ALICE

1

QUAL É O LADO RUIM DE SE VIVER PARA SEMPRE? Essa foi a charada deixada pelo novo amigo/ guarda costas/ monstro. Muita coisa havia passado nos últimos dias, muitas. Talvez ela devesse se assustar com o homem ao lado usando não mais do que uma jaqueta de couro preta e uma calça de ginastica larga, sugando o sangue de um vampiro que havia abatido enquanto tentava matá-la. Ela se achava anormal por no mínimo não se sentir incomodada com aquilo.

Ela deveria ter chegado na casa de seu mais novo pai, e ela estava até empolgada com o fato, se achara uma tola por ter acreditado que as coisas poderiam dar tão certo. Um homem rico se oferece para cuidar de uma pré-adolescente, custear suas despesas e bancar o melhores estudos que alguém poderia desejar. OK. Quando era bem jovem havia perdido os pais num acidente de carro, não conseguiu fazer nenhum amigo desde então com a execessão de Barry, Se a vida havia lhe ensinado algo era que ela definitivamente não tinha sorte. NÃO É VERDADE, ela se repreendeu, VOCÊ TEM IVY. O garoto tinha sido um verdadeiro irmão para ela desde o acidente que destruiu sua vida, esteve com ela no momento mais difícil e só permaneceu naquele orfanato por sua causa, e agora ela o deixou sozinho, e para que? Para ser capturada por vampiros e precisar da proteção de um monstro que ela nunca ouviu falar.

—-- Pago um dólar para saber o que você esta pensando. --- Perguntou o homem com a jaqueta enquanto limpava a boca suja de sangue preto.

—-- Estava pensando no por que de estarmos caminhando no meio da floresta a noite enquanto você carrega essa coisa nos braços de um lado para outro --- respondeu a garota estressada.

—-- Eu já te expliquei.... ele é comida. Se não carregasse ele comigo seria você nos meus braços ocupando o lugar. Além disso ele já secou. --- o homem jogou o cadáver do vampiro entre as árvores. --- E estamos caminhando aqui por que houveram ataques recentes de animais por essa redondeza, o que é óbvio para mim que foi um vampiro recém criado. Preciso me abastecer se não…

—-- Eu vou ocupar o lugar do cadáver no seus braços. Saquei.

—-- Boa garota! Agora faz silêncio enquanto o papai caça ok?

—-- Você não me disse seu nome ainda.

—-- E nem vou precisar. Só preciso te jogar perto de alguns humanos e você deixa de ser um fardo, não vamos fingir que nos importamos um com o outro ou criamos algum tipo de relacionamento que possa fazer brochar o “humano” que existe em mim, cara esses filmes são horríveis!

—-- Se realmente não se importa por que não deixou que me matassem dias atrás?

—-- Não se trata de deixar ou não. Eu estava com fome e aqueles vampiros eram o banquete perfeito. Vocês humanos morrem aos montes todos os dias por que EU me importaria?

—-- Tem razão. Não existe mais nada humano em você, se é que um dia já existiu. Só me leve até meu irmão e....

—-- Sshhhhh. Escutei algo. Ok, não quero sair correndo atrás dele e fazer um alvoroço que pode levá-lo a cidade mais próxima. Isso seria muito chamativo. Você vai ser a isca.

—-- Eu não… ai! --- gritou a garota enquanto ele lhe fazia um arranhão no braço por onde despencou uma pequena gota de sangue. --- Você…

—-- Não estava esperando pelo grito mais bom trabalho. Agora é só esperar.

Do meio das árvores ele saiu. Pálido como neve, cabelos loiros quase sem cor, usando uma camiseta rasgada nos ombros, lhe faltava um dos sapatos, a calça jeans azul escuro era rasgada nos joelhos.

—-- Parece… parece que não tem consciência. --- disse a garota baixinho.

—-- Por que não tem. Nas primeiras décadas eles são assim, e sem o vampiro que os criou acabam vagando sem rumo até serem mortos.

—-- Que maldade. Que tipo de monstro transforma alguém e o abandona assim?

—-- Conheço alguém com esse perfil, vamos descobrir.

Alice só teve tempo para piscar. quando abriu novamente os olhos o seu companheiro de viagem já tinha quebrado o pescoço do vampiro e caminhava lentamente com os pés descalços até ela novamente, com sua recente vítima em uma das mãos enquanto verificava seu pescoço, como se procurasse algo.

—-- Achei --- disse ele já próximo a garota. Havia uma cicatriz em forma de “J” um pouco abaixo de seu pescoço, próximo ao peito.

—-- O que o “J” quer dizer?

—-- O “J” quer dizer Julian. E só para constar, ele é a pessoa que estamos procurando.

2

A caminhada pelo bosque continuava, com a garota ao lado do homem segundo o vampiro em suas costas. O cadáver exibia a mordida que levara em seu pescoço pelo guarda-costas de Alice, balançando nas costas de seu carrasco.

A garota passou dias tentando ter uma de suas dúvidas respondida durante seu breve tempo (embora parecesse uma eternidade) com o monstro que a protegia. Ela perguntou o que ele era, qual era seu nome, o que ele fazia, e todas foram respondidas com uma charada, sendo a última “Qual é o lado ruim de se viver para sempre”.Alice sentia fortes dores nas pernas, caminhavam já fazia quase um dia inteiro.

Depois de ser salva pelo devorador de vampiros, ela, em momento de desespero, o intimou a escoltá-la até um lugar seguro. As pessoas nem sempre são lógicas quando estão em choque, com medo, aquela possivelmente foi a coisa mais estúpida que fizera em toda sua vida, um monstro esquarteja vários vampiros como se fossem feitos de papel e ao invés de se esconder ou implorar por sua vida, ela tenta lhe impor uma ordem, imagine então sua surpresa quando ele aceitou? Desde então ela tentava acreditar que suas motivações, por trás da brutalidade, era por uma boa razão, no entanto quanto mais conviviam, mais ficava evidente o quanto era cínico, indiferente e cruel. E se tudo aquilo fosse uma espécie de jogo doentio? E se ele a protegia para que no momento em que se sentisse mais segura, sua vida fosse finalmente tirada? Essas dúvidas a assombravam constantemente.

No dia seguinte ao ataque a garota foi escoltada até o seu antigo orfanato, ao encontro de Ivy, mas ele não estava mais lá. A diretora Joyce lhe disse que ele tinha sido acolhido por um senhor “extravagante”. A notícia a deixou feliz mas a senhora não sabia qual era sua localização e então seu desespero veio a tona. Ela tinha desabado quando o homem disse que tinham uma alternativa, e foi só o que disse.

—-- Vamos parar para descansar, preciso tirar uma soneca.--- Falou o homem interrompendo o silencio.

Ela não contestou, estava exausta. Não existia qualquer tipo de conforto em meio ao bosque, nenhum lugar onde deitar o corpo se não o chão, ela estava ao lado do devorador de vampiros, tinha um cadáver estendido ao seu lado e a floresta era abitada por ursos, e a parte triste é que essa era uma das melhores noites dos últimos dias.

—-- Por que você faz isso? --- perguntou a garota enquanto tentava de acomodar da melhor maneira possível.

—-- Se você tentar acho que consegue ser um pouco mais vaga.

—-- Me refiro aos vampiros.

—-- Por que preciso me alimentar, assim como qualquer um de nós.

—-- De nós quem?

—-- Nós. Vampiros.

—-- Você é um deles? E eu achando que não podia ficar ainda mais estranho, achei que só podiam se alimentar de humanos.

—-- Não. Essa é apenas a dieta ideal para a maioria de nós. Alguns precisam de algo diferente.

—-- Então você não se alimenta bem de humanos?

O Homem estava estirado com as mãos atrás da cabeça para apoia-la enquanto estava deitado olhando para o céu. Ele não se deu ao trabalho de responder a garota e o silencio voltou a reinar.

—-- Mentiroso. --- disse a garota.

—-- Ta bom. Em que momento eu menti?

—-- Você vem fazendo insinuações sobre se alimentar de mim, mas não pode.

—-- Pequena --- disse o homem com risada sarcástica --- posso te atacar a hora que quiser, a única razão para ainda não ter feito é porque meu paladar é muito refinado. Para mim sangue é como vinho, quanto mais velho melhor. Nunca se permita sentir segura ou essa ingenuidade vai acabar matando você. Ou quem sabe fazendo você se transformar em algo que nem mais reconhece em comparação com o que já foi.

Nesse ponto a garota não tinha certeza se ele ainda se referia a ela. Ela notara aos poucos que a expressão no rosto do homem era sempre vazia, mesmo quando sorria como fizera a pouco, não parecia real. Era como uma máquina tentando emular alegria.

O homem parecia ter conseguido pegar no sono, mas suas palavras mantiveram Alice acordada. Ele começou a pensar em como ele deve ter sido quando humano, se pelo menos o que ela achava que sabia sobre vampiros fosse verdade, ele não podiam nascer e nem se reproduzir, sendo assim ele deveria ter vivido uma vida humana antes de ser transformado, talvez tivesse sido um pai, um marido, um homem gentil, e o que estava diante dela...