As Crônicas de Reddie Hunter

15 Existem coisas piores que a morte


Notas iniciais
Hey, não pula, não que o aviso é importante. Este capítulo não foi feito pra pessoas de estômago fraco. Se você não é fã de torturas, bastante cuidado com as próximas linhas.

— Uau. Ela está realmente fodida. – Ouvi uma voz familiar, mas não soube reconhecer, minha cabeça latejava demais.

As lembranças me fizeram levantar a cabeça abruptamente, mas fechei os olhos no mesmo instante por causa da luz forte.

Elizabeth e Arthur mortos. Guilherme e Lisa seqüestrados. Armadilha. Lobisomens. Pancada na cabeça.

Eu estava amarrada numa espécie de pilastra redonda, suando frio e de cara percebi que não havia modo de quebrar as correntes de aço que me cercavam da barriga até o pescoço. Me lembrei dos meus ferimentos na hora que tentei me mover. Estremeci com a dor. Se eu não procurasse algo pra tratar a ferida poderia morrer em breve. Se bem que pelo visto é isso que vai acontecer.

— Red, você está bem?

— Guilherme? – Forcei meus olhos a se acostumarem com a luz. Guilherme estava amarrado na pilastra da frente.

Meu coração pesou ainda mais de culpa, seu rosto estava cheio de hematomas e seu lábio superior partido. Minha boca se abriu ao averiguar o cenário em que me encontrava.

Eram seis pilastras brancas contando comigo conectadas ao teto em um espaço amplo, o chão de azulejos pretos. E em cada uma estava Patrick, Anne, Jacob e Lisa. Tentei não surtar. Todos que eu amo estão feridos e amarrados. Patrick, Anne e Jacob estavam horríveis, seus rostos ensangüentados e marcas de garras pelo corpo todo indicavam que lutaram com todos os seus esforços. E eu sabia que pra derrubar minha família inteira eles foram cercados por um exército. Lisa estava chorando sem fazer barulho nenhum, ela também estava machucada, cada um lutou do jeito que pode.

Tentei apalpar meu bolso da jaqueta, mas só consegui tocar na ferida na minha barriga, tiraram minhas armas. Obviamente, a não ser que quisessem que eu fugisse.

Patrick me encarava como se eu fosse um inseto que ele gostaria muito de pisar e revidei o olhar.

— O que aconteceu com você? – Guilherme perguntou preocupado.

Senti meu corpo estremecer de novo e um gosto metálico na língua, cuspi um pouco de sangue.

— Estou bem. Isso não é nada. –Tentei tranqüilizá-lo, mas na verdade nem eu estava conseguindo me convencer. – Sabe, quando eu fugi de casa o propósito não era encontrar vocês de novo. Principalmente desse jeito. Talvez numa festa de ano novo, sei lá.

Arqueei uma sobrancelha e Jacob me deu um sorriso sarcástico.

— Também senti saudade de você, irmãzinha. E pelo visto você está muito bem de saúde!

— Não é? – Tentei sorrir, mas senti a pele da bochecha rasgar ainda mais. Caralho, não tô muito bem. Cuspi mais sangue.

— Quando sairmos dessa, eu não sei se te abraço ou te bato.

— Te conhecendo como te conheço, mãe, vai optar pela segunda opção. E está confiante, não? Quando sairmos dessa. Qual é o plano? Quebrar as correntes?

— Reddie. Nossos pais, o que aconteceu com eles? – Lisa perguntou e eu a olhei sem conseguir responder, mas pelo meu olhar ela entendeu porque começou a chorar mais. – Não... Não pode ser. Diga que está brincando comigo. Diga que isso tudo é uma maldita pegadinha!

— Eu sinto muito. – Uma lágrima escorreu pelo meu rosto.

— Não vou morrer por causa de uns lobisomens idiotas! Mereço morrer de uma forma mais digna – Patrick murmurou, mas sua voz emanava ódio.

— E qual a forma mais digna de morrer se não pelas garras do alfa, Hunter? — Eu nem tinha notado uma porta, mas um alto homem já entrava. Sua voz era rouca, baixa e elegante. – Prazer, Edward. E aliás, uma barata desprezível como você deveria agradecer por isso.

De primeira vista, eu o acharia muito bonito, com uma barba bem feita, cabelos castanhos num corte impecável, roupas sociais como se sempre estivesse preparado para acompanhar uma dama ao baile. Mas os seus olhos, eram de um castanho escuro e sua expressão me transmitia medo. Nada ia ficar bem.

— E daí? Grandes merdas!

— Ah, não se preocupe. Eu reservei algo especial para você. Morrer rápido não é uma opção pra nenhum de vocês.

— Sabe, eu realmente não pensei que morreria com 22 anos. Sei lá, estava estimando pelo menos aos 30. – Jacob deu de ombros, mas ele pareceu abatido.

— Como vai a Sam? – Especialista em mudar de assunto na hora mais imprópria: Prazer, Reddie Hunter.

— Estávamos... Noivos.

— Falei que ia dar merda. – Disse Patrick.

Abaixei a cabeça. Pensei em como eles brigavam e voltavam toda hora quando eu morava em Vancouver. E como meu irmão se achava o oxigênio da vida de Sam.

— Antes de começar o que vim fazer, porque eu tenho muitas coisas mais relevantes na minha agenda, sabe o dano que a família Hunter me fez nos últimos séculos? Cerca de 1352 descendentes mortos. E estão reclamando comigo. Portanto infelizmente sou eu que tenho que resolver este problema.

— E o que eles têm a ver se o seu problema é com a família Hunter? – Rosnei. – Guilherme e Lisa são inocentes! Se quer matar, me mate no lugar deles. Não me importo desde que fiquem vivos.

Guilherme e Lisa levantaram a cabeça confusos. Talvez eles não tivessem a noção de que eu daria minha vida por eles. Mas os pais deles já estavam mortos por minha causa, e mesmo que não estivessem, eles não têm culpa de eu ter entrado em suas vidas.

— Red, ele já começou. Está te torturando psicologicamente. – Jacob disse triste. – Edward matou a Sam.

— Isso não é justo!

— E quem disse que a vida é justa? – Edward retrucou com a voz irritantemente calma.

— Seu filho da mãe! Já falei, prefiro que me mate! Eu fui procurar uma vida melhor, longe deles, seguir meu próprio caminho. Não sou mais uma Hunter.

— Ah isso é verdade. Para toda a família você está morta de qualquer maneira.

Patrick me olhou friamente.

— Agradeço por isso.

— Bom, isto aqui não é casos de família. – Ele estalou os dedos e uma mulher, provavelmente lobisomem veio trazendo um carrinho com utensílios e eu temi por todo ali na sala. – Eu tenho muitas coisas pra fazer.

O que me segurava eram as correntes. Meu corpo se debruçava e mal se mantinha em pé. Não era pela dor. A culpa é minha. E estava tão pesada quanto uma bigorna. Guilherme e Lisa não estariam nessa situação se eu tivesse ficado em Vancouver.

— Me desculpem. Eu falhei com vocês.

— Você não falhou com a gente. Sei que lutou por nós. Eu que agradeço. Isso não é culpa sua.

— É sim, Guilherme. É por minha causa que estão aqui.

— Mas não foi por seu querer, eu não me importo com isso.

Patrick revirou os olhos e eu o fuzilei. Edward pegou um pote com farpas de vidro e foi em direção a Lisa. Não consegui me mover ao ver uma das minhas melhores amigas se encolher nas correntes.

— A deixe em paz! – Guilherme gritou e começou a protestar se debatendo.

— NÃO!

Mas por mais que nós gritássemos de nada adiantou.

Edward espetou farpas de vidro em seus pulsos e Lisa cerrou os dentes mesmo vendo o sangue escorrendo pelas mãos. Porém não conteve o grito quando lhe foi enfiado um na bochecha. Eu não consegui manter os olhos abertos. Os fechei com força. Os gritos de Lisa estavam me fazendo chorar e ranger os dentes em agonia. Mas um grito muito alto me fez abrir os olhos e me arrependi no mesmo instante. Edward havia enfiado farpas de vidro em seus olhos.

O sangue escorrendo, os gritos, o corpo de Lisa se contorcendo e tremendo, eu não conseguia agüentar, estava ferindo a minha alma. Eu preferia que fosse comigo. Pelo menos a dor não se juntaria com a culpa de não poder fazer nada. Eu me debatia nas correntes, procurando um cadeado, uma brecha, qualquer coisa, mas não havia nada. Edward enfiou a mão em seu peito e arrancou seu coração o guardando num pote. Eu ofeguei sentindo tudo desmoronar.

As lágrimas desceram cada vez mais. Lisa Jordan estava morta. Com o corpo cheio de farpas de vidro e o peito com um vazio onde estivera seu coração. Guilherme olhava para a irmã com os olhos vermelhos, seu rosto molhando, mas paralisado.

— Eu sinto muito Guilherme. Me desculpe. – Eu solucei, mas ele não olhou pra mim, Lisa estava morta ao seu lado.

Guilherme ofegou quando Edward foi em sua direção. Não, eu não podia perder ele também. Gritei o mais agudo que conseguia, mas só fiz atordoar Edward.

— Sua maluca! Sabia que minha audição é pelo menos cem vezes melhor que a sua?

— Bom saber, doente psicopata. – Gritei ainda mais, e Edward usou o alicate para rasgar a pele exposta do meu braço. – Eu não vou me calar!

— Por isso que falei para não ter namorados. – Patrick falou irônico.

— Cale a boca! Se não vai ajudar não atrapalha, eu já perdi demais! – Eu odiava chorar, mas naquele momento era inevitável. – Se Edward depender do seu coração, ele morre de fome Patrick! Por favor, Edward, o deixe em paz! Eu faço qualquer coisa!

Edward não se abalou, não demonstrou um pingo de piedade, apenas deu um sorriso cínico e se virou. Eu gritei, Guilherme recuou a mão e tentou escondê-la entre as correntes, mas ele começou a arrancar cada uma das unhas das mãos de Jordan com o alicate, a pele em baixo delas ficava em carne viva.

Guilherme fechou os olhos com força, sua mandíbula cerrada. Até o dedo mindinho ele permaneceu calado, nenhum gemido de seus lábios, mesmo com o sangue derramando de suas mãos.

Edward pareceu imensamente insatisfeito com isso. Pegou uma faca e cortou os dedos de Guilherme que não se conteve e gritou se debatendo mais e mais. Minha visão ficou turva, acho que estava desmaiando. Meu estômago deu voltas e mais voltas e eu achei que ele iria sair pela garganta.

— Red. Está tudo bem – Guilherme disse, sua voz trêmula.

— Não tem nada bem. A culpa é minha, eu deveria te proteger e não posso fazer nada.

— Hey, só lembre que eu te amo. Eu tinha o sonho de que você seria minha última visão quando morresse, nós dois velhinhos – Ele deu uma risada pelo nariz, estava ofegante e prestes a morrer de dor, se aquilo era o reconforto dele, só me causava mais agonia – Pelo visto vou te ver ainda com 15 anos. Mas eu sei que vai ficar bem. Não se preocupe comigo.

— Eu... – Parecia que minha língua havia travado, mas Edward fincou as garras em seu peito, Guilherme olhou suplicante para mim – Eu te amo.

Foram as últimas palavras que ele me ouviu dizer. E as últimas frases que ele pronunciou foram que ele gostaria de ter casado comigo algum dia.

Ele me olhou uma última vez, agradecido por saber que eu o amava e apagou quando Edward tirou seu coração. Agora meu namorado estava morto. Fechei os olhos e fiquei quieta.

Era um pesadelo. Eu só tinha de esperar que acordaria. Com o peito subindo e descendo rapidamente, com um grito entalado na garganta e suando frio, com os punhos fechados no cobertor. Então sentiria o cheiro de biscoitos e veria que tinha adormecido em frente a lareira nos braços de Guilherme. Ele ficaria preocupado, me aconchegaria ainda mais em seus braços e diria que estava tudo bem, que eu estava com ele.

Mas não foi isso que aconteceu.

Os ferimentos ardiam e sujavam as correntes de sangue, me mostrando que aquela era a realidade. Eu perdi Guilherme. Perdi Lisa. Perdi Elizabeth e Arthur. Deixei minha cabeça pender pra baixo. Eu sempre usava o colar de Nicho e lá estava ele no meu pescoço. Provavelmente ele estava melhor que eu naquele momento.

Por que tinha que ser assim? Eu tinha tudo até o dia anterior, estava feliz, com uma família. E agora tudo foi arrancado da forma mais cruel possível. Como se eu estivesse destinada a não ser feliz por muito tempo

— Ah, vamos não fique assim. Eu até gosto dos seus gritos – Edward se agachou, cravou as garras em meu maxilar e me forçou a levantar o rosto, mas não consegui falar nada. – Prefiro você falando. Chega a ser divertido.

Ele se levantou e desta vez não pegou nenhum utensílio. Aparentemente decepcionado por eu não falar nada. Mas eu não conseguia xingá-lo. Meus lábios só estavam abertos por causa da minha respiração ofegante. O gosto metálico pairava sobre minha língua. Por mais que os cortes doessem, a dor psicológica, essa superava qualquer dor física.

— Eu preparei algo especial para os Hunter. Que tal começar com você Jacob? Soube que a Reddie gosta de arte. Eu também.

Foi em direção a Jacob e com uma garra rasgou a camiseta preta.

Edward fincou uma garra no seu peito. Então vi que a definição de doente psicopata foi criada por causa do alfa dos lobisomens. Ele começou a desenhar no peito de Jacob com sua garra, um sol, uma árvore, grama e pássaros. Jacob o olhava de modo desafiador.

— Saia de perto do meu filho aberração! – Anne gritou. – Espero que sua morte seja lenta e dolorosa. Sorte a sua que tiraram todas as minhas armas e estou acorrentada, porque se eu estivesse solta eu te mataria com meus dentes!

— Acredito que esqueceu de um pequeno detalhe crucial; eu sou imortal. – Ele arqueou as sobrancelhas e olhou na direção da minha mãe – Ao contrário de vocês. Seres humanos têm uma validade tão curta. E ás vezes nem aproveitam ela.

— Red, gostaria que soubesse que eu perdi cerca de dois meses te procurando, até saber que estava em Seattle. – Jacob falou dando um sorrido de canto. Ele estava ofegante, com o peito ensangüentado. Mais uma parte da minha alma se esvaindo.

Arregalei os olhos e franzi o cenho.

— Então, por que...? – Perguntei com a voz fraca, acabei cuspindo mais sangue, olhei minhas mãos e eu estava ficando cada vez mais pálida.

— Por que não te arrastei de volta pra casa? Porque eu sabia por instinto que estava feliz. Não queria estragar isso.

— Sabia onde ela estava?! Esse tempo todo e não nos contou? – Anne perguntou ofendida – Confiamos em sua palavra que não a achou!

— Eu tinha cansado de ver minha irmã chorar. – Ele deu um gemido, mas logo cerrou os dentes quando Edward assinou seu nome com a garra do dedo mindinho. – Mas parece que não adiantou de muita coisa.

— Jake... Você é o melhor irmão do mundo, sabia?

— Já sabia sim. Mas eu esperei um cartão postal no meu aniversário. Tinha tanto dinheiro para um hotel quatro estrelas, mas não me mandou nem uma lembrançinha.

Eu não acredito que consegui dar uma risada, mesmo que abafada, naquele momento.

— Desculpe.

— Ah, terminei, o que acha? – Jacob olhou para o desenho em seu peito. Ele estava amarrado pelas mãos, cintura, pernas e pescoço.

— Que parece um desenho de uma criança de uns três anos. E sem um pingo de talento pra arte.

Jacob nunca teve medo da morte.

— Vamos, acabe logo com isso. Mas eu realmente preferia morrer até numa banheira que pelas mãos de um covarde que tem que me manter preso para conseguir me matar.

Ele revirou os olhos e Edward voltou ao carrinho tirando de lá uma garrafa com um líquido fluorescente verde. Me debati mais uma vez, mas meu corpo estava fraco demais. Somente meu desespero ainda me mantinha de cabeça levantada.

— Sabe o que é isso Jacob?

— Não sou adivinha, lobinho.

— É ácido. – Edward sorriu sadicamente, mostrando as presas afiadas.

— NÃO! – Anne berrou mais uma vez se debatendo entre as correntes. Ela estava cheia de cortes, parecia que a cicatriz da sua garganta havia sido reaberta e o seu cabelo ensangüentado me levava a crer que ela tinha tomado uma pancada na cabeça assim como eu. – Meu filho não! Eu te imploro! Pelo amor de Deus!

— Você me pede misericórdia com seus filhos. Mas não hesitou a matar dezenas dos meus. Por que eu teria piedade agora?

— E eu? Nunca matei um lobisomem! Sempre quis ficar longe disso!

— Talvez. Mas você deveria ver a sua cara. Está o retrato do desespero e da miséria.

Ele passou a mão em meu cabelo o puxando, o nojo daquela criatura estar tocando me deu tremores.

— Eu sempre gostei mais da tortura psicológica. E aqui temos um degrau que leva a outro. Você está destruída por causa dos seus amigos. E Anne está destruída por te ver desse jeito.

Cuspi em seu rosto.

— Você é um desgraçado desprezível e doente.

Ele se contorceu em fúria e me deu um soco, ouvi um protesto de Anne, mas um soco não era o suficiente para me fazer desmaiar por mais que eu quisesse isso.

Mais uma vez, achei que estivesse num pesadelo. Vi meu irmão sorrir fracamente uma última vez pra mim, antes de Edward derramar o ácido em seu corpo. Foi a coisa mais pavorosa que vi na minha vida. Jacob urrou. O ácido corroia das correntes até a caixa torácica.

Vi meu próprio irmão gritando com pavor derreter. Ser reduzido a uma poça de ácido, sangue e pedaços de ossos e carne. Fechei os olhos. Não dava. Agora também tinha perdido Jacob. Por que raios eu não posso fazer nada? O grito de Anne preencheu o ar. Um grito de pura agonia que atordoou Edward.

— Seu maldito filho da puta! Covarde desgraçado! Solte-me daqui! Vamos ver se você é tão corajoso com o meu punho na sua cara e a marca do meu sapato na sua bunda, miserável! – Anne esbravejava se debatendo cada vez mais. Abri os olhos mais uma vez, dessa vez eu tinha certeza que iria vomitar a qualquer momento. Porém pela primeira vez na vida, eu vi minha mãe chorar. Ela desistiu de lutar e se encolheu, as lágrimas descendo silenciosamente.

— Anne Violet Hunter chorando. – Edward deu um sorriso de escárnio – Nunca pensei que veria isso.

— Cale a boca. Não se atreva dizer o nome da minha mãe. – Eu falei, minha voz saiu tão trêmula que mal acreditei que saiu da minha boca.

— Incrível como até nessa hora, quase morrendo num estado desprezível você fala comigo dessa maneira. Não tem amor pela vida, aberração?

Preferi não responder. Três dos motivos que eu tinha para viver acabaram de ser torturados e mortos na minha frente. Não tinha o que responder.

— Anne... Ah, acredite, eu passei um tempinho tentando saber o que eu faria com você. Talvez cinco minutos.

— Me sinto lisonjeada.

Ele foi até a mesa de utensílios e pegou agulha e linha.

— Os seus gritos me irritam muito.

Edward costurou a boca da minha mãe. Ela chorava e o sangue escorria dos pontos.

— E pra garantir... – Ele costurou suas bochechas. – Você tem sorte de eu te achar bonita.

Meu coração estava desabando-se em pedaços. Eu mergulhei na escuridão por uns momentos, minha cabeça pendeu sobre as correntes que me enrolavam até o pescoço. Como quando alguém desmaia de dor. Mas a dor estava na minha mente. Eu não esqueceria essas cenas, elas seriam as últimas que eu teria enquanto morresse.

Não sei quanto tempo fiquei apagada. Porém acordei com os gritos de Patrick. Tão altos que eu me surpreendi de não ter vindo alguém.

Mas eu preferia que tivesse morrido. Que eu não fosse capaz de acordar novamente. Minha pele estava ficando cada vez mais branca feito leite. Meu pescoço se curvou novamente, minha visão estava turva e os gritos de Patrick soavam distantes, mas senti meu coração acelerar e um grito de pavor ecoou da minha garganta.

A cabeça de Anne estava aos meus pés, uma poça de sangue se formando ao seu redor. Os seus olhos castanhos estavam opacos e pareciam me encarar. Tentei recuar, mas não dava, estava tão imobilizada quanto antes. Levantei a cabeça abruptamente, minha visão se tornando nítida novamente.

Meu corpo inteiro estava prestes a partir, a dor em minha mente insuportável, eu não sabia como podia piorar, mas senti a pele rasgada da minha bochecha se encharcar com ainda mais lágrimas quando vi o motivo dos gritos de Patrick. Imediatamente virei o rosto para o outro lado. Patrick estava tendo a cabeça perfurada por pregos.

— NÃO! A CULPA É SUA, ESCÓRIA! TUDO ISSO É CULPA SUA! ESPERO TE ENCONTRAR NO INFERNO, GAROTA!

Fechei os olhos com força, soluços escapando dos meus lábios.

— NADA DISSO ESTARIA ACONTECENDO SE VOCÊ TIVESSE SIDO UMA FILHA DECENTE! MAS FOI EGOÍSTA! OS SEUS AMIGOS ESTÃO MORTOS POR SUA CAUSA! QUERIA SUA LIBERDADE? OLHE NO QUE DEU!

Eu já sabia. Mas as palavras de Patrick estavam me matando mais que qualquer outra coisa. Ele estava certo. Vozes na minha mente começaram a gritar a mesma frase.

A culpa é sua.

Edward sorria sadicamente e parecia apreciar os gritos de Patrick e me direcionava um olhar de falsa compaixão. Não conseguia olhar para ele.

Eu não gostava dele. Sempre me manteve presa. Mas Patrick ainda era meu pai, mesmo com ele me gritando coisas horríveis me fazendo sentir um lixo, eu ainda sentia dor com ele sendo torturado.

Tive coragem apenas para olhá-lo e falar uma frase pra ele. Eu não podia fazer como fiz com Anne e Jacob.

— Eu te amo, pai. E te perdôo por tudo.

Falei o que tinha de falar, mas isso não o atordoou por apenas um segundo, ele continuava a me berrar, a dizer que eu tinha sido um grande desperdício de seu tempo.

Não vi nada.

Apenas ouvi o som do coração de Patrick sendo arrancado.

Apenas ouvi a última pessoa que eu amava partir de um jeito tão cruel quanto os outros. Não olhei.

E só ouvi o som de Edward se aproximando de mim. Passo a passo, lentamente. Ele colocou a mão no meu rosto o direcionando, mas meus olhos estavam fechados com força.

— Abra os olhos.

Eu abri, para encarar a morte de frente, não tinha mais motivos pra ficar. Encarei os olhos castanhos de Edward, me analisando atentamente.

— Seja rápido. – Murmurei, minha voz tão rouca como se houvesse pregos enferrujados por toda minha garganta.

— Existem coisas piores que a morte.

As correntes caíram, meu corpo desabou sem o sustento delas e se chocou contra o chão, Edward desapareceu deixando-me sozinha com os corpos apodrecendo, a alma despedaçada com uma dor insuportável e condenada a loucura.

Notas finais
Sorry se matei algum personagem querido seu.