Capítulo 8

Vittória tomou um susto enorme. Dentro da cabeça dela coisas se passaram. Lembrando-se de quando o seu amigo foi morto. Assassinado por poderes sobrenaturais, sabe-se lá de onde.

– Eu... eu não posso! — disse Vittória.

– Claro que pode. O seu destino é esse. Vc é a Escolhida pelos próximos oito anos. E quando o seu processo de ensinamento estiver completo, você vai à Alemanha comigo, te apresentarei para Crotes. É uma honra ser a Bruxa que vai te dar esse dom. — Jessica fez uma venha para a garota.

– Como assim? Eu não posso aceitar. Eu não posso fazer isso.

– Claro que pode, eu já disse. — começou Jessica -, logo mais sairemos daqui, você sumirá deste mundo. Eu já fui uma escolhida, e sei como é e tudo o que se deve fazer. Você está em boas mãos.

– E se eu aceitar ser uma bruxa? O que eu devo...

– Psiu. — interrompeu Jessica — Você não tem escolhas.

– Tà louca?! Como assim, eu devo aceitar ser uma Bruxa, do nada? EU SOU UMA GAROTA NORMAL! ISSO É DEMAIS!

– Uma garota normal que vê Demônios, uma garota normal que vem parar num Manicômio, uma garota que, a algumas horas mais cedo viu o seu amigo sendo estrangulado por um demônio e agora, quase meia noite, parece que já esqueceu isso tudo...

– CALE A BOCA, VOCÊ NÃO SABE COMO ESTOU ME SENTINDO.

Jessica piscou os olhos, o sorriso se desfez.

– Ah eu sei, eu sei sim.

Vittória fez uma pausa, observando Jessica. Parecia que ela lembrava dos seus pais. Da morte deles.

– Sinto muito.

– Disciplina! — Falou Jessica, assim como o seu pai falava enquanto batia nela quando saía dos eixos. — Seu treinamento começa amanhã.

– Oi?!

– Vá dormir. Temos um dia longo.

Jessica se levantou e saiu do quarto.

Vittória organizou a sua cama, bebeu água no bebedouro. Pegou um cobertor e se deitou.

Dormiu.

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Um rio, um rio cortava a montanha verde e florida em que Vittória está caminhando. Um rio de águas correntes e claras.

Os arbustos estão fazendo com que o ambiente se torne tão belo quanto uma floricultura. São peônias, orquídeas e lírios, tudo belo, lindo e colorido. O sol brilha tão intensamente quanto o frio que exala da neve do inverno.

Vittória fica de joelhos na margem do rio. Observa todo o ambiente lindo e claro, observando a correnteza.

De um lado, Bejamin e Quézia aparecem correndo em direção a ela com sorrisos estampados no rostos, do outro lado, Rayssa e Alex estão fazendo o mesmo.

Alex...

Alex está tão lindo, tão belo. Os traços perfeitos de seu rosto entoam a cor negra de sua pele.

Ele olha nos olhos de Vittória e, nos olhos dele só se enxerga uma luz vermelha e enfurecida. Sua expressão muda quando os seus braços e suas pernas são tomados por chamas fortes e atiçadas.

Rayssa continua correndo mas, desta vz, em direção a Bejamin e Quézia, passando direto por Vittória como se ela não existisse

As chamas em Alex tomam conta de todo o seu corpo.

– NÃO — grita Vittória. — Alex, Não!

Alex começa a gritar desesperadamente sentindo o calor tomando conta de seu tronco.

Ele para de correr e cai de joelhos, pegando fogo. Vittória olha para trás, e não vê mais nenhum sinal de seus amigos.

O céu, agora, está escuro e tenebroso, nuvens e raios tomam conta do ambiente. Alex continua pegando fogo, sentindo dor, mas nem mesmo as suas roupas estão derretendo. É uma chama eterna.

– Alex, Alex o rio. O rio! — grita Vittória desesperada. — Corra para o rio, corr...

Vittôria olha para o rio...

As correntesas não são mais claras e belas. Agora elas têm um odor metálico e enjoativo, estão tão vermelhas quanto...

– Sangue! — grita Vittória.

Ela corre em direção a Alex que está caído no chão. Queimando, sas chamas que envolvem o seu corpo já não estão mais tão vermelhas quanto o fogo, elas estão... negras.

– Alex! Não.

Os raios vindos das nuvens vibram o ambiente. Chuva começa a cair.

A chuva não funciona para apagar as chamas que causam a dor em Alex.

Em vez disso, Vittória sente dor.

As gotas da chuva.... doem. Ácido.

O corpo de Alex começou a se decompor, se tornando cinzas aos poucos. Dos pés a cabeça. As chamas negras estão tão fortes quanto a tempestade ácida que arde e queima a pele de Vittória.

Ela grita e ele chora de dor.

– ALEX, NÃO. NÃO. EU TE AMO!

Vittória escuta um ruido reconfortante.

– ACORDE! — uma voz surge do céu em tempestade. É leve e boa de se ouvir.

Vittória olha para cima permitindo que o ácido caia em seus olhos. Ela grita de dor.

–ACORDE! — grita uma outra voz. Dessa vez vinda de baixo, é forte e desconfortável, enquanto ela grita, raios explodem e as chamas do corpo de Alex o queimam por completo. A chuva agora está mais forte. Mas já não arde, ela tem o mesmo cheiro metálico do rio. Sangue.

As cinzas de Alex estão diante de Vittória. Ao ver aquilo ela chora em meio à tempestade.

Ela olha para as cinzas, estão pegando fogo, tão flamejantes quanto estava o corpo de Alex.

Chamas negras.

– ACORDE — gritam as duas vozes do além ao mesmo tempo, o céu estremece, a chuva para, o sol volta brilhar, o cheiro de sangue se foi.

Uma mão toca o ombro direito de Vittória enquanto ela chora ainda de joelhos em frente às cinzas que agora estão amontoadas como uma duna de areia.

Ela olha para trás. Uma mulher de pele clara, cabelo branco e um brilho espalhafatoso está de olhos fechados com a mão no seu ombro. Jessica.

Mas ela tem asas. Asas negras.

Ela abre os olhos. Estão tão negros quanto suas próprias asas.

– Acorde — ela diz com um tom calmo, porém alterado. Como se as duas antigas vozes, agora estivesse dentro de sua própria garganta. É um som carrancudo e violento.

Um demônio.

Vittória se levanta e corre para o nada, para longe de Jessica.

Enquanto ela corre, ela tenta olhar para trás, mas a mulher, o demônio, não está mais lá.

– VITTÓRIA, ACORDE. — uma voz doce entoa seu nome. A voz de uma mulher.

Vittória olha para cima, de onde parece que veio voz, e uma mulher, desce com um brilho tão forte quanto o de uma estrela.

Está voando.

Cabelos brancos e asas douradas, tão belas quanto uma flor de lótus.

É Jessica. Um anjo.

Ela parou em frente a Vittória, e tocou em seus olhos.

– Abra-os.

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Vittória abre os olhos, não com um susto como a maioria das pessoas faria, ela olha para Jessica que está em sua frente, ao lado da cama.

– Bom dia — diz ela com um sorriso. — Achei que não fosse mais acordar.

– Bom dia?... Não ha nada de bom hoje. — Diz Vittória.

– É, Escolhida, eu sei como você se sente.

– Já vai começar com esse papo de Bruxaria de novo?

– Não adianta fugir disso. Você nunca irá fugir. Você é feita disso. Você é uma Bruxa, Vittória.

– Finalmente falou meu nome. — Vittória bufou -, olha, eu preciso tomar um banho. E estou com fome, o que te...

Vittória parou de olhar para a face feliz de Jessica e notou uma bandeija em cima da cômoda de madeira.

Ela está cheia de pães, com algumas frutas e dois copos de suco.

– Aquilo é pra nós? — Perguntou Vittória.

– Só pra você, imaginei que estivesse com fome. — começou Jessica — me responsabilizei de comprar todo o seu café da manhã. A comida daqui é horrível.

Vittória finalmente sorri, retirando toda a carranca do rosto. Ainda deitada, ela olha para Jessica. Ela está vestindo uma daquelas roupas dos funcionários, porém o cabelo sob o boné está solto.

– Obrigada, Jessica — Vittória sorri.

– Agora se levante, tome um banho e vista uma outra roupa. Hoje vou te levar a um passeio. — disse Jéssica enquanto arrancava o cobertor de cima de Vittória. — Temos um dia longo. Hoje vamos descobrir a que Grupo Coven você foi convocada.

– Como assim descobrir?

– São alguns testes mágicos. Alucinações, vão fazer com que você descubra se você é uma Soliono, Gandalfi, Hundomi ou uma Carniope.

– A qual você pertence mesmo?

– Solionos.

– Espero que meu resultado seja como o seu.

– Depende de suas escolhas.

– A propósito, o que você fez depois que saiu de casa naquele dia em que foi tida como escolhida?

– Eu lhe conto no caminho. Vá!

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Com a permissão de Madre Margo, Jessica levou Vittória para um passeio pela floresta. Está frio, não ha mais ninguém na floresta se não elas duas e a própria natureza. O canto dos pássaros entoa como flauta em uma orquestra.

– Quando vamos chegar, hein? — perguntou Vittória. Ela está com uma calça jeans que Jessica comprou pra ela, uma camiseta branca que já estava em seu armário, um tênis all-star que ela entrou no manicômio depois do acidente.

– Nós já chegamos. — disse Jessica sorrindo. O sorriso de Jessica transpassava paz para Vittória. Talvez fosse pela sua presença que ela ainda não havia caído em uma depressão ou em uma dor profunda por causa da perda de Alex. E, apesar de não ter contado a Jessica sobre o pesadelo que tivera na noite passada, ela sabia muito bem que Jessica a entendia.

Jessica estava com um salto plataforma, uma calça jeans, o cabelo preso em um rabo de cavalo caindo sobre uma blusa vermelha que as mangas iam até o cotovelo. Tão justa que se via os movimentos de suas articulações, um colar grande e dourado está em seu pescoço, tão lindo quanto o seu brilho no olhar. Um batom rosa tranquilizava todo o seu rosto e a leve maquiagem aplicada.

Vittória então percebeu aquilo tudo.

– Porquê você se veste assim, Jessica?

– Assim como? — Ela franziu as sobrancelhas enquanto caminhavam mata a dentro.

– Assim, com todos esses adereços, e esses saltos. Nós viemos apenas para a floresta.

– Eu gosto de me vestir assim — riu Jessica.

Vittória pensou em responder mais alguma coisa; quando inspirou para falar...

– Chegamos. — Jessica interrompeu.

O lugar parecia um pequeno campo de futebol. Chão plano com grama cobrindo tudo, árvores com musgos até a raiz, estava até um pouco escuro por conta da mata fechada.

– Vá no centro. — ordenou Jessica. Vittória que ja confiava na moça assim fez. — Agora, concentre-se o máximo que você puder, olhando para um ponto fixo que não seja eu ou as minhas roupas. — ela abriu um leve sorriso.

Vittória obedeceu. Ouviu-se alguns sussurros com palavras estranhas vindo da boca de Jessica, mas foi tão rápido que da mesma forma que surgiu, desapareceu.

Vittória, estranhamente parou de se concentrar.

– Já posso olhar pra você? Não estou me sentindo segura.

Nenhuma resposta.

Vittória olhou então para onde Jessica estava. Ela não está mais lá.

Ela olhou então ao seu redor, estava sozinha.

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Fez-se um silêncio. Um barulho vinha ao seu redor, como se diamantes emitissem som enquanto eram apontados para o sol.

Havia uma forte escuridão agora onde ela estava. Vittória começou a se desesperar, foi quando se sentiu suspensa, sentada sobre algo. E então, no segundo seguinte, estava envolta a uma estrutura metálica envolvendo cada parte do seu corpo, exceto o seu cabelo que estava para fora de uma espécie de capacete, em um rabo de cavalo.

A estrutura era pesada como... uma armadura.

Quando olhou para o que a suspendia, notou então um cavalo. Vittória estava agora como uma guerreira montada em seu alado companheiro.

Sua respiração ficou ofegante, enquanto ela estava observando ao seu redor. Ela notou três figuras. Eram três cavalos. Eles estavam em silêncio sem nenhum movimento. Como estátuas.

Em sua mão esquerda, sentiu um peso. Quando olhou, estava segurando um machado. Com uma lâmina afiada e gélida.

Um barulho agudo se fez em seu ouvido esquerdo... depois no direito.

Passos.

Haviam então quatro mulheres caminhando atrás da jovem. Foi quando ela desceu do cavalo, e olhou para as mulheres enquanto ainda segurava seu machado.

Ela notou que o animal era negro como sua armadura, e refletia um brilho bonito e encantador. E, ao ver os olhos do animal, eram verdes. Não verdes como simples olhos. Pareciam duas pedras de esmeralda, refletiam um brilho cativante e ao mesmo tempo assustador.

Ela então olhou para as quatro mulheres, agora paradas em sua frente.

Cada uma das mulheres segurava uma almofada sobre seus braços. E, em cima das almofadas, brilhavam quatro formas geométricas, uma em cada.

Vittória então parou para observá-las.

Um losango vermelho, com um brilho intenso e poderoso que iluminava todo o corpo da mulher. De baixo para cima, contornando os traços do rosto;

Um triangulo verde, emanando um brilho forte e poderoso, capaz de ofuscar até brilho da lua cheia;

Um círculo marrom, sem muito brilho, mas tão polido quanto um espelho. Ao olhar para ele, Vittória podia ver o seu próprio reflexo. E viu então: estava bela e imponente em sua armadura. Passou um tempo fixada no "espelho" colorido;

Um quadrado branco. Branco e opaco. Sem nenhum brilho, entretanto, atrás dele, uma luz surgia entre a almofada. Como uma lanterna posta atrás de uma árvore. O brilho era tão belo que fazia Vittória se perder em pensamentos.

Ela então parou de observar as almofadas nos braços das mulheres, e passou a observar as próprias mulheres.

De uma forma estranha, eram todas iguais. Todas brancas e sem olhos e sem sobrancelhas. No lugar disso, um vazio de pele. Como bonecas.

As bocas das mulheres começaram a tremer. E como um coral, elas começaram a cantar em ópera: Escolha, Escolha...

Então, o que devo fazer? — Pensou Vittória levemente assustada.

As mulheres continuaram a cantar enquanto Vittória, ignorando-as, olhou para as suas costas. Os cavalos permaneciam lá. Todos com os olhos coloridos.

Um vermelho, outro marrom e outro branco. Como os do cavalo dela, com os olhos de esmeralda.

Conhecidentemente, eram das mesmas cores dos objetos sobre as almofadas.

De repente, o cântigo das mulheres passou de ópera agradável para tortura, os gritos estavam extremos e desordenados. Como um coral de choros de crianças recém nascidas.

Vittória então, decidiu deixar de ser fraca. Passou a assumir coragem sobre a razão.

Tomada por um ódio e por uma agonizante temperatura corporal que fervia em suas veias, começou a andar em direção às mulheres enquanto segurava o machado em suas duas mãos.

A raiva possuiu o corpo e as ações da jovem, a força estava entre os seus membros.

Parou e ficou ereta diante as quatro mulheres que gritavam o barulho ensurdecedor.

E, passando o machado em seus quadris, partiu-as ao meio. Fazendo assim com que os corpos se desfizessem e as almofadas caíssem ao chão com os objetos belos e chamativos. Agora, esses objetos estavam banhados em sangue. Sangue tão vermelho quanto o brilho do losango sobre uma das almofadas.

Ela, agora em pânico e com medo, montou no seu cavalo com os olhos de esmeralda, e cavalgou sem rumo, tomando distância dos outros animais-"estátuas", dos corpos e do sangue misturado escorrido no chão. Sangue que ela mesma derramou.

Enquanto galopava rápido e desorientada, o cenário começou a afundar sob os pés do cavalo, tudo desabou em um profundo buraco negro e assutador.

E Vittória.... abriu os olhos.

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– Pensei que não fosse mais acordar. Você estava dando espasmos musculares e emitindo gemidos estranhos. — Jessica fala em um tom de preocupação. — Não que isso seja anormal ou errado, só é raro de acontecer com Escolhidos.

Vittória, agora mais calma, percebeu que está sobre a sua cama , ao lado de Jessica sentada em um banquinho de metal.

– Como você me trouxe aqui? — Pergunta Vittória agarrando o cobertor com as duas mãos.

– Eu a levitei. Um dia você pode chegar lá.

– Eu não quero chegar lá, não se tiver que sentir essa dor de cabeça denovo.

– Logo, logo se sentirá melhor, Escolhida. Agora, diga-me o que viu em sua aluscinação.

Vittória franziu o cenho, cerrando os olhos enquanto fazia um esforço tremendo para se lembrar de algo. Ou de qualquer coisa. Nada.

– Eu... eu não me lembro.

– Como assim, não se lembra? — Jessica agora estava de pé e com um olhar amedrontado. — Você sabe o que Crotes vai fazer se descobrir que eu falhei em uma aluscinação?

Vittória já se esquecera quem era Crotes, mas teve um leve devaneio em sua mente: Crotes, o maior dos Bruxos ainda vivo. O líder dos Solionos.

– Eu não posso fazer nada. — disse com medo da expressão de Jessica.

– Tente se lembrar. Ao menos tente. Se um Bruxo falhar em uma aluscinação ele sofre castigos. Imagine numa aluscinação de escolha! Ai meu Deus, o que eu farei....

Vittória teve uma leve lembrança de coisas estranhas, enquanto Jessica resmungava coisas pouco importantes, a jovem fechou os olhos e olhou no fundo da escuridão das pálpebras.

– Quatro objetos estranhos e bonitos.

Jessica parou de falar e uma leve esperança brotou em seu olhar.

– Continue.

– Só isso.

– Não, não foi só isso. Você passou mais de seis horas dentro de uma aluscinação, isso é... isso é... é impossível. A Escolhida deve se lembrar. Você caminhou em direção a algum objeto? O que você fez com eles, Vittória, pelo amor aos Cavaleiros...

– Cavaleiros? — Interrompeu Vittória.

Jessica parou, e fez um sorriso forçado.

– Os quatro Cavaleiros do Apocalipse. Dados um para cada Grupo Coven. É só uma expressão, nada demais.

– Cavaleiros... — Sussurrou Vittória buscando algo em sua mente.

– O quê?

– Tinham cavalos lá.

– Como? Cavalos? Você está me deixando nervosa, Escolhida. Não está ajudando.

– Haviam quatro cavalos, um deles era meu.

– Eu nunca ouvi falar de algo parecido. Nunca.

– Consulte a algum superior. Faça algo, eu ainda continuo sendo a mesma garota que vê demônios e que é chamada de Bruxa. Mas eu ainda não compreendo o que você fez. — ela fez uma pausa — eu deveria ter escolhido algo, não deveria? Eu deveria ter tomado alguma atitude...

– Lembre-se, apenas lembre-se. — o tom de Jessica agora estava calmo. Ela se levantou para sair do quarto. Foi quando Vittória gritou:

– Quatro cores. Uma para cada objeto.

Jessica se virou para a jovem, com um olhar meigo.

– Parece que está se lembrando. — ela respirou fundo — diga-me.

Vittória contou sobre os quatro objetos que se lembrava, sem nenhum detalhe das mulheres assassinadas.

– Quanto aos cavalos? — Perguntou Jessica.

– Não me lembro de mais nada. Só sei que estavam lá.

– Já temos quase o bastante. — disse Jessica com um olhar satisfeito.

– O que isso significa, digo, os quatro objetos de cores diferentes e chamativas? — perguntou Vittória.

– Esses, são os símbolos de cada Grupo Coven. O losango vermelho para os Carniopes; o triângulo verde para os Solionos; o círculo marrom para os Hundumis; e o quadrado branco para os Gandalfis. E o que você escolheu? Lembre-se. Por favor, lembre-se.

Um silêncio se fez...

Vittória respirou fundo e respondeu:

– Nada. Nenhuma escolha. A sua aluscinação não deu em absolutamente nada.

Um barulho interrompe a conversa de Vittória com Jesscia. É ensurdecedor. Soa como uma sirene escandalosa.

– O que diabos é isso?! — grita Vittória, tudo isso faz com que a sua dor de cabeça só aumente.

– Alguém sofreu um acidente grave. Algum dos pacientes provavelmente. Vamos, você não vai querer perder a alegria de ver Madre Margo desesperada. — riu Jessica.

Vittória se perguntava como Jessica conseguia sorrir diante de uma situação dessas. Ela ficou sentada na cama e percebeu que, enquanto ainda estava sob os efeitos da aluscinação Mágica, sua roupa fora trocada. Jà estava novamente com a camisola uniforme do manicômio.

Seis horas, pensava Vittória, seis horas de aluscinação. Pareceram apenas cinco minutos.

– Vamos logo! — exclamou Jessica. O sinal ainda gritava sobre as suas cabeças.

Vittória se levantou, calçando os seus chinelos. Estava novamente parecendo uma louca, mas ela sabia que não era. Ou ao menos, tinha quase certeza.

Elas correram pelos corredores brancos e opacos do lugar, Vittória já havia se esquecido da situação que se encontrava.

Alguns outros pacientes acompanhados pelos seus responsáveis corriam pelo corredor.

E quando Vittória chegou no refeitório, o viu bagunçado e fora de controle. Todas as pessoas estavam gritando, exceto Madre Margo e sua assistente, Elizabeth.

As duas freiras estavam friamente colocadas de pé no centro do círculo de pessoas formado próximo à parede cinza da lanchonete. Na frente delas, uma mulher estava jogada no chão de maneira largada e esparramada. Ela estava com os cabelos arrepiados e com as mãos queimadas. Completamente escuras, como as de alguém que leva um... choque elétrico.

Vittória se deu conta da situação, e olhou para Jessica que parecia decepcionada por não ver Madre Margo desesperada, como provavelmente sempre acontecia diante dessas situações.

A sirene já havia parado de gritar por cima de todos, e um silêncio com dezenas de sussurros se fez em meio à mutidão.

– Certo... Silêncio! — gritou Madre Margo ainda olhando para a mulher estendida no chão.

Todos pareceram não escuta-la

– ELA DISSE SILÊNCIO! — gritou Elizabeth. A assistente estava com um cigarro entre os dedos da mão direita. Estava com um olhar estressado que fazia com que, mesmo jovem e elegante, parecesse velha e louca.

Um silêncio obediente se fez.

– A louca abraçou o fio desprotegido como se fosse uma criança. — começou Madre Margo para a mutidão — Quero que vocês saibam, que não podemos fazer nada diante de tal situação. Então, pensem com cautela antes de saírem por aí abraçando fios elétricos.

Da voz da mulher, saía um desprezo tamanho que fazia com que o coração de Jessica e de Vittória se contorcesse de raiva.

O silêncio continuou, todos estavam observando a mulher no chão e a cena das duas freiras que estavam como alguém de mãos atadas, sem fazer absolutamente nada.

O silêncio foi quebrado por uma voz audaciosa e corajosa.

– Vocês deveriam tomar cuidado com o ambiente. Deveriam prestar atenção no que estão fazendo. Ou mais pessoas irão se machucar.

A voz vinha de trás de Vittória. Era uma voz feminina.

Madre Margo olhou de forma imponente em direção ao som.

Como o Mar Vermelho, um caminho de pacientes se abriu, deixando disponível apenas a visão para a jovem no final do círculo de curiosos.

Elizabeth parecia assustada.

– Ela está morta não está?! — disse a jovem que desafiou as freiras.

Todos se voltaram para a mulher de mãos queimadas no chão. Ainda imóvel, foi a vez de Vittória finalmente reparar no rosto da moça.

Era aquela moça, a que estava chorando no dia em que Vittória chegou no manicômio. Ela estava chorando só porque derramou comida nela mesma, pois segundo ela, o seu responsável a abandonara.

"Você não chorou quando esquartejou sua família", as palavras que Madre Margo disse friamente para a mulher naquele dia ecoaram na cabeça de Vittória.

Ela sentiu um leve toque de amargura pela mulher.

– Sim. Ela está. — disse Madre Margo com um tom superior e poderoso. Tão nojento que parecia ser feito de veneno. — E o que você quer que eu faça?

– Retire o corpo dela e a dê no mínimo um fim justo e digno. Já que você trata todos aqui como animais toscos e irracionais. — A menina encarava as duas freiras como se fossem duas inimigas de festa. — E não se incomode com o que eu falo. Se eu sou louca mesmo, eu nem deveria estar te incomodando com as minhas palavras, não é mesmo Madre?

– Você é aquela que incendiou a casa do namorado, não é? — Perguntou Elizabeth com um tom nojento.

– Prazer, Anastácia. Pode me chamar de Ana. — disse com um tom sarcástico.

– E onde está o seu responsável? — a pergunta agora veio de Madre Margo.

– Se você, a dona do moquifo que vocês apelidam de manicômio, não sabe, quem sou eu para saber? — Ana riu ironicamente.

– Já basta. — gritou, Elizabeth. — Vocês todos — ela jogou o resto cigarro em uma lata de lixo próximo ao corpo da mulher -, voltem para os seus quartos. A vida aqui será a mesma, e o próximo que abraçar um fio só por carência, também terá o mesmo fim.

Todos começaram a andar.

Vittória olhou para as costas de Ana, magra e com um corpo bonito, enquanto ela se afastava caminhando para um corredor.

Jessica olhou para Vittória e lançou uma pergunta esperançosa.

– Você acha que ela é...

– Louca? — interrompeu Vittória — com certeza não.