As Criações
29 Capítulo 28 - Respirando
Notas iniciais
–Pela milésima vez, pare de tentar arrancar isso – esbravejei com Tessa tirando gentilmente sua mão do lugar.
Definitivamente Tessa era alguém com um nível de teimosia maior do que o normal. Desde cedo ela tentava ora arrancar o soro ora o respirador, alegava que aquilo a incomodava.
–Isso incomoda – reclamou como uma criança – Parece que estão puxando minhas tripas por esse caninho.
–Já lhe expliquei um bilhão de vezes, a função realmente é limpar seu sangue e por isso dá a impressão de estar puxando você de dentro para fora. Não sou professor, não me faça repetir isso de novo – disse.
Tessa ainda estava cansada porém, lucida. Decidi acampar ao seu lado, as horas se arrastavam e Tessa falava mais que o normal. As vezes ela ficava tão quieta que parecia estar morta e outras veze falava mais que o necessário.
–Está bem – murmurou – Ficarei quieta pelos próximos mil anos, afinal quando vou poder sair daqui? Estou me sentindo melhor.
–Quanto não houver mais nenhum remédio dentro de você poderá sair daqui, caso contrário acostume-se com o silêncio – sorri e ela bufou.
Ela ficou quieta por pelo menos vinte minutos seguidos, olhava para mim e para as paredes. Seu olhar estava distante, queria saber o que estava passando dentro da cabeça dela.
–Sabe o que eu quero? – disse de supetão
–Eu? – perguntei cínico, tentando deixar o clima ameno.
–Você não é de comer, idiota – riu ela.
–Isso depende do seu ponto de vista
–Credo Theo! Que piada maliciosa – disse rindo – Mas, não quero você. Queria comer, comer como nunca comi na minha vida.
–Só estou descontando a piada do anjo – sorri – Peço para lhe trazerem algo mais tarde, agora é importante que esses resíduos saiam do seu corpo e...
De repente a porta se abriu. Tessa se assustou e aperto minha mão na sua, Lize entrou correndo ao lado de Rachel e Aylin.
–Tess, que saudades – correu para abraça-la.
Tessa ofereceu o melhor sorriso que tinha, o abraço era dolorido para ela mas mesmo assim ela abraçou Lize de volta. Rachel e Aylin perceberam e apenas a apertaram de leve.
Lize cresceu nos últimos anos. Ela tinha os cabelos maiores presos em tranças, não tinha mais o corpo de uma garotinha mas também não era de uma adolescente, ela estava de longe mais bonita e menos parecia comigo. Não que eu fosse feio e eu não era.
–Jesus, como você está grande Lize – disse Tessa – Também senti saudades.
Ela olhou para as duas amigas e sorriu. Talvez, fosse reconfortante ver as amigas.
–Rafaela quer falar com você, sobre os planos de amanhã – disse Aylin ignorando Tessa e olhando para mim.
Ela podia ter ficado quieta. Só um pouquinho e nada a mais. Tessa não precisava saber que amanhã nós pretendíamos atacar o governo. Ela não estava em condições de lutar e se soubesse que iramos, não me daria escolhas e iria querer ir junto.
–Que planos? – indagou Tessa.
–Derrubar o governo – disse Lize sem querer e logo depois de olhar para mim viu que deveria ter ficado quieta.
–Vocês vão atacar o governo? – perguntou com um misto de horror e felicidade nos olhos.
–É o plano – disse Rachel.
–Quando pensou em me contar? – perguntou ela olhando para mim – Ou não iria me dizer nada?
–Eu iria – menti – Só estava...
Aylin nos interrompeu.
–Rafaela quer mesmo falar com você
Suspirei soltando o ar lentamente, saí da sala deixando elas.
[...]
Fiquei por duas horas sentado em uma cadeira ouvindo Rafaela falar sobre os planos para o ataque. Meus pensamentos estavam bem longe, apenas querendo saber o que elas tinham dito a Tessa, o quanto elas tinham dito.
Já sabia os planos para o ataque de trás para frente, de lado, de frente, pulando. Ouvindo parecia fácil, mas eu sabia que quando verdadeiramente atacássemos a estratégia e tudo que planejamos não serviria para nada além de boas histórias caso sobrevivêssemos.
Voltei para a enfermaria. Tessa parecia melhor, já não tinha mais o respirador para os pulmões e parecia mais viva. Pela bagunça no quarto ela havia acabado de jantar e agora dormia. Apenas Rachel estava no quarto.
–Ela está dormindo a muito tempo? – perguntei.
–Tessa não está dormindo – sorriu Rachel – Ela é uma vaca que se irritou comigo e não quer mais conversar, então fingiu que caiu no sono.
–E porque ela se irritou? – quis saber bem humorado.
–Porque disse para ela sossegar essa bunda aqui quando nós formos amanhã. E que todos estamos felizes que ela esteja viva, mas que não está em condições de lutar e que com isso quero dizer que só vai atrapalhar – explicou – Então como ela é uma adulta, decidiu fingir que está dormindo.
Tessa esboçou um sorriso mesmo de olhos fechados.
–Ah entendo, adultos geralmente fogem dos seus assuntos dormindo.
–É típico, então eu vou mesmo dormir – sorriu Rachel indo para fora do quarto.
Voltei ao meu lugar na cadeira ao lado da cama. Peguei sua mão desocupada, Tessa abriu os olhos e realmente pareceu ser de alguém que estava dormindo.
–Desculpa por ter sido rude mais cedo, Rachel tem razão.
–Eu sei – sorri – E você também tinha razão, eu não iria lhe contar.
–Eu também sei disso, sou teimosa, impulsiva, explosiva e até um pouquinho louca. E isso tudo fez você não querer me contar, porque estava certo de que eu ficaria possessa e arrancaria tudo isso para seguir você onde quer que fosse. Porque eu não suportaria, não conseguiria lidar comigo mesma se você morresse – disse ela sorrindo fraco – Não iria querer acordar sabendo que eu estava deitada aqui enquanto você lutava.
Eu não tinha o que dizer a ela. O risco de ninguém voltar vivo era maior e mais forte do que a crença de que conseguiríamos.
–Tess, você não está em condições...
–Eu te amo, mas você não vai me dizer até onde eu aguento Theo. E se estou dizendo que posso, é porque eu posso. Até amanhã parte dos medicamentos vão estar fora do meu corpo, não estarei em perfeito estado mas, estarei boa o suficiente para lutar ao seu lado. Sou rápida, ágil, tenho ótima mira. Conheço aquele lugar, eu sai por um entrada subterrânea. Eu sou a criação perfeita e sem mim as chances de ganharmos são menores ainda.
Sorri. Eu e Tessa conversávamos por pensamento sem saber, era incrível como eu pensava e ela dizia ou vice e versa.
–Eu poderia ser todo romântico e dizer que vou lutar por sua honra e que você deve ficar e me esperar. Mas, eu não sou romântico. Nunca fui. Então, amanhã quando a noite chegar vamos sair e você vai lutar conosco – disse – Escolhi você Tess, porque você é como eu. Nós vamos lutar, eu e você contra o mundo. Você é minha melhor aluna.
Tessa sorriu acomodou-se na cama chegando mais perto de mim para deitar em meu ombro. Gentilmente peguei-a em meus braços e a deitei em meu colo, abracei seu corpo magro apertando-a de leve. Coloquei sua mão com soro por cima e joguei o cobertor sob nós dois. Tessa deitou sua cabeça em meu peito e sorriu de olhos fechados.
–Aluna? – murmurou – Quer lutar ao lado da sua aluna?
–Não – sorri – Quero lutar ao lado da minha namorada.
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