Cidade República Bolin acompanhado pela chefe de polícia Nuami e do vice presidente Dan Lu. Do outro lado da mesa estava o chefe da Tribo da Água do Norte, o famoso Kan das laças congeladas com seus dois discípulos e netos, os irmãos Kamina.
Mas assim que pisou na sala sentiu os olhares de ódio lançados por Yako, o representante da Nação do Ar e substituto de mestre Iann como líder dos monges do Templo do Ar do Oeste. Ele estava acompanhado por dois irmãos que o fuzilavam com os olhos. Mas o que o chamou a atenção fora o homem grisalho sentado ao lado do presidente, sentado como se todos os presentes estivessem sob seu domínio. Ele trajava o comum uniforme da Lótus Branca: túnica branca com a Lótus negra bordada no peito. O homem que roubava a atenção de todos pelo simples fato de existir, o tipo de homem que poderia revolucionar o mundo.
Então ele a notou. Sentada ao lado do comandante da Lótus Branca, meio escondida por trás dos figurões, estava a garota do hotel. Ela o percebeu e pareceu tão confusa quanto ele. Não, ela não pode ser ele, ele descartou a ideia com grande facilidade. Todos tomaram seus lugares e o presidente se adiantou:
— Sejam bem-vindos senhores, — cumprimentou o presidente — Dou como iniciada essa sessão do Conselho das Nações — ele bateu com o martelo na mesa. — Senhores por favor apresentem seus argumentos e a situação em que se encontram, estou certo de que podemos chegar a um consenso.
O primeiro a se manifestar fora mestre Yako.
— A Nação do Ar não fará declarações até que este assassino seja retirado dessa câmara — ele apontou para Dalai sem esconder toda sua repulsa pelo rapaz. — Mande-o de volta a Valu de onde nunca deveria ter saído.
— Não creio que a presença dele seja relevante mestre Yako. Não devemos deixar que questões pessoais turvem nosso julgamento hoje — O general Raidou interveio. — Os assuntos abordados hoje não devem ser encarados no calor do momento.
— Este homem é um assassino e um criminoso! Não se trata de um assunto pessoal, se trata de justiça. — Insistiu o mestre do Ar.
— E ele está sob minha constante custódia — Raidou disse e se inclinou para frente apoiando os cotovelos na mesa — Tenho ordens diretas da Senhora do Fogo para não perdê-lo de vista. Mas se o senhor se acha superior a autoridade de minha Senhora, temo que esteja enganado.
— Pedido negado — o presidente decidiu antes que as coisas saíssem do controle — Continuemos com a reunião. A Nação do Fogo tem a palavra.
Yako bufou de indignação.
— A pouco mais de dois meses nossa inteligência nos tem informado da possível ameaça vinda da Lótus Branca ao governo e a Senhora do Fogo. Uma possível aliança entre a Lótus Branca e a Tribo da Água foi formada com o objetivo de derrubar o governo do Reino da Terra e a Nação do Fogo.
— Vocês negam? — O presidente perguntou aos acusados
— De maneira alguma — Firion respondeu sem pestanejar ou pensar duas vezes — Achamos que já é mais do que a hora de acabamos com o governo corrupto do rei da Terra e devolver o país ao povo! O absolutismo já é um sistema de governo ultrapassado há décadas, está na hora de devolvermos o poder a que ele pertence por direito. Não seremos mais oprimidos por tiranos ditadores.
O presidente se remexeu em sua carteira. Nenhum dos lados parecia querer recuar, não, recuar agora seria sinal de fraqueza.
— Então a Tribo da Água e a Lótus confirmam ter formado uma aliança e empunhado armas contra seus vizinhos?
— Sim, senhor presidente — Kan respondeu decidido — Nós somos os Libertadores, não desistiremos até que haja liberdade para todos os homens e mulheres.
Dalai bufou ansioso. Aqueles velhotes falavam sério sobre começar um combate armado. Será que nada podia saciar seus malditos egos?
— Entendo, — Yako anunciou — Pronuncio agora o alinhamento da Nação do Ar com os Libertadores. Acreditamos que o poder deve ser concebido pelo povo e não por seus opressores;
Dalai sentiu a raiva subir à cabeça. Ele só havia feito isso por sua causa, os Monges do Ar não tomavam partidos em guerras, eram pacifistas. Ou pelo menos eram antes de Yako subir ao poder.
— Isso é um erro! — ele se viu falando sem pensar — Isso vai contra o credo dos Monges do Ar! Isso é contra as tradições!
Yako esmurrou a mesa.
— Quem é você para me falar sobre o credo? Onde estavam suas tradições enquanto o sangue de Iann escorria por suas mãos imundas?
O presidente bateu o martelo à mesa.
— Contenham-se senhores! Ou serei obrigado a de colocá-los para fora.
Firion sorriu de seu lugar.
— Mas é claro que ele é contra a aliança, sabem que serão dizimados no campo de batalha. Todos estão bem cientes de que temos o Avatar do nosso lado — ele disse e gesticulou para Lana.
Todos os olhares se voltaram para a garota. Ela parecia bem nervosa, mas não sucumbia a pressão.
— Isto é certo mestre Firion — ela concordou — o verdadeiro poder só se pode ser dado pelo povo. O estado do meu povo é deplorável e eu farei de tudo para guiá-los para um futuro melhor.
— Mesmo que para isso seja necessário um banho de sangue? — Dalai a interrompeu, já se cansara daqueles joguinhos políticos — Se é assim que o Avatar pensa, eu estou certo de que não terei escolha a não ser enfrentá-la. — Ele fitou da maneira mais selvagem possível — Você deveria liderar seu povo para a paz e não manda-lo para morrer em seu nome. Você é apenas uma criança, eu me recuso a reconhecê-la como o Avatar!
Lana sentiu-se paralisar. Cada palavra a atingia como pedregulhos e doíam dez vezes mais.
— Então está declarada a guerra — Firion se levantou e se postou à frente — Estejam preparados para sentir a dor da justiça, assassino.
Dalai esmurrou a porta da prefeitura e saiu para as escadarias sob a gélida chuva de outono. Queria esmurrar alguém ou alguma coisa, mas isso teria que esperar, antes que pudesse pensar ele sentiu o ar em sua volta esfriar de instante para o outro congelando seu pé esquerdo no degrau de pedra.
— Onde pensa que vai pivete — a voz veio do irmão Kamina mais novo. Ambos os netos de Kan o rodearam por lados opostos — Acha que pode nos insultar assim e escapar?
Dalai sorriu de satisfação. Parece que são tão covardes a ponto de me atacarem às portas do Conselho, ele pensou, querem que minha morte seja um espetáculo para toda essa gente. Dalai chutou sua perna congelada quebrando o gelo e assumiu a posição de luta.
Pelas costas, o outro irmão Kamina o atacou com uma lança congelada. No entanto, Dalai já era um com o vento, sentia as mudanças no ar ao seu redor e estava onde mais gostava. A Tempestade estava vindo. Dalai rodopiou e quebrou a lança com um chute de meia lua e revidou com uma rajada de ar cortante em seu inimigo. Mas Kamina também era um oponente habilidoso, utilizando o gelo, criou uma parede de gelo antes que a rajada pudesse acertá-lo.
Mas nesse instante Dalai investiu com uma rasteira em seu irmãozinho que ao pular não percebera a armadilha do rapaz que em um movimento giratório com os pulsos desferiu um golpe tão avassalador que mesmo a distância se ouviu o som de suas costelas se quebrando, o jovem foi arremessado com violência em um dos pilares da prefeitura rachando-o.
— O que foi? Já acabaram? — Dalai perguntou, finalmente podia extravasar sua raiva.
O Kamina mais velho movimentou a água como novos longos braços ao mesmo tempo congelando suas extremidades tornando-o tão afiadas quanto facas. Então investiu furiosamente em Dalai. O dobrador de ar se esquivou bem dos dois primeiros golpes com esquivas precisas em pêndulo, mas acabou sendo ferido no ombro pelo último golpe. Dalai praguejou e investiu com um chute médio de ar que fora bloqueado e então, deu uma passada pelo lado de seu oponente o castigando com pequenas rajadas cortantes.
Em seguida Kamina cometeu o erro que Dalai esperava. Tentando cobrir o rosto, Kamina abriu uma brecha em suas costas, grande o suficiente para o ataque final de Dalai. O criminoso comprimiu o ar nas palmas e desferiu um golpe poderoso com as duas mãos nas costas de seu inimigo fazendo com que este fosse totalmente nocauteado com o impacto.
Foi então que Dalai se deu conta dos olhares assustados a sua volta, milhares deles na verdade. Eu realmente odeio a política, Dalai praguejou. Sua luta fora transmitida para todo o resto do mundo, câmeras filmavam seu rosto conturbado e fotógrafos tiravam fotos para seus jornais. Inconscientemente, Dalai declarara a guerra mundial. Como pudera ter sido tão cego? Caíra em uma armadilha.
— Quem é você? De onde veio? Que lado representa? — torrentes perguntas lhe foram feitas ao mesmo tempo, perguntas que mal conseguia distinguir em meio à multidão.
— Eu... — Dalai tentou dizer, mas era sufocado pelos flashes de luz e pelos microfones — Ei! Não tire fotos!
Mas antes que Dalai fosse devorado pela imprensa, o foco se voltou para as três figuras que deixavam a prefeitura: Mestre Firion, o líder da Tribo da Água do Norte e entre eles, o Avatar Lana.
— Avatar Lana, Avatar Lana, o que tem a dizer sobre a reunião dessa manhã? — um dos jornalistas perguntou
O Avatar ergueu a cabeça e disse em tom imponente, ou pelo menos tentou.
— Como Avatar eu apoiarei o lado do bem, o lado que garantirá a paz após essa terrível guerra acabar e juntos traremos o equilíbrio mais uma vez. E digo mais uma coisa, como Avatar, não tolerarei uma ofensa como essa em um solo neutro como a prefeitura da Cidade República. A partir deste momento está declarada oficialmente a guerra contra as Nação do Fogo e o Reino da Terra. A Aliança Libertadora não se curvará aos tiranos que se escondem atrás de seus tronos!
E a multidão explodiu em um falatório exaltado em mais um marco da História. Outra guerra decidiria o destino do mundo.
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