As Crônicas de Reddie Hunter
39 Eu estou aqui
Notas iniciais
ETHAN
Acho que fui o primeiro a notar o sumiço de Reddie. Selena estava conversando com Nicho. Luna tentando oferecer cookies a Bryan que continuava coberto até o nariz mandando ela ir embora. Os outros meninos só estavam fazendo coisas aleatórias. Primeiro achei que ela tinha ido a cozinha, e como eu estava sem nada pra fazer resolvi ir encher o saco dela. Mas ela não estava lá.
Subi até o quarto de Sel, notando farelos de biscoitos na cama. Eu devo ter deixado cair quando era um coelho. Me senti estremecer quando me lembrei da tarde. Que ninguém nunca mais cite isso. Me perguntei se Reddie teria saído da casa. Talvez ela precisasse de ar depois do que o demônio falou. Eu me sentia triste por ela, parecia ter sido abalada na hora, mas depois pareceu bem, só que Reddie nunca deixa os sentimentos visíveis, então não dava pra ter certeza se ela estava mesmo bem ou não.
Ouvi um barulho. Como algo se debatendo. Vinha do banheiro, bem baixo. Bati na porta.
— Reddie? Você tá aí?
Esperei por uma resposta irônica como “Não, Ethan, estou na cafeteria da esquina, agora vai me procurar lá”. Mas não veio nada.perguntei novamente e o barulho persistia. Então os gritos vieram, ela estava ali e algo definitivamente não estava certo.
— O que tá acontecendo? Reddie? – Eu batia na porta, mas ela não me respondia.
E me desculpe se não fui cavalheiro, mas em certas situações foda-se a educação. Dei um chute na porta do banheiro e a arrombei. Selena destruiu uma porta, eu outra, acho que vamos ter que tomar banho em outro lugar. Por um momento imaginei Reddie no banheiro me xingando porque estava tendo uma crise de cólica e só preferiu me ignorar. Mas ela estava deitada no chão.
Me agachei, ela tremia, se debatendo e gritando, como se tivesse algum tipo de crise ou pesadelo. A chamei e ela não acordava, a peguei em meus braços, ela estava com febre alta. Coloquei Red na cama, ela ainda gritava. Comecei a sacudir ela suavemente pra tentar acordá-la. Peguei uma camiseta qualquer da Sel e a molhei, enxugando o suor em sua testa e tentando amenizar a febre.
A sacudi mais um pouco, dessa vez chamando seu nome.
Então ela acordou. Imediatamente se sentando na cama e ofegando. Olhava pra todos os lugares, como se quisesse ter certeza de onde estava.
— Hey, calma, eu estou aqui. – Red finalmente me olhou, parecia confusa. E com medo. Era um medo diferente, eu tinha visto medo quando ela estava prestes a cair do prédio, mas agora ela parecia completamente aterrorizada. – Está tudo bem.
Reddie abraçou seus joelhos, respirando o fundo.
— Eu... Eu estou bem. Só quero ficar sozinha. Obrigada por me acordar.
Não queria deixar ela sozinha, mas ela tinha me pedido. Me levantei meio hesitante e estava indo em direção a porta, pensando em dizer que se ela precisasse de algo poderia me chamar, mas provavelmente eu seria trancado dentro do quarto pela Sel, então desisti.
— Espera. Fica. – Olhei na direção dela.
Eu não acredito que ouvi essa. Fiquei surpreso dela estar me olhando. Até me perguntei se o efeito do cupido tinha voltado.
— Quer que eu fique? – Vai que foi minha imaginação.
— Eu não vou falar de novo essa merda, Ross. – Ela revirou os olhos e eu ri.
Me sentei ao seu lado na cama, ela ainda tremia um pouco. Eu poderia levar um soco, mas ainda assim a abracei. Reddie não falou nada, nem tentou me bater por invadir seu espaço pessoal, só continuou respirando fundo e olhando pro quarto ainda como se tivesse ter certeza de onde estava.
SELENA
Eu estava subindo as escadas, pronta pra ralhar com Ethan por não estar no quarto quando vi ele e Reddie abraçados na minha cama.
ADORO. AI QUE FOFO MEU DEUS. MEU SHIPP É LINDO DEMAIS GENTE.
Quem sou eu pra estragar meu shipp? Se peguem, se amem, tenham filhos pra eu ser a madrinha. Me afastei devagar, (Antes tirando uma foto, primeiro momento que Reddie não afasta Ethan com um murro, óbvio) lá vinha Luna subindo a escada também, fiz sinal com o dedo nos lábios pra ela não falar nada e mandei ela cair fora também.
— O shopping pode esperar, essa cena é única. – Mostrei a foto pra ela, Luna abriu um sorriso gigantesco e assim que chegamos na sala começamos a dançar e comemorar sem fazer barulho. – Meu OTP, caralho!
— Nós vamos ser madrinhas, porra!
E lá estávamos nós dançando feito umas malucas.
REDDIE
Nunca fiquei tão agradecida na minha vida de acordar. Acho que por isso pedi pro Ethan ficar, mesmo que minha dignidade sofresse com isso e eu estivesse violando o claro aviso do meu pesadelo. Eu senti uma necessidade de saber que ele estava bem, de saber que todos estavam bem e eu não arruinei tudo de novo. E ali estava Ethan, provavelmente com ciência que em circunstâncias normais, eu o socaria por me abraçar.
Nem nos primeiros dias eu tinha um pesadelo real daqueles. O alívio de acordar foi tão grande que até conferi se minha mente não estava me pregando peças. Aliás ainda estava esperando que Ethan virasse um zumbi e eu me afastasse dele gritando. Mas olhei e seus olhos estavam com aquele brilho de sempre, como se me tranqüilizassem e ele sorriu pra mim.
Merda.
Merda.
Merda.
Esse negócio de falar toda cheia das viadagens não acaba nada bem. Estava me aproximando demais. Estava falando merdas demais. Daqui a pouco eu ia de fato gostar desse arrombado. E isso não podia acontecer nem fodendo. Eu sempre xingo demais quando estou nervosa.
Mesmo que eu viesse a gostar dele, se eu gostasse mesmo iria querer ele bem, ou seja, ele ficaria bem, se estiver bem distante de mim. Enquanto pensava nas probabilidades de me mudar para o México, Ethan me beijou.
E eu esqueci completamente tudo que estava pensando. Esqueci o pesadelo que tinha acabado de ter, que eu não podia gostar dele, que o Ross era um irritante que eu insistia em detestar. Esqueci de tudo, porque depois de 5 anos lá estava meu coração que nem uma escola de samba, batendo mais rápido que nunca.
Talvez fosse tarde demais e meu cérebro já estivesse fodido porque eu só fechei os olhos e retribui.
Que merda está acontecendo comigo?
E eu não sei quanto tempo fiquei apenas assim com ele, até que o ar nos faltou. Ethan encostou sua testa na minha, e eu me senti perdida dentro do oceano que era a cor de seus olhos. As pupilas dele estavam dilatadas.
Será que eu teria que enfiar outra faca naquele velho bêbado desgraçado?
No momento a única coisa que pensei foi na música R U mine de Arctic Monkeys.
Não. Eu não podia fazer isso. Pisquei, tentando voltar a minha realidade.
— Porra. – Praguejei e me levantei da cama, descendo a escada as pressas com um sério risco de cair e espatifar minha cara no chão.
Selena e Luna estavam na sala, me olhando sorrindo. Eu nem comentei nada, senão aí que iria me entregar. Mas me perguntei o quanto elas teriam visto.
— Hey, Sel, você não disse que a gente iria sair? – Eu precisava sair daquela casa urgentemente, eu precisava me afastar de Ethan.
Já tinha arranjado uma desculpa. Vulnerabilidade. Eu estava vulnerável, muito sensível e Ethan se aproveitou dessa situação, pronto.
Temos que manter a dignidade.
— E vamos, eu estava esperando você e o Ethan saírem da cama ué – Ela deu de ombros rindo.
Ah, miserável.
— Vamos embora, desgraça. – Fui a primeira a ir abrindo a porta.
— Okay, apressada – Sel levantou as mãos como alguém que se rende. – Vai abandonar seu namorado assim mesmo.
Fuzilei Selena.
— Você nunca viu nada, Cook. – Levantei meu dedo do meio. – Vem logo antes que eu resolva viajar agora mesmo e não amanhã de manhã só pra não ver mais essa sua cara.
Ela revirou os olhos rindo e se levantou junto com Luna. As duas pareciam quase saltitar.
Retardadas.
Um tique nervoso se instalou no meu olho esquerdo. Puta merda. Por que, meu Deus?
Nós entramos no carro, Sel no volante, eu no banco de passageiro e Luna deitada no banco de trás. As duas começaram a conversar e eu estava totalmente alheia respondendo com grunhidos. Respirei fundo pela milésima vez aquela noite. Pra que merda ele foi me beijar e pra que merda fui retribuir.
Gente esse papel de trouxa que a vida me deu deve tá muito errado, já veio a Amazônia em forma de papel de trouxa pra mim. Fiquei revoltada, mas tentei pensar num ponto positivo.
Era o último dia em Londres. Amanhã de manhã, eu, Ethan, Luna e Bryan iríamos pro aeroporto, eu pegaria o meu lindo trailer e iria pra longe dos braços daquele miserável de vez. E me sentia triste por isso. Praguejei mentalmente. Eu nunca deveria ter aceitado ficar 3 dias. Foi o suficiente pra eu lembrar como é ter amigos.
E um quase namorado.
Balancei a cabeça, tinha que focar no que era importante. Amanhã, toda essa merda acaba, e com sorte eu não teria pesadelos como o de hoje.
Até lá ignoro a existência de Ethan por que estou morrendo de vergonha de encarar a cara dele de novo.
Mas vamo que vamo, segue o baile.
Chegamos no shopping, Sel estacionou o carro. Odeio estacionamento de shopping. Ter que pagar pelo tempo que você fica é detestável. Ás vezes você quer só dar um passeio e quando vai ver tem que pagar 10 dólares.
Nós entramos no cinema e tentamos escolher um filme, (tentamos uma vírgula, Que Selena e Luna quase me fuzilaram por tentar escolher outro filme que não fosse Liga da Justiça) após minha opinião ser totalmente ignorada, Luna comprou os ingressos e fomos dar uma olhada na livraria até dar o horário.
Ah, livrarias.
Como um lugar pode ser tão perfeito?
Só de entrar e sentir o cheiro de livros totalmente novos, meu corpo todo relaxou e foi minha vez de ir catar livros nas prateleiras praticamente saltitando. Agora eu era uma retardada. Eu não consegui resistir ao ver os livros que amava aos 14 anos. Peguei 4 deles.
Se eu tentei lutar contra a vontade de comprar? Nem um pouco. Só estava enjoada de tantos livros de caça e nenhum para me distrair. E eu posso comprar. Com cartão fraudado, mas tá valendo.
— Rony! – Sel gritou para o atendente da livraria.
Ele estava usando um suéter preto, tinha cabelos loiros presos numa touca cinza, olhos castanhos meio esverdeados e um sorriso encantador.
Por um momento, pensei em chamá-lo de Guilherme de tão parecido que ele era.
Rony saiu detrás do balcão e abraçou Sel a levantando em seus braços.
Vou dar chifres de cervo de presente adiantado de natal para Nicho. Quando fui ver, Luna estava com uma pilha com cerca de 15 livros em suas mãos.
— Rony, essas são Reddie e Luna, Reddie e Luna esse é o Rony. Um amigo meu. – Sel sorriu.
— Oi – Cumprimentei tentando ser amigável e movi a cabeça pro lado. Socializar não era minha praia.
— Hey – Luna sorriu, tá aí uma garota sociável. Rony retribuiu o gesto. Ela provavelmente teria acenado animadamente, mas suas mãos estavam bastante ocupadas.
— Não quer ajuda com esses livros? – Ele perguntou pra Luna.
— Não precisa, não. Posso me virar aqui.
Rony e Selena voltaram pro caixa. Sel passava os livros dela pelo balcão, ela tinha comprado uns 10. O que me chamou a atenção foi o Esse Livro te Ama. Fui na prateleira e peguei um pra mim. Já Luna superava nós duas. Ela tinha pegado mais.
Contei pacientemente e tinham 21 livros empilhados nas suas mãos.
— Calma aí! Eu preciso comprar aqueles também! – Ela sorriu e foi dando seu jeito de ir até as prateleiras. Uma senhora a olhou feio por gritar na livraria.
Rony sorriu mostrando covinhas. Me perguntei por que quase todo garoto que conheço tem covinhas. As covinhas me amam, só pode. Rony tinha algumas sardas no rosto também.
— É só isso? – Ele perguntou meio irônico apontando pra Selena e Luna.
— É só isso mesmo – Luna respondeu devolvendo o sarcasmo sorrindo.
— Elas são muito econômicas, sabe? – Eu falei com meus humildes 5 livros.
— Eu tô sentindo um cheiro muito familiar aqui. Tipo, muito mesmo. – Sel sussurrou pra mim.
— Monstros? – Sussurrei de volta.
— Não... É muito familiar. – Franzi o cenho e olhei ao redor.
Até que meu olhar focou em dois bisbilhoteiros filhos da puta que não agüentam ficar com a bunda em casa.
— Não deve ser nada. – Falei, mesmo sabendo que os miseráveis estavam ali.
— Você tá mentindo. Seu coração acelerou. Dá pra ouvir, sabe?
— É porque não é nada mesmo, não vamos nos preocupar, não tem motivo pra isso – Dei de ombros.
Passamos todos os livros no caixa, Luna constantemente adicionando um dizendo “Espera, esqueci desse, é o último”. Ela disse isso há uns 15 livros atrás. Acabou que Luna pegou três das maiores sacolas da loja e a gente teve que voltar ao carro pra guardar tudo (porque a gente não ia ficar perambulando com um monte de sacola por aí) e voltamos para o cinema.
— Luna, dá aí os ingressos. – Eu disse e Luna começou a remexer nos bolsos. Então seus olhos se arregalaram de pânico.
— Ferrou. Acho que perdi. – Os olhos de Sel se arregalaram.
— Meu pai amado. Socorro. Parabéns, Luna. Você conseguiu superar a lerdeza do Ethan — Sel falou e começou a rir. – Ai, ai. Eu tô é rindo de nervoso.
— Hey, também não precisa ofender, não chega a tanto – Luna disse ofendida colocando uma mão no peito.
— Aqueles ingressos foram os olhos da cara, eu não vou pagar aquela merda de novo.
— Então vamos procurar ué.
Sel foi pra um lado, Luna foi pro outro e eu fui recriar os nossos passos. Voltei a livraria com a cabeça baixa procurando no chão os ingressos feito uma retardada. Eu mato Luna. Até que meu corpo bateu com um uma pessoa bem mais alta que eu. Nem precisei olhar. Eu conhecia aquele perfume.
Puta que pariu.
Levantei a cabeça e lá estava Ethan. Eu abri a boca pra falar algo. Mas acabou que eu preferi cagar pra existência dele. Nunca nem vi.
Dei a volta e continuei procurando.
— Ei, eu pensei que eu era o mais imaturo desse relacionamento.
Continuei ignorando.
— Você me deve respostas, sabia?
E eu preciso dos ingressos que custaram caríssimo. Ainda mais que o filme é 3D. Foi mais caro ainda.
— Dá pra me responder?
— Foi um erro. – Perdi minha paciência.
Ethan pareceu confuso.
Se tinha um jeito de eu me afastar ainda mais de Ethan, é fazendo ele acreditar que não gosto dele. Isso inclui falar que o beijo foi um erro.
— O quê?
— Você ouviu. Aquele beijo foi um erro. Eu estava triste. Só foi isso, Ross. Deveria parar de ficar bobo por coisas pequenas.
Ele ficou com expressão de indiferença.
— Então acha que foi um erro?
— Sim. Eu continuo te detestando. Conviva com isso, e por favor, me deixe em paz.
Então saí da livraria de forma dramática. Era o certo a se fazer. Ele ficaria mais seguro longe de mim e esquecendo que algum dia me conheceu. Mas eu senti meu pulso ser puxado e meu corpo girou. Ethan me abraçou e me deu um beijo na testa.
Tenho certeza que meu rosto estava da cor do meu cabelo e eu parecia um pimentão humano de tão quente que estava.
— Eu tenho motivos pra acreditar que você acabou de mentir. – Ele deu um sorriso de canto – Não ache que vai se livrar de mim tão fácil.
Mas que miserável.
— Perdi alguma coisa? – Nicho chegou perguntando.
— Na verdade eu estava prestes a perguntar o que você estão fazendo aqui.
— Ah, na verdade todos os meninos estão.
— Sel não proibiu vocês?
— Jack deu a ideia. E também, se vocês podem ter a noite das meninas por que não podemos ter a noite dos garotos? – Ele trocou um toque com Ethan.
Nem sabia que os dois se gostavam.
— Eu tenho mais coisa pra fazer, então tchau.
— Não fale pra Sel que estamos aqui, ela iria me matar!
— Claro, eu não quero estragar o casalzinho.
E dessa vez consegui sair sem alguém me puxar de volta. Que merda. Agora que eu estava puta mesmo. Estava voltando do cinema quando esbarrei com Sel.
— Você achou o ingresso? – Ela perguntou.
Que ingresso? Me perguntei mentalmente. Ah, o ingresso que me custou os olhos da cara. E que Luna perdeu.
— Não. E depois dessa, nunca mais nós vamos deixar os ingressos na mão da Luna. E você?
— Eu não achei, mas rolou uma coisa engraçada. Eu tava procurando né, aí um menino chegou perto de mim, aí ele perguntou qual era meu número, aí eu empurrei ele e pedi pra ele achar o ingresso comigo. Aí ele ficou procurando e eu saí de lá – Ela riu e eu também ri imaginando o garoto que ela fez de otário.
Voltamos e encontramos Luna.
— Achou? – Perguntei esperançosa.
— Não. – Ela respondeu desanimada.
— Não acredito que você perdeu o ingresso mesmo. – Luna abaixou a cabeça triste e vi Sel ativar os olhos azuis. Ela olhou para todos os lados no cinema tentando disfarçar ao máximo e parou na calça de Luna.
— O que você está olhando tanto? — Perguntei para Sel.
— A inteligência rara desse ser humano desprovido de inteligência ter deixado o ingresso no bolso — Luna olhou para o bolso e Sel começou a rir desesperadamente como uma foca engasgada.
Eu tava procurando essa merda feito uma retardada.
— Mas eu procurei. – Luna tentou protestar e Sel apenas colocou o dedo na sua frente.
— Apenas cale-se. É desnecessário.
Luna começou a procurar no bolso.
— Nossa, mano. Esse bolso é muito fundo. – Luna colocou a mão inteira no bolso e quando tirou lá estavam os ingressos. Sel já tinha até ido comprar a comida.
— Você faz jus a ser irmã do Ethan.
— Hey. Já falei que não precisa ofender.
Depois disso fomos para a fila e compramos o “necessário para sobrevivência” como disse Sel. Assistimos o filme tranquilamente fora os eventuais gritos de animação da Sel toda vez que rolava briga, ou seja, a cada cinco minutos. Saímos da sala de cinema rindo e conversando sobre o filme, Sel segurando uma coca-cola e Luna um milk-shake de nutella. Bom, até a Luna esbarrar com tudo numa garota e sujar ela toda.
— MINHA BLUSA! – A garota gritou desesperada enquanto arregalava os olhos. Ela era ruiva, mas era um ruivo pintado e meio sem vida e tinha olhos castanhos. Tinha um pouco de rosto na sua maquiagem. Eu tinha que pintar com vadia assim que saísse do cinema.
Aliás, eu não, a desastrada da Luna.
— Nossa, cara, me desculpa mesmo... – A garota a interrompeu berrando e chamando a atenção de todos. Eu fui comprar um milk-shake pra mim.
— Sua filha da mãe! Essa blusa custou mais do que a sua casa!
— Duvido muito que esse pedaço de pano tenha custado mais que a minha casa.
Realmente, considerando que eu já fui naquela casa. Definitivamente a blusa custava nem um milésimo que devia ter sido o preço da construção.
Sel mexia no celular e tomava sua coca tranquilamente e como eu estava sem o meu aparelho, estava observando a treta enquanto tomava meu milk-shake de doce de leite.
— Como você ousa, desgraçada? – A garota berrou indignada e mais duas se aproximaram dela e olharam Luna com desdém.
Uma era morena e tinha cabelos cacheados e olhos castanho claro. A outra era asiática e tinha cabelos pretos. As três usando uma minissaia jeans preta e um top sem alças Pink com pedras brilhantes formando a palavra TOP.
Nossa. Grande estilo. Parabéns. Um top com a palavra TOP. Genial. Imagino elas rindo feito hienas se achando as maiorais pela combinação.
— Ousando. – Luna deu de ombros – Eu não tenho culpa se o meio quilo de rímel tava te cegando e você não me notou bem na tua frente.
— O que está acontecendo aqui? – Um segurança chegou e Sel arregalou os olhos levantando as mãos.
— DESSA VEZ eu não fiz nada! Tô quieta! Não precisa me prender de novo! – Sel disse em sua defesa e eu ri.
O segurança bufou, talvez ele já estivesse acostumado a prender a Sel e ficou decepcionado por desta vez ela ser inocente.
— Eu também acredito que não tenha nada aqui – Luna nos puxou e caímos fora do cinema. A treta me atrai onde eu for. Mas desta vez eu não irei para a treta. Vou ficar quieta.
Nós fomos para o Mc Donald’s e cada uma comprou um hambúrguer, menos a Sel, que pediu cinco. Menina esfomeada. Okay que ela se transforma, mas como é que cabe tudo naquela barriga?
Cada uma pegou um refrigerante e enquanto estávamos andando até uma mesa, Luna derrubou o refrigerante.
ADIVINHA EM QUEM?
Sim. Na mesma vadia ruiva. Selena riu e Luna bateu a mão em sua testa murmurando “eu mereço”. Ninguém merece mesmo. Se pelo menos fosse numa pessoa
— Você quer morrer. – A ruiva tentou parecer ameaçadora, mas... Sei lá.
Ela tava ridícula.
A garota tinha tentado limpar o milk-shake do top, mas tinha ficado uma mancha horrível que tinha piorado com a coca-cola. Acho que ela vai ter que jogar fora esse top. Não sei porque ela não agradece, Luna fez um favor a ela se livrando desse pedaço de pano. Eu que tenho uma barriga mais bonita que essa criatura não saio mostrando ela por aí – VOCÊ NÃO OLHA POR ONDE ANDA?
— Você também não olha, okay? Foi mal.
— Foi mal? Foi mal? Foi muito mal! – Ela e as outras meninas levantaram o punho. Eu e Sel nem fizemos nada. Três vadias contra uma ninja?
Acho que todos nós sabemos que o segurança deste shopping foi contratado só pra ficar no pé da Selena e esquecer das tretas alheias. Será que dá pra alguém chamar os médicos logo?
— Vamos nos dividir, você fica com a desastrada e você com a azulzinha, eu cuido dessa ruiva aguada – A morena disse.
Ruiva aguada? Magoei.
Meu cabelo é mais divo que o de muito ruivo por aí, tá? E por que é que essa treta tá vindo pra mim se eu nem fiz nada?
— Aaah, te chamou de ruiva aguada! – Sel gargalhou e eu fechei a cara.
— Eu garanto que meu cabelo é bem mais natural que o seu, vadia. – Rosnei e acertei com tudo um murro a morena que ia TENTAR me dar um tapa.
Ela caiu no chão, choramingando. Que patética. Vindo pra mim com golpe de patricinha. Meti logo o soco que é pra nem perder tempo com o lixo.
— Seja mais pacífica. – Sel falou tentando dar uma de hippie enquanto a morena me olhava com o nariz sangrando.
Nossa, ela ainda estava acordada, impressionante. Ela se levantou e ousou puxar meu cabelo e começou a tentar me xingar.
— ORA SUA... – A acertei com outro murro e ela cuspiu um dente.
— Você ainda quer comprar briga comigo? – Falei sarcástica enquanto ela caía de joelhos chorando e murmurando algo, provavelmente que ia ter que pagar um novo dente de porcelana.
Luna só precisou de um chute pra mandar a ruiva aguada de verdade pra puta que pariu. A garota caiu em cima de uma mesa que desabou sob suas costas na hora do impacto. E Sel apenas olhava a treta enquanto tomava seu refrigerante.
— Ainda me chamam de selvagem... – Sel resmungou. A garota asiática foi dar um tapa nela e Sel apenas segurou seu pulso. – Nem tente.
A ruiva se levantou cambaleando. Caramba, é verdade aquele ditado que vaso ruim não quebra.
— Vocês não perdem por esperar – Então elas se afastaram, levando junto a amiga morena, uma reclamando a outra pelo seu estado.
Quando eu penso que já vi de tudo nessa vida, vem o ser humano mostrar que monstros são o menor dos meus problemas.
Fale com o autor