As Crônicas Incontáveis de Bane
3 Sussurros sobre uma Tempestade
Notas iniciais
Tanzânia, 2008
Magnus caminhava como se não tivesse outra preocupação no mundo. E talvez ele não tivesse.
Bem... isso não era verdade.
O feiticeiro estava tirando umas férias na Tanzânia, o seu sexto sentido como alguém que vagou por muito tempo lhe dizia que algo terrível estava prestes a acontecer. E, além disso, também tinha seu sonho com torres cheias de ossos, banhos de sangue e o mundo caindo num verdadeiro caos apocalíptico.
Algo terrível realmente estava prestes a acontecer.
Mas por enquanto, Magnus queria curtir suas férias. Em poucos dias ele teria que voltar para Nova York – não que fosse um problema, afinal ele sabia aonde tinha um portal localizado por ali – para ter seu encontro com Jocelyn e Clary Fray.
Magnus balançou a cabeça negativamente. Jocelyn não poderia esconder a verdade de Clary para sempre. A menina logo iria ligar os pontos e seu feitiço não seria tão mais forte já que Clary estava crescendo.
Ele suspirou. Caçadores de Sombras têm tantos problemas...
Magnus decidiu passar outro dia no hotel. Estava um calor muito intenso fora do delicioso ar condicionado do hotel cinco estrelas e Magnus não queria enfrentar tanto calor ou mosquitos.
Ele estava no Hall do hotel tomando um drink gelado observando as pessoas indo e vindo através de seu estiloso óculos de sol. Na piscina, algumas famílias se deliciavam com a água gelada e cristalina, outras pessoas estavam tomando sol e se divertindo conversando.
Magnus terminou seu drink e decidiu voltar para o seu quarto. Ele tinha que se arrumar, afinal iria depois para um evento que foi convidado pelos vampiros da Tanzânia. E o feiticeiro sabia bem que não se recusava um convite das Crianças da Noite.
Depois de ter relaxado num delicioso banho de banheira em sua suíte máster, Magnus vestiu-se e saiu para o mundo afora.
***
O feiticeiro estava andando pelas ruas de uma pequena cidade quando avistou uma feirinha de diversos artigos. Até então, ele tinha colocado um pequeno glamour em seus olhos para não chamar a atenção indesejada.
Ele estava observando todas as barracas. Roupas, utensílios antigos, quadros e todos os tipos de bugigangas eram encontradas por ali. Coisas que, uma vez foram moda, “da época” para Bane, estavam expostas ali como artefatos raros.
Magnus suspirou, esse era um dos motivos de ele não guardar muitas coisas de seu passado.
Algo lhe chamou a atenção, ele rapidamente pegou a joia que o lembrava muito do Colar de Rubi que ele tinha dado à Camille de presente no século XIX, ele lembrou-se de entregar para William Herondale, numa tentativa fútil de se desconectar totalmente da vampira e, ao mesmo tempo, de ajudar o rapaz que bateu na porta de Magnus como um rapaz vulnerável pedindo ajuda.
Bane balançou a cabeça. Memórias eram perigosas. Não era bom ficar se lembrando.
— Ah, meu bom e velho rapaz — disse a mulher dona da barraca do colar. — Vejo que você tem um ótimo olho para joias. Gostaria de levar para alguma mulher?
O sotaque da mulher era um tanto diferente, considerando que ela não falava fluentemente e tinha sotaque britânico. Ela deveria ter uns cinquenta anos, com alguns fios de cabelo grisalhos e olhos castanhos que brilhavam amabilidade. Ela vestia roupas simples.
— Não — Magnus disse educadamente. — É um lindo colar, mas eu não pretendo levá-lo. Ele apenas me fez lembrar um que eu tinha lá na Inglaterra.
— Ah — a mulher sorriu. — Isso é porque esse é da Inglaterra. Uma antiguidade da minha família quando nós éramos uma colônia.
Magnus sorriu de volta para a mulher.
— É um lindo colar, de qualquer forma.
— Tenha um bom dia — ela sorriu para ele.
Ele acenou e saiu andando, deixando suas lembranças para trás junto com a feirinha.
***
Magnus chegou educadamente atrasado para o evento dos vampiros. Ele não sabia direito do que se tratava, mas ele tinha uma leve impressão após ver todas aquelas luzes e som.
— Magnus Bane — um subjugado parado na porta acenou com a cabeça. — O Mestre está esperando por você.
— Magnus! — guinchou Maurice. — Há quanto tempo!
Magnus reteve sua súbita vontade de revirar os olhos. Maurice era um dos vampiros “menos vampirescos” que alguém poderia conhecer num milênio. Ele parecia um estilista de uma marca muito cara que tinha todo o dinheiro do mundo e todos aos seus pés, entretanto Bane não baixava sua guarda, Maurice – como todos os outros chefes de covis dos vampiros – era muito poderoso e impiedoso.
Maurice tinha cabelo preto e olhos cor de cobre que se destacavam em sua pele pálida de Filho da Noite. Magnus tinha que ser sincero consigo mesmo: o homem tinha estilo, Bane o admirava por isso.
— Maurice. Eu posso dizer o mesmo.
— Sente-se, sente-se!
Magnus estava no quarto enorme da mansão de Maurice. Ele tinha deixado todos os outros vampiros e convidados se divertindo lá em baixo para seguir o subjugado para ver Maurice.
O feiticeiro sentou num dos divãs em frente ao sofá que Maurice estava estendido. Ele usava uma echarpe de seda preta ao redor do pescoço que provavelmente valia uma fortuna.
— Fico feliz que você tenha aceitado meu convite. Eu mandei Patrick te entregar assim que eu soube que você veio para a Tanzânia.
— Eu decidi que precisava de férias.
Maurice riu.
— Imagino. Deve ser muito cansativo ter milhares arrastando por debaixo dos seus pés para uma ajuda mágica. Deve ser extremamente chato.
Magnus não concordava, mas não disse nada.
— Então — Maurice continuou —, aceita um drink? — o vampiro estralou os dedos.
Magnus aceitou e observou outro subjugado sair do cômodo depois de ter entregado. O feiticeiro realmente não gostava desses submissos dos vampiros. Nunca se dava para conversar e eles sempre ficavam rastejando para o seu vampiro à procura de uma mordida.
Maurice e Magnus conversaram por bastante tempo. Era bom conversar com Maurice: ele era um dos vampiros mais sociáveis que Magnus já tinha visto, apesar de ter que ter bastante cuidado com o que era falado.
— Então, agora você está em Nova York? Definitivamente?
Magnus assentiu.
— Ouvi dizer dos problemas que teve com os vampiros de lá. Principalmente por Camille.
Bane ficou quieto lembrando-se do seu último encontro com a vampira.
— Sim, houve muitos problemas com as pessoas contaminadas por drogas.
Maurice soltou um som de desdém.
— Camille parece com uma criança. Talvez tenha tido uma vida mundana medíocre, não sei e não me interessa, o único fato importante é que isso se reflete no seu comportamento como vampira. Ela age como se não houvesse consequência para seus atos e quando tem algo urgente, ela sai correndo. Camille não deveria ser uma líder.
Por mais estranho que fosse, Magnus concordava com Maurice. Ele lembrou-se de quando Camille fugiu de De Quincey quando sua vida estava em perigo após o incidente com o Instituto de Londres.
— Bem — Magnus se manifestou. — Pelo menos eles têm Raphael.
Maurice assentiu.
— Sim, sim, o menino não viu nada da vida quase, não entende muita coisa, mas é esperto e sabe cuidar dos nossos — ele disse em aprovação.
— Você realmente se preocupa com os vampiros, não é, Maurice?
Maurice fez um barulho estranho grave.
— Você também, Magnus? Pensa que eu não sei de todas aquelas suas ajudas?
— Eram trabalhos...
— Para o inferno com trabalhos — Maurice disse num tom de voz um pouco mais alto. — Nós dois sabemos bem que você poderia ter recusado, mas se dispôs a ajudar. Você e eu não somos muito diferentes.
Magnus soltou uma risada pelo nariz.
— Acredito que sim — ele se ajeitou no divã. — Alguma notícia interessante?
Maurice deu de ombros.
— O de sempre. Vincent tomando chá, Marcel se achando melhores do que todos...
Magnus nunca tinha visto Vincent, o atual líder do clã de vampiros da Inglaterra. Ele ouviu dizer que ele era frio e extremamente belo, exatamente como um vampiro deve ser, entretanto diferente de De Quincey, ele não se metia em confusões e não guardava uma sede por sangue Nephilim.
Agora, quanto a Marcel...
— Você ainda não pôs os pés em Paris, não é?
Magnus deu de ombros.
— Desde aquele incidente, sinto lhe informar que não acho sensato eu andar pelas ruas de Paris. Marcel é ótimo para guardar rancor, sabe?
Maurice riu.
— Marcel é um tolo arrogante. Bem, assim como todos os outros parienses.
Magnus riu levemente.
— Bem, meu caro, eu acho que já está na hora de ir — e com isso, Magnus voltou ao hotel.
***
No dia seguinte, Bane decidiu que já era hora de voltar para Nova York. Ele ainda tinha que encontrar Jocelyn.
Magnus decidiu que, após seu encontro com Maurice, ele queria muito ter uma festa. A excessiva quantidade de emoções e lembranças estavam dominando seu controle. Ele precisava de alguma distração.
Uma festa. Ele definitivamente precisava de uma festa. Mas uma festa para quê?
Presidente Miau! Logo seria seu aniversário, e Magnus como um bom dono daria ao Presidente Miau uma ótima celebração.
Enquanto Magnus pensava nisso, ele ouviu alguém chamando sua atenção.
— Hey, Bane! Magnus Bane! Aqui!
Magnus olhou para o Rio e percebeu uma sereia nele.
— Olá — ela acenou.
— Olá — ele respondeu sem saber o que dizer direito. Era uma raridade alguma fada aquática quiser falar de boa vontade com você.
Na verdade, Magnus nunca tinha visto isso acontecer.
— Você é Magnus Bane, certo?
Magnus não respondeu, apenas encarou a sereia.
— Foi o que pensei. Eu preciso da sua ajuda.
Magnus arqueou uma sobrancelha.
— Eu não faço caridade.
— Mas é um pequeno favor, uma pergunta apenas — ela exclamou. — Eu só quero saber se há alguma sereia perdida em Nova York.
— No rio Hudson é que não tem.
Ela soltou um som musical como se tivesse exasperada, talvez aquilo fosse um grunhido das sereias, ele não sabia ao certo. Magnus revirou os olhos.
— Não, não tem nenhuma sereia em Nova York. Não que eu saiba pelo menos.
A sereia assentiu meio distraída.
— Certo, obrigada — foi tudo o que ela disse.
— Se me permite perguntar... por que isso? Por que a pergunta? Vocês nunca tentam ficar juntas. Soube que as sereias gostam de ficar nadando de um lado para o outro... bem, nos lugares que são possíveis. Vocês certamente não são de ficar preocupando com o trajeto de outras.
A sereia ficou séria.
— Você sabe o motivo, feiticeiro, nós dois sabemos que você não é cego. Valentim vai voltar e nós vamos ser dizimados se ficarmos parados fingindo que nada está acontecendo. Os Nephilim acreditam que tudo está ótimo e a salvo, mas nós sabemos melhor. Valentim se matou durante a Reunião dos Acordos? — ela soltou uma risada de escárnio. — Poupe-me de tanta ignorância. Até os demônios estão se preparando. Uma tempestade está por vir e nós, sereias, já não somos muitas. Não queremos arriscar. Você deveria tomar cuidado também.
E com isso ela desapareceu na água num instante. Como se nem tivesse aparecido ali.
***
Magnus voltou pelo portal para Nova York. Como óbvio, estava tudo igual.
As pessoas andando rápido e não ligando para o mundo ao seu redor e sendo bastante grosseiras, o barulho dos carros, os telões coloridos...
Bane voltou para o seu apartamento quieto. Presidente Miau miou quando o viu e voltou a se lamber como aquilo fosse uma coisa muito importante e a coisa mais interessante de se fazer.
O feiticeiro sentou-se no sofá.
Magnus suspirou ao se lembrar do que a sereia disse. Ele não queria pensar naquilo. Teria que falar com Ragnor depois...
Ele olhou no relógio. Jocelyn certamente viria para a sua casa hoje. Ela era como uma mãe ursa quando se tratava de Clary. Ela queria protegê-la a todo custo.
Com certeza, Magnus não iria fazer comida. Ele simplesmente fez aparecer uma pizza da Pizza Hut e começou a assistir Esquadrão da Moda*.
Apenas quando ele viu que o relógio já marcava onze e meia da noite foi que Magnus sentiu que alguma coisa não estava certa.
Jocelyn não tinha aparecido.
Algo terrível estava, de fato, acontecendo.
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Glossário:
(*) Esquadrão da Moda é um dos programas de TV que Magnus e Jace assistem durante Cidade de Cinzas (página 132) quando Jace está “preso” no apartamento de Bane por ordem de Imogem e eles aparentemente estão planejando ir à Corte de Seelie.
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