As Crianças da Rua Vianco - JDD

1 One da Anninha - As Crianças da Rua Vianco


Notas iniciais
Título: As Crianças da Rua Vianco
Mínimo - Máximo de Palavras: 1825 - 3907
Palavra Obrigatória: Sonolento
Música: De Nada - Maui (Moana)
Tema: As férias da escola de um grupo de amigos de 9-10 anos que são vizinhos desde que nasceram e se são uma espécie de clube um por todos e todos por um: Os Traquinas.
Personagens (1 - 4): Clarisse "Coelinha" Marques, Daiane "Dadá" Silva, Diego "Dinho" e Elthon "Elthinho" Prado

As Crianças da Rua Vianco

Oi, meu nome é Clarisse. Mas, por favor, me chamem de Coelhinha. Mamãe não gosta desse apelido que ganhei na escola, por causa dos meus dentes. Ela diz que é bul... buli... Brincadeira de mau gosto. Mas eu tô ok com esse nome, eu gosto. Não sei se ano que vem vão me chamar assim também, vou mudar de escola. Mas não quero pensar nessas coisas agora, só quero pensar numa coisa que quero desde o início das aulas: férias!!!!

— Mãããe! — gritei descendo as escadas.

— Oooooi, filha! — respondeu, sentada no sofá.

— Os Traquinas vão se reunir hoje na casa da Dadá. Posso ir, né?

— Tá bom, Clarisse. Quero você em casa antes do anoitecer.

— Ok, ok — dei um beijo em sua bochecha e saí — Não esquece de dar comida pro Tito! — gritei quando cheguei na porta e vi mamãe balançando a cabeça.

Mamãe era delegada. Eu quero ser como ela quando eu crescer. Salvar vidas. Mas eu ainda tô muito nova e então eu vou salvar as vidas de gatos que ficam presos em árvores e de passarinhos que quebram a asa. Depois de cinco passos, cheguei na casa de Dadá. Dinho e Elthinho já estavam lá.

— Finalmente, Coelhinha! — resmungou Elthinho.

— Não me enche o saco, não tenho culpa se fui a última a ser avisada.

— Ok gente, não criemos pânico. Todo mundo tá aqui então tá tudo certo. — disse Dadá.

— Os Traquinas vão ter muitas missões nessas férias? — perguntou Dinho.

Nosso clube, chamado de “Os Traquinas”, é um clube de “um por todos e todos por um”, eles são meus amigos desde sempre. Nascemos no mesmo quarteirão. A casa de Dadá é ao lado da minha e virando a esquina, está a casa de Elthinho. Vinte passos e chegamos à casa de Dinho. Clarisse, Daiane, Diego e Elthon. Ou melhor dizendo: Coelhinha, Dadá, Dinho e Elthinho! Nós somos Os Traquinas.

Dinho tem dez anos, assim como Dadá. Eu e Elthinho temos nove.

— Sim, eu espero que sim! — disse Dadá completamente animada — Quero aproveitar muito essas férias, não sabemos o que vai ser dos Traquinas quando Coelhinha mudar de escola. — ela cruzou os braços e fez cara feia. Estava odiando o fato de eu ter que sair da Frei Paulo.

Confesso, também estou um pouquinho triste. Um pouquinho, talvez um poucão. Sempre estudei lá e agora vou sair porque meus pais vão mudar de casa e a escola Raimunda Alves é mais perto de onde vão morar. Vou ser a primeira a sair da vizinhança onde conheci meus melhores amigos.

— Tá, ela ainda não foi embora — disse Dinho — então vamos ao que interessa. Eu soube que os irmãos Ferreira estão fazendo brincadeiras de mau gosto com a Cecília!

— Com a Cecília? Como assim? — Elthinho perguntou.

— Tão dizendo que eles chamam ela de feia e de elfo, por causa do tamanho das suas orelhas. Um dia eles até colocaram um bilhete dentro da mochila dela: cuidado pra suas orelhas não virarem asas e você sair voando.

— Isso é um absurdo! Eu não admito! A Cecília é tão linda, tão meiga, tão maravilhosa... — Elthinho suspirou. Aquele ali, coitado, é apaixonado pela Ceci desde o primário, mas ela nunca deu bola pra ele.

— Eu não gosto muito dela mas isso não tá certo — Dadá tomou a palavra — Esses meninos adoram ficar falando isso das pessoas, já falaram coisas assim pra Coelhinha!

— É, eles falavam dos meus dentes, mas não me importo, de verdade. — respondi.

— Você não se importa mas um dia eu vi a Cecília chorando por causa disso. Eu fui falar com ela e ela disse que não era nada e saiu andando. — Dinho falou.

— Aff, ela é muito arrogante. Elthinho, como você pode gostar dela? — Dadá perguntou.

— Olha aqui, Daiane, não se mete no meu sentimento por ela! — pronto, agora Elthinho estava realmente bravo. Ele nunca chama a gente pelo nome, mas era só falar da Cecília que ele ficava muito irritado.

— Gente, tá bom, não vamos brigar por causa disso — eu falei.

— Tá, tá — Dadá respondeu, revirando os olhos — Mas o que nós vamos fazer?

— Eu acho que a gente devia aprontar uma com eles — Dinho fez a cara de sapeca que só ele sabe fazer.

— Tô começando a gostar dessa ideia... — respondeu Elthinho. Ele, com certeza, queria dar muitos socos nos meninos, por mexerem com sua amada.

— O que quer aprontar? — perguntei.

— Olha, eu tava pensando em entrar na casa deles de noite! Se um de nós, você, Dadá, que é mais próxima deles, for dormir lá, pode dar passagem pra gente. — Dinho respondeu.

— Gente, hoje? Minha mãe disse que preciso estar em casa antes de anoitecer! — falei — Acho que primeiro Dadá precisa ir na casa deles e pedir, qualquer dia, e então nós podemos colocar nosso plano em ação.

— Mas qual é o plano, afinal? — Dadá perguntou, ela seria a maior cúmplice.

— Talvez entrar lá e colocar muita pimenta nos olhos deles! — Elthinho soltou uma risada esquisita.

— Não, não. Não vamos pegar tão pesado. — Dinho disse — A gente só precisa fazer com que eles parem.

— Ah! Eu já sei — Dadá começou a falar e o plano dela era engraçado, mas muito bom. O grupo todo concordou em fazer, mesmo Elthinho preferindo a ideia de jogar pimenta nos olhos de Pedro e Guilherme.

Nós então ficamos conversando e discutindo sobre como e quando íamos colocar nosso plano em ação. Depois de algumas horas, eu voltei pra casa.

Fui para o meu quarto e peguei meu pequeno diário azul, comecei a escrever.

“Querido diário, Os Traquinas têm uma nova missão: aprontar uma com aqueles chatos dos irmãos Ferreira! Eles estão zoando a Ceci, você acredita? Eles me zoavam também, você sabe. Eles são mesmo muito mala. Elthinho é o mais irritado com tudo isso, óbvio. Não suporta a ideia de estarem mexendo com a menina que ele “é perdidamente apaixonado e poderia morrer para que ela tivesse a vida”, como ele mesmo diz. Ele realmente acha que um dia os dois farão um casal, talvez façam mesmo. Eu nem penso nisso, Deus me livre. Mamãe costuma dizer que menino só dá dor de cabeça. Eu sei bem como é uma dor de cabeça e não é nada legal! Imagina gostar de alguém e ter que tomar aqueles remédios—nada—legais todos os dias. Eca! Acho que a Cecília não quer muito papo comigo desde que soube que eu vou mudar de escola. Somos amigas, colegas talvez, e ela tá chateada. “Todo mundo vai embora e eu fico aqui nessa escola cheia de idiotas”. Ela tem 11 anos e odeia quase todo mundo, principalmente a Dadá, nem sei como ela gosta de mim. Bom, por hoje acho que é só. Boa noite, diário! Tchau.”

Guardei o diário na gaveta e dormi.

No outro dia, acordei tarde, o almoço já estava na mesa.

— Boa tarde, princesinha do papai — meu pai foi no meu quarto me acordar — Levanta, almoça, está um dia lindo lá fora!

Papai tinha essa mania de ser feliz e sorrir o tempo todo. Às vezes eu também sou assim, mas ele é, tipo, umas 10 vezes mais. Ele me disse que Dadá tinha passado aqui em casa de manhã e que ela pediu pra me avisar que ela e a irmã iam passar o dia com Pedro e Guilherme e que à noite iam dormir lá e tava tudo certo pro nosso plano.

— Eu só queria saber que plano — ele acrescentou.

— Relaxa papai, não vou me meter em confusão!

— Eu acho bom mesmo, mocinha. — me olhou sério e depois riu. Ele sabia que eu acabaria me metendo em confusão.

***

Pedi minha mãe para passar a noite na casa do Dinho, pois Os Traquinas tinham uma missão. Ela disse que tudo bem, contanto que eu me comportasse. Ela sabia que eu acabaria não me comportando.

Fui para a casa de Dinho. A casa dos irmãos Ferreira era em frente a casa dele. Dadá apareceu na janela e jogou um papel, Elthinho foi lá pegar. No papel dizia “Eles vão dormir às 21h. Temos que ser rápidos!”

Então, às 21h, saímos da casa de Dinho e fomos até a casa dos irmãos, entrando pela janela do quarto onde Dadá estava.

— Ainda bem que chegaram. Trouxeram tudo? — ela perguntou.

— Sim, trouxemos. — respondi.

— Gente, posso ajudar? Amo uma travessura. — pediu a irmã de Dadá, Camila. Ela tinha 15 anos, mas parecia ter a nossa idade de tão travessa que era.

— Pode sim — Dinho respondeu — Você pode ficar com as tintas, junto com a Coelhinha.

— Ok, ok.

Pegamos os baldes de tinta verde e entramos no quarto dos dois. Estava tudo escuro, os pais deles dormindo, eles dormindo, entramos com cuidado.

— E se eles acordarem? — sussurrei.

— Joga a tinta na cara deles e sai correndo. — Camila sussurrou de volta.

Pintamos os rostos deles com tinta verde, lembrando exatamente um elfo (aqueles de desenho animado), o apelido que eles deram para Cecília.

Naquele escuro, quase não vimos nada, talvez a tinta tenha acabado caindo em algum travesseiro, só talvez. Foi então que saímos de lá e Dinho e Elthinho entraram. Eu estava mesmo com medo de Elthinho ter levado algum tipo de spray de pimenta.

— Não seria ruim que ele estivesse mesmo com pimenta. Esses garotos são insuportáveis. Não quero passar mais nenhum dia com eles, como minha irmã aguenta esses dois? — Camila disse, indignada.

— Eu não sou bem amiga deles. Você sabe, nossos pais e os pais deles são amigos então... — respondeu.

— O importante é que esses gêmeos vão ter o que merecem.

Camila voltou até o quarto deles, eu não sabia o porquê. Quando voltou, disse que deixou um recado: “Cecília é perfeita como é, se olhem no espelho e me digam quem é a pessoa mais suja daqui. Vocês são feios, mas feios de alma.”

— Uou, eu te venero, irmã! — Dadá disse orgulhosa para Camila.

Os meninos tinham entrado no quarto para zoar mesmo, tirar fotos e riscar os garotos com canetinha. Nós saímos de lá por volta de quase 22h. Chegamos na casa de Dinho e a mãe dele estava pirando. Ele disse que estava brincando na rua e ela, mesmo brava, acreditou.

No dia seguinte, eu fui até a casa de Cecília e contei pra ela tudo o que tínhamos feito. Ela não acreditou. Disse que ia falar com todos nós, juntos. Eu reuni Os Traquinas na minha casa e ela começou a falar.

— Os meninos apareceram lá em casa hoje de manhã, todos sujos, com cara brava, os pais deles também. Mas os pais deles queriam se desculpar. É claro, acharam que tinha sido eu, eu fiquei desesperada, não fui eu!!! Eles perguntaram o que os dois faziam comigo e eu contei, então eles pediram desculpas por eles e fizeram eles pedirem desculpas também. Eles falaram: nunca mais vamos fazer isso, aprendemos a lição. Óbvio, eles estavam lá contra a vontade deles, mas acho que se fizerem isso de novo com alguém, quem vai tomar providências vão ser os próprios pais.

— Que bom, espero que eles nunca mais mesmo façam isso com você, minha rainha! — disse Elthinho, completamente apaixonado.

— Ah, eu também quero te pedir desculpas, Elthinho. Não fui a melhor pessoa com você. Nem com você. — disse olhando para Dadá — Me desculpem mesmo, nunca pensei que alguém faria isso por mim. Obrigada.

— Nós somos Os Traquinas, nunca deixamos um amigo na mão! — eu falei e Dinho concordou:

— Sempre vamos ajudar se precisar.

— Muito obrigada mesmo. — ela repetiu.

— Confesso que não queria muito fazer isso, porque, digamos, não nos damos muito bem. Mas fico feliz disso ter acabado. — Dadá falou.

— Ainda bem mesmo que acabou.

E realmente tinha acabado. As perseguições, os bilhetes e, num piscar de olhos, as férias. Eu já estava me mudando e me despedindo dos três melhores amigos da minha vida: Dinho, Dadá e Elthinho.

— Eu não tô acreditando que você vai me abandonar, eu vou te matar! — disse Elthinho, os cachos caindo na sua testa o deixavam adorável, ele me abraçou.

— Você tá chorando? — perguntei.

— Não, não. Um cisco caiu no meu olho. — respondeu secando as lágrimas.

— Eu vou sentir falta de vocês. Você, Elthinho, nunca vou esquecer do quão sonolento você é, de todas as vezes que dormiu nas nossas reuniões. Você, Dadá, minha menininha, eu nunca vou encontrar uma melhor amiga como você. E você, Dinho, você é o garoto mais legal da face da Terra! Obrigada por manter a paz aqui no nosso grupo. — Ah, meu Deus, agora era eu quem chorava. Essa é a nossa última reunião comigo morando aqui e eu não quero mesmo ir embora. — Eu amo vocês.

— A gente também te ama — Dadá respondeu — Você só vai pro outro lado da cidade, não pro outro lado do mundo. Você não vai se livrar da gente tão cedo!

Dinho pegou o celular e colocou uma música pra tocar. Era “De Nada”, do filme Moana. Lembrei de quando assistimos esse filme, juntos e ficamos cantando essa música por semanas. É, eu ia mesmo sentir falta deles.

— É bom que você não se esqueça da gente, ok? Nunca vou te perdoar por ir embora. — Dinho disse.

— É como a Dadá disse. Já já eu tô de volta. Nunca vou sair dos Traquinas, nunquinha mesmo.

Eles me abraçaram. E então, coloquei a mão no meio de nós quatro, depois Elthinho, depois Dadá e depois Dinho. Demos o nosso grito de guerra.

— UM POR TODOS, E TODOS POR UM!

Eu sei que vou voltar. De verdade? Lá no fundo, Os Traquinas nunca vão se separar. Eu sei que temos muitas outras aventuras pra viver.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!