As Crônicas Incontáveis de Bane
6 Café, Celular e mais Caçadores de Sombras
Notas iniciais
Nova York, 2008
Magnus olhou atentamente para a cafeteira em seu apartamento.
Ele queria café, mas nunca usou e nem usaria aquela cafeteira*. Ele havia a comprado mais por causa de Alec, pois o rapaz sempre parecia ligeiramente perturbado pela mania de Magnus roubar magicamente café de lojas.
A máquina dava trabalho, mas valia a pena por parte de Alec que parecia ter conforto ao fazer café espontaneamente e levar uma xícara para Magnus. Ela era um símbolo de Alec. Símbolo de uma pessoa que Magnus estava tentando desesperadamente esquecer.
E é claro que não estava funcionando.
Desde que eles terminaram, Magnus sentiu um profundo desejo de explodir aquele negócio. Ele decidiu que não gostava dela. Cerrou os punhos de raiva – não sabia sobre quem ela era dirigida – e acabou por se livrar da cafeteira.
Então, jogou no lixo a máquina e sentou-se no sofá com um profundo suspiro.
Bane ainda queria café.
Magicamente, pegou uma xícara de café da loja The Mudd Truck*.
Ele tomou um gole e soltou um resmungo ao perceber que não era igual ao que o Alec conseguia fazer.
Subiu as escadas para seu quarto e ignorou a visão no espelho. Ele sabia que não seria uma visão agradável, até mesmo o Presidente Miau estava sentindo os impactos do término do namoro entre Bane e Alec.
A rotina de Magnus estava tão tediosa e ridicularmente patética que o feiticeiro tinha quase certeza que Ragnor iria voltar dos mortos para criticá-lo, considerando o fato de que Ragnor era experiente na arte de ser um chato e ter uma rotina tediosa.
Terminando seu café, Magnus nem se preocupou em levá-la até a cozinha e, depois de colocá-la em cima de um dos móveis do seu quarto, Bane decidiu assistir um pouco de TV.
A TV de nada adiantou em seus pensamentos. O filho de Valentim estava à solta e Magnus sabia o quão poderoso e mais louco que o próprio pai ele era.
O feiticeiro balançou a cabeça. Não precisaria se preocupar mais com isso, ele tinha terminado com Alec e, junto com isso, ele tinha acabado com qualquer laço que ele tinha com algum Caçador de Sombra. Ele não precisava mais se preocupar com ninguém entre eles.
Deitando-se na cama, Magnus ficou mudando o canal de TV constantemente até achar algum que conseguia, no mínimo, tirar sua atenção das pessoas do Instituto.
Claro que isso não durou nem cinco minutos, pois seu celular tocou.
Ele não atendeu porque ele sabia muito bem quem era.
Já fazia dias que Alec, Isabelle e todos os outros estavam enchendo sua caixa de mensagens.
Decidiu colocar no vibra e só depois quando o telefone parou de tocar, Magnus decidiu ligar para Catarina.
— O que é, Magnus? — como sempre, Catarina era direta e precisa.
— Eu... será que você pode vir até a minha casa essa noite?
Catarina, do outro lado da linha, hesitou. Magnus pensou que sua voz deveria estar pior do que parecia, pois geralmente ele recebia um NÃO na hora e logo depois ela desligava na sua cara dizendo que tinha que fazer mais alguma coisa, afinal o dever sempre chama uma feiticeira enfermeira.
— Tudo bem — ele ouviu ela suspirar do outro lado da linha. — Te vejo hoje à noite.
E desligou o telefone.
Magnus deixou cair o telefone no chão assim que percebeu que ele estava vibrando mais uma vez.
***
Horas e horas passando a tarde num tédio extremo, Magnus percebeu que seu celular já tinha vibrado sete vezes.
Não que ele estivesse prestando atenção em contar.
O feiticeiro olhou para o presidente Miau. O gato estava dormindo no sofá e parecia que não iria acordar tão cedo. Seus olhos se dirigiram para o relógio, Catarina só iria chegar daqui a três horas.
Magnus saiu de sua casa e começou a perambular pelas ruas de Nova York para tentar esquecer-se de tudo. Claro que não deu nenhum pouco certo considerando que sua primeira vista foi um casal de homens se beijando.
O feiticeiro se segurou para não gritar de raiva.
Ele lembrou-se do último beijo entre ele e Alec. Alec estava congelando, nenhum dos dois sabia se era de frio ou de nervosismo pelo fato de Magnus estar terminando tudo. O beijo foi lento e triste, deixou um vazio tão grande no peito de Magnus que ele teve de recuar rapidamente.
Ele ainda podia se lembrar da cara de Alexander. O jovem Nephilim tinha uma expressão de choque misturada com desespero e tristeza. Magnus nunca deixou alguém tão desamparado na vida e ao pensar que era Alec, Bane sentiu outra facada no coração.
Tudo bem, andar pela cidade definitivamente não estava ajudando o Alto Feiticeiro.
Voltando para seu apartamento, Magnus viu que Catarina já estava lá dentro, sentada na poltrona observando Magnus como se ele fosse um rato e ela um gato.
— Olá Magnus — ela disse.
— Olá Catarina — ele retribuiu no mesmo tom.
Ela suspirou e levantou-se.
— O que aconteceu, Magnus?
— Como assim?
— Você está parecendo um morto-vivo! — Catarina exclamou elevando um pouco o tom de voz. — Sua voz está miserável e até seu gato parece estar doente.
— Ele não está doente.
A feiticeira suspirou novamente.
— Eu e Alec terminamos — ele contou depois que ambos sentaram-se no sofá.
Catarina arqueou uma sobrancelha.
— E por quê?
Magnus ficou quieto.
— Olha, Magnus, tudo bem você não querer me contar, mas eu não quero que você continue nesse estado. E...
O celular de Catarina tocou. Era uma emergência do hospital.
— Eu preciso ir. Nos falaremos mais tarde e tente melhorar, Magnus — foi tudo o que ela disse antes de sair do apartamento rapidamente.
Minutos depois a campainha de Bane tocou e ele decidiu abrir a porta ao perceber que não era nenhum Nephilim.
Era uma vampira.
Espantado, Magnus deixou a vampira entrar.
— Vim entregar-lhe uma coisa, Magnus Bane.
Magnus percebeu que nas mãos da vampira tinha um cachecol. Ele reconheceu o cachecol por ser de 1886. A última vez que ele tinha visto foi na casa de Camille antes de ser expulso junto à William Herondale desacordado.
— O que é....
— Camille está morta — a vampira disse em alto e bom tom, cortando-o.
Magnus ficou sem palavras. Camille estava morta? Como? Não, não poderia ter sido Alec que tivesse matado ela.
— Como...
— A Princesa Maureen a matou e assumiu o controle do Hotel Dumort — Magnus percebeu duas coisas: essa vampira adorava cortar as pessoas e ela quase fez uma careta ao pronunciar o nome Maureen.
Ela entregou o cachecol para ele.
— Eu vim entregar-lhe isso. Encontrei quando Princesa Maureen estava redecorando o Hotel. Achei que seria bom te avisar da morte de Camille e entregar-lhe isso.
Antes que Bane pudesse falar qualquer coisa, ela fez um leve aceno e saiu pela porta sem olhar para trás. Deixando Magnus cheio de pensamentos com um cachecol na mão.
***
Subindo no quarto, Magnus percebeu que tinha 21 mensagens de voz deixadas no seu celular. Ele não deveria fazer isso, mas mesmo assim Magnus ignorou os protestos de seu cérebro e deixou as mensagens rolar.
“Oi, Magnus. É Alec. Alexander...”.
“Oi, Magnus, aqui é Isabelle Lightwood...”.
“Isabelle [...] Os Lightwoods são pessoas muito gostosas […] Gabriel Lightwood era notoriamente lindo…”
“[...] Você me disse ‘pare de ligar, Isabelle’, mas não sou eu. É Church [...] Nosso gato, Church, e o seu gato, Presidente Miau? Estão apaixonados. Nunca vi tanto amor antes...”.
“Oi, Magnus. Aqui é Clary. Ninguém me mandou telefonar...”.
“Oi Magnus. Aqui é Simon. Você me conhece. Bem, me chamou de Somaes na última vez em que nos falamos, mas já saímos juntos...”.
“[...] Eu fui a melhor coisa que já aconteceu em sua vida! [...] Jace, Jace, acorda. Jace, como se faz para apagar um recado no telefone dos outros?”.
“Sr. Bane, fui autorizado a entrar em contato com o senhor [...] Tudo bem, é Isabelle de novo. Tudo bem, meu advogado é o Church”.
“Saudações, Magnus Bane, Alto Feiticeiro do Brooklyn, de Raphael Santiago, do clã de vampiros de Nova York, fiel servidor de nossa gloriosa rainha Maureen que para sempre governe em glória negra e do futuro Príncipe Consorte Simon, astro do rock gostosão [...] Após essa introdução seria desnecessário declarar que me considero uma alma condenada [...] Gostaria de lhe informar que seu colega Ragnor Fell agora me deve dez dólares por uma pequena aposta que fizemos sobre como esta ligação absurda terminaria. Claro que Ragnor nunca vai me pagar porque ele foi assassinado pelos Nephilim [...]”.
Pouco tempo depois, o celular se juntou à cafeteira no lixo, quebrado e queimado com intenso fogo mágico.
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Tanto a cafeteira, a loja de café e os recados são descritos em As Crônicas do Bane.
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