As Crônicas de Reddie Hunter
9 A Fuga
Caralho, é hoje.
Okay, demos um pulinho no tempo, estou com 14 anos agora, para poupar vocês de me ler xingando Patrick e tals. Eu sei que sou chata. Mas vamos dizer que parei de completar suas malditas regras, o ignorava como ser existente, e sobre o treinamento, por mais que ele dissesse que eu era um prodígio, eu propositalmente decaí bonito.
Com isso, bom, me tornei inútil. É a vida né? Desde aquele “Até logo” de Nicho, eu quis fugir de casa. Só que se for pra fugir, eu tenho que fugir em grande estilo dessa bagaça porque senão for assim nem fujo. Tem que ser divando mesmo. Desde essa época comecei a juntar dinheiro, e melhor ainda, Patrick foi útil e me ensinou a fraudar cartão, única coisa que eu colaborei, ele até estranhou. Consegui colocar internet no meu celular secretamente e comprei uma passagem de avião só de ida para Seattle, e uma reserva num hotel quatro estrelas. Tudo com o cartão de uma tal Charllote Green. Espero que ela não sinta falta da grana.
Eu sou menor de idade, mas pagando, todo mundo fecha os olhos.
Escolhi a data perfeita, Patrick e Anne tinham viajado, e com uma certa parcela de culpa, acabei de colocar sonífero na comida de Jacob e ele está dormindo feito uma pedra no sofá. Embora eu ache que mesmo se eu não tivesse dado o sonífero como garantia, ele ainda dormiria feito pedra.
Coloquei todas as minhas coisas mais importantes na mochila, teria de comprar mais roupas em Seattle. A passagem estava bem no bolso com zíper da mochila, e eu tratei de colocar um pequeno cadeado (cuja chave estava num colar no meu pescoço) e conferi se não tinha furos.
Não tinha como dar errado, pô, tá certo que só rola merda braba na minha vida, mas eu sabia que dessa vez ia dar certo. Vai dar tudo certo! Bora, força positiva meu povo!
Confesso que eu estava meio triste de deixar minha família, exceto Patrick, dele eu quero mesmo distância. Mas eu iria pra um lugar melhor. Anne me ensinou tudo o que eu poderia ter aprendido até o Ensino Médio mesmo eu só tendo 14. Pulei de alegria ao ver que não iria fazer mais essas merdas de cálculos.
Talvez eu até faça uma faculdade! Mas primeiramente serei feliz, depois viro uma escrava dos estudos.
— Está tudo pronto. – Murmurei para mim mesma.
A mochila estava feita com tudo de necessário. O colar que Nicho me deu pendia no meu pescoço. Okay. Chega dessa palhaçada. Vamos que vamos que agora tudo vai dar certo. A não ser que o problema seja eu e o azar me persiga até Seattle.
Respirei fundo e coloquei a mochila nas costas. Desci as escadas dando uma última olhada na casa onde eu mal havia saído desde que nasci. Concluí que meus momentos de raiva, medo e tristeza foram maiores do que os momentos de felicidade.
Olhei para Jacob que ainda dormia profundamente. Por mais que ele seja irritante, cuidou de mim. Foi ele que me fez sorrir muitas vezes. Ele finalmente está namorando a Sam, mas meio que em segredo. Dei um beijo na sua bochecha.
— Adeus, Jacob. Não sei se quero que a gente se encontre de novo.
Sai de casa, sentindo o vento frio logo de cara, tinha um táxi que eu havia chamado a pouco. Dei uma última olhada na casa. Imaginei a reação de Patrick e Anne ao perceberem que eu tinha fugido. Eles não conseguirão me achar. Apaguei todo e qualquer vestígio do meu destino. Senti um pouco de medo de descontarem em meu irmão. É bem a cara de Patrick fazer isso. Jogar a culpa de seus próprios erros nos outros. Também seria a cara dele fingir que eu havia morrido para o resto da família.
O motorista deu uma buzinada e eu percebi que era hora de ir. Não me contive e simplesmente sorri. Eu estava a apenas uma viagem de avião de ser completamente livre. Entrei no táxi antes que o universo começasse a trabalhar pra atrapalhar minha vida.
— Para o aeroporto, por favor. – Pedi ao homem grisalho e ele assentiu, logo pisando no acelerador e eu virei a cabeça a tempo de ver a única casa vermelha da rua se distanciando. Soltei um suspiro e foi como se um peso saísse do meu peito. Sorri abertamente e abri a janela olhando para a casa antes que o carro virasse o quarteirão – Estou livre dessa porra!
Gargalhei como não fazia muito tempo e o motorista me encarou como se eu fosse maluca. E talvez eu estivesse. É uma nova fase, eu posso ser o que eu quiser. Não tem Patrick, não tem caça, não tem monstros, vou deixar tudo isso em Vancouver.
Demorou um pouco, mas cheguei ao aeroporto, paguei ao motorista e saí logo do veículo. Eu estava rica em termos de cartão, porém em termos de grana de verdade... Brincadeira, também tô rica nesse termo. Tenho dinheiro suficiente pra viver bem de verdade por 5 anos mesmo que não trabalhe. E consegui como? TRABALHANDO NÉ AMORES? Acham que é fácil essa bagaça? Até vender docinho vendi, limpei aquela casa diariamente pra conseguir trocado e por aí vai. Tá querendo fugir de casa? Junta dinheiro primeiro.
Fiz o check in e, assim que a mulher fez uma careta de indagação ao ver minha identidade. Dei 100 dólares a ela, que assentiu discretamente e me deixou passar. Suborno, que coisa maravilhosa. Fui revistada por scanner, um segurança muito sério e passei no teste de segurança. Entrei no avião logo pegando um livro, pois sabia que a viagem seria longa. Espero que sirvam café. Já falei que amo café, não é?
Enquanto lia Divergente o avião decolou tomando altitude e senti meu estômago afundar e meus ouvidos zunirem. Foi desse jeito que descobri que engolir em seco alivia essa sensação. Fiquei olhando pela janela Vancouver se tornar minúscula, com as linhas verdes das florestas e parques, as cinzas de asfalto e as coloridas de prédios. Sorri mais uma vez.
Logo após duas horas de vôo, a voz da aeromoça avisou de uma turbulência e imediatamente senti o avião estremecer.
É. O problema definitivamente sou eu. O azar me persegue até na puta que pariu.
Mantive calma. Pelo amor de Deus, não é possível que esse avião vá cair. Espera, retiro o que eu disse, sempre ocorre algo do tipo quando se pronuncia que algo não é possível, tipo “Pior do que isso não pode ficar”. Aí que a merda piora de vez.
Depois de mais uma hora, a turbulência passou e eu pude relaxar o traseiro na cadeira de novo. Beleza. Depois dessa eu até cochilei um pouco e acordei com a aeromoça trazendo comida. Acho que fui a única adolescente que pediu um café. Também escolhi uma porção de bolinhos açucarados e batatas fritas. Ah, comida de verdade. Que amor!
Mais algumas horas de cochilo depois ouvi a voz do piloto anunciando o pouso em Seattle. Senti novamente meu estômago afundar novamente enquanto o avião descia. Fiz todo o procedimento e burocracia por atravessar a fronteira (Não sei por que isso. Me revistaram em Vancouver, por acaso acham que eu contrabandeei uma faca dentro dos lanchinhos da aeromoça?), mas okay né.
Estou em Seattle! Cheguei nessa merda!
Me segurei pra não fazer uma dança de comemoração. Seria muito ridículo, mas deixemos isso quando eu estiver no meu quarto de hotel. Pedi um táxi e logo dei o endereço ao motorista.
— Cadê seus pais menina? – O homem perguntou, ele era negro, calvo, mas tinha uma barba espessa. Ele deve lamentar que o cabelo nasceu no lugar errado.
— Em outra cidade.
— E está aqui sozinha?
— Sim. – Estreitei os olhos, por mais que eu visse nele um senhor indefeso, acabei aprendendo a esperar o pior das pessoas. Eu não tinha armas, mas ainda sei dar um soco de fazer qualquer um desmaiar.
— Fugiu de casa, não é? – Ele indagou e arqueei uma sobrancelha pra ele – Ah, por favor, pais sempre se preocupam com filhos, não iam deixar você sozinha por aí. Vem de onde?
— Vancouver.
— Uau! Canadá! Está bem longe de casa. Ouvi dizer que o bolinho de maçã é incrível, é verdade?
— Não sei pra falar a verdade, a dieta rigorosa foi um dos motivos que me fez cair fora – Disse sincera e dando de ombros e ele riu, parando no semáforo.
— E só foi a comida que te fez ir embora?
— Pais muito controladores.
— Ah, sei como é. Assim que fiz 18 anos, eu caí fora de casa, mas meus parentes descobriram o novo endereço e foram lá me atazanar! – Ele bateu no volante e bufou e foi minha vez de rir.
— Parentes... Onde você vai eles te perseguem. Mas eu acho que eles não vão me achar em outro país.
— Geralmente adolescentes fogem pra casa de um amigo.
— Não sou uma adolescente muito normal. – Mas vou ser agora, completei em pensamento.
Ele ficou pensativo e parou o carro, percebi que já tínhamos chegado ao hotel, paguei ao senhor.
— Boa sorte, menina. Tome aqui meu cartão, meu nome é Borisvaldo. – Na mesma hora segurei o riso. Porra, Borisvaldo? Que merda de nome é esse? A mãe tava fumando maconha na hora de registrar?
— Hã... Obrigada. – Assenti, ajeitei minha mochila nos ombros e peguei o cartão. – Senhor Borisvaldo.
Ele deu um aceno de cabeça e saiu a jato pelas ruas, enfim pude gargalhar de seu nome, mas prolonguei a risada ao me virar e meus olhos pousarem no hotel mais chique e enorme que já vi na minha vida. Ri com todas as minhas forças, eu estava completamente feliz.
— É isso aí, baby!
Sheraton Seattle Hotel, vamos ver se você é tão bom quanto nas fotos. Acabei machucando o pescoço tentando enxergar o topo do prédio, mas okay né.
Entrei no hotel, o saguão era extremamente luxuoso, com chão de mármore bege tão polido que eu podia ver meu reflexo nele, lustres e lâmpadas chiques pendiam do teto e pareciam mais brilhantes que o normal, como se tivesse diamantes incrustados, o espaço era amplo e arejado, o teto abobadado, logo fui ao balcão de atendimento, que embora já estivesse brilhando, um senhor de terno e bigodinho estilo Adolf Hittler continuava passando um paninho de seda.
Assim que levantou a cabeça, seus olhos fizeram uma avaliação desdenhosa de mim, como se eu estivesse sujando seu tão amado hotel. Não olhei para minhas roupas, mas sabia que usava um jeans surrado, uma camiseta preta básica, um coturno e levava minha velha mochila nas costas. E umas pulseirinhas de couro preto com spikes, porque eu sou de humanas, meu povo. Parece que sou meio divergente da vida, mas sou de humanas. Pelo menos tô usando lente.
— Com licença, mas eu tenho uma reserva de um ano aqui. – Falei de forma firme e ele arregalou os olhos endireitando a postura.
— Senhorita, tem certeza...?
— Querido, é claro que eu tenho certeza! Reddie Hunter, pode ver aí.
Ele deu uma olhada no computador da última geração e seus olhos esbugalharam-se ainda mais quando o aparelho confirmou.
— Ah, claro, claro, sinto muito! Um momento, vou pegar a chave e o cartão de seus aposentos, Srta. Hunter. Por favor alguém pegue a mochila da senhorita – Ele bateu palmas e um homem veio e pegou minha mochila com gentileza, não percebi que ela estava tão pesada até tirar e sentir um alívio nos ombros.
Sorri prepotente e enquanto ele abria uma gaveta e procurava os lances, dei mais uma olhada no saguão, tinha uma sala de estar moderna, e em um dos sofás cor de marfim, eu vi um garoto de cabelos loiros, mesmo aquela distância seus olhos brilhavam, tinham um tom de castanho meio esverdeado. Vestia um jeans de marca boa, uma camiseta pólo, tênis All Star e tive o palpite que ele tivesse a mesma idade que eu, ou talvez um ano mais velho. Ele era bonito.
Ele levantou a cabeça e eu corei quando ele percebeu que eu estava olhando pra ele.
— Srta. Hunter, queira me acompanhar para seu quarto – O homem chamou minha atenção e desviei meu olhar pra ele. Ele me deu a chave e me guiou para elevador, onde havia um homem de terno branco que tinha a simples tarefa de apertar o número do andar. Logo chegamos ao meu quarto. – Espero que esteja ao seu agrado.
Abri a porta e não me decepcionei ao ver o interior. Oh, meu Deus, isso tudo é meu! Socorro. Sorri e agradeci ao homem, o outro funcionário me entregou a mochila. Eles sorriram educadamente e me disseram que qualquer coisa eu poderia apertar a companhia ou ligar para a recepção. Assenti e eles foram embora. Assim que entrei e fechei a porta, comecei a dançar e pular de alegria. Tomou, universo!
Meu quarto tinha uma macia cama de casal, na qual eu fiz questão de me jogar enquanto ria, e fiquei lá afundando na cama sentindo o cheirinho de lavanda. Tinha uma escrivaninha, um guarda roupa, um sofá de aparência confortável, uma TV de tela plana, um criado mudo com revistas, livros, um relógio digital e um abajur, a madeira de cor marrom claro. Havia uma porta que daria provavelmente no banheiro, uma outra de vidro que dava numa varanda com uma cadeira de balanço e uma vista incrível.
Dá até medo de isso ser um sonho porque tá bom demais pra ser verdade.
Eu estava cansada da viagem, então tirei um cochilo, tendo pela primeira vez em muito tempo um sono tranquilo.
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