As Crianças Do Tempo

5 Capítulo 5 - Uma morte na família.


- Doutor alienígena? – Indagou o Doutor, recuando.

- Você é o Doutor alienígena? – Perguntou a voz robótica, novamente.

- T-tecnicamente, sim. – Disse o Doutor. – Isso me lembra uma situação familiar...

- ELIMINAR. –Disse a voz vindoura do braço, uma luz azul acendendo de sua ponta.

O Doutor abaixou, e um tiro azul atingiu o console da TARDIS, causando uma pequena explosão que jogou todos para fora.

Lá fora, caíram num chão árido e seco. Algumas construções de madeira velho-oésticas em volta. Um grande amontoado de pinguins, longe, ao fundo, observando.

Misericórdia. A boa e velha cidadezinha.

A origem do braço era um pinguim de carne rosada dilacerada, olho mecânico azul e roupas de caubói. Estava morto no chão.

Uma fumaça preta saia de dentro da TARDIS.

- Droga, você quebrou! Seu maldito! – Ralhou o Doutor. — Ela tinha acabado de ser consertada e...

- Eh... Doutor? – Murmurou Rodrigo.

- Sim? – Perguntou o Doutor, enfurecido.

- Acho que ele morreu. – Completou Azul, cutucando o pinguim de braço biônico com o pé.

- ...Oh. – Murmurou o Doutor, olhando para o morto, e, em seguida, para a multidão que observava o ocorrido.

- ELES MATARAM O PISTOLEIRO! – Gritou uma voz da multidão.

De repente, toda a cidade irrompeu em gritos de alegria e risos.

- Pistoleiro? – Murmurou Ghe.

- Já vi isso em... outro universo. – Comentou o Doutor. – Possívelmente, estamos numa versão paralela de tal acontecimento. Caramba, o Pistoleiro tinha durado mais...

E, no meio da multidão, irrompeu Justin.

- Doutor! Ghe! Rodrigo! Quanto tempo! – Disse Justin, jovial.

- Êh... quantos meses foram pra vocês, que pegaram o caminho mais longo? – Perguntou o Doutor.

- Meses? Fazem 5 anos! – Clamou Justin. – O Pistoleiro chegou aqui faz alguns meses. Ele dizia estar procurando por um doutor alienígena, logo fiquei preocupado com vocês e...

- Doutor... alienígena... – Murmurou o Pistoleiro, ainda vivo, e atirando na direção do Doutor.

O Doutor esquivou-se.

O tiro pegou em Justin, que caiu duro no chão.

- JUSTIN! – Gritou Ghe.

O Pistoleiro, agora, sem dúvida, havia morrido.

- Não se preocupe, Ghe. – Disse Justin, em voz rouca. – Eu sou um vampiro, lembra? Essa ferida vai regenerAAAARGH!

- Você se curou do vampirismo, cara! Como acha que está aqui, no sol, sem queimar? Lembra? – Indagou Ghe.

- Verdade... – Disse Justin. – Você está sempre certo. Sempre...

E morreu.

- Não, não, não, não! – Disse Ghe, colocando a nadadeira sobre o peito ensanguentado do amigo. Uma luz, um vapor amarelado, começou à exalar-se da nadaeira.

O Doutor deu um tapa na cara de Ghe.

- GHE, VOCÊ NÃO PODE FAZER ISSO! – Gritou o Doutor. – Isso é um desperdício de energia regenerativa! Você pode morrer!

A luz, vapor, amarelado, cessou. Ghe olhou para o corpo sem vida.

- Vamos levar-lo para a Mansão. – Disse Ghe, segurando o corpo.

- Como sabe que eles ainda moram lá? – Indagou Azul.

- Eu estou sempre certo. – Disse Ghe, soturno, caminhando entre a multidão, com o corpo, em direção à Mansão.

Justin foi enterrado numa cova simples, nos fundos da mansão. João Raposo, o padre de Misericórdia, providenciou uma missa de despedida. Depois, aconteceu algo que há muito não se via em Misericórdia. Choveu.

Dente Doce, Clock, Rodrigo, Azul, Ghe e o Doutor estavam reunidos num salão da Mansão. Porém ninguém dizia uma só palavra.

- Então... – Perguntou Clock, ao Doutor. – E a TARDIS?

- Levei-a para o porão. – Disse o Doutor. – Ela tinha acabado de se auto-reparar antes do Pistoleiro destruir-la novamente, então ainda vamos ter que ficar aqui por um tempinho. Uma, duas horas, quem sabe.

Ghe levantou-se.

- Vou pegar um ar.- Anunciou, saindo sem cerimônias.

Ghe ficou sentado em uma janela aberta, o vento e a chuva esvoaçando em seu rosto. Ele estava sentindo dores.

Sua pele piscou em um flash azulado, deixando seus ossos à mostra por um tempo.

Ele olhava, pensativo, para a cidade.

Piscou.

Quando terminou de piscar, algo que não estava lá apareceu.

Algo não.

Alguém.

Um Ood.

Ood Sigma.

Ghe havia conhecido o Ood Sigma pelas histórias do Doutor, que o encontrou durante os últimos anos de seu 10º Corpo. E já havia o encontrado uma vez... num futuro distante. Ou seria passado?

Ood Sigma estava em pé, de frente para a Mansão. Parado. Fitando Ghe com seus olhinhos miúdos.

Uma voz infaltil, como se estivesse infiltrada na mente de Ghe, começara a cantarolar:

- Tic, toc.

Goes the clock.

Even for the Master…

Ghe piscou furiosamente, e Ood Sigma e a canção pareceram evaporar.

- Uma moeda por seus pensamentos. – Entoou a voz do Doutor, pelas costas de Ghe.

Ghe chegou para o canto da grande janela, e o Doutor sentou ao seu lado.

- O que está acontecendo, Ghe? – Perguntou o Doutor.

- O meu fim, Doutor. – Proclamou Ghe. – Está próximo. Eu sinto isso em meus ossos.

- Bobagem. – Disse o Doutor. – Koschei, eu passei séculos tentando lhe convencer à viajar comigo. E agora que finalmente conseguimos... o que está errado?

- Eu não devia ter gastado aquela energia regenerativa à toa. – Lamentou Ghe. – Sinto-me fraco. Estou morrendo, Doutor.

- Não diga isso. – Falou, severamente, o Doutor. – Sabe quantas pessoas eu perdi? Zoe, Jamie, Rose, Donna, Amy, Rory, Adric... todos eles, Ghe... por minha incompetência. Por favor, não morra. – Uma lágrima escorreu. – Só dessa vez, todo mundo vive. Só dessa vez...

- Certo. – Disse Ghe, sobriamente triste.

O Doutor saiu de lá, e dirigiu-se de volta ao salão.

Ghe deixou uma lágrima escorrer.

Mas não era uma lágrima comum.

Era uma lágrima de sangue.

O sangue do Senhor do Tempo escorreu por seu rosto, abrindo uma ferida que se regenerava quase instantaneamente após ser aberta.

A lágrima caiu para fora.

Pingou na cabeça do Ood Sigma.

Ghe e o Ood se encararam, em silêncio, por cerca de 10 longos minutos.

- Toda melodia precisa terminar. – Anunciou Ood Sigma, um tom de voz calmo e inabalável.

- Eu sei. – Respondeu Ghe, soturno e com um pesar em seus corações.

Vroop. Vroop. Vroop.

Um tubo cilíndrico branco-mármore com uma porta cinzenta se materializava em volta do Ood Sigma.

Ghe conhecia aquela forma.

Era uma TARDIS, sem o Circuito Camaleão alterado.

A porta se abriu.

De lá, saiu um pinguim azul. Tinha botas cinzentas bem elameadas, e utilizava um casacão preto com cachecol azul. Sua aparência facial dava um ar bem envelhecido, desgastado, cheia de rugas em diversos pontos do rosto. Seus olhos de mil anos eram profundos como buracos negros. Seu bico era salpicado por uma barba rala e cinzenta, dando ao sujeito um aspecto de ancião. Tinha cabelos igualmente cinzentos, longos e desgrenhados – Como se Beethoven tivesse acordado, e não penteado os cabelos.

Ele fitou Ghe por alguns minutos, a chuva amassando seu cabelo contra o rosto.

Aquele rosto.

O rosto era um tanto familiar.

O velho pinguim entrou novamente na TARDIS.

Cerca de 40 segundos depois, voltou, com um velho e surrado chapéu de palha em mãos.

Parado na porta da TARDIS, e fitando Ghe, o velho pinguim colocou o chapéu de palha sobre sua cabeça, amassando ainda mais os cabelos grisalhos úmidos sobre o rosto.

Ghe entendeu a mensagem.

- Depois de todo esse tempo? – Perguntou Ghe.

- Sempre. – Respondeu o velho pinguim.

Notas finais
Referências usadas no texto:
- O Pistoleiro realmente era um personagem de Doctor Who, do episódio "A Town Called Mercy".
- O Ood Sigma também era um personagem de Doctor Who, que apareceu nos episódios "Planet of the Ood" e "The End of Time".
- O último diálogo é uma referência à Harry Potter.