Como podem imaginar, Patrick vibrou e berrou de felicidade ao saber que matei um vampiro. Me tratou como se eu fosse um troféu maravilhoso que ele havia conquistado com muito esforço.

— Essa é minha garota! Imagine como Simas ficará ao saber disso! Ele vive se gabando que o filho dele matou um lobisomem aos 12, e agora, hã? – Ele deu uma gargalhada pretensiosa e eu revirei os olhos.

Fiquei em meu quarto a manhã inteira, ouvindo a voz de Patrick vangloriando-se. Desci as escadas pensando num modo de sair.

— Posso ir no parque? – Sei lá né, ás vezes a cara de pau funciona.

— Claro, claro – Patrick murmura, sua atenção voltada a ligação no telefone – Ah, ela derrubou um vampiro, Samuel! Ela é o novo talento dos Hunters!

Pelo menos uma vantagem isso tinha que dar, saí correndo de casa antes que ele mudasse de ideia. Assim que cheguei ao parque, vi que o banco estava vazio. Olhei ao redor e nada do Nicho. Droga. Eu preciso saber o que ele tá pensando. Sentei no banco e tentei esperar o mais pacientemente possível. Só que depois de dois minutos comecei a andar de um lado para o outro porque a vida é curta e minha paciência também.

— Me esperando? – Nicho apareceu ao meu lado do nada e eu quase dei um pulo pelo susto, quase, ainda tenho dignidade.

— Sim. – Dei de ombros e sentei no banco. Ele me encarou e sua pele estava corada.

— Desculpa por ontem. Eu achei que gostava de você e percebi que na verdade é só amizade. – Ele abaixou a cabeça envergonhado e eu não contive um suspiro de alívio. Eu não sei se conseguiria colocar ele na friendzone.

— Ainda bem porque eu também só te quero como amigo. – Sorri e ele levantou a cabeça dando um sorriso também.

— Quer comemorar nossa amizade comendo?

— Claro, de preferência com uma xícara de café.

— Gosta de café?

— Amo de paixão. Me diga que gosta de café ou eu nunca mais olho na sua cara.

— Eu gosto de café. – Ele levantou as mãos em rendição.

— Acho bom mesmo – Dei uma risada e estávamos atravessando a rua para a cafeteria quando um grupo de feira passou por nós, e infelizmente uma deteve seus olhos em mim logo dando um grito de pavor. Ah, qual é?

— Santo Deus! O demônio está nessa menina! – A senhora levantou uma cruz que estava em seu pescoço e as outras me encararam assustadas.

Okay. Talvez seja necessário o uso das lentes. Uma careta se formou no meu rosto.

— Eu não sou o demônio não moça, calma aí – Falei e um gesto de abano de abano como se elas fossem moscas. Eu ia me virar e ir direto pra cafeteira, só que aquelas senhoras vestidas de pingüim me cercaram num círculo. Arregalei os olhos e Nicho ria da situação – Dá pra dar licença ou tá difícil?

Elas começaram a murmurar orações e eu me senti como se estivessem me exorcizando. A diferença é não tinha nada no meu corpo, então eu só fiquei com cara de bunda enquanto elas uniam suas mãos e falavam para Deus livrar o diabo do meu corpo. Lindo dia esse hein. Aí quando alguém me perguntar “Qual foi o ponto alto do seu dia?” eu posso responder que foi ser cercada por um bando de pingüins religiosos tentando me exorcizar. Tô começando a achar que essas senhoras fumaram orégano estragado.

— DEUS LIVRE O CORPO DESTA MENINA DO INIMIGO! – E quando menos esperei, uma senhora jogou a água de um cantil prateado na minha cara me encharcando, se possível minha cara de bunda piorou enquanto eu cuspia água, Nicho estava dobrado no chão gargalhando da mim. – Isto é água benta!

— Ah vão se ferrar – Empurrei duas delas que se sobressaltaram para abrir caminho enquanto eu resmungava palavras de baixo calão e puxava Nicho dali já que ele estava rindo tanto que nem tinha condições de se levantar. – E você, pode ir parando de rir.

— Não... Dá... Sua cara tá muito engraçada – Ele deu mais uma gargalhada e eu semicerrei os olhos enquanto o puxava pelo pulso e antes de entrar na cafeteria fuzilei cada uma daquelas freiras que me encaravam assustadas e depois saíram correndo.

— E vocês, vão procurar algo de útil pra fazer!

Entrei na cafeteria espremendo meu cabelo e fiz Nicho se sentar numa cadeira perto da vitrine, ele ainda ria. Fui pedir um café.

— Hey capeta, me traz um com creme! – Ele disse com um sorriso provocativo. Fuzilei ele também.

— Por favor um expresso com creme e caramelo e outro só com creme – Pedi ao atendente que também tentava conter a risada. – Ria que eu quebro teus dentes, infeliz.

Nunca mais saio de casa sem lente. O atendente fez uma cara com se duvidasse de minhas capacidades de briga, mas deu de ombros e foi fazer o café. Ele me entregou e voltei para mesa, Nicho ainda tentava voltar a respirar normalmente.

— E você nem pra me ajudar né, traíra? – Bufei e entreguei seu café.

— Desculpe, mas a cena foi hilária, eu deveria ter filmado. – Soltou mais uma risada.

— Há, há, há, que engraçado – Revirei os olhos. Tomei meu café e logo senti meu corpo se aquecer, ainda bem, aquela água praticamente congelou no meu corpo e sacudi meu cabelo ainda molhado.

Depois que terminamos o café, voltamos ao parque, e Nicho insistia em me chamar de Capeta em vez do meu nome.

— Então capeta, Batman ou Superman?

— Logicamente que escolho o Batman.

Ele riu e continuamos a conversar no mesmo banquinho de sempre.

— REDDIE! – Estremeci ao ouvir aquela voz, torci mentalmente para que não fosse quem eu pensava, mas minhas preces não foram atendidas porque assim que virei a cabeça para a direção da voz, meu coração falhou. Patrick estava lá, caminhando furiosamente em nossa direção.

E pela primeira vez na vida, eu senti medo. Senti medo de tudo desabar e de perder meu único amigo.

— Quem é ele, Red? – Nicho perguntou confuso e meio assustado.

— Meu pai. – Conhecido também como destruidor de sonhos.

— O que pensa que está fazendo? – Ele esbravejou e eu me levantei respirando fundo.

— Conversando amigavelmente. – Sorri irônica.

— Você, vai pra casa AGORA. – Ele ordenou e eu continuei no mesmo lugar.

— Não vou. Eu quero ficar aqui. – Nicho olhava para nós dois com o cenho franzido.

— Só pode estar ficando maluca!

— Ou talvez eu finalmente esteja sendo feliz DE VERDADE – Gritei já perdendo a paciência.

Ele deu uma risada sarcástica.

— Isso que está fazendo vai prejudicar seu futuro!

— Nunca parou pra pensar que eu não queira essa droga de futuro?

— MAS VAI TER! PORQUE VOCÊ É UMA HUNTER! Você vai fazer o que eu mandar e ponto final!

— Eu não quero! – Esbravejei colocando as mãos na cintura. Nicho se levantou.

— Ela é minha amiga, eu não vou deixar você levar ela! – Por um momento, enquanto fuzilava Patrick, os doces olhos de Nicho se tornaram tão frios quanto gelo, e eu percebi que ele também estava com medo.

— Pirralho não me faça rir, você é simplesmente uma pedra no caminho da minha filha!

— E talvez você seja um grande idiota! – Ele gritou. Meu coração falhou uma batida quando Patrick levantou a mão contra Nicho.

Eu o empurrei e somente senti a ardência enquanto ouvia o estalo de sua mão pesada contra meu rosto, meus cabelos bagunçaram e caí na grama. Patrick me olhou como se pensasse “Bem feito”, sem demonstrar um pingo de arrependimento por ter metido a mão na minha cara.

— Reddie... – Nicho me encarava assustado e tentou levar a mão ao meu rosto, mas eu levantei a cabeça, com a respiração ofegante para olhar Patrick em seus olhos.

— EU TE ODEIO! VOCÊ FALA TANTO DE MONSTROS, MAS NA VERDADE VOCÊ É UM!

— EU SOU SEU PAI! EU SEI O QUE É BOM PRA VOCÊ!

— Mas depois de hoje você não tem mais uma filha – Cuspi as palavras.

Ele me puxou pelo pulso e saiu me arrastando enquanto eu resistia, Nicho tentou me segurar, mas o olhei como se dissesse “Eu vou tentar voltar, tá tudo bem” e ele entendeu, pois logo largou minha mão e olhou tristemente eu sendo levada embora. Por todos os quarteirões até em casa xinguei em alta voz o homem que me levava.

— Você é um grande egoísta filho da mãe, quando vai entender que não quero ser a merda de uma caçadora?! – Gritei me debatendo, mas seu aperto em meu pulso era firme e eu sabia que ficaria roxo depois que ele me largasse. – Eu te odeio mais que tudo!

Quando chegamos em casa, Patrick me jogou para dentro e Anne franziu o cenho.

— O que está acontecendo aqui?

— Você se casou com um merda. – Respondi enquanto Patrick abria a boca

— Sua filha andava se engraçando com um garoto do parque! – Ele falou como se eu tivesse matado alguém.

— Primeiro, sua filha uma vírgula que eu não fiz sozinha, segundo, que história é essa de garoto?

— Eu fiz um amigo, porém Patrick acaba de destruir minha felicidade.

— E ele fez bem! Quantas vezes já falamos que não pode fazer amigos?! – Ela exclamou se irritando e controlei minha boca suja para algo mais eficiente.

— Mãe, ele me deu um tapa na cara e olha isso aqui! – Mostrei meu pulso roxo e vi a mulher que me deu a luz ficar possessa. Porque ela simplesmente respirou fundo e começou a andar lentamente na direção de Patrick.

— Ah vamos! Foi bem merecido mesmo! Ela estava... Ai! – Ele não continuou a frase pois Anne deu um soco tão forte em seu rosto que seu corpo virou.

— Se eu sou a favor do treinamento pesado? Sou. Se sou a favor da nossa filha ser caçadora? Sou. Mas nunca, nunca mesmo, tente machucar a Red desse jeito por motivo nenhum, se lembre que fui eu que comprei essa casa, e por mais que te ame não pensaria suas vezes antes de te expulsar daqui, me ouviu bem?! Ela pode ter errado fazendo amizade que você não pode, jamais, meter a mão na cara dela. Isso eu não admito nem hoje, nem amanhã e nem nunca!

Finalmente um pouco de justiça nessa casa. Eu estava torcendo que ela o expulsasse daqui mesmo. Dei um sorriso irônico quando Patrick me encarou furiosamente. Dei as costas aos dois e subi correndo para meu quarto logo me trancando lá.

Sentei no parapeito fino da janela, uma inclinada em falso para o lado de fora e eu cairia do segundo andar. Mas eu não estava com medo. Precisava de ar. Do jeito que estava a minha raiva, eu sentia que poderia até matar alguém. Eu não consegui agüentar e chorei. Deixei meu coração se apertar de dor. As coisas tinham que ser tão complicadas pra mim? Olhei o céu que já escurecia fazendo algumas estrelas surgirem no horizonte.

— Psiu! – Ouvi um baixo sibilo e olhei pra baixo, um sorriso instantâneo se formou na minha face quando vi Nicho bem abaixo da janela, sorrindo amigavelmente. – E aí, capeta?

— O que tá fazendo aqui? Se meu pai te ver ele te mata.

— Não tô nem aí. – Ele deu de ombros – Tem como eu subir aí?

Pensei por um instante e uma idiota ideia surgiu na minha cabeça, mas tinha que servir.

— Espera um minuto.

Peguei um monte de roupa de cama e amarrei todas fazendo uma corda, julgo eu, segura. Ou seja pode dar merda. Amarrei uma ponta no parapeito da janela e joguei a outra para baixo.

— É sério isso?

— Sim. – Dei de ombros. Ele bufou, mas começou a subir, ainda bem que ele era leve.

—Wow. Primeira vez que entro numa casa por uma corda de lençol. Que legal! – Ele riu e eu o acompanhei enquanto puxava a corda para cima, porque ia ficar bem estranho aquele troço balançando.

— Como chegou aqui?

— Segui você e seu pai, pode me chamar de stalker – Ele piscou e eu dei risada. – Eu sei que você não vai poder voltar.

Ele baixou a cabeça e eu senti meu coração doer de novo.

— Eu sinto muito.

— Mas você é minha única amiga.

— Você vai arranjar novos amigos, Nicho, é a pessoa mais legal que eu conheço. Eu que não tenho escolha.

Ele se aproximou e me deu um abraço.

— Eu te amo. Não esquece de mim okay? – Ele murmurou contra meu pescoço e eu deixei uma lágrima cair.

— Também amo você. E eu nunca vou esquecer meu primeiro amigo. Talvez um dia eu te encontre, ou então veja nos jornais “Yamazaki salva garota de vilões em incêndio” e vou saber que fui amiga de um super herói.

Ele riu e eu senti minha camiseta molhar onde ele tinha o queixo apoiado e ouvi um soluço, logo eu acabei chorando junto com ele. Eu não queria perder Nicho. Estava odiando Patrick com todas as minhas forças.

— A gente podia trocar mensagens. – Ele sugeriu se afastando.

— Eu não tenho internet. – Nicho abriu a boca incrédulo.

— Sem ofensa, mas seu pai é um monstro primitivo.

— Isso é pouco, acredite – Cruzei os braços e sentei na minha cama. Nicho deu uma volta pelo meu quarto. Que não tinha muita coisa. Então lembrei.

— Acho que não te falei que desenho – Murmurei e me abaixei, levantei a tábua solta e peguei meus desenhos de lá.

Ele pegou da minha mão e eu corei ao perceber sua face admirada quando seus olhos passaram pelas páginas.

— Você desenha muito bem – Ele sorriu – Quando a gente se encontrar de novo, quero que faça um desenho de mim.

— Nicho... Eu não sei se...

— A gente vai se encontrar de novo. Eu sei disso. E agora provavelmente minha mãe está me procurando feito uma maluca.

Arregalei os olhos por ele ter fugido da própria mãe para me encontrar, mas logo caí na risada. Ouvi uma batida forte na porta e rosnei e revirei os olhos ao ouvir a voz de Patrick gritar.

— O que está acontecendo aí? Estou ouvindo vozes!

— Além de destruidor de sonhos, é maluco também é? Se inscreve logo num programa de talentos! – Ouvi o bufo de Patrick.

Nicho conteve o riso e percebeu que era hora de ir embora, então me abraçou e eu o apertei o mais forte que conseguia.

— Droga, vou sentir sua falta.

— Não veja isso como uma despedida. Considere isso um tempinho, eu sei que vou te encontrar de novo. – Ele se afastou e sorriu me fazendo abrir um sorriso também.

— Então é um tchau?

— Sim. Mas eu espero que você apareça se eu ligar o bat sinal quando aquelas crianças demônios resolverem me atazanar.

Contive uma gargalhada.

— Você pode se defender sozinho. Só mandar elas voltarem pro inferno. – Dei de ombros.

— Ah, eu trouxe isso pra você. – Franzi o cenho e ele tirou do bolso um colar de cordão preto com um pingente de uma jóia escura que eu não sabia qual era. – Eu que fiz. É só pra te lembrar de mim.

Ele entregou o colar a mim.

— Obrigada. – Sorri e Nicho também.

Foi em direção a janela e quando estava no parapeito ele me olhou.

— Até logo, capeta.

— Até – Acenei e olhei ele descer a escada, logo acenando pra mim e depois saiu correndo pela rua.

A noite caiu, e uma estrela cadente passou pelo céu escuro e imediatamente pensei num desejo.

“Eu quero ser livre”

E eu vou ser, dias melhores virão.

Notas finais
Nhaaa, fim do primeiro crossover :T Yamazaki manda lembranças