As Crônicas dos Anjos: Aurora do Tempo
4 Manuscrito Sagrado dos Malakins: A Feitura do Mundo - Parte 1
Notas iniciais
Os arcanjos, que até então haviam experimentado o êxtase que deriva da grandeza do cosmo, se viram reunidos na presença do Pai Reluzente, como quando foram gerados a partir de Seu esplendor. Estavam ali, lado a lado, um após o outro, reunidos e prostrados na presença magnífica do Grande Yahweh.
– me convém que prossiga donde parei. Agora que somos apenas nós a deriva do cosmo vejo que necessário é que faça grandes coisas, afim de que eu prove a mim mesmo e que eu gere uma imensidão de vida – declarou Yahweh – quero, porém, que contemplem a minha criação, pois ela será também o teu reino e junto a mim governarão sobre todas as existências.
Alguns temerosos, outros estupefatos, os arcanjos presenciaram o principio. A Aurora do Tempo. Então criou Yahweh a matéria, uma partícula, de tamanho desprezível e sentiram-se estranhos, como se eles estivessem passando por algo que ainda não compreendiam. O tempo. Como anjos eles jamais envelheceriam, permaneceriam fortes e belos por toda a eternidade, mas agora sentiram que essa eternidade poderia e deveria ser contada, ainda que ela não lhes causasse mal algum.
Rafael, que era o mais sábio entre os irmãos, percebeu então algo que lhe era terrível a mente. A eternidade sem ser calculada é simples e imperceptível, mas a eternidade que é contada pode parecer tempo demais. Poderia o tempo, ludibriar a mente de criaturas tão perfeitas e imunes, quantos os arcanjos? Deveras traia o tempo, às suas mentes dúvidas e desprazeres? Calou-se. Julgou melhor não questionar a Yahweh, que embora não tenha se permitido a onisciência ainda, conhecia o melhor para tudo quanto criara. Ao longo das eras Yahweh decidiu dividir seu projeto ainda desconhecido de criação em dias, que futuramente corresponderia a milhares de anos. Ele olhou e viu que era bom.
Ao chegar num determinado ponto da matéria à presença descomunal de Deus provocou uma enorme explosão cósmica que atingiu, abalou e mudou completamente as estruturas do cosmo. Surgiu a luz, e a partícula, outrora minúscula, agora se transformara em poeira, milhares e milhares de nuvens de poeira se aglomeravam aqui, dividiam-se ali, chocavam-se e retraiam por todos os lados. Os arcanjos, maravilhados, sentiam-se como pequeninas criaturas que lançavam poeira estrelas à negritude o abismo, e de fato era, agora, minúsculos, se comparados às maravilhas projetadas por Yahweh. E as trevas cederam lugar a luz e também as partículas que tomavam formas variadas e vagavam por todos os cantos. Penetravam onde antes nada havia, esquadrinhavam cada espaço transformando o vazio em cheio. Novamente Ele olhou e, sentiu satisfação no que viu.
Do decorrer de bilhares de anos a poeira estrelar foi tomando formas, redondas, ovais, disformes, triangulares, afuniladas. Cresciam cada vez mais. Essa expansão da matéria criou por si só, vincos cósmicos no universo, originando as dimensões paralelas.
Não é bom que fiquem sós – disse Yahweh aos arcanjos – que surjam mais alados, como meus primeiros arcanjos, para que me sirvam, e também a Eles. Sejam fortes, e inteligentes. Cada qual com suas características, deveres, responsabilidades. Que sejam belos e formosos, guerreiros e guerreiras, sábios e doutos, leais e de coração puro, que se pareçam conosco e vivam pela eternidade, fortes, habilidosos, auxiliadores, mestres, príncipes, generais, companheiros, que uns sejam mansos e ordeiros, que outros sejam companheiros. Que todos amem a Criação. Que sejam em número miríades de miríades de miríades. Pois Eu Sou O Que Sou, e ordeno a vós, ouçam minhas palavras e façam cumpri-las em honra a mim – completo ainda – estes meus queridos (arcanjos), são o seu reino, que vos prometi. Que eles sejam de toda variedade e se separem em castas, que tenham diferentes nomes e que sejam governados e sejam chamados de anjos.
A cada criação de Yahweh os arcanjos ficavam mais maravilhados e surpresos. Poderia alguém ser superior ao Altíssimo? Isto foi o que se perguntou Lúcifer.
Então surgiram milhares e milhares de anjos, de diferentes formas, cores e tamanhos. Diferentes feições hábitos. Uns altos, outros baixos, uns loiros, outros morenos, uns fortes, outros menos corpulentos. Cada qual já sabia sua função e seu lugar. Seu nome e sua sina. Celebraram por suas vidas e entoaram louvores a Yahweh. Prostraram-se na presença do Criador e alegraram-se com os arcanjos.
Percebendo, Miguel, que as novas criaturas, os anjos, eram inferiores, acalmou-se e regozijou-se diante da criação. Olhando, Lúcifer, para as crias de Yahweh, via a todos como servos, que necessitavam ser governados por alguém tão imponente e poderoso como ele mesmo.
– que vós sejais achados entre os Malakins – ordenou Yahweh – e Serafins, e Querubins, e Elohins, e Ofanins, e Hashmalins, e Ishins. Que também tenham aura própria assim como os arcanjos, de acordo com o poder a vós distribuído. E que este poder seja dividido em seis ciclos, do mais fraco ao mais forte, pois o sétimo ciclo cabe somente aos arcanjos. Se organizem e trabalhem, cumpram suas missões!
Vendo Yahweh a todas essas coisas, satisfez-se outra vez, pois era bom.
E se passavam eras, o universo seguia com seu destino. As existências trabalhavam conforme suas funções em perfeita harmonia e, lá estavam os arcanjos, sempre perto de Yahweh, contemplando-o, rendendo glórias.
Então o que antes era poeira, tornou-se estrelas e galáxias. A luz se estabeleceu firme e as trevas no extremo oposto. Os arcanjos, auxiliados pelos anjos, estabelecem uma dimensão como sendo a sua principal, e a nominam Sete Céus, a morada celeste. Lá eles passaram a viver e vigiam tudo o que prosseguia a acontecem na criação. Foi estabelecido que coubesse a cada casta permanecer num dos sete patamares céu. Os arcanjos decidiram guiar a casta que lhes era favorita, ensinado-os e orientando-os e assim, tornaram-se tutores.
Uziel foi patrono dos querubins. Esta tornou-se a casta dos anjos guerreiros. Guardiões e soldados de Deus. O Primeiro Arcanjo ensinou-lhes sobre a arte da guerra e seus ofícios, combate corpo a corpo, manuseio de espadas, lanças e arcos com muita perícia. Nomeou Balberith como príncipe dos querubins e o ordenou e ele escolhesse generais para suas legiões, dividiu-os em vanguarda, retaguarda e arqueiras. Vivem no quarto céu.
Lúcifer escolheu os hashmalins. Estes se tornaram anjos do castigo. Foram incumbidos de julgar e sentenciar os injustos num lugar que mais tarde seria chamado de Gehenna, segunda camada dos Sete Céus. Era lugar de punição. Mais tarde, após a queda a Gehenna se tornaria num purgatório. O arcanjo ensinou-lhes sobre as propriedades da tortura, que outrora havia submetido os deuses-monstros de Tehom, ensinou-lhes que pela dor, os injustos seriam subvertidos em justos. Pelo sofrimento e morte, os ímpios escolheriam o bem.
Gabriel escolheu os ishins, que se tornaram a casta dos anjos elementais, vivem no primeiro céu. Ele os ensinou a controlar tudo quanto estava sendo criado, as forças, naturais ou não. O fogo, a água, o ar, a terra, a matéria. Tudo quanto estava sendo formado. Ensinou-lhes a respeitar o rumo cósmico e a nunca interferir no curso da natureza existente. Escolheu também aos Serafins, os nobres e diplomatas, responsáveis pelo registro de tudo quanto há no universo. Gabriel os ensinou o oficio do ouvir e entender, antes de julgar sem pensar. Ensinou-lhes mistérios decorrentes no cosmo e a importância da memória.
Rafael tomou para si os elohins, tornando-os a casta cuja principal função era guiar as criaturas, como um deles. Escolheu também os ofanins, que entre todas as castas seria a mais próxima dos criados por Yahweh, evitando conflitos e violência. Tomariam seus poderes a partir da luz e poderiam curar através de si e dos outros. Rafael ensinou a importância da virtude, da retidão e da justiça. Para eles enquanto houver vida, haverá esperança de um novo futuro. É patrono também dos malakins, cuja principal função era observar e estudar o curso do universo e seus habitantes.
Criou deus a Roda do Tempo, que marcaria a continuidade das eras, do seu projeto, e todas as fases da eternidade. Criou também o Livro da Vida, que já estava coberto por símbolos e formas, relatando tudo quanto já havia acontecido e o que haveria de acontecer pelo resto da eternidade.
Conforme as existências iam se organizando Yahweh se alegrava e via o quanto era bom às coisas que criara.
De repente ouve uma grande explosão. Gases incandescentes surgiam e queimavam-se uns aos outros. E juntavam, colidindo, e separavam-se. Com isso formou-se um enorme astro que queimava e iluminava o que era trevas. A poeira juntava-se em enormes massas disformes, mas ao passar das eras iam tomando formas específicas, colisões geravam novas formas, separavam as já reunidas e uniam as já separadas. Assim formaram-se os planetas, as luas, as estrelas, tudo ao longo de milhares de eras. Os sistemas iam sendo formados naturalmente, sem pressa. As condições não eram propícias para a origem de vida naturalmente evoluída, mas determinou Deus que em pequenos pontos desconhecidos e isolados haveria combinações favoráveis de calor, luz, gases, matéria, para que seres diferentes dos anjos, que já nasciam formados da mente de Yahweh, surgissem e seguisse o caminho natural de tudo quanto estava sendo formado.
De todas essas “brechas” permitidas por Yahweh, houve uma que foi a mais excepcional e espetacular de todas. O lugar, que foi batizado de Éden pelos anjos, demonstrava grande avanço e evolução. A poeira cósmica formou o planeta que se superaqueceu, sofreu colisões gerou sua lua, precipitou gases, formou membranas, camadas e mais camadas de gases, esfriou-se e depois de milhares de eras equilibrou-se de forma que se manteve quente por dentro, no núcleo, com massa magmática, mas foi esfriando-se e transmutando-se, petrificando a si mesmo no meio em que estava, e em sua superfície um incomum líquido foi sendo gerado, raríssimo em outras formas planetárias se acumulou por toda a parte. Era espetacular e enigmática. Sem cheiro, cor ou sabor, o líquido estranho nutriu o solo, o calor do sol e sua luz foram os parceiros ideais para a fusão de matérias viventes. No principio eram desprezíveis e insignificantes, no entanto, com o lento girar da Roda do Tempo, elas modificavam-se no ambiente em que estavam. Foram ganhando complexidade, crescendo, adquirindo hábitos, nichos, preferências, resultados, contrastes, tomaram formas, grupos, comunidades. Uns evoluíam, outros desapareciam. Fixavam-se, se deslocavam, assumiam cores, algo surpreendente. Assim, puderam constatar os anjos que, na Haled enormes blocos de poeira apareciam e desapareciam naquela imensidão que tomava agora o tom azulado. Era a terra nascendo, tapetes verdes cobriam as partes secas, a terra se juntava e colidia, estourava, expelia magma, arvores cresciam, frutos surgiam, animais se inventavam.
Era a vida se formando. O mais perene espetáculo já presenciado pelos celestes até agora. O agir de Yahweh era paciente e ordeiro, seus planos se faziam valer. Seus pensamentos tornavam-se realidade à medida que a roda girava. Maravilhados todos ficaram e viu o poderoso Criador que era tudo muito agradável, e orgulhou-se de tudo quanto havia feito.
Com o passar dos tempos às formas de vida foram evoluindo de tal forma que um dia constatou-se que o Éden estava dominado por feras de variadas formas e tamanhos. Algumas comiam umas as outras, outras encontravam no verde seu alimento. Os anjos temiam que tais criaturas destruíssem a mais bela das criações de Yahweh, mas Ele em nada preocupou-se. Os celestes passaram a chamá-los de bestas-feras, porque depois de milhares de eras eles já não evoluíam mais. Não adquiriam consciência, não se organizavam de forma ordeira. Eles ficaram perplexos com a selvageria da maioria dos seres viventes em terra. Constataram, porém, que nas águas e nos céus, havia ordem e harmonia entre os seres, mesmo apesar de sem mostrarem incapazes de evoluírem, eles não destruíam seu próprio espaçamento, nem acarretavam danos a sua dimensão.
Em seus projetos, marcou Yahweh na roda do tempo que este era o início do seu sexto dia.
***
– deveras não vê Yahweh que estas criaturas são nocivas ao Éden? – interrogou-se Miguel – não seria melhor liquidá-los?
– aquiete-se Miguel – ponderou Rafael – Ele sabe do que faz e, se por ventura, decidir exterminar as bestas-feras, assim Ele o fará.
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