As Cronicas dos Kane - A Cura Imortal
1 Sadie: Um abutre vem me ajudar
Aqui é Sadie.
Se você ainda não nos conhece, não temos tempo pra delongas.
Os deuses egípcios ainda existem em nosso mundo. A Casa da Vida está tentando detê-los, mesmo que seja um equívoco. Uma cobra gigante fugiu da prisão e engolirá o sol, destruindo tudo que um dia conhecemos. E meu irmão e eu somos odiados pelo mundo mágico. Bem, acho que foi um bom resumo.
Em nossa última gravação, navegamos nas profundezas do Duat para ressuscitar o deus que vai deter Apófis. A missão foi cumprida e a serpente detida, por enquanto.
Rá, o grande rei, continua um velho que come bengalas. Isso é definitivamente um problema a ser resolvido. Hórus jurou e ordenou aos deuses que protegessem o deus sol em sua jornada todas as noites, até que ele se recupere. Nossos esforços ficam cada vez maiores.
A namorada de argila do meu irmão não gosta dele. E estou dividida entre o garoto amaldiçoado e o deus da morte.
[Sim, ela era de argila Carter!]
Ele disse que o shabti era controlado pela verdadeira Zia, mas não importa.
Pedimos ajuda e aos poucos a Casa do Brooklyn ganhou novos membros buscando o caminho dos deuses. Amós tem tentado se consolidar como Sacerdote-leitor Chefe, porém o nome Kane ainda causa discussões entre os nomos. A menos que todos se unam, não teremos chance.
Por ora, tenho uma história para contar. Sacrifícios, lutas, traições. Provas de amor. Tudo começou quando finalmente entrei em uma biblioteca.
A pesquisa deveria ser rápida. Alguns encantamentos antigos, curandeiros e amuletos. Tudo sem deixar Carter perceber que entrei na “sagrada” biblioteca. Aquele definitivamente não era meu lugar preferido.
Em meio às estantes destinadas à cura, havia marcações de Jaz. Pequenos papéis indicando feitiços importantes. A garota vinha procurando com todos seus esforços uma cura pra Walt. Embora pudesse ser uma armadilha, confiei em meu sonho.
Convoquei um shabti e ordenei que procurasse por Tsé Madí.
A deusa abutre permanecia na entrada de um templo. Em meio ao deserto escuro, suas altas paredes reluziam como ouro e as linhas retas de seu projeto se impunham diante da vastidão de areia. Em sua entrada distingui uma estátua humana com cabeça de leoa.
Por uns instantes observei Nekhbet. Após a perseguição em Londres não acreditava que a velha estava disposta a me ajudar. Não sem um preço.
– Chamou? – saí de trás de uma coluna e fui a seu encontro.
– Ora ora, Sadie Kane. Não é tão tola quanto parece.
Com suas garras afiadas, tirou uma mecha de cabelo do meu rosto.
– Tire suas patas imundas de mim, urubu. Não sou carniça pro seu bico.
Aqueles grandes olhos me confundiam como um animal sendo dominado por um predador, deixando-o fraco e sem reação. Anúbis havia me dito que a deusa se alimentava dos fracos.
Segurou meu queixo com a guarra levantando-o, me fazendo sentir seu bafo de carne apodrecida.
– Não me subestime criança. Parece que sou sua única chance. – me empurrou e virou para o templo. – Esse é o templo de Sekhmet, a deusa das doenças. Eu poderia citar diversos encantamentos que de nada adiantariam, mas sua amiga Jazmine já cuidou disso. Não quero nada em troca da informação. Não ainda. Comprometa-se e saberá o que precisa para salvar o garoto amaldiçoado.
Meu ba tremeluziu. Eu estava voltando a realidade.
– Fale logo antes que eu acabe com você!
– Criança tola, isso é um sonho. – Nekhbet gargalhou. — Se eu estralasse os dedos não se lembraria de nem uma palavra do que disse. Seus esforços contra lord Apófis podem aumentar a cada dia, porém nos sonhos seus poderes são inúteis. Faça o juramento.
Minha cabeça estava dividida entre a raiva da deusa e a esperança. Entre deixar o curso natural da vida e ter a chance de salvar Walt.
– Juro pelo Rio Nilo.
Abrindo um sorriso, a deusa disse:
– Sábias palavras, Sadie Kane. No primeiro nomo reside uma poderosa curandeira chamada Tsé Madí. Seus encantamentos são tão famosos que até mesmo o velho Iskandar tentou fazer com que trabalhasse para a Casa. Mas não se engane, toda magia vem com um preço.
– Ou toda informação vem com um preço, não é? – sorri ironicamente. – Só isso? Você me fez me comprometer por isso? Francamente.
– Você não tem outra opção.
O deserto ao meu redor começou a tremeluzir e a desmoronar em buracos negros. As últimas palavras da deusa ainda frescas em minha mente continuavam a doer. Eu não tinha outra opção.
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