As Crônicas de Reddie Hunter
35 Uma boa conversa, ou não
REDDIE
Eu ainda ria da situação do Ethan.
Tipo, eu já estava começando a me preocupar com o sumiço dele, mas não, Ethan estava ocupado fazendo cosplay do Alvin. Dei mais uma gargalhada e Sel me acompanhou. Eu não sei porque ela não me contou logo de primeira, okay, achou que eu ficaria brava, mas me irritou quando descobri que Sel tinha mentido pra mim, principalmente numa besteira dessas, acidentes acontecem. Esse foi um acidente hilário, mas foi um acidente.
Eu fui para o sofá e Sel para a cozinha. Suspirei assistindo a Gotham. Eu estava com uma leve dor de cabeça. Quando isso acontece eu geralmente quero bater em alguém. Ethan apareceu comendo um burrito. Perfeito. Tirei meu coturno e joguei com tudo na sua bunda, fazendo Ethan tomar um susto.
— Você tem problemas mentais garota.
— E isso não é da sua conta – Eu dei de ombros e vi Aiko entrar na cozinha. Eu franzi o cenho ao ouvir Sel. – Tava com vontade de bater em alguém, você foi a pessoa mais perto, dançou.
Selena estava no telefone com uma pizzaria.
— Eu vou querer dez pizzas de calabresa, sete de quatro queijos, com queijo e bacon extra por favor, mais quinze pizzas de frango com catupiry, e duas garrafas de coca cola. Um momento – Então colocou a mão no telefone – Vocês vão querer alguma coisa?
— Pensei que tava pedindo isso pra todo mundo.
— Ah, não, é pra mim, tô morta de fome. É bem assim mesmo. Sou uma falha, se eu não repor calorias em um tempo determinado eu fico fraca e não consigo usar todos os meus poderes. Mas e aí, vão querer alguma coisa?
— Vou querer uma pizza de calabresa – Dei de ombros.
Sel falou a pizza extra pelo telefone e desligou.
Me levantei na hora, que eu saiba lobisomens não gastam tanta energia assim numa transformação, ficam cansados, mas não a esse ponto. O pessoal entrou na cozinha, menos Luna e Bryan, desde a manhã que não vejo esses dois. Depois a galera fica zoando e eles ainda reclamam.
— Por isso de comer tanto? – Perguntei apontando para os oito copos de macarrão na mesa e ela assentiu. – Faz sentido.
Na realidade não fazia sentido nenhum aquela merda.
— Hoje você e a Luna não vão dormir – Ela se virou pra mim e a única coisa que pensei foi “Mas eu amo tanto dormir, cara”. Ela olhou para o meninos terminando de jogar na boca o resto do macarrão.
— VOCÊS. AÍ. PARA. O. QUARTO.
— Por quê? – Jack perguntou.
— Agora! – Sel exclamou.
— Ok – Aaron e Rafa disseram juntos, eu percebi que esses dois nunca confrontam a Sel, mas o Jack... O Jack gosta de brincar com o perigo. Eu já estava até adivinhando que ele vai arrumar treta com a Sel.
— Pode ao menos explicar por quê? – Ethan perguntou arqueando a sobrancelha.
— É a última noite das meninas e eu quero fazer alguma coisa com elas – Ela pediu com a voz calma e Ethan bufou.
— Tem um bom motivo. – Ele falou meio a contra gosto.
— Tudo bem – Nicho resmungou.
— Eu não quero ir – Jack cerrou os punhos e olhou para Sel com raiva. Não falei? Esse garoto ama andar na beira do penhasco – Você acha que manda em mim? Pois não manda!
— Ui, ele tá revoltado – Murmurei franzindo os lábios. Sel o olhou ainda calma. Isso não durará muito.
— Você acha que é poderosinha – Eu estreitei os olhos. Sel é poderosa. É um lobisomem. Tem força. É imortal.
— Se eu me achasse poderosinha já teria te atacado.
— Você não pode me mandar dormir.
— Eu só queria avisar que só vou pro quarto quando Luna chegar – Ethan deu de ombros.
Sel revirou os olhos e sequer se moveu quando Jack deu um murro nela que cambaleou, do canto de sua boca escorreu um pouco de sangue, Sel o olhou com tédio e sorrindo cínica limpou a boca. Agora que ferrou tudo. Todo mundo deu um passo para trás. A briga já estava armada.
Eu me sentei calmamente, espero que o barulho da briga deixe eu ouvir a campainha quando o entregador chegar.
— Do jeito que você fala parece que eu me esnobo, se eu me esnobasse você estaria no chão – Ela gargalhou e eu engoli em seco, o ar parecia pesado. Jack a encarou com ódio, eu não entendia isso dele, sempre que podia arranjava briga com Selena, e ao mesmo tempo é o seu melhor amigo. Que idiota. Ele avançou e acertou mais uma vez seu punho com força no rosto dela. Sel mais uma vez não se esquivou, me perguntei por que ela não contra atacava?
— Você não presta.
— Muito menos você – Ela riu. Jack deu dois murros em seu estômago e um chute em sua barriga a fazendo cair. Depois deu um chute em sua costela. Eu até o pararia se eu não soubesse que Sel sabia muito bem se defender, no momento eu tentava achar um motivo que explicasse o porquê dela não estar se defendendo.
— Cadê sua força? – Ele perguntou debochado e se virou.
— Tá bem aqui. Cansei de brincar – Selena se levantou num pulo e seus olhos brilharam ficando num tom ofuscante de azul. Até abri o armário pegando um pacote de salgadinho. Claro que não basta assistir a luta de camarote, tem que ter petisco também. Me sentei na bancada e comecei a comer. Folgada? Eu? Imagina. – Eu acho injusto me transformar para lutar com você, por favor, com você não preciso usar nenhuma das minhas habilidades.
— Só a de levar surra né?
— Essa aí você já domina.
— Uh, essa eu não deixava. – Murmurei rindo.
— Reddie sua maluca, cala a boca, quer colocar lenha na fogueira? – Ethan sussurrou e eu me virei pra olhar ele.
— Imagina, eu tô é colocando gasolina – Sel sorriu e se abaixou tirando suas pantufas. Okay né? Primeiro passo pra entrar numa briga: Tire suas pantufas (Dicas de Selena Cook, profissional em arranjar brigas).
Jack foi dar mais um murro em Selena, mas desta vez ela se abaixou e deu um murro em sua barriga finalmente se defendendo, Jack deu um chute em sua barriga e ela deu um murro em seu rosto fazendo o mesmo cambalear. Jack desferiu mais um soco no rosto de Sel fazendo seu nariz sangrar. Ele estava indo além da força de um lobisomem. O ar estava ficando cada vez mais pesado.
— Usando super força? Pensei que fosse mais que isso menino fogo.
— Quem disse que eu tô? – Ele sorriu.
Sel avançou para dar um murro em seu rosto, mas ele segurou seu punho, ao se ver detida pelas mãos, suas pernas foram de encontro ao pescoço dele e deu um mortal fazendo Jack cair de costas no chão.
— Você é fraco até trapaceando. – Ela disse e ele se levantou desferindo socos seguidos em Sel. – Você não tem estratégia rápida. – Sel deu um chute em sua costela.
— Você não manda em mim! Eu não sou fraco! Você é fraca! – Ele disse. Sério que ele tava sendo massacrado só por causa disso? Jack fazendo birra é pior que criança porque ele não sabe perder. Sel riu.
Ele veio em sua direção e seu punho cerrado se incendiou, ele a acertou com tudo no rosto. Sel caiu no chão com o rosto chamuscado. Agora o poder que emanava dela era quase palpável.
— Você quer lutar? Vamos lutar cara!
— VAMOS SIM! – Jack era louco. Sel não parecia ela mesma, ela riu e preparou a espada.
Eu acho que essa batalha só pra sair da rotina tá saindo um pouquinho do controle.
Jack lançou uma rajada de chamas na direção de Selena que colocou a espada na frente e seu corpo emanou chamas negras que se dissiparam aos poucos. A espada de Sel congelou as mãos de Jack. Minha boca estava entreaberta. Até porque eles tinham conseguido derrubar todos os potes de biscoito da bancada.
— Ei, não tem uma regra do tipo, não lutem dentro de casa pra não destruir ela?
— Eu tava testando esse poder – Sel disse, porém eu já sabia que não era ela mesma. ela se agachou ao lado de Jack que estava de joelhos. Ninguém sabia o que fazer direito. – Esse gelo pesa, eu tenho pouco desse poder ainda, mas posso te dizer que se eu quiser você não sai daí tão fácil menino fogo. Esse gelo não é como o do Nicho. Você sabe o que é mitologia nórdica?
Jack tentava se soltar do peso, mas era inútil. Parecia que nem suas chamas o tirariam dessa. Selena ou seja lá o que fosse aquilo o encarava fixamente, não parecia notar nenhum de nós ao seu redor.
— Dizem que é gelo dos deuses. Ás vezes ter o poder da guerra é ruim, mas eu sei me controlar, não vou te machucar Jack. – Ela gargalhou e Jack a olhou assustado, Sel respirou fundo, colocou sua mão no queixo de Jack forçando-o a encará-la.
— Está com medo? Eu, filha de Ymir não aceito lutar com fracos – Ela riu alto ensandecida, completamente louca e descontrolada. Se levantou abrindo os braços. – Eu, filha de Ymir, quero uma luta de verdade, uma coisa aqui – ela apontou para seu coração – Não deixa eu terminar minha luta com todos sobreviventes, essa Selena é fraca, tem uma âncora forte, mas não consegue me deixar fora das lutas – Ela gargalhava feito uma psicopata.
A deusa havia tomado controle completo.
Criei uma teoria lógica na minha mente. Selena tinha dito que estava morrendo de fome, e pra quantidade de comida que ela pediu, deveria estar mesmo, então possivelmente quando ela está com o organismo fraco, é mais fácil a deusa tomar controle de seu corpo, e a faísca pra isso foi a briga que Jack inventou de arranjar.
Mesmo assim meu instinto de caçadora sabia o que poderia matá-la. Mas eu não tinha uma espada celestial em mãos, nem no meu arsenal. Okay. Nota mental: Arranjar uma espada celestial. A filha de Ymir suspirou e continuou com seu discurso psicótico.
— Eu não consigo entender por que depois que eu recebi esse corpo humano eu não consigo terminar meu trabalho, essa Selena sempre tem um controle de tudo, faz o que bem entende... – Ela deu um risinho pelo canto da boca – Mas ela tem um pouco da minha loucura, ela continua sendo eu...
Então seus olhos voltaram ao tom de azul normal, mas com uma expressão de desespero. Selena estava de volta. Ela caiu de joelhos no chão ofegante. Nicho se sentou ao seu lado com uma pilha de salgadinhos (de onde ele tirou tudo aquilo?). Selena começou a chorar, mas levantou a espada e tirou o gelo de Jack.
— Desculpa – Ela sussurrava e agarrava a camisa de Nicho – Eu deixei ela vir, por uma coisa boba, eu que sou fraca.
Ela fechou seus punhos, estava muito pálida. Sel se levantou com dificuldade e olhou para mim e Ethan, eu também deveria estar pálida, balancei a cabeça negativamente e sai de lá. Eu precisava pensar, refrescar a mente. Tinha presenciado coisa demais.
Andei um pouco, sentindo o ar frio no meu rosto, até parar num pequeno parque. Me apoiei numa árvore, e fui escorregando até ficar sentada no chão. O entregador estava atrasado. Eu queria saber o que Selena era de fato. Na verdade quem ela era. Nem sabia se ela era minha amiga. E também não sei se quero que ela seja minha amiga.
Minha vida fica cada vez mais complicada de controlar e de saber o que estou fazendo. Merda. Por que ser, sei lá, somente eu, é tão complicado?
Tive meus pensamentos interrompidos ao sentir alguém se aproximando de mim. Eu não precisava olhar para saber que era Selena. Eu não queria olhar.
— Sabe, eu não gosto muito desse lugar, não me trás boas lembranças de infância.
Ela soltou uma risada nasal e se sentou, abraçou suas pernas e respirou fundo.
— Acho que te devo umas explicações, não é? Eu costumava vir aqui com o meu pai, eu me lembro exatamente de uma noite de verão que vim aqui chorar e olhar essas estrelas, eu dava nomes as estrelas e escrevia em um caderninho, eu tenho esse caderninho até hoje... Naquela noite, eu ainda estava ruiva, e estava chorando, eu já não sabia mais o que fazer. Eu me sentei com o meu pai e comecei a observar as estrelas. “Pai, eu não agüento mais isso, eu sou só uma garota de sete anos, não tenho mãe, não tenho amigos, eles me chamaram de estranha, pai, eles me odeiam, eles quebraram os meus cookies pai, eu odeio cookies”. Era isso o que eu dizia para o meu pai chorando. – Sel fungou um pouco — Eu estava desesperada, eu era apenas uma garota normal, não tão normal. Eu cresci e fui seqüestrada por cientistas, eu virei um lobo de laboratório, fui apenas uma experiência. Eu cresci um pouco mais e soube que sou uma deusa nórdica, que veio para terra como punição de não ter “nascido”. Como você acha que um corpo humano agüentaria tanto poder? Tanta pressão de que se tiver uma possibilidade de que se descontrolar poderia acabar praticamente com um mundo? Eu sou forte. Eu tenho 18 anos e apesar de tudo isso eu consigo ser uma garota divertida e animada, consigo colocar um sorriso no rosto dos outros e me divertir. Eu tenho orgulho do que eu sou. Eu tenho muitas responsabilidades, mas eu não me deixo abalar por causa disso – Finalmente a olhei suspirando, ela sorriu pra mim, tremendo um pouco por causa do frio — Eu fico feliz por ter conseguido o que eu queria apesar de tudo. Eu consegui amigos e pessoas que me amam, eu apenas precisava de um pouco de coragem para admitir que eu conseguiria passar por todos esses problemas de poderes. Eu consegui. E eu quero que você também esteja aqui comigo.
— Uau.
No momento foi a primeira coisa que pensei pra falar. O passado dela podia ser comparado como tão doloroso quanto o meu.
— Você... É um pouco mais parecida comigo do que eu imaginava.
— Na verdade te acho muito calada.
— Não tenho muito o que falar.
— Claro que tem. Você é muito misteriosa. Eu não sei quase nada sobre você.
— Ah – Eu suspirei, dessa vez era eu quem estava olhando as estrelas, senti saudade novamente do meu pedacinho de céu no trailer – Parece clichê, mas não quero contaminar os outros com a minha tristeza.
— Um resumo básico então?
— O resumo básico? Oh, nossa. Ele também é bem triste.
— Então fala aí, de qualquer maneira vai ser triste.
— De forma rápida, todo mundo que eu amava foi torturado e morto na minha frente. Eu não pude fazer nada. E meu resumo de vida é focar em achar e me vingar do cara que fodeu com a minha vida. É. É isso. Você tem pessoas Selena, eu não. E também, nunca me perdoaria se me aproximasse de alguém e ela se machucasse por minha culpa. Eu não me perdôo nem agora. – Baixei a cabeça.
Meu trauma todo em simples frases. Tantas coisas ocultas, uma história inteira. Mas eu nunca conseguiria recitar aquilo. Não. 4 anos tinham se passado e eu ainda não estava pronta pra falar aquela história inteira. Talvez nunca conseguisse. Sel estava em silêncio, absorvendo minha história.
— E, não conte pra ninguém senão juro que dou um jeito de te matar, mas é o fato de eu me preocupar com Ethan que faz que eu o trate tão mal. Eu só não quero que ele se machuque. – Eu não sei por que tinha falado isso. Talvez meu subconsciente estivesse ali com aquele fato tentando me mostrar, eu não quis aceitar e, ali, num momento oportuno, a verdade simplesmente veio à tona.
— É uma pena porque ele está disposto a se machucar por você.
— Eu já vi essa história e ela acabou mal. Não quero ele se arriscando por mim. Que nem ontem. Ele ia cair.
— Quer um conselho?
— Se não for pra achar o alfa dos lobisomens, eu acho que não será útil.
— Não... – Ela balançou a cabeça – Espere, que alfa?
— O lobisomem original. Mais poderoso que qualquer um. É ele quem estou procurando.
— Caralho, mulher. Mas o meu conselho é, não deixe isso estragar sua vida.
— Selena tu ouviu alguma desgraça do que eu disse? Minha vida já tá estragada – Revirei os olhos – Mais fácil falar que fazer.
— Espera viada, estou falando que as pessoas que você amava não iam gostar de você jogando fora sua vida completamente. Tipo e depois de matar o cara? Seria legal você voltar aqui pra Londres, a gente poderia lutar juntas e tal, você poderia fazer amigos, dar uns pegas no Ethan...
— Não vai rolar, Sel. – Interrompi ela – Eu... Posso até pensar no conselho. Mas por ora, não vai rolar. E eu absolutamente detesto falar disso e essa conversa morre entre nós, só falamos de sua segunda entidade aí dentro do corpo.
— Okay então – Ela levantou as mãos em forma de rendição.
— Só mais uma pergunta: Por que não me contou antes?
Eu sei que não tínhamos tanta intimidade, mas, sei lá, me bateu a curiosidade.
— Eu achei desnecessário... Tipo, o Nicho sem camisa é legal só que não preciso levar essa informação a longe, entende?
Dei um sorriso de canto pensando algumas besteiras e balancei a cabeça.
— Bem desnecessário.
— EXATAMENTE.
— Tipo dizer que o meu primeiro beijo foi com o Nicho – Eu dei de ombros.
Sel ficou quieta por alguns segundos processando a informação.
— Tipo isso... Agora vamos pra casa porque eu não sou de ferro para ficar nesse frio.
— Vamos.
Sel se levantou, e em seguida se agachou um pouco.
— Olha, sobe nas minhas costas.
— Por quê?
— Só sobe mozão. – Eu dei de ombros e subi em suas costas sentindo ela respirar fundo e correr de volta para casa usando sua velocidade de lobisomem. Em três segundos estávamos em casa. Eu desci de suas costas e entramos.
É, tinha sido uma boa conversa. Mas queria esquecer que tive ela.
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