Eu, a narradora, sou Brielle.

Agonia, desespero, ansiedade, angústia, insônia e anseios. Tais coisas estavam a sucumbir minha tolerância e sanidade. Agonia de não saber o que se acontecia com o meu Jarl. Desespero para viver o grande amor da minha vida. Ansiedade por querer saber logo as coisas que estavam a acontecer. Angústia por nada poder fazer, ele estava a lutar e me cabia apenas esperar, isso me angustiava. Insônia, por tamanha preocupação, apenas olhava pela janela da torre para ver o que se passava, mas nenhum sinal de Saint Diniz. Anseio pelo amado da minha alma, ansiava por ele, sua presença em minha vida.

Na torre Moccia Della Cruze, nome dado por meu pai- Conde Duccale- em homenagem ao Piemonte, sua terra natal, eu observara tudo. As estrelas, os campos, as estradas. Sob a luz do dia e das velas, lia as cartas feitas para mim. Tentava sempre respondê-las mas era em vão. Nada a altura saía. Até que em um dos dias da guerra injusta, vejo ao final da manhã uma cortina de fumaça.

Tal fumaça viera da direção de Saint Diniz. Meu coração apertou ao ver aquilo. Precisava saber o que estava acontecendo. Em um gesto de puro ímpeto e rebeldia, desci aos estábulos de Paris, peguei o primeiro cavalo, selei e parti rumo a cortina de fumaça. Mal sabia dominar a arte de equitação tão admirada por nós, francos. Mas não hesitei ao ir. Forcei o pobre animal a cavalgar o dia inteiro, em uma marcha muito forte.

Conforme cavalgava, a coluna de fumaça ficava maior, o cheiro mudava e o ar pesado ficava. Ao chegar próximo ao acampamento dos danes, desmonto. O cavalo, em pura exaustão, vai chão desmaiado de cansaço. A missão dele acabara. A minha havia apenas começado.

No acampamento, os homens da retaguarda disseram-me que Ericsson havia liderado os homens em combate e que provavelmente o encontraria na cidadela. Será que ele estava vivo? Meu coração estava mui aflito. Me sentia a mulher da cantiga "Flores do verde pino" .

Na esquerda estava o motivo da coluna de fumaça, dos pedaços de panos que o vento jogara pelos campos; eram barcos Vikings queimando. Um ainda estava a queimar no eixo da vela, o outro já estava afundando em puros destroços queimados. Aos portões da cidade haviam duas cabeças de boi, empaladas em lanças, que fincavam no chão. O sangue ainda escorria pelo pescoço. Certamente eram sacrifícios a Thor feitos pelos pagãos.

Sangue no chão, nos muros, pessoas mortas por toda parte, alguns cadáveres já em estado de putrefação e corvos voando sobre o local, era o cenário caótico da cidade. Nunca sentira um cheiro tão forte. Todos os homens mortos que via, era um alívio por serem rostos desconhecidos. Meu coração nutria fortemente a esperança de vê-lo vivo.

Ao ir em direção ao paço, ainda era possível ouvir o barulho da batalha, gritos de pessoas agonizadas e ver muitos corpos. Era difícil andar em alguns momentos. Chegando ao paço, eis que vejo os Vikings comemorando, gritando sem parar. Mas ao olhar melhor eis que eu o vejo, caído ao chão, sangrando e desamparado. Era ele, Ericson. Meu coração se acelerou de forma sem igual, minha pele se empalideceu que pude sentir o meu rosto frio.

Corri em direção ao seu corpo estirado ao chão. Entre soluços e lágrimas, segurei suas costas. Em meio aos desesperados beijos e votos de amor a ele, percebi que ele ainda respirava. Mas não podia chamar por ajuda porque a poucos metros de mim a batalha ainda acontecia. Eu não pensava em nada além de vê-lo acordar e saudável. O crepúsculo me impedia de sair à procura de ervas cicatrizantes pela cidade. Em meio ao desespero eu o deito de volta no degrau da abadia e desabafo:
—Fique vivo, meu amor, acredite em nós mesmo em face da morte e dor. Acredite e viverás.
Ao falar sinto as lágrimas aumentarem e entro na abadia, sabia que em algum lugar os padres deixavam os remédios. Vou a procurar em todas as entre-salas, câmaras e até na cripta.

Quando finalmente acho as ervas e os elixires para ferimentos graves, rapidamente os misturo, amasso as ervas com as próprias mãos. Naquele momento a rapidez significava a vida do meu Jarl. Ao deixar a pasta pronta, saio correndo de volta às escadarias. Foi então que reparei que não havia bandagens. Em mais um gesto de desespero arranco partes das minhas roupas e improviso curativos junto às pastas feitas com ervas e elixires.

Ao final da batalha dois guerreiros, um homem e uma mulher vieram até mim.
—Prazer, Mi Lady, eu sou Leif e esta é Brida, somos líderes do exército junto a teu amante. Ericson é um grande guerreiro e também um amigo. Que as fiandeiras tenham misericórdia de vocês. —Disse o homem. Antes que eu pudesse responder, Brida já começou a falar.
— É uma honra conhecer aquela quem Ericson tanto falava. Ele tinha razão, tu és muito bonita mesmo. Me chamo Brida, se precisares de alguma coisa, algo a comer, fale conosco.
—Em primeiro lugar é uma honra conhecer os irmãos de guerra do meu amado, em outras cartas ele falou muito bem de vocês. Agradeço a hospitalidade e caridade de vocês, vou ficar aqui até ele acordar. Na abadia eu achei tônicos cicatrizantes e algumas ervas, se precisar renovar os curativos eu busco mais lá.—Respondi em um tom triste.
—Trarei bandagens do acampamento. Nos próximos dias estaremos nós estabelecendo dentro das muralhas, será fácil para ti nos encontrar.—Disse Leif.

Ericson ficou desacordado por quatro dias. Leif ao amanhecer do quarto dia veio falar comigo. Quando eu estava perdendo as esperanças, ele acordou. Meu coração acelerou ao vê-lo mesmo voltando dos mortos, sorrindo daquele jeito. Que belo sorriso, seus cabelos longos, sua barba grande e cheia e o seu jeito de olhar que parecia um caçador que fita a presa até o bote. Tudo isso deixaram as minhas costas suando frio.

Ele me olhou e disse:
—Tu não pareces bem, o que lhe aflige, Rosa das rosas? Pareces aflita com algo.—Apenas sorri com tamanha insensatez.
—Quem deverias fazer tal pergunta seria eu, tu que estavas a face da morte, desacordado.—Respondi. Seus amigos chegarem e falaram com ele sobre a batalha, sobre a morte de Harold. Apenas olhei tudo atentamente.

Quando finalmente estávamos em paz, chega uma batedora dane com a notícia de que 800 cavaleiros saíram de Paris para retomar a cidadela.
—Maldição—disse Leif.
—E agora? O que iremos fazer?— Questionou Brida.
—Vamos intercepta-los, entre os muros e o rio onde os navios afundaram. —Disse Ericson.
Naquele momento eu apenas o olhei, e não pude deixar de censurá-lo:
—Tu não podes lutar, está muito ferido. Não tens condições.
Ele apenas olhou-me. Tinha tristeza em seu olhar, mas também vi doçura em seus olhos. Na hora entendi que era necessário ele ir. Lutar por nós mais uma vez, para a infelicidade do meu coração. Não era hora de dizer que em campo aberto ninguém venceu a cavalaria pesada francesa. Eu apenas o olhei, segurei em sua mão, o abracei para sentir o calor de seu corpo uma última vez e disse:
—Por favor, tome cuidado e volte, volte por mim.— Nunca havia feito tal súplica antes. Senti totalmente desamparada nessa guerra injusta. Ele apenas me olhou, acariciou meus cabelos e rosto, enxugou uma lágrima sua, colocou meus cabelos atrás da orelha e na mesma hora me beijou. A sensação do toque de seus lábios aos meus, é a mais deliciosa possível. Nem o mais doce mel é tão bom quanto.

O tempo parecia ter parado naquele momento, minhas mãos apenas retribuíram o carinho em seu rosto, e quando desceram a seu peito, ele parou de me beijar. Olhou-me de forma apaixonada, como se me inundasse com seu olhar e disse me:
—Jamais precisarei voltar, se me guardares em teu coração.

Eu apenas olhei para baixo, sorri, e entendi que ele não voltaria. Não conseguia mais chorar, nem dizer nada. Quando finalmente pude pensar em uma resposta, ele beijou minha testa, disse que ama e se levantou.
—Eu também te amo, muito, não te guardo em meu coração, porque não o tenho. Meu coração é teu. Tu cuidas dele melhor que eu. —Disse em um tom baixo, começando a soluçar.

Ele sorriu para mim, deu-me um curto beijo em meu lábios, pegou um machado que estava ali perto e partiu.
E ele se foi, ferido, mancando, com apenas um machado na mão. Foi lutar sua última batalha, lutar pelo meu coração.

* * *

FIM

Notas finais
Este é o fim. Pagãos dizem que “o mistério do amor é maior que o mistério da morte” já os cristãos dizem que “o amor é mais forte que a morte”. Nessa história tivemos o encontro das duas visões de amor. Encontro que bardos, menestréis e skaalds cantarão por entre as eras. Espero que tenham gostado. Meu castelo continua sempre de portões abertos a todos vocês que leram, comentaram, favoritaram. Sempre visitantes serão bem tratados.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!