As Crónicas de Hermione
12 Sonhos de esperança
Notas iniciais
— POV Draco —
O seu corpo estava dorido e ainda escorria uma gota de sangue pela sua cara sempre que tentava abrir um olho, o rosto ainda estava muito inchado, mas Draco Malfoy não se queixava disso. Ele apenas pensava que aquilo comparado com a maldição Cruciatus, não era nada. O seu pai educou-o bem, “teria orgulho” pensou Draco, tinha ficado calado e não emitira um som sequer, “nunca mostrar que nos afectaram, certo, paizinho?”, pensava de forma irónica. De que tinha adiantado não mostrar o que sentia? O que é que tinha ganho em ser um arrogante com mania de importante? A vida tinha se encarregado de colocar todos no seu lugar. Menos a sua mãe, que não merecia de todo estar morta. Ela era a melhor de todos. E era nela que pensava agora, doía mais saber que nunca mais teria o seu conforto, o seu abraço depois de uma tortura, do que qualquer murro ou pontapé, isso ele suportava, isso passava, a dor do vazio, da ausência da sua mãe, essa era constante e para sempre.
— Flashback ON — 12h antes
Draco ainda estava a dormir. Um sono como há muito não tinha, mesmo que dormisse muito, o seus sonos eram leves, cheios de pesadelos, nunca eram realmente reparadores. Mas talvez devido ao facto de ter enviado aquela carta, talvez por começar a pensar no futuro que queria diferente, esta noite tinha descansado de verdade, lembrava-se de ter sonhado com o lago de Hogwarts. Estava sol, ele estava deitado na relva, sozinho. Apenas a ouvir o som do lago e dos pássaros e outros animais que ele nem sabia o que eram. Era apaziguador estar ali. Mas um som metálico acordou-o, ficou à espera para ver se o barulho se repetia ou se tinha sido imaginação sua. Mas não ouviu nada. Fechou os olhos, e sentiu saudades dos tempos que passou em Hogwarts e nos quais não teve preocupações, ou pelo menos como as que teve no final do ano anterior, tinha sido tão feliz ali. Mas também muito infeliz. Respirou fundo, e resolveu não pensar no passado, sobretudo no passado terrível que tinha. Quis agarrar-se à sensação que o sonho lhe tinha deixado. Na hipótese de voltar a ver o sol, livre, em paz consigo mesmo.
Um novo barulho fê-lo despertar completamente, ouviu passos apressados e pesados, vozes indistintas que pareciam discutir. Draco olhou o tecto e pensou que seria mais uma altercação de algum prisioneiro e os guardas deviam estar a mobilizar. Os sons estavam cada vez mais próximos, as vozes começavam a distinguir-se. Draco ficou mais atento e tentou perceber quem eram e o que diziam. Cada vez mais próximas, Draco começou a ouvir fragmentos da conversa:
— Não pode fazer isto! Eu vou ter de reportar a situação… tem de ter calma … É melhor voltar noutro dia quando tiver mais calmo… — Draco percebeu que se tratava do Guarda Felton, mas para quem é que ele falaria?!
— Ele tem razão, vais arranjar problemas, não posso deixar que faças isto… caramba, isto não vai resolver nada, ele não sabe de nada… vamos embora…
Draco arregalou os olhos e ficou mais atento, parecia-lhe ter ouvido a voz do Potter, não ouvia aquela voz irritante há muito tempo mas tinha quase a certeza que o outro homem que ouvia era ele. Os sons tornaram-se indistintos durante uns instantes e depois teve a confirmação:
— Ron, já chega. Estás a ser infantil e irresponsável, ou paras com isto ou chamo o chefe imediatamente, não vou ser cúmplice disto, é abuso de poder … — tratava-se realmente de Potter e do seu fiel escudeiro, o insuportável Weasley. Que estavam os dois ali a fazer?! Não era suposto estarem em Hogwarts?! Estariam a falar de quê e de quem?! Chefe, mas qual chefe?! Abuso de poder de quem?!
Não precisou pensar muito nas respostas porque entretanto a porta da sua cela abriu-se, e apesar de ter alguma dificuldade em focar a pessoa que estava em contra-luz, ele percebeu que se tratava de Ron Weasley, com um ar de superioridade que nunca lhe tinha visto. Bastava ele estar preso e qualquer pobretanas se achava melhor do que ele. “Não podes pensar assim, ou achas que é assim que vais mudar?!”, Draco pensou para si mesmo, corrigindo-se se mentalmente, auto-criticando-se por continuar a achar que valia mais do que os outros, quando agora era um nada.
Draco levantou-se rapidamente da cama onde ainda estava deitado e ficou na defensiva. Conseguiu ver o Potter atrás do Weasley, e o Guarda Felton atrás de ambos, com um ar desolado de quem não podia fazer mais. Não conseguia era perceber o que estavam aqueles dois ali a fazer, na sua cela, e por que é que o Weasley o olhava com um ar de maníaco. No entanto, viu que as fardas que traziam eram de Aurores, os meninos bonitos do mundo mágico estariam já ao serviço do ministério, claro. Não resistiu a perguntar:
— Auror Weasley? Auror Potter? O que fazem…
Ainda não tinha terminado de fazer a pergunta quando o primeiro murro chegou, acertando-lhe no lado esquerdo da face. Sentiu uma dor lancinante imediatamente, e cuspiu o sangue que uma mordedura na bochecha lhe provocou. Mesmo assim levantou a cara de julgamento para Weasley, não iria dar-lhe a satisfação de o ver sofrer. Levantou um canto dos lábios e sorriu de forma sarcástica, o que desencadeou uma nova série de murros. Pela esquerda, pela direita, na face, no estômago. O Weasley não dizia nada mas pela força que o esmurrava, algo de grave tinha acontecido. Draco ouviu novamente Harry Potter chamar pelo amigo, levantando mais o tom de voz por cima dos sons da luta desigual.
— Ronald Weasley, pára com isso imediatamente. Se não me ouves a mim, se não queres saber do Chefe Robards, aviso que vou falar com a tua mãe. Isto já ultrapassou todos os limites.
Draco percebeu que os murros começaram a afrouxar assim que o Potter falou da mãe do Weasley, era a hora de ele se defender da maneira que ele sabia:
— Oh que queriduxo, o Weasley ainda tem medo da mãezinha… — não pôde terminar mais uma vez, ainda não tinha perdido a capacidade de enervar aquela cabeça de tomate, se o Weasley achava que ele iria falar alguma coisa ou que ia lamentar-se e implorar que parasse, estava muito enganado. Ele estava preparado para morrer, se o espancasse até a morte seria um favor que lhe faria.
Desta vez, Weasley atirou-o ao chão e ele recebia pontapés atrás de pontapés, sentiu que algumas costelas quebraram, e que teria muitas mazelas pelo corpo, todavia não se queixou uma única vez nem falou mais nada. Quando por algum motivo o outro parava de lhe dar pontapés, ele ria-se de forma provocatória.
Por fim, depois daquilo que pareceu uma eternidade para Draco que perdeu completamente a noção do tempo que tinha passado, Harry Potter e o Guarda Felton conseguiram agarrar em Ron Weasley e retirá-lo da cela. Este último continuava a estrebuchar, e devido a toda a pancada que tinha levado, Malfoy já quase não via porque sentia os olhos a inchar, e ouvia os sons de forma longínqua como se estivesse num túnel, de certeza que tinha levado um murro ou vários nos ouvidos. Ouvia frases soltas: “ele não sabe” “isto é tudo um jogo pra ele” “vai ter de entrar na linha” “o melhor seria que não saísse daqui” “não tens esse direito” “ela não te perdoaria” … e entretanto perdeu os sentidos.
Não sabia quanto tempo tinha passado desacordado, mas quando recuperou a consciência sentiu imediatamente dores por todo o corpo. Tentou mexer-se mas não conseguiu, mas percebeu que não estava na sua cela. A cama não era dura, e sentia o toque de lençóis suaves assim como um cheiro de poções que não conseguia identificar. Ouvia barulhos de fundo que não reconhecia e vozes ao longe que não identificou imediatamente. Começou a abrir os olhos, mas não conseguia fazê-lo, os olhos simplesmente não queriam obedecer mas do pouco que abriam, viu luzes, demasiadas luzes. Enquanto se tentava mexer, ouviu finalmente uma voz distinta que se dirigiu a ele;
— Não tente mexer-se, por favor. Ainda estou a tratar de si. Sabe dizer-me como se chama? Onde está? O que aconteceu? — a voz feminina que ele não conhecia falava pausadamente para que ele compreendesse.
— Chamo-me Malfoy… Azkaban… — Draco tentava responder mas as palavras custavam a sair, o seu corpo simplesmente não respondia como ele queria. Ron Weasley tinha-lhe dado uma sova de primeira, não usando magia o resultado tinha sido pior, pois não recuperaria tão facilmente.
— Certo, não se preocupe não tarda vai sentir-se melhor… — respondeu a voz feminina — Vou dar-lhe uma poção para as dores, não posso fazer muito mais, aproveite para descansar um pouco, que o Guarda Felton deve vir buscá-lo mais tarde.
— Flashback OFF —
— Porquê, mãe? Porque tinha de ser assim? Fazes-me tanta falta… — Draco murmurava engolindo o choro que teimava em vir até à sua voz e que queria sair pelos seus olhos, num canto da sua cela.
Não sabia quando o tinham trazido de volta para ali, mas desde que despertara que não tinha posição para estar. O corpo doía, a alma doía. Só pensava que queria que tudo isto fosse um pesadelo e queria acordar para correr para os braços da sua mãe, como fazia quando era pequeno. Como podia ser tudo isto real, ele estar preso, sozinho no mundo, e Ron Weasley dar-lhe uma sova. Em que realidade ele estava para tudo isto lhe estar a acontecer? Como podia sair disto tudo?
Encolhido no seu canto, ouviu três toques discretos na porta, tentou levantar a cabeça e ver quem era, mas não conseguia ver direito, a poção que a enfermeira lhe tinha dado, tinha ajudado um pouco mas o inchaço nos seus olhos ainda era demasiado para conseguir ver direito, mas a pessoa falou, e percebeu que era o Guarda Felton:
— Malfoy? Como estás? — a preocupação parecia genuína.
— Nunca estive tão bem… — respondeu sarcasticamente.
— Quero que saibas que sou contra o que aconteceu aqui, mas… tu não facilitas… — Felton falou baixo mas perceptível.
— Estou preso. Não é facilitar o suficiente??!! — Draco até ia rir, se conseguisse, tinha piada, ele estava ali há meses sem fazer nada a ninguém, levava uma sova e ficava naquele estado mas ele é que tinha de facilitar.
— Oh tu sabes!!! — retorquiu Felton — mas só vim aqui deixar te o jantar, e a correspondência de hoje. Tens também uma poção para as dores, é a única coisa que a enfermaria permite. Infelizmente o ministério ainda não autorizou os tratamentos de cura imediata, é uma forma de castigo suplementar.
Draco tentou levantar-se de imediato mas não conseguiu. Teve de se chegar à cama e apoiar-se nela para se conseguir levantar. Agarrado às costelas aproximou-se da porta e agarrou o tabuleiro. Ouviu o guarda rir-se.
— Parece que te nasceu uma alma nova…
Devagar, Draco colocou o tabuleiro na cama, agarrou na pequena carta. Abriu cuidadosamente e leu palavra por palavra, com atenção. Leu até saber cada palavra de cor, e quando se deitou na cama repetiu-as como se de um mantra se tratassem.
— Sim, eu vou lutar. O meu passado não me define e vou mostrar isso ao mundo.
Draco Malfoy decidiu naquele momento que iria mudar. Que iria provar à pessoa que lhe escrevia, a Pansy, até ao sonso do Potter e ao irritante do Weasley, que ele podia mudar, que o Malfoy da escola tinha morrido. No fundo era verdade, parte dele morrera quando a sua mãe morreu naquele maldito carro. Estava decidido, essa parte que tinha morrido não iria ressuscitar, iria ficar enterrada. Iria provar à sua mãe, estivesse ela onde estivesse, que ele podia escolher o caminho certo. Ainda não sabia como fazê-lo mas ali começava uma nova etapa da sua vida.
— POV Hermione —
Depois de acordar com aquele sonho, Hermione sentia-se até zonza quando se levantou. Tinha sonhado que passeava pelos campos abaixo do castelo, e quando se dirigia para o lago viu alguém deitado na relva, foi avançando silenciosamente para perceber quem era. Quando já estava perto, viu os reflexos do sol no cabelo tão platinado que percebeu imediatamente de que se tratava de Draco Malfoy. Ficou em silêncio a observar o rapaz, parecia que dormia tranquilo. Observando-o, reparou talvez pela primeira vez, que ele era bonito, pelo menos enquanto estava assim, em silêncio, pacificamente. Entretanto, a bolsa que trazia consigo com canetas e material de estudo caíram, e Draco Malfoy levantou-se sobressaltado. E Hermione acordara nesse momento, ofegante. Com tantos pensamentos a circular pelo seu cérebro que sentia tudo a andar à volta.
Foi direta para a casa de banho e tomou um banho de água fria para despertar completamente. Depois, sem fazer barulho pois Ginny ainda dormia, saiu do quarto, atravessou o salão e dirigiu-se ao corujal. Pegou na pequena coruja, amarrou a carta na sua pequena patinha, e manteve-a no braço enquanto ficou um instante junto da grade da varanda, olhou o horizonte com o sol a nascer, prometendo um dia de bom tempo.
Levantou o braço e deixou que a coruja sentisse a brisa, assim que sentiu a aragem a pequena ave levantou voo, rumo ao seu destinatário.
Hermione deixou-se ficar por ali mais um instante, o vento fraco mas fresco fazia-a sentir-se mais desperta. Respirava fundo e deixava entrar todo aquele ar fresco nos seus pulmões, continuava a sentir-se zonza e precisava estar melhor quando descesse para o pequeno-almoço. Era um facto que andava alimentar-se mal, teria de rectificar isso pois não podia ficar doente. O final do ano estava à porta e com ele, os exames finais.
Começou a descer as escadas mas sentiu uma tontura, continuou a descer mas sentiu uma dor aguda que lhe atravessava a têmpora esquerda, o seu olho doeu como uma picada. Agarrada à parede tentava chegar ao piso debaixo mas uma nova tontura mais forte, fê-la perder os sentidos e a última coisa que viu foi as escadas a ficarem mais perto, tentou proteger-se mas ainda assim teve noção que iria cair.
Acordou na enfermaria, Pansy e Ginny estava cada uma de seu lado, e as duas reagiram imediatamente assim que Hermione se começou a mexer. Ao ouvir aquela agitação, Mme Pomfrey acercou-se da cama da jovem:
— Minha querida, não te mexas. Deste um valente tombo, podia ter sido pior mas mesmo assim partiste um braço e duas costelas, estou a fazer o necessário pra tudo voltar ao sítio. Vou trazer-te também uma poção para as dores e para que esse hematoma desapareça mais rápido dessa carinha linda.
Hermione sentia o rosto inchado e quando olhou para as amigas, apercebeu-se que via apenas do olho direito. Tinha dores pelo corpo todo, pelo que agradecia que Mme Pomfrey lhe desse a bendita poção o mais rápido possível.
Enquanto a enfermeira escolar tratava dos seus ossos, as amigas não arredaram pé, mesmo quando ela lhes disse para irem às aulas que não adiantava de nada que estivessem ali. Como não podiam falar de nada pois a enfermeira não saía da beira de Hermione, foram falando de assuntos mais superficiais.
Hermione notou que Luna não estava ali, e perguntou se ela tinha tido mais juízo e tinha ido para as aulas dela. As duas amigas baixaram a cabeça e responderam que não.
Aproveitando que Mme Pomfrey saiu para ir renovar as poções, Ginny contou o que tinha acontecido na noite anterior depois de terem saído atrás do Ron:
— Quando cheguei ao quarto tu já estavas a dormir, não te quis acordar pois achei que devias descansar. No entanto a conversa com o meu irmão, e depois que o Harry se juntou a nós, deu até muito tarde. Eu não sei o que o meu irmão vai fazer, Mione, mas ele saiu daqui um pouco cego, com sede de vingança a todo o custo. Eu falei, a Luna falou, o Harry falou mas ele não ouviu ninguém. Diz que não aceita que fales com um devorador da morte como se fosse a coisa mais natural do mundo. Que alguém precisa te abrir os olhos, e se for preciso abri-los à força, ele irá fazê-lo. Diz que podes nunca mais olhar para ele mas que vai provar-te que o Malfoy continua igual e que nunca irá mudar. — ao ver que a amiga ainda combalida ia começar a argumentar, a ruivinha continuou — Não precisas dizer mais nada, para mim está tudo esclarecido. Tu és a Hermione Granger, a Sabe-tudo … calma, estou a brincar .. o que quero dizer é que confio em ti, se achas que isto é o correto, se é aquilo que queres fazer, eu vou apoiar-te sempre. O futuro dirá no que isto vai dar.
— Oh Ginny, obrigada por seres essa amiga maravilhosa, por acreditares em mim e não desistires de mim.. — Hermione ainda tentou chegar a amiga mas não conseguiu devido às dores, mas a amiga veio até ela e deu-lhe um abraço apertado, tanto quanto possível. — Então mas e a Luna? Que é feito dela? — perguntou de novo
— Houve um problema.. — começou Pansy — mas a Ginny sabe explicar melhor..
— Sim, ontem quando estávamos todos na entrada do castelo, o Harry e o Ron estavam para ir embora, quando apareceu o professor Snape. Inicialmente pensámos que nos ia dar o típico sermão por estarmos ainda ali, acordados, mas não o fez. Dirigiu-se à Luna, cumprimentou de lado os garotos, e disse que o pai dela tinha sido levado por St. Mungus, porque tinha sido encontrado desacordado. Ela quis sair logo pra ir ter com o pai ao hospital, e como o Harry e o meu irmão estavam de saída, combinaram com o Snape que eles a iriam levar e caso fosse necessário, ajudá-la-iam em tudo o que fosse necessário. Até agora ainda não sabemos de mais nada. O Harry ficou de me dizer o que se passava mas até agora nada.
— Espero que não seja nada de maior, a Luna não merece perder mais ninguém! — disse Hermione triste por receber aquelas notícias da pequena loirinha de quem tanto gostava.
Entretanto, Mme Pomfrey entrou novamente na enfermaria, com uma poção que exalava um cheiro horrível. Convidou Pansy e Ginny a sair, visto que precisava continuar os tratamentos de Hermione e esta iria precisar descansar.
Com calma e paciência, a enfermeira de Hogwarts colocou os ossos de Hermione no sítio. Era doloroso, e a morena ficou extremamente cansada com todo o processo. Quando finalmente terminou, Mme Pomfrey deu-lhe a última poção, a tal que não cheirava nada bem, explicando que iria ajudar a amenizar a dor e os hematomas. Aconselhou-a a dormir enquanto fazia efeito, e teria alta mais tarde para ir jantar.
Não foi preciso insistir, o sono venceu imediatamente, cedendo ao cansaço do corpo em recuperação. Mas a mente de Hermione levou-a novamente para sonhos distantes, e mais uma vez a imagem de Draco Malfoy lhe apareceu bastante nítida, um Draco magoado, triste e só, num fundo negro. Hermione abriu os olhos de repente, a escuridão da noite estava a chegar, pelo que devia ser quase hora de jantar, ela nem queria acreditar que tinha dormido tanto, e pela segunda vez naquele dia, ela acordava com a imagem de Draco na sua cabeça, tão clara que parecia que tinha estado em frente do jovem.
Ao vê-la acordada sem se mexer, Mme Pomfrey aproximou-se da sua cama e perguntou-lhe se sentia bem. Hermione inspecionou o próprio corpo e começou a mexer-se pouco a pouco, não sentia dores em lado nenhum. Levou a mão a sua face e não sentiu nenhum inchaço. Mme Pomfrey deu-lhe um espelho para que ela própria confirmasse que não restava nada do hematoma daquela manhã. Hermione deu- lhe um pequeno abraço, agradecendo o seu bom trabalho. Parecia que nada tinha acontecido, e por isso a enfermeira deu-lhe alta com a obrigação de seguir para o Salão Principal para comer um bom jantar.
Hermione saiu agradecendo uma vez mais. Pelo caminho até ao salão não conseguia esquecer a imagem de Draco, da sensação de tristeza com que tinha acordado, como se tivesse absorvido em sonho toda a tristeza que o Malfoy transmitia. Aquilo não era real, Hermione tinha essa certeza, no entanto nunca tinha tido sonhos tão vívidos como naquela noite e naquele dia.
Continuou pensativa até chegar à mesa Gryffindor, onde Ginny e Pansy já se encontravam. As duas levantaram-se assim que a viram e abraçaram-na:
— Que susto que nos pregaste, menina Hermione! — disse Pansy num tom autoritário — vais passar a andar acompanhada, vou te obrigar a comer todas as refeições direitinhas, vais aprender a tomar conta de ti!!
— Pansy, ainda agora saí da enfermaria e já estou a levar sermão. — Hermione fingiu que tinha ficado magoada.
No entanto a amiga mantinha o ar sério, e disse que falava a sério, que se fosse preciso ela e Ginny se iam revezar para a vigiar e confirmar que ela se cuidava direito.
— Eu prometo ter mais atenção, Pansy. Agradeço a vossa preocupação. Mas foi apenas uma indisposição, infelizmente aconteceu quando estava nas escadas, se não não teria sido nada. — Hermione sorriu honestamente para as duas amigas — Mas contem-me? Há novidades de Luna? Do pai dela? Estás muito calada Ginevra Weasley.. — Hermione olhava atentamente para Ginny que até ao momento apenas acenava a cabeça concordando com o que Pansy dizia.
Assim que a ouviu chamar-lhe assim, Ginny respondeu imediatamente:
— Hey, atenção ao que me chamas.. — disse sorrindo, mas logo de seguida ficou séria e continuou — Sim, tenho novidades.. aliás, mais do que queria saber sinceramente.
O ar de Ginny era preocupante, e o seu tom de voz demasiado sério para o seu normal. E Pansy ficou com um ar abatido de repente. Hermione começou a ficar ansiosa com o que amiga tinha para dizer, e por isso pediu-lhe que contasse logo. Mas Ginny disse que seria melhor que comesse com calma, falariam depois do jantar.
Quando começou a comer, Hermione percebeu que tinha mais fome do que aquilo que ela pensava, comeu de tudo e ainda terminou com uma taça cheia de pudim. Terminou a refeição a sentir que ia rebentar pelas costuras. As amigas observavam satisfeitas, já tinham terminado há um bom bocado mas deixaram-na comer enquanto ela quis sem nada dizerem. Quando se levantaram da mesa, começaram a andar pelos corredores em silêncio, e mesmo sem combinarem dirigiram-se para a pequena sala de Hermione, só quando entraram e a porta se fechou é que Pansy falou:
— É melhor sentares-te, Mione… as notícias não são as melhores.
— Contem-me tudo, sem esconder nada, por favor. — pediu Hermione.
— Começando pela Luna… — começou Ginny — ela enviou uma coruja para nos contar sobre o estado do pai. Disse que sofreu um AVC, felizmente foi logo encaminhado para o hospital onde iniciou tratamento imediatamente. Mas foi um tanto ou quanto grave, esteve desacordado muito tempo e a recuperação vai ser longa. A Luna decidiu não voltar mais a Hogwarts, quer estar perto do pai e acompanhar todo o tratamento, no meio disto tudo decidiu que quer aprender como ajudar mais pessoas na mesma situação que o pai. A Professora Minerva já falou com ela, disse que já tratou de tudo com o hospital de St Mungus e Luna vai-se tornar ajudante de enfermeira para depois seguir estudos para enfermeira profissional.
— Oh pobre Luna… — Hermione ouviu tudo e foi-se comovendo cada vez mais — compreendo que queira estar com o pai, e ser enfermeira acho que vai ser bom para ela, sempre gostou de ajudar, tem jeito com as pessoas. Mas há previsões de uma recuperação completa para o Xenophilius Lovegood?
— Sim, apesar de o esperar longos meses de terapia para recuperar todos os movimentos, é muito provável que recupere totalmente. Pelo menos foi o que a professora Mcgonnagall nos contou depois. — completou Pansy.
— Vou ter saudades da Luna, é sempre boa companhia, na sua maneira genuína de ser, acaba por ser a mais racional de nós todas. Mas na posição dela faria o mesmo, assim eu pudesse. — respondeu Hermione, triste, ao saber daquelas notícias da amiga loirinha, que não merecia de todo estar a passar por aquilo. Mas pelo menos tinha o seu pai, e este iria com certeza recuperar e ficaria bem.
Ficaram as três em silêncio, olhando pelas janelas os campos de Hogwarts. Mesmo sem falarem, pensavam que a vida mudava repentinamente, sem aviso prévio, e aquilo que num dia era garantido no minuto a seguir não era mais. A vida podia ser assustadora, já tinham passado por tanto e ainda eram tão jovens, que mais a vida lhes reservaria? Não havia nenhum manual com instruções, só podiam viver o dia a dia e esperar que tudo melhorasse, ou pelo menos não piorasse.
Entretanto, Ginny clareou a voz e continuou a falar:
— Mas não é tudo, Hermione! Há mais uma coisa que precisas saber, pensei muito se valia a pena contar, depois acabei por falar com Pansy para ter a opinião dela. — olhou de soslaio para Pansy, que neste momento tinha um misto de sentimentos a transparecer pelo rosto, parecia triste mas ao mesmo tempo furiosa.
— É óbvio que tens de contar tudo, até porque se não contasses no dia que ela soubesse, irias ouvir um daqueles sermões que não esquecerias.
— Importam-se de me contar tudo de uma vez, em vez de falarem uma com a outra como se eu não estivesse aqui? — perguntou Hermione apontando para as duas amigas.
— Bem, Mione.. — começou Ginny, mas falando de forma hesitante — aconteceu um pequeno problema… com o meu irmão…
— O que aconteceu com o Ron?! — Hermione começou a ficar em pânico, apesar de tudo o que vinha acontecendo, o Ron fazia parte da sua vida e continuava a gostar muito dele. O que é que ele tinha feito depois da noite do dia anterior? — Diz-me… teve um acidente? Está bem?
— Sim, ele está bem… fisicamente!! Mentalmente não sei se posso dizer a mesma coisa. Bem, como te disse ontem a conversa com ele não surtiu efeito nenhum, ele saiu furioso, a jurar que o Draco iria pagar por tudo, por todo o mal que fez. Mas nunca pensei que fizesse o que fez. — Ginny falava de forma reticente e preocupada, e começou a explicar tudo a à amiga — O Harry escreveu-me esta tarde, depois de ter estado contigo na enfermaria. Contou-me que depois de terem deixado a Luna no hospital, e de terem a certeza que ela ficaria bem, ele e o Ron ainda foram para o Ministério. O chefe deles ainda estava lá, e o Harry decidiu contar logo tudo o que tinha acontecido, decidido a pedir que a investigação terminasse. Ele também acredita em ti, já agora, disse que ficou desiludido inicialmente mas confia em ti e nas tuas decisões. Mas continuando, disse que o chefe Robards, ainda tinha algumas dúvidas mas enquanto conversavam recebeu uma coruja da Tonks, que deve ter sido bastante peremptória pois logo de seguida ele decidiu que a investigação iria terminar, e que ia tratar de tirar o agente infiltrado. O Ron não se calou, mesmo para o Chefe, insistiu que a investigação devia continuar pois o Malfoy deve saber onde estão os pais, e mais cedo ou mais tarde irá contar.
— Mas porque raio o Ron tem de ser tão teimoso? — Hermione começou a falar.
— Espera, ainda há mais, e pior.. — Ginny baixou os olhos ao falar novamente — o Harry contou que quando saíram do Ministério tentou convencer o meu irmão de todas as maneiras, mas ele estava irredutível. Acabaram por entrar num bar de Diagon Alley, e o Ron bebeu mais do que devia, e quando saíram de lá já era de madrugada e o Ron quis ir para Azkaban, desaparatou e o Harry até teve medo que lhe acontecesse alguma coisa, seguiu-o e felizmente pelo menos chegou bem a Azkaban.
— Mas o que é que ele foi fazer lá?! Não me digas?!! — Hermione já estava a temer o pior.
— Sim, ele foi ver o Malfoy. — Ginny suspirou antes de continuar — E bateu-lhe. Segundo as palavras do Harry, espancou-o mesmo. Quando finalmente ele e o outro agente conseguiram retirá-lo da cela, o Malfoy estava em muito mau estado. Mas o Harry também diz que devias ter cuidado, o Malfoy continuou arrogante como sempre foi, não se defendeu, mas entre murros e pontapés, ele ria-se e zoava com o meu irmão.
Hermione estava em choque. Como era possível, sabia que o Ron era de temperamento explosivo, mas nunca pensou que fosse capaz de espancar uma pessoa. A culpa era dela, sabia que ele não iria reagir bem e devia ter preparado melhor as coisas. Agora o seu amigo podia ter problemas e o Draco levara uma sova sem merecer, pois neste caso não tinha feito nada. Enquanto se auto-culpava, Pansy falou:
— É óbvio que o Draco se iria defender da maneira que podia, arrogante, irónico, sarcástico.. é o que ele faz melhor! Não é grande lutador para responder com força. O teu irmão é um Auror, quer dizer uma pretensão a auror, pois se ele não se sabe controlar com um prisioneiro, seja ele quem seja, se calhar não devia ser… — Pansy assumira as dores do amigo, e defendia-o com tudo.
— O meu irmão só agiu assim por que a Hermione está envolvida. Ainda há um par de meses namoravam e agora ficou a saber disto tudo, é normal que tenha perdido um pouco a cabeça. Mas não faz parte dele ser violento assim…- respondeu Ginny, pronta a continuar a defender o irmão.
— A culpa não é dele… nem do Malfoy.. — falou Hermione, com voz fraca pois começara a chorar — A culpa é minha. Eu é que fiz tudo errado. Eu é que me meti no que não devia. Se estivesse quieta, nem o Ron estaria nesta posição nem o Draco estaria magoado. É tudo culpa minha. Por vezes ao tentar fazer o bem só fazemos mal.
Chorava já convulsivamente enquanto falava, e as amigas que já estavam a ponto de discutir cada uma para seu lado, calaram-se e abraçaram-na.
— A culpa não é tua.. — disseram ao mesmo tempo, preocupadas.
— Já sabíamos que podia não correr tudo bem, não podes pensar que fizeste mal, não podias controlar todas as consequências. A partir do momento que passa para outras pessoas, não és mais responsável por isso. — Pansy queria-lhe fazer ver que não podia desistir e que o bem que resultava das suas ações valiam mais que o mal que tinha acontecido — O Draco é forte, levar uma sova não é nada para ele. E se o Weasley ficou a sentir-se melhor assim, que seja. É o que é, Mione. É a vida.
— Se te fizer sentir melhor, a minha mãe já sabe de tudo e já deu um daqueles sermões dela ao Ron, ela não te julga e não aceitou muito bem que o meu irmão tente resolver as coisas à pancada. Não queria estar no lugar do meu irmão… — disse Ginny, assobiando como que dando a entender que o sermão de Molly Weasley tinha sido bem azedo.
— Mas não queria nada disto… só queria ajudar! — repetiu Hermione.
—=Acho que todos compreendemos isso, com exceção do Ron. E um dia irá passar-lhe. Dá-lhe tempo, tu conheces o meu irmão, quando menos esperar ele vai cair em si e perceber que temos de viver o presente e não o passado, e que as coisas mudam. — Ginny confortava-a, Hermione sorriu-lhe e acenou afirmativamente com a cabeça, respondendo-lhe:
— Espero que sim… espero mesmo que um dia ele entenda, e que possamos voltar a ser amigos.
A noite tinha ficado estragada, Hermione despediu-se das amigas dizendo que estava ainda cansada do tombo e do processo de melhora, e depois com aquelas notícias, tinha ficado pior, por isso pediu desculpa mas ia deitar-se mais cedo. As amigas encorajaram-na e disseram que iriam ficar ali mais um pouco a conversar antes de se irem deitar.
Já no quarto, Hermione começou a escrever, livremente e sem fazer grande sentido. Tinha pensado escrever uma carta a despedir-se finalmente de Draco, todo o esforço que tinha tido não tinha compensado, tinha tido uma única resposta genuína e calhar não teria mais, para que insistir?! Só estava a perder tempo, e a prejudicar toda a gente a sua volta. Escreveu, riscou, voltou a escrever, e passou um bom bocado assim, no fim não tinha escrito nada de jeito. Amassou o papel e atirou com ele para o lixo. Deitou-se e enquanto pensava no que faria, deixou-se dormir.
— POV Draco —
A pensar nas palavras do bilhete que tinha recebido, Draco adormeceu rápido. Estava extremamente cansado e em poucos minutos, dormia profundamente, e começou outra vez a sonhar com Hogwarts. Viu-se a percorrer os corredores e as escadas que se moviam de um lado para o outro, vindo da sala dos Slytherin. O castelo estava vazio, ouvia barulhos de vozes mas não via ninguém, dada a escuridão e as tochas acesas, seria tarde, de noite. Tomou a direção dos campos da Escola, decidido a procurar a origem daquelas vozes mas não avistava ninguém. Acabou por se sentar a beira do lago, esticando-se pra ficar quase deitado, apenas apoiado nos cotovelos.
Ali sentia-se calmo e tudo parecia pacífico, não tinha dores e estava tudo bem. De onde estava agora, percebia que afinal havia gente no castelo, pois via vultos que iam e vinham, aparecendo ocasionalmente nas janelas, porém nos jardins não via ninguém. À noite raramente havia alunos nos campos, mas ele estava ali tal e qual um fantasma, que visitava o seu passado. Na sua cabeça apareciam as palavras escritas por J. e queria deixar o passado e viver apenas o presente, ouvia ainda as palavras que um dia o guarda Felton lhe disse, que todos precisamos de alguém, e ele precisava disso, agora que não tinha a sua mãe precisava de amigos, de bons amigos, de alguém que o compreendesse.
Levantou-se vagarosamente, ficou um instante a ver a lua cheia que se apresentava no céu e se via refletida na água do lago, quando se virou pra voltar ao castelo, ouviu um som. Eram passos, pequenos, silenciosos. Pensou que algum animal andaria por ali. Procurou entre as árvores, pelas sombras e claridade possível, a origem daquele som. Avançou na direção dele, e de repente de trás de uma árvore, saiu um vulto, Draco não estava a contar com aquilo, desequilibrou-se e caiu de costas. Logo de seguida viu o rosto do vulto, e ouviu uma voz familiar: “Malfoy?! Estás bem?!”
Acordou sobressaltado. Abriu os olhos e tentou fixar as últimas imagens do sonho. Não fazia o menor sentido, mas quando caíra no sonho, a pessoa que se aproximou dele, a perguntar-lhe se estava bem, era nada mais na menos que Hermione Granger. Diferente, sem o cabelo longo que lhe conhecia, mais com os olhos castanhos que a distinguiam. Mas porquê?! Porque estava ele, ali, a sonhar com a Granger?! Não fazia sentido.
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