Notas iniciais
Esse tá meio curtinho, mas o próximo postarei em breve.

Sentia meus cabelos ricocheteando com o vento forte que vinha da floresta que cercava a estrada, dirigir era libertador e emocionante. Principalmente quando eu estou com medo do GPS estar possuído pelo capeta e talvez eu esteja indo pra Antártida ao invés dos Estados Unidos. Fora isso era legal.

Até parar num semáforo.

— Ah, que praga – Resmunguei cruzando os braços quando vi a luz vermelha acender.

Mais uma forte corrente de vento veio e com ele um inseto entrou na minha boca. Engasguei e a luz do sinal ficou verde.

Só pode estar de brincadeira comigo.

Enquanto eu tentava tirar a merda do inseto de dentro da minha garganta, os carros ao lado avançaram e os que estavam atrás de mim começaram a buzinar. Desculpe-me se não consigo dirigir muito bem com um bicho na minha boca!

Finalmente consegui cuspir o inseto, o que me fez pegar uma garrafa de água, lavar a boca e cuspir pela janela do trailer que logo tratei de fechar, e assim segui em frente para o contentamento dos motoristas logo atrás. Okay, não comecei muito bem, certo? Chovia um pouco o que dificultava minha visão e a estrada estava escorregadia, mas eu iria pra Massachusetts atrás de um ninho de vampiros. O que provavelmente pode dar merda porque isso é trabalho de dois caçadores no mínimo. Mas vamos na fé.

Foi muito tempo de viagem, e quando eu cansava simplesmente estacionava e ia descansar um pouco no sofá ou na cama, ou tomava um banho. Ainda não sabia pra onde ou de onde vinha a água, mas eu sabia que estava tomando banho e tinha um ralo no banheiro. Acabei descobrindo que saía por um buraquinho tipo uma válvula de escape. Ou seja, se um cachorro ou um gato dorme debaixo do meu trailer, o coitado pode acabar tomando um banho surpresa.

No meu tempo livre enquanto viajava eu lia. E só. Voltei a estudar matérias de escola, menos matemática. Não via muito uso pra certas fórmulas. E não irei fazer vestibular e sei o básico o suficiente pra não me atrapalhar no troco das compras, então...

Depois de não sei quantos dias de viagem cheguei a Massachusetts. Entrei no meu “quarto” e peguei cinco revólveres. Cada um com carregamento extra de balas tipo mini estacas de madeira banhadas em sangue do homem morto. Eu vestia uma blusa branca, uma jaqueta e calça de couro preto e coturnos marrons. Escondi mais balas num bolso interno da jaqueta. Todas as minhas armas escondidas sob as roupas. Após rodar por algumas avenidas cheguei ao depósito. Todas as armas tinham silenciador. Eu pretendia ter uma vitória discreta.

Matar primeiro. Me vangloriar depois.

Encarei o depósito por um tempo, mas era dia, todos os vampiros deviam estar ali, o sol era uma vantagem pra mim. Era tipo uma fazenda meio deserta, não havia ninguém por ali. Peguei duas grandes e longas facas. Estavam tão amoladas que eu sabia que sequer precisava passar meu dedo pelas lâminas, iria acabar me cortando assim que as tocasse.

Saí do trailer e o tranquei, se aquele negócio fosse roubado eu teria um troço. Mesmo estando no seguro. Me aproximei do depósito, a porta de madeira descascada estava trancada.

Foda-se esse lance de ser discreta. Minha paciência acabou pra variar.

Meti um chute na porta a arrombando e quando dois vampiros se aproximaram mostrando as presas, os olhos injetados de vermelho sangue e com veias no rosto, eles se queimaram com a luz do sol e recuaram, aproveitei a distração e cortei suas cabeças com um só golpe, os corpos caíram e suas cabeças rolaram para longe. Rodei as lâminas entre os dedos.

A adrenalina me fazia mexer o corpo, meus sentidos estavam alertas como nunca. Entrei no depósito. Surgiram vultos de todas as partes me rodeando. Eu era uma intrusa invadindo o ninho deles. Saber que eu era uma ameaça pra eles me fez sorrir de canto. Senti um vento na minha lateral e atirei em tudo que se mexia, alguns vampiros ficavam mais lentos, o que significava que os acertei, mas não no coração, onde o veneno de sangue do homem morto logo se espalharia e os tornaria incapacitados de se mover. Um vampiro derrubou a arma da minha mão.

Enquanto pegava um revólver tomei um arranhão no braço e me esquivei de uma mordida. Meu rosto virou com um soco, que devolvi no mesmo instante em que sacava a arma e atirei no coração da loira que me atacava. Alguém me agarrou por trás, pisei em seu pé e ele me largou, me virei e desferi um chute em sua barriga, somente o som do gatilho sendo apertado foi ouvido e o vampiro caiu gemendo no chão.

Eu lutei feito uma louca, e percebi que ficava mais rápida quando via Edward ao invés do verdadeiro rosto dos meus oponentes. Socava e chutava com mais força, desferindo golpes com as facas e cortando cabeças, atirando com uma mira que havia treinado por muito tempo.

Me senti viva de novo. Senti meu coração batendo novamente com força dentro do meu peito. Caçar parecia me tornar ativa e por alguns momentos eu simplesmente esqueci dos problemas, me tornando uma máquina mortífera.

Não sei quanto tempo se passou, mas eu estava praticamente ferrada quando cortei a última cabeça. Eu nem acreditei. Tinha matado sozinha um ninho de vampiros. Devia ter acabado com a raça de cerca de uns 40.

Patrick ficaria orgulhoso. Sem sombra de dúvida.

Ri sozinha até que ouvi um gemido. Explorei o depósito. Quando vi, tinham três pessoas amarradas pelas mãos, o sangue os cobria e suas cabeças pendiam pra baixo, mas eu via um leve subir e descer dos seus peitos o que indicava que ainda estavam vivos. Deviam estar servindo de alimento pro ninho. Uma mulher levantou a cabeça e me olhou desesperada, pedindo ajuda. Estava tão acabada que nem conseguia falar.

Fui em direção a eles, as cordas estavam apertadas e quando finalmente consegui cortar, os pulsos estavam num roxo escuro. A mulher que soltei desabou com o corpo fraco demais, mas a segurei e pousei com cuidado no chão.

Então uma criança se aproximou. Sua pele era escura e tinha cabelos crespos, seus olhos castanhos grandes me encararam e por mais que ela não estivesse ferida, achei que fosse uma vítima, era tão inofensiva. Seus olhos injetaram-se e veias surgiram ao redor dos seus olhos, presas sobrepondo-se aos lábios finos. Ela estava transformada. E eu não queria matá-la. Por mais que fosse um vampiro, qual era a necessidade?

Ela avançou e me atacou, a boca arreganhando-se, os dentes com as pontas manchadas de sangue. Parecia determinada a me morder sendo movida por ódio.

A menina chegou perto demais.

Num reflexo de defesa desferi um golpe a decepando. Não importava se ela tinha me atacado, eu me senti culpada assim que vi o pequeno corpo cair. Me afastei atordoada. O que eu tinha feito? Como uma criança poderia ter culpa de ter sido transformada ou nascido assim? Eu pensei que estava pronta pra matar o que quer que fosse, mas não estava pronta pra matar uma criança. Larguei a faca.

— Me desculpa... – Olhei ao redor, foi uma carnificina. O chão estava lotado de corpos sem cabeça e sangue escuro como breu.

Eu sou tão fraca. Enganchei os dedos no cabelo. Era um monstro, não era uma criança. Queria me matar e provavelmente já tinha matado alguém pelo jeito que me atacou. Ou será que matei seus pais e ela viu? Engoli em seco. Não podia fazer ela voltar a vida de qualquer jeito.

Não há jeito de desfazer as coisas. Ela estava morta. Já era. Encarei minhas mãos, estavam sujas de sangue. Balancei a cabeça, eu já tinha culpa demais nas costas, não iria ficar me lamentando por me defender. Tratei de soltar os outros reféns, eles eram importantes.

“Sua obrigação é salvar o máximo de pessoas possíveis”.

Okay. Não sou babá, mas okay. Eu não sabia o que fazer com eles. Não tinha tantos remédios no trailer pra tratar dos seus ferimentos e se eu chamasse uma ambulância ia ter que me resolver com a polícia.

Por mais que eu possa me passar por vítima nesse estado, eu preferi sair do depósito e achar um telefone público. Consegui ligar pra um hospital e pedir ajuda em anônimo. Verifiquei se o lugar não tinha câmeras. Estava usando luvas de couro e meu cabelo preso num coque dentro de uma touca, e no meio de tanto sangue, era difícil achar algum respingo do meu. Não tinha como acharem meu DNA no banco de dados. Dei mais uma olhada no lugar e deixei os feridos na frente do depósito, verificando se não estavam transformados. Sua pele continuou somente pálida na luz do sol, sem o menor sinal que algum deles estava fritando. Respirei aliviada.

— Espero que fiquem bem. Eu já terminei meu negócio aqui.

A mulher me olhou, com dúvida, talvez não estivesse entendendo do que eu estava falando.

— Por favor, não me descreva pra polícia.

Eu tinha adquirido essa mania infeliz de falar sozinha. Sei lá, converso comigo mesma. Está certo que tenho vocês, mas só estão aqui pra ver eu me ferrar e rir da minha desgraça, (Sou a pessoa perfeita pra julgar quem ri da desgraça alheia) então...

Tirei meus sapatos sujos de sangue e saí do depósito, tomando cuidado para não deixar nenhuma trilha ou algo que me denunciasse.

Entrei no trailer e caí fora dali rapidamente, suja de sangue mesmo, ouvi as sirenes da ambulância, mas eu já estava bem longe. Fiquei com medo de topar com um guarda de trânsito. Quando parei de dirigir, estava num ponto mais movimentado, então estacionei por dentro da floresta e fui tomar um banho, o que demorou bastante, porque o sangue havia secado e tinha grudado principalmente nas cutículas das unhas. Saí do banho um pouco mais leve. Meu corpo sujo e a água vermelha no piso do pequeno banheiro estava me dando agonia.

Lavei as facas e as coloquei de volta no lugar, depois segui viagem saindo de Massachusetts.

De noite eu fiquei procurando casos em jornais e quando estava ficando muito tarde resolvi dormir. Deitei na minha cama e observei o teto coberto somente por vidro. O céu estava limpo e haviam estrelas. Exatamente sete estrelas no meu campo de vista. Como se eles estivessem me acompanhando, me observando de longe. Mesmo que uma estivesse bem num cantinho. Uma pequena curva pra cima surgiu no canto dos meus lábios ao imaginar que aquela afastada fosse Patrick.

Minhas pálpebras pesaram, mal pensei no meu dia sendo caçadora ou do sangue em minhas mãos, apenas dormi, mesmo sabendo que teria pesadelos mais uma vez naquela noite. Não havia jeito de evitá-los mesmo.