As Cronicas de Ivy Turner- O Predador
10 O Procurado
ALICE
OS OLHOS VERMELHOS eram a única coisa na mente de Alice enquanto ela se dirigia a uma lanchonete no meio da estrada, mesmo que já fizesse três dias do ocorrido. Desde que começara a andar com o vampiro que devora vampiros, que depois do “momento” que compartilharam no bosque havia finalmente revelado que seu nome era Ian, eles viajavam a noite (por razões óbvias para ela agora) e descansavam durante o dia. Ele sempre lhe entregava dinheiro, o que ela suspeitava que fosse roubado, para que ela pudesse se alimentar em algum lugar enquanto ele caçava. Ian deveria ter algum tipo de bat-sinal para achar vampiros com tanta facilidade.
Quando se dirigiu ao caixa, a moça que atendia a olhou com espanto e apontou na direção do banheiro. Lá dentro, Alice teve a primeira chance em dias de ver seu reflexo, e ela não gostou nem pouco do que via. Nunca foi vaidosa, mas ficar cara a cara com a pessoa que via lhe deixava bastante desconfortável. Suas mexas de cabelo castanho estavam emaranhadas, seu rosto estava cinza de tanta poeira, ela não ficaria surpresa se alguém lhe pagasse um lanche pois poderia passar facilmente por uma mendiga. Seu casaco de moletom azul e sua calça preta possuíam rasgões como se ela tivesse saído no tapa com um leão da montanha. Notou que tinha um chuveiro e tomou um banho da maneira mais rápida possível.
Desde sua experiencia no bosque ela tinha receio de sair e quando voltar não encontrar mais Ian. Mesmo depois dele prometer que nunca mais faria denovo, ela não conseguia mais acreditar. Mais a convivência entre eles vinha memorando nesses dias. As viagens não eram mais tão longas, duras e tediosas. Ela havia comprado um caderno de anotações e fazia perguntas sempre que podia sobre o mundo mágico, não algo baseado em mitos que podiam ser facilmente conferidos na internet, ela estava aprendendo como era de uma criatura que era mágica. Mas claro o tema principal da conversa voltava sempre para o mesmo ponto: o Predador. Ian ficava desconfortável com o assunto e tentava desconversar o tempo inteiro. Só existiu um ponto que ele fez questão de ressaltar: ela não estava em perigo no bosque. O monstro de olhos vermelho é chamado de Predador por um motivo, ele se alimenta de qualquer coisa no mundo mágico e suas presas são monstros. Ele estava no topo da cadeira alimentar, era o ápice de todos os predadores e a seus olhos, todos eram pressa. Aquilo aterrorizava Alice ainda mais, embora fizesse um certo sentido, pois naquele cenário ela era irrelevante e possivelmente imperceptível. Para aquela criatura ela era tão insignificante quanto as formigas eram para os humanos.
Alice deduzia que o Predador se alimentava de monstros pelo mesmo motivo que Ian se alimentava de vampiros, não se tratava de ligar ou não para vida humana, mas sim de demonstrar poder em um mundo dividido entre predadores e pressas, então quando algum monstro se alimentava de outro era a provação máxima de sua força.
A garota lavou sua roupa aos farrapos na pia do banheiro e tentou enxugá-las com o secador da melhor forma que conseguiu. Olhou no espelho mais uma vez, não havia feito um milagre mas era o suficiente. Quando voltou para o caixa a moça a olhou como se fosse um ser humano denovo e lhe dirigiu um sorriso enquanto empacotava seu lanche para viagem.
Andou por uma trilha durante meio quilômetro até encontrar o chalé abandonado onde supostamente Ian estaria. A construção de madeira branca frágil e velha parecia que ia desabar assim que tentasse abrir a porta. Depois de girar a maçaneta e empurrar a porta se sentiu aliviada apesar do homem com o cadáver de uma garçonete sentado no sofá.
—-- Esse cheiro… você tomou banho? --- perguntou Ian.
—-- Sim e daí?
—-- Nada não. --- ele respondeu com a risada sarcástica que já estava dando nos nervos da garota.
Alice retirou um hambúrguer da sacola, uma lata de refrigerante e uma porção de batatas fritas. Quando ela começou a comer notou o olhar de Ian que mais parecia aquele que as crianças faziam quando queriam pedir algo.
—-- Você quer um pouco? --- perguntou ela.
—-- Claro. Achei que não fosse oferecer --- ele respondeu enquanto jogava uma batata na boca.
—-- Eu não achei que você pudesse… você sabe.
—-- Comer esse tipo de coisa? Posso sim. Desde que mantenha minha dieta regular eu posso comer comida comum.
—-- É vivendo e aprendendo… Por que precisamos achar o Julian afinal?
—-- Por que ele sabe usar hipnose e arrancar as informações que precisamos para achar seu irmão.
—-- Ele usa hipnose por que é vampiro? Então por que você não usa?
—-- Claro! Como não pensei nisso antes? Esse tempo inteiro e eu só precisa hipnotizar, ainda bem que você me lembrou…
—-- Idiota. Se não sabe usar por que não pedir para outro vampiro fazer? Você certamente não tem problemas para encontrar um.
—-- Devido aos meus... hábitos…
—-- É assim que vai chamar agora?
—-- Mas que droga! Por que você não deixa que eu termine uma frase sem me interromper? Vai precisar de muita sorte para arrumar um namorado no futuro, isso claro, se você viver até lá.
—-- Eu me pergunto se você algum dia foi gentil ou se sempre foi esse desgraçado cínico.
—-- Que seja. Continuando, eu não sou popular entre os vampiros, eles vão preferir morrer do que me ajudar.
—-- E por que com Julian vai ser diferente?
—-- Por que somos amigos. --- Ian respondeu como se fosse óbvio.
—-- Claro. Amigos. --- Alice não conseguiu conter a curiosidade e perguntou --- Como ele é?
—-- Alguém que busca incessantemente qualquer tipo de experiencia nova, faz o que quer e com quem quer, explora o máximo que a vida pode oferecer.
—-- Ele parece ser… promíscuo.
—-- De onde você desenterrou essa palavra? Andou lendo algo do século dezessete?
—-- Falou o homem que disse “Incessantemente” alguns segundo atrás.
—-- Promíscuo é um rótulo e pode acreditar, ele não é o tipo de pessoa que pode ser rotulada.
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