As Crônicas de Reddie Hunter
38 Ás vezes é preciso exorcizar seu melhor amigo
Notas iniciais
ETHAN
— MUITO BEM! AGORA TODOS OS MENINOS. PARA. O. QUARTO! – Sel gritou e eu revirei os olhos. Lá vou eu.
Dessa vez, pelo menos desta vez, Jack ficou quieto e fez o que Sel mandou a fazendo dar um sorriso. Talvez ele não esteja a fim de levar mais uma surra da deusa nórdica. Eu e os meninos fomos pro quarto, eu era o último. Só que aí percebi que o idiota do Bryan tava escondido detrás do sofá, obviamente querendo espiar a festa do pijama das meninas.
Cara. Nem eu sou assim. Revirei os olhos e o puxei dali pela orelha mesmo sabendo que Sel provavelmente sentiria sua presença ali e o expulsaria a pancada. Pensando bem... Eu deveria ter deixado ele ali mesmo.
O puxei mesmo com seus protestos e o empurrei para dentro do quarto dos meninos. Eu sinto que isso vai dar treta. As meninas estão na sala. Então o provável que aqui vai rolar briga. E adivinha quem vai ficar fora dessa? Eu. Vou fazer que nem o Rafa e o Aaron e ficar na minha. Tô até me arrependendo de não pegar a pipoca. Isso aí. Não vou me meter em confusão nenhuma. Minha promessa mental se evaporou quando Bryan sentou ao meu lado dando um sorriso de escárnio. Se controlar, Ethan, se controlar. Lembre-se disso. Mas por que o infeliz tinha que vir ME atazanar?
— E aí viado?
— Cala tua boca.
— Venha calar.
— Não é meu trabalho tampar boca de esgoto, mas se tá tão incomodado com as merdas que fala eu te indico um profissional – Agora os outros olhavam para nós.
— Ui, o otário é revoltado.
— Caralho. Você não se cansa de me perturbar não?
— Não, eu não me canso, as gatas estão na sala e você atrapalhou meus esquemas, então vou atrapalhar sua paz.
— Isso não é uma boa ideia.
— Ao meu ver é.
— Então espero que goste dos meus punhos na sua cara.
— Ameaças e mais ameaças. Sabe, eu sempre fui mais fã de ações.
Me virei e o soquei com tudo no queixo e ele gargalhou, esse cara tá maluco? Dei um murro em seu maxilar e ele continuou a rir como se aquilo simplesmente não o afetasse.
— Tá bom de ação pra você?
— Que foi? Já cansou? Sua mãozinha é delicada demais pra dar um murro de verdade? – Ele debochou.
Esse. Cara. Tá. Pedindo. Pra. Morrer. Juntei toda minha força, eu estava querendo matar aquele fura olho desgraçado. Mas antes de dar um murro que deformaria seu rosto eu me lembrei que aquele filho da mãe é meu melhor amigo.
— O que deu em você? Tá possuído por algum demônio por acaso? Você não é assim – Olhei bem pra ele. Eu estava a ponto de rosnar. Meu sangue fervia de ódio. Aspirei fundo tentando me acalmar, mas quase engasguei. Caramba. Ou esse cara não tomou banho ou ele realmente tá possuído.
Minha cabeça meio lerda começou a ligar os pontos
Leve cheiro de enxofre
Canalha completo
Mudança de comportamento
Risada enquanto apanha
Oh.
Tá explicado.
Ele tá possuído mesmo, puta que pariu!
— Como adivinhou? – Ele abriu um sorriso malicioso e piscou os olhos, revelando a escuridão neles.
Os garotos arregalaram os olhos. O filho da mãe sumiu bem diante dos meus olhos.
— É um demônio desgraçado. Avisem as garotas. Vamos ter que interromper a festinha antes que ele mate alguém mesmo. – Eles assentiram e Nicho saiu primeiro. Mas Bryan estava do lado de fora sorrindo.
— Ah, vocês não vão avisar a ninguém. Eu ainda não terminei de me divertir. – Ele estendeu a mão e empurrou a todos nós contra a parede com uma força invisível. Rosnei quando minhas costas bateram de encontro a parede.
— DESGRAÇADO... – Ele cortou minha voz, eu entreabria os lábios, entretanto nem um grunhido saía deles.
— Por favor. Agora sou eu quem te peço. Cala essa boca de merda. Eu ainda posso me divertir com muita coisa por aqui. – Ele não era um demônio qualquer, estava prensando a todos nós com uma só mão e falando normalmente – Eu meio que tenho ordens de matar a vermelhinha.
Eu queria tanto matar o desgraçado, mas se eu fizesse isso, o demônio não morreria e sim o Bryan.
Bryan... Pobre coitado. Levou porrada a noite inteira. Jesus. Eu esmurrei meu melhor amigo. Bufei sem emitir som algum frustrado. Como eu não notei? Por isso ele tava rindo. Quem tava sentindo dor era o Bryan. As poucas vezes que ele gemeu de dor (por exemplo, quando Nicho deu um murro nele e o jogou na parede), era o Bryan de verdade, as poucas vezes que ele conseguiu assumir o corpo. Só porque a dor tava forte demais.
Caramba. Ele pode estar até morto. Engoli em seco com o pensamento. Comecei a rezar que se Reddie, Selena ou Luna aparecessem, não tentassem matá-lo de primeira.
— Quem mandou você matar ela? – Nicho perguntou, ele lutava contra a força invisível.
— Bom, se quer saber de quem são as ordens, nunca vai saber. Eu prefiro morrer, de novo, do que falar quem é meu chefe. Ah, eu seria torturado pela eternidade. – Ele deu um sorriso sádico. – Dá até vontade de falar.
Ele gargalhou. Porque demônios são tão psicopatas? Ah é. São almas que ficaram no inferno tempo demais e apodreceram. Caraca, mano. Bateu um arrependimento tão brabo agora de ter batido no Bryan. Caramba. Eu sou um tremendo filho da puta depois dessa. Quem é que bate no melhor amigo por ciúmes? O idiota aqui. As meninas devem ter ouvido porque apareceram na porta.
— Ora meninas, vejo que resolveram se juntar a festa – Bryan nem olhou para a porta – Que maravilha.
— Tu tá morto. – Selena ia avançando, mas Reddie a barrou pela cintura, ela notou os olhos negros de Bryan.
— Não o mate, só o prenda. Se matá-lo o Bryan vai junto, se é que depois de tanta porrada já não tá morto. Aliás, Bryan, se tu ainda tiver aí, foi mal por te bater, cara. – Reddie fez uma careta. – Eu vou exorcizar esse desgraçado.
— Tu sabe fazer exorcismo? – Sel perguntou.
— Em 6 idiomas. Mas eu prefiro o latim. – Ela deu de ombros. Como se fosse completamente normal ela saber exorcizar pessoas em seis idiomas. Eu só sei um. Nossa. Preciso estudar mais. – Agora vamos começar a festa como o desgraçado disse.
LUNA
Por um lado tô feliz que era um demônio que estava agindo daquele jeito, por outro lado... Estou morrendo de medo que o Bryan esteja morto. Corei ao perceber que o chutei em seus países baixos. Coitadinho. Foi espancado a noite inteira.
Como é que eu não percebi que ele tá possuído? Como é que ninguém percebeu? Nossa, depois dessa eu nem mereço ser chamada de caçadora. Minha vontade era de pedir desculpa umas mil vezes pro Bryan.
Deixei meus pensamentos de lado, eles só iam me atrapalhar. Fui na velocidade ninja, literalmente, pegar uma cadeira e uma corda na minha mala que tava na cozinha.
Quando cheguei, Sel tinha invocado sua espada e Reddie estava girando duas adagas em suas mãos. O demônio nem parecia preocupado, com a outra mão ele tentava controlar Sel, mas a espada celestial repelia seus poderes. Já Reddie… Bem, eu não entendo exatamente o porquê disso, mas ela era imune a telecinese e ainda girava as adagas calmamente em suas mãos.
Sel partiu pro ataque e acertou um murro no demônio, mas isso não o desconcertou a ponto de largar os garotos, Reddie avançou e ele deu um mortal passando por cima dela, mas assim que aterrissou, Red deu uma rasteira nele que o fez cair de costas no chão. Por um momento os meninos iriam cair, mas ele tomou o controle de novo. Bryan, o verdadeiro, deu um gemido. Talvez ele ainda estivesse vivo. Mas então muito ferido pra ter caído no chão e ter sentido dor a ponto de conseguir tomar o controle do corpo por milésimos de segundos.
Sel o empurrou contra a parede no mesmo momento que eu peguei duas shurikens e mesmo com o medo que eu pudesse acabar cortando a garganta de Bryan, lancei elas. As duas prenderam exatamente onde eu queria, prendendo a camiseta dele na parede, a parte acima dos ombros. Sorri de canto. O demônio bufou frustrado enquanto Sel prendia seus braços.
Os meninos continuavam presos na parede. Reddie e Sel deram um jeito de amarrar ele na cadeira.
— Nem acredito que vou ser derrotado por uma Hunter – Ele sorriu mostrando os dentes ensangüentados. Tomara que o Bryan não tenha perdido um dente. Isso seria triste. – Que honra.
— A fama da minha família me procede – Reddie revirou os olhos.
— Só pra você saber, já topei com seu pai. Dava para ouvir os gritos dele por todo o inferno. – Ele sorriu ainda mais quando Reddie ficou surpresa por apenas um segundo. – Eu fui enviado aqui pra te mandar ir fazer companhia pra ele.
Ela parecia querer chorar. Mas logo seus olhos voltaram a frieza normal. Reddie era assim, quando pega de surpresa seus sentimentos ficavam a mostra, e logo ela percebia o que estava fazendo e voltava ao normal.
— Meu pai nunca iria pro inferno. Não posso dizer o mesmo de você. Ansioso pra voltar pra casa?
Reddie começou o exorcismo, falando de forma clara e nítida, como se praticasse todos os dias, o olhando fixamente enquanto eu me sentia aflita. Será que Bryan estava morto?
— Você vai acabar que nem seu pai... – O demônio mostrou os olhos negros e seu corpo estava se contorcendo – Eu mesmo já o torturei, eu mesmo já tive o prazer de ouvir seus gritos. Ele é disputado pelo inferno todo e ainda tem monstros que pedem para torturá-lo. Você sabe que muitos queriam se vingar dele.
Ele ofegava e Reddie continuava, parecendo não ser afetada por nada. Um demônio fala que tá torturando o pai dela no inferno e ela fica calma daquele jeito?
Eu não precisava ser um gênio pra saber que ela estava apenas se fazendo de forte.
O demônio saiu em forma de fumaça da garganta de Bryan, voltando ao lugar de onde veio atravessando o chão. Os meninos caíram com um baque e soltaram alguns resmungos. Me aproximei de Bryan, seu corpo estava inerte e meus olhos lacrimejaram. Reddie se adiantou e pressionou dois dedos em seu pescoço.
— Ele ainda tem pulso, mas está fraco. Ele tá quase morto. Precisa de um hospital. – Ela disse – Vamos dizer que ele foi espancado por uma gangue. O que não é totalmente mentira.
— Eu posso ajudar ele. – Sel disse e Reddie balançou a cabeça negativamente.
— Não. Ele não levou um tiro como Luna e Nicho. Ele deve estar com umas costelas quebradas, não foi um único golpe, foram vários. Pra estar quase morto, os ferimentos internos devem estar terríveis...
— Eu não ligo. – Ela se aproximou e segurou o pulso de Bryan.
Logo inúmeras veias negras subiram pelo seu braço. Sel lacrimejou, Bryan ainda não estava acordado.
— Sel, para. – Nicho disse.
— Não. – Ela continuava e mais veias subiram pelo seu braço, ela soltou um gemido de dor.
— Você vai acabar morrendo de novo desse jeito Sel. Para. – Reddie disse.
— Não, eu não vou, preciso ajudar ele. Eu também bati nele, é o mínimo que posso fazer.
Sel continuou, mas Bryan ainda não se movia.
— Tem certeza que ele ainda tá vivo? – Perguntei já desesperada. Eu não podia perder ele. A culpa já me consumia, se ele morresse, eu não suportaria.
Não. Bryan era meu melhor amigo. Ele era forte. Passou por muita coisa pra morrer por causa de um maldito demônio. Ele ia conseguir sair dessa.
Eu tinha fé nisso.
— A prova disso é que Sel está sugando a dor dele, se está sentindo dor, está vivo. – Reddie disse.
Suspirei. Mas cada célula do meu corpo estava tensa naquele momento. Eu sequer via algum movimento no peito de Bryan.
Selena sugou sua dor por incontáveis minutos, o tempo estava me torturando, eu tinha perdido a noção. Mas minha esperança permanecia forte. Ele tinha que ficar bem. Me lembrei do dia que ele tinha ficado em coma depois da overdose.
Era tenso, era. Mas eu mantive a esperança. Então ele pode sim ficar bem de novo.
Finalmente, o peito de Bryan pareceu ter um pouco de movimento. Sel ainda sugava sua dor, mas as veias tinham diminuído consideravelmente. Bryan abriu os olhos e com um movimento fraco, tirou a mão de Selena de seu pulso.
— Obrigado, mas acho que já tô bem. – Ele nem tentou se levantar, ficou lá esparramado no chão.
É, ele voltou. Dei um sorriso.
— Vamos, levanta.
— Eu só levanto daqui se alguém me carregar pra cama, cara.
— Bryan? – Ethan chegou perto, parecia bem constrangido.
Também pudera.
— Você não fale comigo não, sua puta desgraçada. – Bryan levantou o dedo do meio, ele ainda estava meio grogue. – No momento as pessoas que eu não estou com raiva são Aaron, Rafa e Jack. Por que eles foram os únicos que não me bateram, o resto é tudo filho da mãe.
— Tá ligado que eu te amo, né?
— Percebi o amor na hora que tu me deu um murro.
— Foi só pra fortalecer a amizade.
— Ah é? Então vem aqui – Bryan se sentou, se apoiou na parede e chamou Ethan pra mais perto.
Ethan foi e levou um soco bem no nariz.
— Esse aqui também só foi pra fortalecer a amizade. Não esqueço dessa surra tão cedo.
— É, acho que mereço essa – Ethan riu.
— Eu acho que acima de qualquer um aqui, eu te devo mais desculpas. – Nicho levantou a mão. – Sinto muito por te jogar contra a parede.
— E eu peço desculpa pelo tapa. – Fiz minha melhor cara de gato de botas.
— Você também não me venha com essa cara não! – Bryan finalmente fez o esforço de se levantar – Eu vou pra cama. Obrigado por me ressuscitar, Sel. Tchau.
E assim ele foi pra cama que estava no canto do quarto e se jogou lá. Eu acho que ele está só um pouquinho puto com a minha cara e com a de Ethan. De fato tem motivos pra isso. Ele nunca agiria daquele jeito normalmente. Eu sequer desconfiei direito. E agora ali estava ele todo quebrado. E puto com a minha cara também.
REDDIE
Que noite adorável. Todo mundo se olhando estranho. Ethan e Luna entrando em depressão profunda. Eu notando que fui beijada por um demônio e com um psicológico totalmente abalado e querendo só ficar sozinha e chorar no banheiro. Selena ainda se recuperando de sugar a dor de Bryan, e o mesmo estava jogado na cama alegando que ser possuído era extremamente cansativo. Que lindo, tudo tranquilo. Paz e amor você só vê na residência da Cook.
Pra que diabos eu vim pra Londres?
A vontade de rir é grande, mas a de chorar é maior.
Então discretamente, saí do quarto e fui pro banheiro do segundo andar, já que o do primeiro Selena tinha destruído a porta. E eu não queria que ninguém me visse ou ouvisse.
Na hora? Dura feito pedra.
Agora? Com a mente mais fodida ainda.
E aí cheguei ao banheiro, tranquei a porta e me deixei escorregar até o chão. Não precisei lembrar, as frases e culpa fixadas na minha mente.
“Você vai acabar que nem seu pai... Eu mesmo já o torturei, eu mesmo já tive o prazer de ouvir seus gritos. Ele é disputado pelo inferno todo e ainda tem monstros que pedem para torturá-lo. Você sabe que muitos queriam se vingar dele.”
“Só pra você saber, já topei com seu pai. Dava para ouvir os gritos dele por todo o inferno. Eu fui enviado aqui pra te mandar ir fazer companhia pra ele.”
As lágrimas saíram aos montes e meu coração se deixou apertar. Chorei como nunca mais tinha chorado. Queria estar no meu trailer onde não me preocuparia em fazer barulho. Mas eu não conseguia me controlar.
Será que Patrick foi mesmo condenado ao inferno? Ou ele disse isso só pra tentar me fazer perder o foco?
Me perdi tanto em pensamentos que, quando vi, já estava presa num pesadelo acordada.
Era o hospital de sempre. Nos primeiros meses, eu tinha pesadelos tanto dormindo quanto acordada. Foram diminuindo consideravelmente, e hoje eles só aparecem, bem, quando eu estou muito mal.
Só que dessa vez estava diferente. Muito diferente. Estava quente, parecia que meu corpo estava em chamas. Eu comecei a ofegar.
Então Ethan apareceu. O roteiro definitivamente estava diferente. Contive um grito de horror. Ele estava com a perna num ângulo estranho, sua cabeça amassada e uma expressão de fúria e melancolia marcava seu rosto.
Os olhos azuis dele estavam tão opacos e sem brilho que me perguntei se era mesmo Ethan.
— Você me deixou cair. Você me arrastou na sua queda.
— Eu... Eu não fiz isso. – Balancei a cabeça, o calor começou a me deixar tonta e eu estava suando, comecei a murmurar — Isso não é real. Isso não é real.
Era como se eu tivesse voltado a fase inicial em que tudo era mais intenso e surreal, eu não conseguia manter o controle. O medo fazia meu coração disparar desesperadamente.
— Você só atrai coisas ruins ao seu redor. Meu pior erro foi ter me aproximado de você. Deveria ter te deixado cair quando podia. Só ia fazer um favor.
Pior que era verdade.
Droga, era sempre um mal sinal quando eu concordava com o pesadelo. Comecei a tremer. Senti uma mão gelada no meu ombro. Não contive o grito quando me virei pra olhar.
Eu nunca tinha visto aquele rosto totalmente ensanguentado. Deformado por queimaduras, pregos perfuravam seu corpo inteiro. Um de seus olhos fora arrancado brutalmente aparentemente por uma faca. Havia várias feridas pelo seu corpo e sua outra mão fora amputada.
Então o reconheci. Era Patrick.
Patrick. Esse cara acabado é meu pai.
Eu cai de joelhos. E nessa hora meu pesadelo teve uma semelhança com os de costume. Guilherme, Lisa, os pais deles, minha mãe e Jacob apareceram.
— Não quer um cookie? – Elizabeth me perguntou, metade do seu rosto estava dilacerado por garras, em sua mão estendida estava uma bandeja de cookies podres – Você sempre gostou deles. Espero que morra engasgada com o veneno que coloquei.
Eu me levantei. Tinha que tentar ser forte. Quanto mais cedo terminasse o roteiro, mais rápido eu acordaria no banheiro de Sel. Me esforcei para andar pelo corredor imundo de sempre, ouvindo as vozes lamentando.
Mas aquele não estava sendo o roteiro macabro de sempre.
Tinha mais gritos, eu tentei me apoiar na parede e imediatamente me queimei. Somente aproximei minha mão novamente, sem encostar. Pude sentir o calor intenso emanando. Havia bolhas na minha mão. Parei pra me observar melhor.
Meu corpo inteiro estava com bolhas.
Eu tinha que acabar com aquele pesadelo o mais rápido que eu pudesse. Em vez de andar, corri, e não sei por que, me senti como um deficiente respiratório, meu pulmão não estava aguentando, me sentia sufocada como se estivesse presa no incêndio.
Ou no inferno.
Só queria que acabasse o mais rápido possível. Continuei correndo, mesmo com a dor insuportável e eu sentindo a pressão das bolhas até em meus pés. Aí eu caí, não percebi o abismo escuro até estar presa em sua escuridão, caindo em queda livre. O calor ficava cada vez mais intenso a cada segundo. Meu corpo estava queimando e eu gritei de dor. Atingi o chão e senti quebrar algum osso. Eu nem sabia qual, meu corpo inteiro estava doendo.
Olhei ao redor.
Definitivamente preferia o meu antigo roteiro. Esse é muito, muito pior.
Cada um que eu perdi, estava amarrado em pilastras por corrente de aço, como naquele dia, cada um deformado, vítima das piores torturas, mas o pior eram as outras pessoas. Que eu sabia que estavam vivas, mas ainda assim estavam ali. Luna, Ethan, Bryan, Nicho, Selena, Martina e Adam.
Eles estavam ali por culpa minha. Não consegui mais manter o controle. O pesadelo, a dor, o aviso. Comecei a recuar gritando, mas as pilastras me cercavam, e me bati com uma, quando olhei, lá estava Patrick. O rosto igualmente deformado como vi segundos ou minutos atrás, não sabia dizer, tinha perdido a noção do tempo.
— Vocês nos condenou ao inferno. Tudo é culpa sua.
As correntes caíram e todos avançaram em mim, me atacando, me arranhando.
Era nesta hora que eu sempre acordava, quando os zumbis começavam a me atacar. Mas dessa vez não. Eu sentia a dor de cada chute, cada soco, cada arranhão. Selena, com a garganta dilacerada, enfiou suas garras na minha barriga, estavam maiores do que eu lembrava. Guilherme estava com os olhos negros. Parecia ter se tornado um demônio. Seus dentes haviam virado presas, suas mãos sem a ponta dos dedos, sua cabeça parecia ter sido costurada de volta e uma ferida de garras marcava seu peito.
— Tudo é culpa sua. – Ele mordeu meu ombro e vi meu sangue jorrar do ferimento.
Caí. Sequer consegui ficar de joelhos. Eu não estava acordando. Meu pensamento era que nunca iria conseguir acordar. Eu estava sozinha agora. Continuei sendo chutada e socada e só fazia gritar e chorar. Não podia revidar. Nem se eu quisesse, conseguiria. E eu não queria. Era tudo culpa minha. Eles estavam apenas retribuindo a dor que causei a eles.
Eu merecia tudo aquilo.
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