As Crianças Do Tempo

6 Capítulo 6 - Os Dois Ghes


O interior da TARDIS era branco-sóbrio e tinha um console padrão.

- Ghe. – Disse Ghe, para a figura envelhecida que entrara com ele na TARDIS.

- Ghe. – Replicou o Ghe Velho.

- Para que precisa de mim, e... onde arranjou essa TARDIS?

- Fui convocado pelos Senhores do Tempo. – Explicou o Ghe velho, ajustando as coordenadas do console. – Rassilon, aquele velho malandro.

- Guerra do Tempo? – Questionou o Ghe Novo.

- Precisamente. – Explicou o Ghe Velho.

- O que houve? – Perguntou o Ghe Novo.

- Você descobrirá em breve. Isso é algo muito sério. – Afirmou o Ghe Velho, a porta da TARDIS abrindo. – Chegamos.

Os dois Ghes saíram num imenso pavilhão, rodeado de arquibancadas, todas ocupadas por Senhores do Tempo na forma humana, em forma circular.

- Senhores do Tempo. – Disse o Ghe Novo.

O Ghe Velho curvou-se e sussurrou “Senhor Rassilon”.

- Não vai se curvar, Mestre? – Perguntou Rassilon.

Rassilon era um Senhor do Tempo humanoide de corpo físico na meia-idade – aparentava algo no fim dos 40 anos. Faces rudes, olhos verdes penetrantes, sobrancelhas espessas e cabelo preto agrisalhando-se completavam o figurino.

O Ghe Novo cuspiu na cara de Rassilon.

- Não depois do que vocês fizeram comigo. E não me chame de Mestre. Agora sou Ghe.

Rassilon bateu seu cetro no chão.

- INSOLENTE! – Praguejou Rassilon. – Porte-se de forma cordial. Estamos no tribunal dos Senhores do Tempo.

O Ghe Velho olhou para o Ghe Novo, com um olhar que praticamente dizia: “Por favor, você poderia agir como alguém crescido por apenas alguns minutos?”.

- O que vocês querem, afinal? – Perguntou o Ghe Novo.

- Mestre. – Disse uma Senhora do Tempo, que parecia ter cargo judicial elevado, e estava num lugar exclusivo da arquibancada. – Suas viagens acabaram.

- Hã?! – Indagou o Ghe Novo.

- Seu destino foi decidido. – Disse outra Senhora do Tempo.

- Essa é a batalha final do Mestre. – Acrescentou outra.

- Exijo explicações! – Gritou o Ghe Novo.

- Explique para ele. – Ordenou Rassilon para o Ghe Velho.

- Escute, meu caro Ghe. – Falou o Ghe Velho. – Como você sabe, somos O Mestre. Você lembra de quando foi mandado para morrer de volta com os Senhores do Tempo em Gallifrey, pelo Doutor, no finzinho de... 2009 D.C, ano terráqueo?

- Perfeitamente. – Disse o Ghe Novo, lembrando-se daquela sombria época. A época em que ele ainda era regenerado como um humanoide. Cabelos loiros, barba cerrada... tentativa de dominação mundial...

- Então. – Continuou o Ghe Velho – Parece que, por algum motivo, aquele momento causou um buraco na linha do tempo do Mestre, gerando, em universos e multiversos paralelos, regenerações alternativas dele. Nós somos uma das “regenerações alternativas”. E, como o Mestre original falhou em ajudar os Senhores do Tempo na Última Grande Guerra do Tempo, eu fui convocado.

- Mas... por que nessa idade? – Questionou o Ghe Novo. – Por que não... eu mais jovem?

- Estou em minha última regeneração. – Explicou o Ghe Velho. – Estou me sacrificando na Guerra do Tempo.

O Ghe Novo olhou para Rassilon, que não conseguia esconder um sorrisinho.

- Isso é cruel. – Disse o Ghe Novo.

- Mas tudo em nome de Gallifrey! – Entoou Rassilon, glorioso, os outros Senhores do Tempo do tribunal aplaudindo.

- Mas não em nome do Ghe. – Sibilou o Ghe Novo.

- Não há Ghe nenhum. Há apenas O Mestre. – Falou Rassilon.

- O nome que você escolhe é como uma promessa que você faz. – Rebateu o Ghe Novo. – O Mestre morreu no segundo em que me regenerei num pinguim.

- Tanto faz. – Disse Rassilon, indiferente. – O que importa é que, hoje, Gallifrey RESSURGE!

Aplausos e gritos dos outros Senhores do Tempo encheram o pavilhão.

- Isso está errado, Rassilon. – Gritou um Senhor do Tempo aleatório, no meio da mulditão.

Rassilon olhou irritado para o indivíduo.

- VOCÊ! Venha aqui! – Gritou Rassilon.

O franzino Senhor do Tempo desceu da arquibancada e caminhou pesadamente até Rassilon.

- Você pagará por sua insolência, como os Anjos Lamentadores da antiguidade! – Entoou Rassilon.

O Senhor do Tempo franzino, chorando, pôs as mãos sobre o rosto.

Rassilon golpeou-o com seu cetro, e, de repente, ele virou pedra. Asas de concreto nasceram em suas costas. Ele havia virado um Anjo Lamentador.

- Tirem-no daqui.

Dois Senhores do Tempo fortes apareceram de um canto e tiraram o recém-criado Anjo Lamentador do pavilhão.

Rassilon bateu o cetro no chão.

- Algum outro rebelde?

O Ghe Novo abriu a boca, mas não respondeu.

- Então, está decidido. – Conclui Rassilon. – Agora, vão. Gallifrey precisa de vocês.

Os Ghes saíram caminhando lado a lado do pavilhão. Trajavam roupa tradicionais de Senhores do Tempo, doadas por Rassilon. Seguravam lanças pontudas e douradas nas nadadeiras, e chaves de fendas sônicas de semelhante textura. Estavam indo à Guerra.

- Me lembre de uma coisa... – Disse o Ghe Novo.

- Sim? – Indagou o Ghe Velho.

- O que diabos EU estou fazendo aqui?

- Eu aceitei me sacrificar na guerra, mas, como último desejo, pedi para te ver com meus olhos pela última vez.

- Woah, isso é... poético.

Eles caminharam até um pelotão de Senhores do Tempo, que estavam lutando contra Daleks.

O Ghe Novo tremeu um pouco.

- Algum problema, Ghe? – Perguntou o Ghe Velho.

- É Gallifrey. – Disse o Ghe Novo.

- Sim...?

- Me dá arrepios.

Os dois, lá, lutaram. Explodiram muitos Daleks. Quando, de repente, o Ghe novo ficou inconsciente.

Ghe sonhou que estava sozinho. Rodeado de Daleks.

Quando, de repente, Ood Sigma apareceu.

- Toda música precisa terminar. – Disse o Ood Sigma, que já havia dito aquilo milhões de vezes.

- Eu sei. – Respondeu o Ghe Novo.

Quando Ghe acordou, ele já não era mais o mesmo.

Estava vestindo um casaco preto, por cima de uma camiseta azul. Chapéu de palha. Cabelos loiros curtos e barba por fazer.

Ele... ele estava de volta.

O Mestre.

O Mestre-Ghe levantou-se com um pulo e chutou um Dalek.

- Ghe... você... – Babulciou o Ghe Velho.

- Não há Ghe. – Disse o Mestre-Ghe. – Só há... O Mestre!

- Mudança súbita no usuário Ghe Laddo. – Falou um Dalek, com voz gelada e robótica.

- Ghe Laddo?! Argh, vocês nunca escutam? – Falou o Mestre.

- Renda-se – Disse um Dalek, com sua voz robótica. – Ghe Ladd-

O Mestre apertou um botão em sua chave de fenda sônica e o Dalek explodiu.

- OUÇA O SEU MESTRE! – Gritou o Mestre.

Uma roda de Daleks se formou em volta dos dois Ghes.

- Ghe-

- MESTRE! – Cortou o Mesmo.

- Mestre... – Disse um Dalek. – Você não está entendendo a situação em que você está.

O Mestre riu.

- Ghe... você está em perigo. – Sussurrou o Ghe Velho.

- Perigo? Você claramente não sabe com quem você está falando, então permita-lhe explicar. Eu não estou em perigo. Eu sou o perigo. Um cara abre a porta de casa e leva um tiro, e você acha que sou eu? Não! Eu sou o que bate na porta! – Gritou o Mestre.

Então, levantou sua chave de fenda sônica, pressionou fortemente o botão e todos os Daleks à sua volta explodiram.

Alguns segundos de silêncio.

- Então... – Disse o Ghe Velho. – Que eu saiba, a maioria das chaves de fenda sônicas... elas meio que... não fazem isso.

- Essas chaves de fenda, cara contraparte velhaca, foram feitas para matar. – Explicou o Mestre.

Mais alguns Daleks começaram a chegar.

- Mas... tem certeza que elas... uh... funcionam pra sempre? – Indagou o Ghe Velho.

- Confie em mim, sou um psicopata. – Garantiu o Mestre, sacando novamente sua chave de fenda sônica e apertando um botão.

Porém nenhum Dalek explodiu.

O Mestre apertou repetidas vezes o botão, porém nada acontecia.

Então, ele olhou para um Dalek, mas já era tarde demais.

O Dalek atirou.

O Mestre caiu no chão e morreu.

Outro disparo de Dalek atingiu o Ghe Velho, que também caiu, impotente, no chão.

...

[2 horas depois]

Ghe Laddo acorda, num chão esburacado em uma zona de guerra em Gallifrey.

- Minha... minha cabeça... – Murmurou Ghe. – O que... Oh. Não... NÃO, NÃO, NÃO!

Ele olhou para o Ghe Velho, que encontrava-se caído, ao seu lado, no chão.

- Por favor, não esteja morto. – Sussurrou o Ghe Novo.

O Ghe Velho abriu os olhos.

- O Mestre... – Murmurou ele. – Os Daleks... estou morrendo, Ghe.

- Não morra, não morra, não morra... AJUDA! – Gritou o Ghe Novo.

- Não grite... os Daleks podem estar por perto... – Murmurou o Ghe Velho.

- Só há uma coisa a fazer. – Disse o Ghe Novo, decidido.

Então, este pôs a nadadeira esquerda sobre a testa do Ghe Velho. Alguns vapores amarelados começaram a sair da nadadeira. Ghe estava transferindo energia regenerativa para sua contraparte velha.

- Não faça isso... – Murmurou o Ghe Velho. – é desperdício de energia regenerativa. Esse tipo de coisa... nunca funciona.

- Eu preciso tentar. – Respondeu o Ghe Novo, seco.

- Ah, sim... obrigado. – Disse o Ghe Velho, fechando os olhos. – Mantenha-me aquecido.

Porém, logo o Ghe Novo percebeu que os corações do Ghe Velho parara de pulsar.

Ghe afastou sua nadadeira, e o vapor amarelado sumiu.

Uma lágrima escorreu.

Ghe pegou sua chave de fenda sônica. Ele nunca fizera aquilo antes. Mas sabia o que fazer, em último caso.

Ele a programou com as frequências certas, e a deixou no chão.

“A palavra-chave”, pensou ele. “Allons-y”.

Ghe pegou o cadáver de sua contraparte morta e andou, lentamente, de volta até o Alto Conselho dos Senhores do Tempo.

Alguns Daleks começavam a rodear-lo enquanto andava, mas nenhum atirava ou falava nada.

- O QUE VOCÊS QUEREM, AFINAL?! – Gritou Ghe. – ELE JÁ ESTÁ MORTO, SEUS CANALHAS! Eu também. Não totalmente, mas... O Mestre morreu. Vocês querem matar alguém? Eu estou aqui. Me matem! Eu já vivi o suficiente, não é mesmo?! Eu vi muitas coisas, nessa minha vida. Estou andando no meio da Última Grande Guerra do Tempo. Eu marquei a trajetória dos Senhores do Tempo. Eu vi o nascimento do universo e vi o tempo esgotar, momento por momento, até nada sobrar! Nenhum tempo, nenhum espaço, nenhum nada. Apenas eu.

Os Daleks se afastaram um pouco.

- EU CAMINHEI POR UNIVERSOS ONDE AS LEIS DA FÍSICA ERAM DESAFIADAS PELA MENTE DE UM MALUCO! – Gritou Ghe. – Eu assisti universos congelarem e criações queimarem! Eu vi coisas que vocês não acreditariam! Perdi coisas que vocês nunca entenderiam! E eu sei de coisas, segredos que nunca devem ser contados e conhecimentos que nunca devem ser falados. Conhecimentos que fariam Deuses Parasitas queimarem. Então, vamos! ME MATEM! ME MATEM!

Porém os Daleks não mataram Ghe.

- Nenhum voluntário? – Indagou o Ghe. – BOM! Então, eu mesmo o farei. ALLONS-Y!

Então a chave de fenda sônica, que havia sido programada numa bomba, explodiu. Uma explosão imensa. Daleks voaram para todos os lados. E os dois Ghes também.

...

O Alto Conselho dos Senhores do Tempo.

Rassilon e os outros Senhores do Tempo esperam, impacientes.

- Tem certeza de que eles foram uma boa escolha? – Indagou uma Senhora do Tempo.

- Absoluta. – Afirmou Rassilon.

Nesse momento, os dois Ghes caíram no chão, abrindo um buraco no teto.

...

- Estou vivo. – Murmurou Ghe. – Ele... não.

- Ghe Laddo. – Falou Rassilon, soturno. – Essa era uma missão-suicida. Você falhou. Está marcado como uma desonra para os Senhores do Tempo.

- Deixe-me ver se estou entendendo... – Disse Ghe. – Eu acabei de ver EU MESMO morrer na minha frente, e agora, estou sendo culpado por não ter morrido?!

- Exato. – Afirmou Rassilon. – E, pela autoridade concedida à mim pelo Alto Conselho dos Senhores do Tempo, eu o condeno à prisão.

- PRISÃO?! – Gritou Ghe. – ESSE PLANETA VAI SER DESTRUÍDO! ESTAMOS EM GUERRA! NÃO. HÁ. TEMPO. PARA. PRISÃO!

- E alguém disse que sua prisão será aqui? – Indagou Rassilon. – Levem-no para o Salão do Tribunal. Lá, ele será julgado de acordo com o 15º Convento da Proclamação das Sombras.

Ghe levantou-se e apontou uma folha de aipo para Rassilon.

- NÃO OUSE! OU EU EXPLODO TODO ESSE SALÃO COM ESSE... – Então, percebeu que estava com um aipo. — ...aipo da morte? Droga. Eu explodi minha chave de fenda sônica.

- LEVEM-NO PARA LÁ! – Ordenou Rassilon.

Dois Senhores do Tempo agarraram Ghe pelos braços e o levaram para a tal sala.

Alguns minutos depois, lá estava Ghe. No tribunal.

- Ghe Laddo. – Proclamou o Senhor do Tempo Juz. – Anteriormente conhecido como O Mestre, Professor Yana, Koschei e muitos outros pseudônimos temporários...

- O Mestre? Não. Não é mais quem eu sou. – Disse Ghe, soturno.

- SILÊNCIO NO TRIBUNAL! – O Juiz bateu o martelo em sua bancada.

- Estamos em Gallifrey, o planeta mais evoluído do universo, e vocês imitam os tribunais da TERRA? Pelo amor de Rassilon, sejam mais evoluídos! – Falou Ghe, bufando.

- SILÊNCIO! – Gritou o Juiz, irritado, batendo ainda mais o martelo. – Eu o condeno, sob o poder concedido à mim e as emendas constitucionais da Proclamação das Sombras, a 5 anos de prisão e serviços comunitários como forçador de naves espaciais em Betelgeuse V!

- Não há mais uma prisão em Betelgeuse V, seu idiota! – Disse Ghe, pulando e olhando o Juiz com um olhar selvagem. (Talvez o Mestre se manifestando por alguns segundos?) – Eu já fui lá! Duas vezes!

- Somos Senhores do Tempo, droga! – Falou o Juiz, nervoso. – Podemos te mandar pra um período no passado ou no futuro onde tal prisão existe. Está feito! – E bateu o martelo.

Ghe tentou avançar no Juiz, mas dois senhores do tempo o agarraram pelos braços. Ele esperneava, mas não conseguia se soltar.

Rassilon reapareceu.

- TIREM ESSE MALUCO DAQUI! – Ordenou Rassilon.

- ESPEREM! – Interviu Ghe. – Antes de eu ser preso... tem algo que eu preciso fazer. É rápido. Juro.

Os Senhores do Tempo pareceram surpresos.

- Fale. – Murmurou Rassilon.

- Preciso contatar-me com o Doutor. – Explicou Ghe. – Por favor. Não vai demorar muito.

Rassilon juntou-se à um grupinho de Senhores do Tempo e cochichou por um tempo.

- Tudo bem.

Um dos Senhores do Tempo sumiu por um tempo, e depois voltou. Pouco depois disso, uma cabine telefonia policial azul se materializou no tribunal. A TARDIS. De lá, saiu o Doutor.

— Ghe! – Gritou o mesmo. – O que diabos aconteceu?!

Ghe deu uma breve explicação, ocasionalmente sendo intervido por Rassilon.

- Oh... – Murmurou o Doutor. – Me desculpe. Me desculpe, muito, mesmo.

- Tudo bem. – Disse Ghe. – Só peço uma coisa. Quero que pegue o meu corpo. Quero dizer, o meu cadáver, o do Eu velho, que morreu na Guerra do Tempo. Leve-o para Trenzalore. E enterre ele.

- Só isso? – Perguntou o Doutor. – O pessoal está preocupado contigo, você sumiu e...

- Não. – Disse Ghe. Depois, foi ao ouvido do Doutor e cochichou algo.

- Ooooh... – Murmurou o Doutor. – Tem certeza? A caveira...

- Absoluta. – Afirmou Ghe. – Enfim, é isso. Podem me prender.

Os dois Senhores do Tempo voltaram a segurar Ghe.

- Espere. – Disse o Doutor. – Quando posso vir lhe buscar? Digo... quando sua sentença acaba?

- Cinco anos. – Acrescentou Rassilon.

- Oh. – Falou o Doutor, baixo. – Então, parece que é isso. Adeus, Ghe.

- Adeus, Doutor. – Disse Ghe, triste.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.