As Crônicas de Orbe

5 QUINTA HISTORIA,


Notas iniciais
O mais difícil até agora... E o mais divertido também.

CENA 1

Velas Negras

Já se passava do meio-dia e provavelmente não teriam chuva, Alayla pensou enquanto seguia com o cesto cheio de pescado.

Andava descalça, pois sandálias não eram uteis em vilas costeiras assim como roupas pesadas. Usava uma saia despontada e muito gasta além de uma simples faixa enrolada no busto para esconder os seios, mais por uma necessidade o calor era muito para se preocupar com o que não deveria ser mostrado.

Seguindo para casa debaixo do sol tinha o suor escorrendo pela pele morena, não era uma caminhada longa pela estrada de areia para se desgastar, mas isso não era problema para o calor.

A vila já estava à vista conseguia ver as casas de madeira e barro com os toldos em suas frentes, alguns homens passavam por ela enquanto levavam uma canoa para a costa, “Um dia agitado como sempre”, sua irmã ainda deveria se encontrar na aldeia de Katri, comerciando redes e provavelmente passaria em todas as aldeias próximas, o que levaria uns dois dias pela sua conta.

Mistra poderia ser a menor das ilhas de Pélago, ainda assim era grande, havia inúmeras aldeias para serem contadas e em algumas se passavam anos sem terem um visitante de fora, “Com exceção dos cobradores de impostos é claro”, mas mesmo estes ainda demoravam a passar.

— Oi Alayla! – cumprimentou e menina de dez anos.

Amber era dócil na maioria das vezes, mas poderia ter um temperamento bem forte se provocada, a menina vestia se simples com uma saia gasta que lhe batia até a canela e com uma faixa enrolada no busto e outra no cabelo castanho ondulado que estava em um rabo de cavalo.

Alayla gostava dela tanto como gostava de sua irmã desde o primeiro dia que o mar trouxera Amber, sua história não diferia de muitas outras, “Pessoas escravizadas por piratas”.

— Oi Amber, alguma novidade enquanto estive fora?

— Não é bem uma novidade, mas o Joel falou que iria se atrasar. Pegou muita coisa hoje?

Ai estava uma noticia, que poderia usar Joel últimamente estava se atrasando bastante, começava a pensar que o motivo pudesse ser alguma outra mulher, “Provavelmente aquela puta da Airini”.

— Sim consegui bastante hoje. Ele não falou o motivo do atraso não?

— Disse apenas que iria se atrasar – fez uma expressão como se tentasse lembrar algo a mais e então desistiu – Foi só isso mesmo.

Realmente estava brava. Joel iria ter que se explicar muito bem dessa vez, “A não ser que eu esteja enganada, mas acho que vale a pena tentar...”.

— Amber leve o pescado para dentro e limpe, preciso ver uma coisa, logo, logo volto.

— Então eu já vou preparando o almoço – exclamou a menina.

“Ora se eu não estiver enganada pode ser que ele esteja lá”.

Seguiu rumo à saída que a levaria a floresta e por fim a parte mais alta das imediações bem no topo de uma cachoeira o local era muito conhecido era de lá que apanhavam a água de beber e para suas outras necessidades também provia uma excelente vista de toda a costa, mas não era por isso que estava indo para lá.

Há muito tempo ouvira alguns garotos conversando de um local onde levavam meninas para aprenderem a serem mulheres de verdade... Algum tempo depois também acabou indo para lá, tinha boas recordações daquela época e também a certeza que se Joel estava com Airini eles estariam lá.

Gastava-se meia hora para chegar à cocheira e mais um terço para o local, agora já não estava longe podia escutar o barulho da água correndo e irrompendo em uma enorme queda, aquele barulho era de certa forma confortante, quando chegou parou um tempo para descansar e olhar para a costa era uma bela visão até o momento que fora paralisada pelo medo e desespero.

— Pela graça de Ahua, não pode ser verdade, não pode... AMBER!

Voltou-se para aldeia se fosse rápida ainda poderia... Sim poderia se fosse rápida poderia chegar antes deles.

Não muito longe da costa encontrava-se um barco negro de velas negras com uma chame negra atrás de uma caveira desenhada e na costa quatro botes presos na areia ao que indicava eles já estariam a caminho talvez já fosse tarde ou talvez tivesse tempo de salvar Amber, não importava tinha de chegar lá.

Descia rápido e freneticamente em certo momento acabou escorregando e saiu rolando pelo morro parou apenas quando acertou uma arvore, ainda assim levantou-se e continuou correndo, quando chegou à aldeia já passava do meio da tarde e estava toda arranhada e machucada, mas tudo estava normal e em paz pelo menos naquele momento, sem perder tempo se dirigiu para casa ignorando todos os olhares em cima de si.

— Amber! Amber!...

— Calma, eu estou aqui, para que todo esse desespero aconteceu alguma coisa? – perguntou seriamente a jovem.

— Me escuta, não temos tempo para isso precisamos sair daqui agor...

No lado de fora o primeiro grito de desespero, e logo em seguida vários outros, não havia mais tempo Alayla olhou em volta era uma casa pequena só tinha janelas e portas na frente o único local que poderia sair e agora não havia outra forma, correu os olhos mais uma vez pelo local e então para Amber que no momento tinha os olhos cheios de lágrimas.

— Olha você vai entrar no vaso de água é suficiente para lhe esconder, faça silêncio e não importa o que escute não saia dai.

— Mas, Alay.. – a menina começava soluçar, enquanto tentava segurar o choro.

— Não fale comigo apenas me obedeça – ralhou enquanto tratava de enfiar Amber dentro do vaso e cobri-lo com alguns panos.

Pegou uma faca enquanto um homem careca de pele escura e um sorriso sinistro vestido de couro negro com uma cimitarra na mão correu em sua direção, não teve tempo de usar a faca o homem era mais forte e ágil e assim ele lhe arrastou para fora junto a um monte de outras pessoas que se localizavam no meio da aldeia.

Alayla observava embora estivesse muito assustada, não tinha muito que fazer, havia algumas pessoas mortas e outras sendo mortas, mas no geral todas estavam sendo arrastadas até o meio da aldeia ao correr os olhos pelo local viu o Kher ou chefe da aldeia, era um homem velho de pele morena estava com a esposa e os dois filhos pequenos, viu também amigas próximas e algumas não tão amigas assim, “Parece que vamos todos para o Umbral afinal”.

Alayla rezava para que alguém lhes ajudasse só para o ver chegar com mais seis ao seu redor, todos com a tatuagem da chama negra sobre a caveira feita em cicatriz e tinta em algum lugar do corpo, “A marca dos Velas Negras”.

Aqueles eram de longe os piores sabia o nome de todos eles, as histórias sempre falavam de suas crueldades, mas o destaque era para os sete que estavam parados na frente de todos.

O primeiro do lado esquerdo era um ébano musculoso que carregava a marca na face, se chamava “Macabro”, tinha gosto por desmembramentos e era o mais forte e alto de todos. Ao seu lado seguia “Silêncio”, de olhos sombrios, pele morena e expressão aflita apenas olhar para ele já causava arrepios, possuía a marca no peito e gostava de usar uma serie de facas para pregar pessoas.

Em terceiro tinha Arel, Olho Morto de pele parda e sorriso maligno tinha a marca nas costas e não possuía o olho direito também gostava de arrancar os olhos das pessoas com a mão.

O primeiro do lado direito era o “Cão-Loco”, a marca ficava no ombro e sua expressão era insana nunca tinha visto olhos tão demoníacos, usava uma cimitarra e seus pecados iam desde estupros a canibalismo.

Seguindo estava Jared, O Perverso, de pele clara e sorriso macabro tinha a marca no antebraço direito, seu maior passa tempo era a tortura.

E então Lécher, o segundo no comando do Vela Negra de pela parda e olhos vazios nunca sorria, seu maior prazer consistia em saber quantos cortes era capaz de fazer até alguém sucumbir. A marca estava no pescoço.

E por fim tinha o capitão do Vela Negra, “Alcatraz, O Mal Na Forma Humana”, sua marca ficava no antebraço esquerdo. Tinha a pele morena os olhos malévolos e um sorriso Maldito.

Usava um chicote e uma espada mercenária presa ao cinto, sua roupa consistia de botas longas e gastas além de um, sobretudo igualmente gasto, também usava um chapéu no mesmo entalhe de todos os capitães e uma barba negra trançada em duas. Alayla não acreditava que alguém além de Tetros pudesse ser tão mau.

— Ora se não temos um belo cardume aqui. Acredito que posso fazer bom uso de todos vocês!

Todas as pessoas continuavam caladas e de cabeças abaixadas, algumas choravam outras rezavam, mas todas se mantinham em silêncio, Alayla não sabia dizer até que ponto isso era bom ou ruim.

— Parece que vocês não falam, neste caso devo entender que vocês não veem problema nenhum – apontou para um homem próximo que o encarava – Você parece que tem alguma coisa a dizer, aproveite que estou disposto a escutar.

Via claramente o homem “Tolo, tolo... acabou de se matar e colocar em risco o restante de nós” pensava enquanto via o homem se levantar, estava certo que ele era o Kher do local “Mas mesmo assim um... Tolo”.

— Senhor... Por favor leve o que quiser mas... Por fa... Poupe-nos – terminou o homem enquanto engolia a voz de choro.

Alcatraz olhou o homem com curiosidade e depois desatou a rir seguido de todos os outros piratas.

— Senhor? Ora parece que temos um erro aqui meu amigo, não sou senhor de nada – apontou para os outros piratas enquanto o olhavam passou as mãos por si – Vocês veem algum senhor aqui? – houve uma explosão de risos enquanto os outros balançavam a cabeça – Percebe não ha nenhum senhor aqui, já quanto a poupar vocês... Pode ser que o faça.

Viu a expressão do homem encher-se de esperança como de todos ali só para voltar ao mesmo estado de antes, quando Alcatraz ordeno que trouxessem o homem junto com aqueles que ele julgou serem sua família.

— Veja como é simples, para salvar o restante de vocês basta que pegue esta espada e mate estes que estão a sua esquerda – os olhos de Alcatraz brilhavam diante o homem que encarava a espada em descrença.

— Sen...

— Diga Senhor mais uma vez e escrevo isso com faca nos corpos destes peixes que você chama de família.

— Por favor... Eu impl – a voz do homem falhava enquanto encarava a espada e Alcatraz gargalhava – Imploro não me peça isso, por fav...

— Chega de Por favor, você pediu para que eu poupasse vocês, mostrei como fazer, agora se não quer pagar o preço é problema seu.

— eu Peço, por fav...

— Alguém pela honra de Tetros arranque fora a língua desse infeliz.

A cena foi horrível o pirata que segurava o kher sacou seu punhal, enfiando na bochecha do pobre até que varasse do outro lado, para ai girar a mesma impedindo assim que o homem fechasse a boca e então pegar o instrumento que usou para puxar a língua para fora até que se rompesse não sem uma enorme quantidade de gritos e tremedeiras do kher e o estouro do choro por parte da maioria dos cativos Alayla via tudo com horror tomou o cuidado de tampar a boca enquanto chorava ao contrario do restante.

— E ai temos o som do desespero, e há quem diga que é um belo som – disse Lécher enquanto olhava todos.

— Quem acha essa choradeira um som bonito e mais surdo que alguém que esteja sendo arrastado para o fundo do mar, que por sinal – começou a gritar – E para lá que irão todos que continuarem a chorar.

Não se espantou com a súbita parada de todos, bem de quase todos, pois ainda havia aquela menina da idade de Amber que chorava, “É melhor que pare rápido senão acabará pior que o kher”, refletia enquanto encarava o homem que vomitava sangue, olhou mais uma vez ao redor e encontrou Joel tranquilizando Airini “Consigo imaginar alguém que também ficaria bem sem uma parte do corpo...”.

— Pelo visto ainda temos um rebelde entre nós – disse Alcatraz enquanto apontava para uma menina não muito longe – Jared imagino que ela seja de seu agrado?

— Sem dúvida que é capitão – afirmava enquanto a fitava diabolicamente.

— Pois bem é sua se a fizer calar a boca.

Observou Jared caminhar sorridente em sua direção também notou a mãe da menina segurando a mesma forte contra seu peito só ate que Jared lhe esmurrasse o rosto e assim arrancasse a menina de seus braços, a mãe pareceu que ia desatar aos berros, mas tampou a boca “Tarde demais para isso agora”.

— Então vamos logo com isso – finalizou Alcatraz – aqueles que não suportarem a viagem podem matar o resto acorrentado no Vela Negra – sorriu malevolamente para os homens – Façam tudo rápido e vocês podem pegar alguns brinquedos.

Alayla olhou para o nada enquanto amaldiçoava sua sorte “Parece que fomos todos para o Umbral no final”.

CENA 2

A Favorita

Um mês após a queda de Neão.

O vento trouxe o gosto do mar enquanto jogava seus cabelos vermelhos para trás.

Sentada em sua janela observava as centenas de pessoas que transitavam em Kindra, era raro ter um tempo para si e mais raro ainda em gasta-lo daquela forma, “Entretanto...”.

O palácio estava uma loucura desde a noticia da vitória de Balázios há um mês as preparações que já viam sendo feitas se tornaram mais intensas, “E para piorar”, tinha o humor de Mariel desde sua volta de Capital estava horrível, aquilo a assustava conhecia bem Mariel e sabia que o que o Rei de Capital havia feito com sua reunião podia representar um perigo que ele sequer imaginou...

Suspirou... “Tempos sombrios vem ai”, levou os cabelos para trás da orelha enquanto olhava a queda de onde se encontrava até o pátio, “Sem dúvida uma morte certa”.

Não havia muito que fazer fora Mariel não era bem vista pela corte, o fato de ser a favorita, “E a de nascimento inferior...”, pesava fortemente contra si, mas aquilo era um fardo que teria de suportar pelo bem de seu povo pelo bem dos Nômades vermelhos... Suspirou, “A vida é mesmo complicada!”.

Lembrava-se com frequência da época que vagava por Afogueado colhendo ervas e outras especiarias que apenas seu povo sabia onde encontrar e de comercializa-las em toda Pélago, aquilo era liberdade poder ir e vir sem ter nenhum problema, “Se bem que... Dizer sem nenhum problema não seja bem uma verdade”, fosse pelos cabelos vermelhos sangue e olhos amarelos de mel que possuíam ou pelo seu modo recluso de viver em Afogueado ou com a suposta associação com a Morticínio pela adoração a Hadal os nômades vermelhos não eram um povo bem visto, muito sangue já havia sido derramando no passado, “Embora nós já estivéssemos aqui antes deles virem do outro lado do mar...”, em todo caso seu casamento com Mariel trouxe certa paz e isso teria de durar.

“Parece que o tempo acabou”, desceu da janela em lamento para atender as batidas na porta.

— Mamãe! – chamou Aleyah – Mamãe! – se jogou nos braços da mãe enquanto esfregava o rosto no seu colo.

— Podem sentar-se – disse as duas servas que acompanhavam Aleyah – E você quanta energia – olhou maliciosamente a filha – Vamos ver se consigo acabar com um pouco dela – cobriu a menina de cócegas enquanto ela lutava e dava gargalhadas pedindo para parar – Então você se rende? – perguntou enquanto a filha levantava a cabeça e acenava que sim – Hum... Melhor pentearmos esse cabelo, ficou uma bagunça – pegou uma escova próxima e sentou-se com a menina no divã – E veja que thuna lindo você esta usando.

— Eu mesma escolhi – respondeu Aleyah cheia de orgulho.

— Ora se não é uma menina muito esperta – beliscou a bochecha dela com carinho – Muito esperta! – levou os olhos as servas – E como estão o restante?

— Bem minha senhora – disse Opala com certa estranheza – O Soberano ainda se reuni com todos os seus Xezar´s e Xer´s sobre os eventos que estão por vir junto com os Príncipes Calebe e Arev.

— Obrigada – Opala era uma mulher discreta, gostava disso nela, além de bonita e amável, “Mas acima de tudo leal”, e isso sem dúvida era o que importava – E quanto às outras Miriam e Serenid como estão?

— Miriam está reunida com as esposas dos Xezar junto com as filhas de Serenid que até onde soube se matinha com suas servas junto com alguns convidados colegas de seu pai pelo que ouvi.

“Poder é tudo o que elas buscam”.

— Muito bem – olhou as servas – Está reunião já dura muito tempo vão até a cozinha e peçam para aprontar uma refeição no salão central e depois que a reunião estiver terminada venham me chamar.

— Será feito coma à senhora Asha desejar – respondeu Dinara.

— Nos acompanha Princesa? – Perguntou Opala em um tom gentil a Aleyah.

Viu a filha a olhando como se recusasse a sair dali – Você faria bem em acompanha-las, mamãe precisa se arrumar agora.

Aleyah inflou as bochechas num protesto, mas acabou cedendo ao sair com Dinara e Opala. Suspirou “Sozinha novamente... Bem vamos nos armar para batalha então”, seguiu para o armário.

CENA 3

O Xezar de Mistra

Ariel invejava o quão bem Mariel estava em seu trono de várias mantas e peles enquanto era abanado por dois escravos, não era nada agradável ficar horas em pé observando aquilo, mas para seu consolo contava com a companhia de mais dez homens.

— Então imagino que isso ponha fim a tudo – concluiu Mariel.

Aquelas palavras vieram com muita alegria já não aguentava mais a situação, “O problema agora é organizar tudo”, lembrou o que implicava o fim da reunião.

Não perdeu mais do que o tempo obrigatório nas despedias para seguir para a saída, os dois guardas fizeram a referência devida e então abriram a porta.

“Livre!”.

O alivio foi imediato os outros também começavam a sair alguns ainda debatiam com Mariel, não entendia de onde tiravam coragem para tamanha perda de tempo...

— Vovô! – gritaram em uníssono enquanto o abraçavam .

— Assim vocês me destroem – abraçou Eina com o braço esquerdo enquanto o direito envolvia a mais nova Jela – Como estão bonitas!

— Nossa mãe nos ajudou na escolha – respondeu Eina pelas duas.

— Escolheu muito bem. E onde está sua mãe – Imaginava que Aleria também estaria lá.

— No jardim! – Respondeu Jela sem muitas explicações.

— No principal – Esclareceu Eina pela irmã.

— Muito bem, vamos ao seu encontro! – pegou os braços das meninas e então rumou para o local.

Já fazia alguns meses que não visitava a filha no Palácio, “As coisas andam bem tensas em Mistra”, muitos piratas entre outras dores de cabeça tomavam seu tempo, “E agora tem também uma guerra... Milhares de horas gastas de meu tempo e no final a única coisa certa e que eu terei de fazer tudo”, embora tivesse certo prazer na tarefa...

— Então a reunião acabou? – perguntou Aleria sentada junto com a filha e as servas.

— Sim – respondeu com alivio enquanto escolhia um local próximo à esposa e a filha no teccár, esperou até que as servas o aprontassem com algumas almofadas uma vez acomodado a mão foi a taça de vinho na mesinha em busca de um refresco – Mais rápido – disse aos escravos que abanavam a todos ali, Jela e Eina sentaram-se ao seu lado, “Sempre muito amáveis” – Eu já não aguentava mais ficar ali ouvindo Mariel fazer um discurso de aparências quando na realidade seria eu a resolver o problema – virou a taça – Pela graça de Ahua não sei de onde tiro forças para lidar com ele...

— Ora meu Pai – começou Serenid – Não seja impaciente tudo já esta em andamento.

— Sim – Ariel concordou – Só me resta seguir com essa guerra agora.

— E falando em guerra o que ficou decidido? – perguntou Aleria ao marido em um tom suave e baixo.

— Este é um assunto que não vou adentrar no momento, preciso resolver algumas questões aqui em Kindra antes. Seguiremos para Mistra em dois dias – virou-se para filha – E como anda a situação no Palácio?

— Sem muita alteração – explicou enquanto deitava-se de lado – Ainda continuo com a maior influência na corte Miriam segue com o prestígio por ter o primogênito e bem sabemos que Asha só conta com Mariel – falou com desdém.

— Ainda não estou totalmente certo sobre isso... – expressou certa cisma diante as palavras, podia conjecturar muitas suposições para explicar a maioria dos acontecimentos passados.

— Percebo que ainda acredita que Asha tem alguma ligação com a Morticínio, mesmo quando isso se provou muito ilógico. Eu mesma já a testei em diversas situações e nada foi confirmado.

— Se esse fosse o caso estaríamos falando da Morticínio – bebeu mais um gole – Se algo fosse confirmado nós já estaríamos mortos...

Mariel irrompeu no jardim e dez escravos que o seguiam começaram a colocar uma enorme mesa no centro ao mesmo tempo em que escravas começavam a prepara-la com muita comida.

— Acredito que todos estejam muito entediados pela espera enquanto outros provavelmente estão exaustos pela reunião – Mariel falou a todos nos Teccár´s – Por isso quando Asha me disse que havia feito um banquete para vocês no salão achei por bem traze-lo até aqui, não se incomodem em sair de seus lugares, escravos serão enviados para servi-los.

No minuto seguinte viu Asha com suas duas servas seguirem ao encontro de Mariel, palavras não iriam expressar o quão bela ela estava, a mantra preta e dourada estava atada ao pescoço por um cordão de ouro e expunha os contornos dela de uma forma insinuante sem se tornar vulgar, o thuna com estampas de ondas vermelhos acompanhava os ombros desnudados e o sad em sua cabeça estava repleto de pedras do sol que desciam em cordões até suas orelhas, era difícil não compreender por que Mariel a favorecia sobre todas suas esposas, os cabelos vermelhos sangue, os olhos amarelos de mel, o corpo esculpido em luxuria o rosto com uma inocência provocadora, imaginava que se Akya a deusa dos prazeres tomasse uma forma seria igual a de Asha e bastava olhar para todos os outros homens no local para ver que não era o único a pensar assim – Ela realmente sabe fazer uma entrada – pegou mais uma taça de vinho enquanto aliviava a garganta seca.

— É tudo que pode fazer – expressou Serenid com desprezo – Recorrer a este tipo de bajulação.

A filha não era feia e muito menos se vestia mal, “Mariel jamais se casaria com uma mulher que não julgasse atraente”, mas verdade fosse dita Asha não era uma concorrência leal.

— Em todo caso acredito que seria sensato tomar o lado de Mariel em seu tecar.

— É o que pretendia – levantou-se junto com suas cinco servas – Podem ficar com seu Avô meninas – despediu-se com um sorriso.

— Ela... – começou Aleria enquanto via a filha partir – Pode acabar agindo precipitadamente se não reconhecer a ameaça que Asha pode representar – olhou seriamente o marido a sua frente – Não concorda?

— Sim – disse secamente, olhou as netas que prestavam atenção a tudo em silêncio. Ainda eram muito novas para participarem daquela dança como se devia, Eina tinha apenas onze anos e Jela nove, entretanto “Velhas o suficiente para se tornarem boas dançarinas no futuro” – E como foi à semana de vocês? – perguntou casualmente.

— Agitada – respondeu Eina – Depois que nosso pai voltou de Capital não tivemos descanso, ainda mais Calebe e Arev que foram arrastados pelas reuniões que nosso pai fazia.

— E quanto às reuniões descobriram sobre o que eram? – continuou enquanto avaliava o progresso das netas.

— Arev sempre muito seco – prosseguiu Eina – Já Calebe só se abre com Aleyah e aquela lá nunca sabe de nada.

— Você não tem nada a dizer Jela? – perguntou a menina que ainda permanecia bem quieta.

— Apenas que as servas de Serenid andam fazendo muitas perguntas a Aleyah sobre Calebe.

“Algum progresso...”, pensou surpreso ao ouvir a resposta de Jela – E como sabe disso?

— Ela reclamou enquanto apanhávamos borboletas no jardim – explicou Jela inocentemente – que as servas da mamãe sempre lhe enchiam de perguntas sobre Calebe, não quis me responder sobre o que perguntavam apenas que faziam.

— Muito bem – elogiou as netas – Vejo que andam progredindo, como recompensa trarei um presente para cada uma – viu a alegria tomar o rosto delas – Então do que gostariam?

— Um sad de esmeraldas! – respondeu Eina com euforia.

— Um thuna purpura com estampas de ouro – disse Jela cheia de felicidade.

— Muito bem, na minha volta ao palácio trarei o que pedem – as netas o abraçaram e o beijaram agradecendo várias vezes.

— Não vai comer? – perguntou a esposa que se mantivera calada.

— Não. Pretendo resolver meus assuntos o quanto antes – olhou Mariel no teccár – Será melhor assim, o plano de Mariel tem muitas brechas é melhor eu cuidar disso antes que elas nos exponham.

— Se é o que diz – expressou-se contrariada – Irei águarda-lo em nossa casa no setor dos jardins, faz um tempo que não a vejo.

— Excelente, aproveite e leve as meninas com você será bom para elas terem algum descanso – virou-se para netas – O que acham da ideia?

— Ótima – respondeu Eina.

— Incrível! – respondeu Jela.

— Então fica assim decidido – levantou-se depois de se despedir das netas e da esposa.

A caminhada até saída não foi rápida como gostaria, o palácio era enorme e seus cômodos exageradamente grandes, perguntava-se qual era utilidade de tudo aquilo, depois de alguns minutos chegou à entrada do palácio ainda pode ver Aleyah com uma das servas da mãe, “Sem dúvida ficará tão bela quanto Asha”, tinha certeza que ela renderia um excelente casamento.

— O veiculo está pronto Xezar – respondeu assim que Ariel Cabal tomou os degraus do palácio.

— Nada de veículos – olhou a estrada de palmeiras até a saída e o sol também não estava forte, “Será bom caminhar um pouco” – Vamos andar, é disso que minhas pernas precisam – respondeu ao seu guarda um Ébano alto e extremamente forte, havia o comprado ainda garoto para as fazendas, mas achou melhor treina-lo como guarda “Pelos deuses se essa não foi uma das coisas mais sabias que já fiz”, poucos foram aqueles que desafiaram Saride e viveram para contar, “Na verdade só aqueles que eu poupei”, lembrou-se – Novidades?

— Nenhuma Xezar – respondeu em seu tom grave – Os outros já estão espalhados cuidando das suas ordens.

— Perfeito! E Aradhe? – concluiu Ariel com preocupação aquele era um assunto extremamente delicado o menor dos erros acabaria com toda a preparação que tivera tanto cuidado em organizar.

— Já partiu com Achéel como ordenado, chegarão lá ao inicio da noite – respondeu Saride e depois acrescentou – Um lugar muito bonito não? – mudou de assunto.

— Há mais uma coisa, Xezar – Saride prosseguiu, sem acompanhar a mudança de assunto. – Um mensageiro de Mistra chegou durante a reunião. Uma aldeia da costa foi atacada há dois dias. Os mortos ficaram para trás; os demais desapareceram. Um pescador de Katri viu velas negras deixando a enseada.

Ariel interrompeu o passo. Por um instante, toda a leveza que demonstrara no jardim desapareceu.

— Alcatraz.

— É o mais provável.

Mistra era seu território. Aquelas pessoas pagavam seus impostos e dependiam de sua proteção. Ainda assim, uma retaliação naquele momento poderia destruir meses de preparação.

“Uma lâmina solta corta tanto o inimigo quanto a mão que pretende usá-la.”

— Envie uma mensagem cifrada a Aradhe – decidiu. – Se o Vela Negra estiver na Ilha Esquecida, quero saber o que desembarcou e para quem será vendido. Ninguém ataca o meu território sem deixar uma dívida. Mas essa dívida será cobrada no momento certo.

— Assim será, Xezar.

“O setor do palácio” refletiu, era o mais exuberante e opulento de todos apenas aqueles com autorização de Mariel moravam ali, o que por sua vez tornava o setor o menor dos onze, muitos animais, arvores e flores exóticas estavam espalhados pelo local além de construções largas e altas, o Palácio de Mariel ocupava o centro e diferente dos castelos do restante de Orbe era uma construção única de quatro andares e quatro torres todas pequenas e finas com o telhado redondo de vidro...

— Xezar – chamou Saride.

— Diga – respondeu com certa curiosidade pelo tom usado pelo homem.

— Acredito que uma das escravas que o senhor ira dar em troca dos campos da Praia Verde esteja grávida – concluiu no mesmo tom impaciente de antes.

— Isso é um problema. Até onde se esperava elas deviam ser todas virgens. Qual o nome?

— Tixa.

“Tixa” disse o nome a si mesmo, lembrava-se dela uma mulata com um belo corpo, ainda jovem o cabelo escuro e enrolado e olhos grandes de um marrom bem claro – Terei de substitui-la. Quem foi o responsável?

— Eu, Xezar.

Aquilo havia o pego de surpresa, “E agora?”, era fato que teria de castigar o responsável as escravas haviam sido escolhidas pelo próprio Xer que lhe venderia os campos era de conhecimento comum que não deviam ser tocadas, “Espera um pouco” – Há quanto tempo?

— Alguns meses antes do senhor tratar com Xezar Assel. Descobri uma semana depois da troca ser confirmada .

— Entendo – não era cego as necessidades de Saride, e muito menos tolo em supor que ele não tomava algumas de suas escravas o problema estava na naquela classe especifica – Quantas mais você dormiu que vestem o branco?

— Apenas ela – respondeu desconfortavelmente quando passaram pelos portões do setor do palácio.

“Isso é mais surpreendente...”, durava alguns meses foi apenas com uma e considerando que ele podia ter ficado calado... Havia mais do que apenas um momento de prazer ali – Quem sabe?

— Apenas eu Xezar.

— Muito bem – parou em frente à Saride enquanto olhava em seus olhos – Se fosse qualquer outro eu mandaria castrar e depois venderia para uma casa dos prazeres e se apenas uma outra pessoa tivesse tomado conhecimento também teria feito o mesmo – respirou fundo – Agora vamos a solução do problema, direi a Xezar Assel que a escrava esta com uma doença de pele e ela deverá se levada para as fazendas para ficar longe de todos, não posso ser visto como mentiroso quando a barriga dela começar a crescer – olhou seriamente Saride – A escrava te agrada?

— Sim Xezar – responder com receio.

— Depois que tiver dado a luz será imbuída de suas necessidades – não pode deixar de notar o alivio que a face do homem tomou.

— E quanto à criança? – perguntou Saride com uma última pontada de medo.

— Será treinado como escravo de guarda e esperamos que fique igual ao pai.

No momento seguinte Saride se prostrou no chão.

— Seja Louvado meu Xezar! Seja Louvado pela sua misericórdia!

— Saride, você já pode se levantar – olhou a rua algumas pessoas pararam para ver aquela comoção, “E lá se vai meu plano de ir andando” – E não se esqueça, eu só demonstro misericórdia uma vez. Nunca mais me coloque em situação similar de novo.

— Assim como disse, assim será!

— Ótimo agora me chame um veiculo, meu humor para andar já acabou.

CENA 4

Um, Dois, Três

“Um, dois... três...”, Amber contou os passos.

“Um, dois, três...”.

Já havia passado muito tempo desde que Alayla havia lhe enfiado no vaso.

“Um, dois... Três...”.

Os primeiros momentos tinham sido assustadores os gritos os pedidos por socorro, toda aquela loucura, queria ter ajudado, ter feito algo, mas só conseguiu ficar lá dentro, escondida engolindo suas próprias lágrimas.

“Um, dois, três”.

Saiu depois que o fogo tinha começado a tomar a casa o fato de estar toda molhada ajudou a escapar sem ferimentos só para ver o Umbral que sua aldeia havia se tornado.

“Um, dois... Três”.

Fogo e corpos por todo lado, mas não o de Alayla e isso era pior, chorou durante tanto tempo que não conseguia pensar quanto tempo fazia que estivesse andando, ou mesmo quando começou a andar,

“Um, dois, três...”.

Provavelmente depois de sentir o cheiro dos corpos em chamas... Caiu de joelhos na areia o estomago havia embrulhado, não resistiu e vomitou não havia nada no estomago que já não tivesse sido posto para fora. Levantou-se passou a mão na boca e limpou na saia.

“Um... Dois três”.

Não tinha pegado sandálias e os pés estavam muito doloridos, imaginava que pudessem estar bem feridos, mas não se importava, não lhe restava mais nada.

“Um, dois, três”.

Já tinha perdido tudo para piratas antes, mas por um capricho do destino havia conseguido escapar durante uma tempestade se jogando no mar, não tinha motivo para não faze-lo os pais já estavam mortos assim como sua irmã, mas Ahua lhe entregara nas mãos de Alayla.

“Um, dois, três”.

E os piratas a tinham levado.

“Um... dois... três.

Caiu na terra a areia estava quente, nenhuma arvore para fazer sombra, tentou se levantar, mas caiu novamente, estava muito quente.

“Um, dois, três”... Queria saber se iria encontrar seus pais seria algo bom se ao abrir os olhos os visse...

CENA 5

O Homem que Ri

— Vamos Pacato – disse ao burrinho que estava puxando – Que ainda falta um pedaço de terra.

Aquele era um dia quente, mas já estava acostumado, “Afogueado é sempre mais quente” lembrou.

— Vamos Pacato – continuou no tom brincalhão – Que você não ganha para ficar bancando o difícil.

O restante de sua família não gostava muito de seu modo de ser, as criticas eram constantes, mas com o tempo aprendeu a não se importar, “Como se eles não tivessem seus defeitos também”.

Parou para alongar o corpo e tomar um pouco de água – Quer um pouco Pacato? – não esperou o burrinho responder se dirigiu a trouxa nas costas do animal e tirou um catre – É claro que quer! – virou o catre na boca de Pacato que sugou toda a água com a língua depois tomou o odre que trazia consigo aliviando a sede que mantinha já durante um bom tempo – Seguimos então e sem emburrar Pacato que eu já te dei água.

Palmeiras, coqueiros e areia, muita areia, tinha lá suas dúvidas se realmente havia uma aldeia por lá, mas as Sacerdotisas de Sangue nunca erravam então encontraria a pessoa que buscava, pelo menos era o que se esperava, “Afinal só posso voltar quando arrumar essa bagunça...”.

Nos últimos anos as coisas andavam bem tranquilas, mas de vez em quando surgiam problemas que exigiam uma solução, “E aqui estou eu para lidar com um deles...”.

Pelas contas demoraria um tempo para voltar a Afogueado tinha certeza que sua família apreciava isso, olhou as areias amarelas que tomavam o caminho, “Não existem areias como as de Afogueado”.

Para Orbe Afogueado com suas areias vermelhas, expressava a morte, mas não era verdade havia vida lá segura e protegida ao alcance apenas daqueles a quem foi confiada, “Mas morte também” lembrou, “Ao alcance apenas daqueles que servem Hadal”.

Depois de mais algum tempo andando viu o primeiro sinal de que havia pessoas por lá, embora ainda estivesse a uma boa distância tinha certeza que o tronco não tinha parado no meio da estrada por um milagre, “Na verdade por que largariam um tronco ali?”.

— Vamos Pacato estou com um mau pressentimento... – foi apenas depois de andar mais alguns metros que pode descobrir que o tronco na verdade era uma pessoa, largou a corda de Pacato e correu até o local.

“Uma menina” pensou espantado, levou os ouvidos a boca da garota enquanto a segurava nos braços, “Ainda há alguma esperança”, e depois de sentir o pulso a levou até um coqueiro, naquele momento Pacato já tinha o alcançado, deixando a menina seguiu ate as trouxas no animal.

— É Pacato parece que encontramos uma situação bem estranha aqui – comentou depois de pegar algumas vigas, tecidos e ervas.

A primeira coisa que fez foi molhar a boca da menina com um pano úmido de modo cuidadoso a medida que ia aumentando a quantidade de água, depois construiu um abrigo improvisado com as vigas e tecidos cobriu o chão e colocou a menina lá, a próxima coisa foi preparar um mistura com água e folhas de haix depois despiu a menina e cobriu o seu corpo com o cataplasmo se afastando começou a lhe fazer vento, quando terminou de cuidar dela o sol já tinha começado a sumir.

CENA 6

A Cachoeira

O suave tremer do tecido sobre sua cabeça foi a primeira coisa que viu ao acordar.

Estava escuro e as estrelas brilhavam no céu, olhou ao redor e encontrou uma fogueira próxima com um homem sentado, o coração começou a acelerar.

— Você está muito cansada e desgastada volte a dormir – disse num tom suave e brando – O perigo já passou, volte a dormir...

E assim de repente seus olhos voltaram a se fechar...

Quando abriu novamente os olhos já era manhã. Havia um odre próximo o pegou e bebeu com uma sede tão intensa que acabou se engasgando, quando por fim terminou observou seu corpo, estava coberto por uma pasta babosa esverdeada e decidiu não pensar no fato de estar nua.

Seguiu com os olhos até onde viu o homem na noite anterior, mas nem um sinal dele, embora as marcas da fogueira estivessem lá... Aquilo a preocupou, mas não estava em condições de pensar então simplesmente não pensou em nada.

Demorou um tempo até que visse ao longe na estrada um homem seguindo para sua direção com um burro, não sabia se era o homem da outra noite, apenas esperou que fosse.

— Veja Pacato a nossa amiguinha já acordou – disse ao amarrar o burrinho num coqueiro próximo, olhou a menina – E você, já consegue falar?

O fitou, não que em suas condições pudesse fazer alguma coisa diferente, não era muito velho pode perceber tinha os olhos amarelos de mel e os cabelos vermelhos como sangue, não trazia consigo nenhuma arma que pudesse ver, usava um pano enrolado na cabeça que estendia até o ombro deixava apenas o rosto exposto, mas podia se tampar para mostrar apenas os olhos, “Como era mesmo o nome... Shar”, lembrou-se, quanto ao resto da vestimenta era típica das pessoas que ganhavam a vida no deserto, sandálias trançadas, calças finas e largas e camisa de tecido leve e longo tudo na cor de um marrom.

— Vejo que está tendo problemas – disse no modo gentil e brincalhão que falava com Pacato ao perceber a demora da menina para lhe responder – Me chamo Hadhade e não é necessário que me explique nada – sorriu – Posso deduzir tudo que já aconteceu. Agora quanto a sua situação acredito que precise de um banho – olhou a menina de cima em baixo – Esse cataplasma pode ser útil contra insolação e queimaduras, mas – levou a mão direita ao nariz enquanto a balançava para cima e para baixo – Com o tempo fica com um cheiro desagradável – concluiu com uma careta boba.

Não sorriu apenas olhou seu corpo enquanto sentia o odor que estava bem fraco do cataplasmo.

— Eu já dei uma volta por todo o local – disse Hadhade enquanto demonstrava o gesto com as mãos – Eu e Pacato é claro! – riu ao apontar para o burro – Ele pode ficar bravo por não reconhecer toda a manhã que ficou ao meu lado – falou enquanto levava a mão direita a boca dando um ar de segredo – Em todo caso tem uma cachoeira próxima você poderá se lavar lá – olhou para o burro – Pacato ficara feliz de levar você – terminou sorrindo sentado em uma pedra ao redor dos restos da fogueira.

Cachoeira foi à palavra que lhe trouxe todas as memórias felizes de uma vez, seu coração apertou a garganta fechou e as lágrimas começaram a sair em uma fração de tempo, não percebeu quando o homem chegou ao seu encontro lhe envolvendo em um abraço. Colocou seu rosto no peito dele, não sentiu vergonha apenas chorou enquanto ele afagava sua cabeça e a mantinha bem presa.

— Isso é importante minha amiguinha – usou um tom gentil e doce – Libertar seu coração dessa dor, isso é importante!

CENA 7

Andarilha das Areias

Hadhade terminava de costurar as roupas enquanto Amber se banhava do outro lado das pedras. Para lhe dar privacidade, estendera um tecido entre dois coqueiros e permanecera de costas para a água desde que ela entrara.

Haviam conversado pouco durante o trajeto até ali, mas a menina parecia mais presente. Já não olhava para cada ruído como se os Velas Negras fossem surgir de dentro da areia.

— Pacato, teremos de ser pacientes com ela – disse ao burrinho, que arrancava folhas de um arbusto. – O que, para você, será um esforço extraordinário.

Pacato respondeu com um zurro.

— Viu? Já começou a reclamar.

Um chamado tímido veio da cachoeira:

— Hadhade... terminei.

Sem se virar, ele apanhou o pano vermelho e o lançou por cima da divisória.

— As roupas estão sobre a pedra, à sua esquerda. Avise quando estiver vestida. Prometo impedir Pacato de espiar.

O burro tornou a zurrar.

— Não discuta comigo. Todos conhecem sua falta de caráter.

Amber demorou um pouco. Hadhade ouviu o atrito do tecido, alguns resmungos e, por fim, uma risada curta que ela tentou esconder.

— Pode olhar.

Ele se virou. A camisa branca alcançava quase os joelhos, as mangas cobriam as mãos e a calça marrom se acumulava sobre os pés. Amber mantinha os braços abertos, sem saber se deveria sentir vergonha ou indignação.

— Ficou perfeita – declarou Hadhade.

— Está enorme.

— Perfeitamente enorme.

Ela estreitou os olhos. Hadhade riu, apanhou algumas tiras de pano e as mostrou antes de se aproximar.

— Posso ajustar? Por cima das roupas. Não precisa tirar nada.

Amber assentiu.

Ele amarrou a primeira tira na cintura e usou outras duas para prender o excesso das pernas. Dobrou as mangas até os pulsos e ensinou a menina a repetir os nós caso se soltassem. Depois se ajoelhou diante dos pés já tratados na noite anterior.

Não havia motivo para examiná-la novamente. Quando a encontrara, verificara cada ferimento necessário e cuidara da insolação. Restava apenas impedir que a caminhada abrisse de novo as feridas.

— Vou reforçar as faixas dos pés – avisou. – Se doer, diga.

Amber concordou. Hadhade envolveu as plantas e os tornozelos com tecido limpo, acrescentou solas de couro fino e prendeu tudo com cordões. Por fim, ensinou-a a colocar o shar e lançou o pano vermelho sobre seus ombros, formando uma pequena manta.

Afastou-se dois passos para apreciar o trabalho.

— Agora, sim. Uma legítima andarilha das areias.

Amber olhou para si, girou com cuidado e viu a manta acompanhar o movimento. O sorriso surgiu primeiro; a risada veio logo depois.

Hadhade riu com ela, mas seus olhos se demoraram na estrada que desaparecia além das palmeiras. Em algum ponto daquele caminho permanecia a tarefa que as Sacerdotisas de Sangue lhe haviam confiado. A pessoa que deveria encontrar continuava à espera, e ele não sabia quanto tempo ainda poderia adiar a missão.

“Um problema de cada vez.”

Por enquanto, Amber precisava chegar viva a Mirpha.

CENA 8

Uma Sombra na Ilha

Naquela mesma semana.

— Chegamos! – disse o Capitão animadoramente quando o barco se prendeu a doca.

Seus ossos tremeram, Achéel estava no local mais perigoso de Orbe, “Ilha esquecida”, sussurrou o nome para si, enquanto enchia-se de coragem.

— Vamos – disse Aradhe descendo do barco.

O seguiu. Estava escuro as tochas ardiam e dançavam sobre o vento do mar, sobe seus pés a madeira estalava quando a água a tocava com mais força, olhou as outras embarcações ao redor a maioria de comerciantes de escravos e piratas, conhecia todas as bandeiras ali, “Os tortos” pensou ao ver o tronco retorcido de ossos, não eram piratas muito conhecidos em geral estavam mais para contrabandistas, a embarcação ao lado tinha a cabeça de um tubarão na bandeira, “Carnívoros” esses eram Piratas saqueavam aldeias levavam escravos e pirateavam os mares com crueldade, “O próximo...” perdeu a respiração junto com Aradhe, o corpo amoleceu e a mão correu desesperadamente em busca da lamina na cintura.

“Pela deusa!! Velas negras!”.

O casco escuro como carvão e a chama negra de Tetros estampada nas velas não deixavam dúvida: era o Vela Negra. A embarcação parecia ter atracado havia pouco. A água ainda escorria das âncoras, e homens descarregavam gaiolas, cestos de pescado e grandes rolos de rede chamuscada.

Um menino do cais esbarrou em Aradhe, pediu desculpas e desapareceu entre as barracas. Só então Achéel percebeu o pequeno papel dobrado que surgira na mão do companheiro.

Aradhe leu a mensagem sem interromper o passo. Depois indicou discretamente um dos cestos. Havia nele um peixe azul pintado sobre uma faixa branca, marca usada pelas aldeias pesqueiras de Mistra. Nos rolos de rede, os nós vermelhos repetiam o mesmo padrão.

Mais adiante, uma fileira de cativos era conduzida para os depósitos. Alguns ainda traziam roupas de pescadores; uma mulher escondia o rosto sob os cabelos e apertava contra o peito um pedaço da mesma rede marcada. Achéel não conseguiu distinguir suas feições antes que os piratas a empurrassem para dentro.

— Então foi este navio – murmurou Achéel.

— Foi – confirmou Aradhe, guardando o bilhete. – E chegou carregado. Não olhe por muito tempo.

— Mantenha o foco – disse Aradhe em tom bem baixo – Estamos aqui a negócios, não há o que temer.

Não gostava disso, não queria ter recebido a tarefa de jeito nenhum, “Mas não posso dizer não a uma ordem do Xezar Ariel”, respirou profundamente e continuou o caminho até chegarem a areia.

O mercado de escravos já havia terminado, mas seus vestígios permaneciam espalhados pela praia. Alguns corpos tinham sido abandonados perto das estacas; atrás das tendas, gritos abafados denunciavam crimes que ninguém ali pretendia impedir. Achéel desviou o olhar e apertou a capa contra o corpo.

— Mantenha o foco – lembrou Aradhe novamente.

— Eu sei – apertou a capa sobre si e seguiu tentando não ouvir os gritos da mulher por piedade.

Entraram na Puta Perdida, a maior taberna do local deveriam encontrar seu contato ali, o local estava repleto de putas, piratas, bandidos, assassinos, bruxos e seja lá mais o que existir de ruim no mundo, seguiram para o bar e não demorou para uma das putas virem servi-los e como pode perceber o uniforme envolvia uma saia rasgada e seios a mostra, mas isso não era grande coisa se considerasse que alguns fodiam em uma mesa próxima.

— Os moços precisam de uma bebida? – perguntou sorrindo – ou vão querer um pouco de carne – disse alisando os seios.

— Na verdade – sorriu Aradhe – precisamos de uma sombra.

Viu o sorriso da mulher se desfazer em uma expressão seria e apreensiva.

— Venham comigo.

Foi tudo que a mulher disse antes de sair andando para trás do bar a seguiram, Aradhe na frente como de costume, ele já servia há sete anos o Xezar Ariel fazendo os mais variados serviços, “Sempre sozinho se eu me lembro”.

— Subam a escada até o segundo andar, a pessoa que procura está na última mesa no canto esquerdo, tem uma janela que dá para a rua lá – se virou e voltou sem dizer mais nenhuma palavra.

— Então... Você já negociou com eles antes? – perguntou Achéel de forma casual, ainda não entendia muito bem como se comportar naquela situação.

— Sim – Aradhe respondeu olhando a escada – Não, há o que temer como eu disse estamos aqui a negócios em nome do Xezar.

— Desculpe – começou Achéel confuso – Mas nós não nos identificamos como servos do Xezar.

— Há – Aradhe sorriu ao ouvir o companheiro expor seus medos – Mas ela sabe quem nós somos, soube no momento em que pisamos nesta ilha. Agora chega de papo.

— Certo – concordou Achéel.

Subiram as escadas, o segundo andar era bem mais tranquilo e silêncioso, estava claro que era onde os negócios eram feitos, olhou de soslaio os presentes e não gostou nada do que viu o primeiro que viu foi um homem numa túnica escura com um colar de ossos no pescoço, “Um necromante”, suspirou, não era bom se envolver com eles eram caçados em toda Orbe desde seu inicio em Maestria na universidade de Ornato, o próximo local que observou tinha alguns piratas com olhos cheios de mau e em sua mesa a chama negra de Tetros tinha sido rabiscada, Aradhe passou por eles naturalmente e seguiu diretamente para o seu contato, “Para a sombra”, lembrou.

— Já faz um tempo, não? – perguntou Aradhe a sombra enquanto tomava o lugar a sua frente.

— Sim, faz um tempo – respondeu a sombra com a voz de um velho.

Achéel o achou estranho completamente enrolado em ataduras usando uma longa e esfarrapada manta e na cabeça um shar tão esfarrapado quanto à manta. Nunca tinha visto uma sombra antes embora já tivesse ouvido falar dos assassinos, não possuíam a fama da Morticínio a bem da verdade muitos em Pélago ainda acreditavam que a Morticínio era apenas uma lenda, “Afinal ninguém nunca viu um mercador da morte e viveu para contar”, na verdade existiam aqueles que conseguiram, “Mas acabaram mortos juntos com todos que os escutaram”, em todo caso as Sombras eram reais e podiam ser contratadas e a sua própria maneira bem assustadoras e se podia dizer algo era que eram os melhores assassinos que alguém poderia contratar ou pelo menos era isso que as histórias contavam.

— Xezar, me pediu para entregar isso a você – comunicou Aradhe ao passar a carta lacrada a sombra.

Seu coração parou quando a sombra começou a rir com a voz de uma criança.

— Seu Xezar pretende nos sentenciar a morte com este nome? – disse com a voz da mulher que havia lhes levado até ali.

— Infelizmente – continuou Aradhe – eu não sei o que estava escrito – respirou por um instante – Xezer me disse que as coisas irão acontecer, que se você disser sim, vera a oportunidade ser criada – olhou seriamente para a sombra – até o fim do mês você vera o sinal.

O Silêncio se prolongou durante um tempo, em pé ao lado de Aradhe viu a sombra olhar o papel várias vezes até levá-lo a vela em cima da mesa e queimá-lo.

— Sim – respondeu a sombra usando a voz de Aradhe – Consigo entender as coisas que vem acontecendo – Terminou usando a voz do Xezar Ariel.

Achéel achou aquilo perturbador, nem sequer imaginava como ele conseguia fazer aquilo voltou os olhos a Aradhe que tirava uma bolsa de moedas muito pesada da roupa, a sombra pareceu nem notar estava olhando a janela com atenção seguiu o exemplo, do lado de fora no outro lado da rua se é que podiam chamar aquilo de rua havia um homem fazendo gestos com a mão e depois do assentimento da sombra seguiu caminho.

— Perdão – usou a sombra a voz de uma garotinha – algumas informações novas, mas nada que ponha em xeque nossos negócios – terminou com a voz de uma mulher sedutora.

— Ótimo – Aradhe entregou o dinheiro – isso é seu cumprindo ou não o contrato, nas palavras do Xezar, um bônus pela confiança.

— Entendo – usou a sombra a voz de um homem jovem – isto é tudo? – concluiu com a voz de um menino.

— Sim é tudo – respondeu Aradhe.

— Pois eu tenho uma mensagem – começou a sombra na voz do velho que usara para iniciar aquela conversa – Vocês devem me encontrar tenho assuntos a discutir, um escravo ira recepciona-los na saída até mim – terminou usando a voz da Rainha vermelha.

— Já imaginava... Isto é tudo? – perguntou Aradhe.

A sombra assentiu, Aradhe se levantou e Achéel seguiu seu encalço.

— A última voz era da Rainha Vermelha – afirmou Achéel quando alcançaram a escada.

— Reconheceu depressa.

— Eu a vi em Kindra, três anos atrás. Escoltava os armazéns do Xezar quando ela negociou a devolução de uma carga apreendida. Falou comigo uma única vez, mas não é uma voz fácil de esquecer.

— Melhor assim – respondeu Aradhe. – Você vai reencontrar a mulher que administra toda essa depravação.

CENA 9

Sangue Compra Sangue

Trizia levou a mão ao copo de vodca e virou de uma vez a sua frente ele abria um sorriso tão malévolo que fazia seu coração parar, já lidara com vários tipos de homens, mas nenhum se igualava ao capitão dos Velas Negras “Alcatraz”.

— Realmente é muito difícil manter os negócios quando vocês não colaboram – recostou-se na cadeira – Será que você não percebe que agindo como um porra-loca você fode com todos?

— Trizia, Trizia – começou Alcatraz – Realmente não me recordo de escrever meu nome nesse seu joguinho – pegou o copo de vodca na mesa e o virou, o liquido desceu queimando sua garganta – Uma coisa tenho que admitir você sabe escolher uma boa vodca mulher – tomou mais um gole.

“Maldito!” a conversa não iria pender para o lado que queria, “Pelo menos até eu usar meu trunfo...”, não queria ter que gasta-lo daquela forma, seria bem mais útil depois, “Mas imagino que se passar muito tempo poderá perder o valor”.

— Joguinho que enche os bolsos de todos com dinheiro. Agora me explica exatamente por que cacete você atacou as embarcações do Xezar Ariel?

— Não confio no homem – olhou para Trizia – Também não confio em você, mas se realmente quer saber estava curioso para ver o que aquele Xezar de merda, estava tão empenhado em carregar até Praia Verde que se humilhou para fazer um acordo com um bando de ladrões e piratas.

Trizia não gostou do rumo que a conversa tomou.

— Imagino que você se surpreendeu com toda a madeira que encontrou...

— Porra trizia – começou a gargalhar de uma maneira perturbadora – Você realmente tem coragem – olhou malevolamente a Rainha Vermelha – Vamos deixar de lado esse teatrinho – encheu o copo de vodca – Sei que o homem carrega a madeira para Praia Verde e sei que o faz supostamente para a fortificação das ilhas anãs – deixou o sorriso correr os lábios através de todo a mal que tinha em si – Mas é claro que a verdade não esta toda nisso, não é?

“Então você descobriu alguma coisa...”.

Aquilo não a agradou tinha planos com Xezar Ariel, planos que poderiam estabilizar sua posição em Ilha Esquecida, “E Alcatraz pode ferrar com tudo” e o pior era que não poderia impedi-lo se fizesse alguma retaliação seria o mesmo que começar uma guerra, “Tenho que ser mais esperta!”.

— Não sou nenhuma estúpida pirata, sei que Ariel está tramando algo, entretanto sua oferta foi boa e uma vez que ele sempre foi nosso maior inimigo vê-lo dando uma trégua e ainda recebermos para isso não era algo que eu podia negar – inclinou-se para frente – Mas você gosta de ferrar com tudo.

— Há – riu – E você com certeza tem uma boa parcela nisso tudo, mas vamos ao que interessa. As frotas de navios que vi espalhadas nas ilhas anãs e a lista de materiais que encontrei no barco que saqueamos – olhou para Trizia com maldade – O Xezar definitivamente está fortificando as ilhas anãs, mas é para uma guerra – levou a vodca a boca – O problema é contra quem – olhou Trizia – Você com certeza não sabe não é?

Sentiu o sangue deixar o corpo, levou a mão ao copo e derramou a vodca na boca precisava se manter quente, “Firme!”.

— Sei tanto quanto você. Garanto – lhe mostrou seu olhar mais ameaçador – Mas preciso que você pare com essa porcaria de ataques – o fitou silênciosamente por alguns segundos – Antes que foda tudo.

— Hora – abriu o seu sorriso maligno – Temos um problema ai, por que não estou disposto a parar enquanto não descobrir onde essa guerra vai estourar – olhou Trizia com autoridade – Ha possibilidades que eu seria um idiota se não aproveitasse.

“É agora!” recostou-se na cadeira de um modo despreocupado – Se é o caso... A propósito – o olhou divertidamente – Tem notícias do Olhos-azuis?

— Você com certeza perdeu toda a noção do perigo – tirou a espada e num movimento a colocou no pescoço de Trizia enquanto se divertia com o espanto da mulher – Acha mesmo que a sua posição lhe protege contra mim? Lhe digo uma coisa mulher você vive por que é útil, mas não pense que é indispensável – começou a cortar levemente o pescoço enquanto via o sangue escorrer debilmente.

— Não é pela minha posição e nem pela minha utilidade que você não me mata, Kza´r E´kbhor lhe-xe´r(Só sangue compra sangue) – concluiu no Antigo idioma pélga – Posso estar bem longe de casa – Passou a mão pelos cabelos curtos e vermelhos vivo, enquanto abria bem os olhos amarelos mel e afastava a espada de Alcatraz que lhe tirava uma fina veia de sangue – Mas você sabe o que acontece com aqueles que tiram a vida de um nômade vermelho.

Aquilo pareceu convencê-lo, suspirou. Até onde sabia todos aqueles que mataram nômades vermelhos foram mortos, mas isso não significava que eles tivessem laços com a Morticínio como o resto de Pélago acreditava, na verdade nunca vira um mercador da morte na vida e nem queria, “Afinal é de conhecimento comum que ninguém que viu um mercador da morte viveu muito tempo depois”, mas Alcatraz não sabia disso e o restante de Orbe também e não via nenhum motivo para desacreditá-los disso.

— Bem – disse recuperando a conversa – Se você não tem notícias do Olhos-azuis eu tenho – viu o interesse dele no assunto parecia prestes a lhe ordenasse que dissesse.

— Então você descobriu alguma coisa – Alcatraz prolongou a pausa enquanto a avaliava – Duvido que seja algo que eu já não tenha descoberto.

Riu – Muito mais que algo. Descobri onde ele está – Trizia viu os olhos dele brilharem com crueldade, “Este é mesmo um assunto delicado” – Veja Alcatraz eu realmente não acho motivos para nós não nos ajudarmos – encheu o copo dele e em seguida o seu próprio – Eu tenho um problema, você tem um problema – olhou o sedutoramente – Eu ajudo você e você me ajuda – levantou o copo esperando um brinde.

— Colocando dessa forma acho que posso vir a colaborar pelos menos por um tempo – brindou com ela e então viravam a vodca ao mesmo tempo – Onde?

— Cidade de Capital, o que posso dizer... Fodeu com minha vida lá deixando um monte de problemas para resolver se não tivesse um valor tão alto para você eu mesma iria matar ele – olhou para ele com desanimo – Creio que você tenha experiência com isso. Em todo caso tenho gente atrás dele, já devem ter encontrado um rastro poderá encontrá-los no lugar de sempre.

Não achou que ele estivesse satisfeito, mas já era uma noticia em um bom tempo, ele não poderia ignorar isso.

— Melhor que nada – olhou para ela com maldade – E você conseguiu o que queria, da próxima vez vou tornar as coisas mais difíceis – levantou enquanto apanhava o chapéu na mesa – Passar bem Rainha Vermelha.

Quando ele saiu do quarto Trizia relaxou o corpo, não ficou surpresa ao ver o quanto estava tensa as negociações com Alcatraz sempre eram difíceis e infelizmente obrigatórias afinal não podia exclui-lo, “Pelo menos ainda não”.

— Senhora – chamou na porta o escravo – Os agentes do Xezar estão aqui.

— Diga que irei num minuto Razir.

“Dia longo...”, levantou-se e dirigiu a um espelho avaliando o corte no pescoço, “Que filho de uma puta do cais”, pegou uma tira na cômoda e enrolou no pescoço, não seria bom receber os agentes do Xezar com um corte de outra negociação passaria a ideia errada.

Atravessou a cortina de Conchas que separava seu escritório do restante do quarto, demorou alguns minutos olhando o Côr, precisava de um banho só a deusa sabia como, “Vou pedir para Razir esquentar a água para quando eu terminar”, foi ao baú ao lado da cama que por sinal parecia atraí-la para lá, “Como estou cansada...”, pegou algumas joias, aquilo não funcionaria com Piratas na verdade seria péssimo, “Mas tem um efeito muito positivo com nobres”, arrumou o vestido e abriu o decote mostrando mais os seios, fazia de tudo para manter o local bem iluminado com várias lâmpadas, mas olhando agora não lhe pareceu o suficiente, “Preciso de mais lâmpadas”, deu uma última olhada na cama redonda e colada no chão com cortinas de um tecido fino em todo o seu redor como era o padrão em Pélago, “E claro tudo no vermelho”, sorriu “Talvez eu esteja disposta para uma companhia mais tarde”.

Abriu à porta e encontrou os agentes do Xezar sentados no banco a frente com a expressão mais aflita que já vira, “Alcatraz”, lembrou quando os mandou entrar, “Provavelmente não esperavam encontrá-lo”, não podia negar o poder que Alcatraz exercia, “E neste caso serei aquela que negociou com ele neste estado”, lembrou das joias que usava e do modo natural que aparentava, “Isso vai ser útil”, sentou-se em sua mesa enquanto os agentes faziam o mesmo a frente, olhou para a garrafa de vodca só para dispensar a ideia, já tivera muito de vodca naquela noite.

— Uma sombra, hã? – recostou-se na cadeira deixando os seios mais visíveis – Seu Xezar anda fazendo negócios bem estranhos, não?

— Os negócios do Xezar pertencem ao Xezar – Aradhe olhou para a Rainha Vermelha com desapontamento – O que me lembra que os seus também deveriam pertencer a você – levou o corpo para frente – Então como é que durante a pausa vocês vieram saquear nossas embarcações? Não preciso dizer que Xezar está tentado a por um fim a tudo isto!

Trizia esboçou uma expressão de desdém, depois lhe deu seu olhar mais sedutoramente ameaçador.

— Não vai apresentar o companheiro?

Aradhe a olhou incrédulo. Trizia achou graça, mas manteve a postura; seria ruim perder o controle da conversa antes de colocá-los no devido lugar. Então voltou a atenção para o acompanhante e reconheceu o jovem que estivera nos armazéns de Kindra três anos antes. Naquela ocasião, Achéel permanecera quase todo o tempo atrás de Ariel, atento às portas e às mãos dos estivadores. Estava mais velho agora, mas conservava a mesma rigidez.

— O nome é Achéel – Aradhe recostou-se novamente – Vai me acompanhar de agora em diante.

— Hum... – Trizia fingiu avaliá-lo pela primeira vez. “Continua disciplinado demais para a própria idade.” Ainda assim, já se enganara antes ao julgar alguém pela aparência. Lembrou-se da primeira vez que vira Olhos-Azuis. Quem imaginaria que ele faria o que fez e ainda escaparia? Não era à toa que Alcatraz estivesse obcecado em encontrá-lo.

Olhou Achéel com mais atenção vestia-se igual Aradhe, botas de pano gastas e simples, calças largas de um cinza desbotado a camisa escura de um material pobre por dentro da calça atada por um cinto de couro como era o costume em Pélago e por fim a manta que chegava a cintura da mesma cor da calça o detalhe é que possuía um capuz e não podia se esquecer das espadas, cimitarras presas na cintura, “É claro que devem ter uma ou duas lâminas escondidas no meio da roupa”, não gostava de negociar com homens armados, mas não o fazer indicava fraqueza e isso era algo que todos em Ilha Esquecida farejavam a milhas...

— Me diga Achéel – Trizia disse com sua voz mais doce – o que achou de Ilha Esquecida?

— Skha´r(brutal / selvagem / animalesco) – respondeu Achéel no idioma pélga.

O jovem não parecia muito habituado aquilo percebeu de imediato, o jeito duro que demonstrava indicava uma total falta de jeito para lidar com aquele tipo de situação, achou aquilo interessante o porquê do Xezar o enviar.

— Não pensaria em definição melhor – Trizia o observou com um olhar renovado, uma coisa já estava clara o homem sabia avaliar bem as coisas – Mas você não respondeu o ponto – deu seu melhor olhar provocador – Você gosta?

Viu os olhos dele prenderem em seu seios, achou aquilo divertido e inclinou mais para que ele visse melhor, não demorou muito para que ele desviasse o olhar e voltasse os olhos para outro local com um jeito de quem avia sido pego fazendo algo que não devia.

— Sou um homem de disciplina – Achéel respondeu sem olhar a rainha vermelha nos olhos – Coisas selvagens não se enquadram com isso.

— É realmente uma pena... – deixou a voz morrer e então se virou para Aradhe que até o momento demonstrava pouca alegria com o modo que as coisas estavam se desenrolando – Me responda Aradhe – Começou Trizia chamando a atenção a si – Realmente devo acreditar que não somos o alvo daquela frota que seu Xezar está construindo em Praia Verde? Por que realmente seria conveniente pra caralho fazer paz só para nos foder com tudo depois.

— De fato seria mesmo – Aradhe respondeu despreocupadamente – Mas vocês não são o alvo, se posso dizer algo seria que vocês são a camuflagem – ficou serio – O que me lembra que você não parece ter a mesma mental...

— Este assunto está encerrado – interrompeu Trizia – Os Velas Negras não irão mais atrapalhar. Já conversei com Alcatraz pode comunicar seu Xezar que este assunto já está encerrado.

O Espanto no rosto deles lhe trazia uma satisfação que não conseguia descrever, não era fácil ser a Rainha Vermelha e não foi fácil se tornar ela, muito esforço e risco estavam envolvidos em sua posição, não possuía um titulo nem um ordem expressa para ocupar a função a única coisa que a matinha no cargo era sua utilidade, o esquema era bem simples comprava a mercadoria roubada dos piratas depois contratava contrabandistas para introduzi-las nas cidades onde os comerciantes esperavam para recebê-las depois de já as ter vendido a um preço maior. Nada era para sempre em Ilha Esquecida não era atoa que o local tinha esse nome, por isso tinha de fazer tudo para continuar no poder.

— Então estamos bem – perguntou Aradhe estendendo a mão para um comprimento.

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— Estamos bem – Trizia apertou a mão dele com força – Razir ira recepciona-los até o barco preparado para vocês – riu – Não queremos que vocês se percam não é mesmo?

CENA 10

Depois do Nada

Quando viu as casas, mas principalmente os barcos deu um enorme sorriso, já estavam na estrada há dois dias e aquela era a prova do fim da jornada.

— Não andamos tanto assim. Não concorda?

Buffou um desdém para ele – Você, não é engraçado Hadhade.

— E você é mal agradecida – Riu como de costume – Deixe Pacato descansar um pouco você já teve moleza demais!

Desceu do animal – Obrigada Pacato – Concluiu fazendo um carinho no burro.

— Você sabe que ele não entende você. Não sabe? – perguntou seriamente.

— Mas voc... – começou e antes que terminasse, Hadhade ria como uma criança. Aquilo a irritou – Você é muito infantil!

— Infantil – riu mais ainda – Veja como ela é adulta.

O rubor subiu sua face enquanto sentia o rosto queimar, Hadhade era uma pessoa muito difícil aprendera isso durante todo o caminho que fizeram até ali, sempre lhe provocando e implicando rara foram as vezes que ele lhe deixou em paz, “Mas acredito que se ele não tivesse feito isso, eu provavelmente estaria chorando até agora”.

Olhou as costas dele enquanto puxava a corda de Pacato, “Você é mesmo uma pessoa muito amável”, sorriu sozinha enquanto a raiva desaparecia.

— Então para onde vamos? – perguntou colocando-se ao lado dele, “Muito amarelos”, pensou ao ver os olhos presos em si.

— Para uma hospedaria precisamos descansar – suspirou – E amanhã veremos como ficamos.

— Certo! – estava surpresa como havia se apegado a Hadhade, “Embora ele tenha me salvado”.

Hadhade era um homem estranho sempre rindo e brincando como se nada no mundo fosse ruim, odiava esse lado dele, sentia que seu sofrimento não valia nada, mas ao mesmo tempo não conseguia se sentir triste enquanto estava perto dele assim como também, não conseguia sentir medo, desconfiança ou qualquer coisa parecida, era confuso, não conseguia explicar o sentimento.

— E olha a cara seria dela. Pensando em arrumar marido? – Hadhade perguntou com o deboche de uma criança.

— Não! – respondeu tomando uma defensiva – Estava pensando em Alayla... E nos piratas que fizeram aquilo.

O viu suspirar e depois parar e olhar para si com olhos suaves e doces como o mel que lembravam.

— Falaremos disso, mais tarde. Temos que encontrar uma hospedaria eu preciso de um banho e você também e... – olhou para cidade já próxima – Fico feliz que consiga falar no assunto.

Não imaginava Mirpha daquele jeito, na sua imaginação era bem diferente com casa menores, ruas menores tudo menor estava impressionada havia várias pessoas, algumas muito diferentes, “Provavelmente de outros locais de Orbe”, Hadhade demonstrava uma naturalidade invejável, decidiu ignorá-lo e continuar em seu encanto estava impressionada com a iluminação naquela hora além da quantidade de pessoas transitando pela rua.

— Não é tão incrível assim – expirou Hadhade de modo casual – Impressionante mesmo é Kindra a maior cidade de Orbe, acredite menina isso aqui não passa de um vilarejo perto de Kindra.

Ficou em choque, “Um vilarejo?”, não conseguiu imaginar se fosse tão grande seria como o mar?

— Chegamos – disse Hadhade visivelmente aliviado quando entrou no local.

Olhou tudo com curiosidade havia velas acesas na entrada amarrou pacato junto com outros animais em frente uma parede queimada onde as velas tinham sido postas, seguiu Hadhade quando ele passou pela cortina de conchas, no interior os homens cantavam e bebiam em um Teccár enquanto uma dançarina os entretinha dançando com uma serpente no pescoço achou a mulher a mais linda do mundo com o vestido rosa e fino cheia de joias por um momento ficou paralisada, quando voltou a si Hadhade discutia com um homem em outra parte do local dirigiu-se ao seu encontro no caminho viu outros teccár´s alguns com dançarinas outros apenas com homens e serventes que iam e viam levando comida havia também músicos. Nunca imaginou existir coisa assim no mundo.

— Pode ser feito – disse o homem – Maila apronte um banho quente – olhou a menina com olhar avaliador – Quantos anos têm?

Não soube como responder aquilo de imediato olhou Hadhade com dúvida ele lhe deu o seu sorriso – Acredito que onze senhor – respondeu timidamente.

— Que seja – respondeu voltando sua atenção a Hadhade é melhor comerem enquanto Maila apronta o banho – olhou os dois – Melhor levá-los ao quarto.

— Eu definitivamente iria apreciar – expressou-se Hadhade de um modo cansado.

Subiu as escadas atrás de Hadhade enquanto o homem os guiava, as escadas eram bem estreitas de modo que um ia à frente do outro.

Não demorou muito para chegarem a um corredor com várias portas havia plantas ao lado das mesmas, achou tudo muito bonito, mas não teve muito tempo para ficar olhando, pois continuaram subindo.

— É este – disse no Anfitrião no próximo corredor – E o quarto este aqui – conduziu os dois ao local – Maila vira depois ver se necessitam de mais alguma coisa – despediu-se deixando os dois com a chave.

Olhou o homem indo embora, não era alto e tinha uma barriga roliça que ficava amostra “E uma cara engraçada”, riu do pensamento um olhar mais clinico poderia identificar a calça de linho e o colete de seda, mas Amber estava mais interessada em ver o quarto em que iriam ficar.

— Vamos ver como é a espelunca em que nos enfiamos – Hadhade expressou-se do modo brincalhão de sempre.

Amber não podia descrever o local como algo que já tivesse visto era limpo e perfeito a própria palavra era estranha em seus ouvidos, mas acreditava que era usada para descrever locais iguais aquele, sem dúvida era maior que a casa que vivera com Alayla bem como a que vivera com seus pais quando eram vivos olhou bem o local, uma cama opulenta revestida em seda e cortinas finas coladas ao chão com lençóis e colchas tão belas como nunca imaginara existir, também havia divãs ao redor de uma mesa preparada com uma grande variedade de frutas e uma larga janela com vista para o porto, do outro lado havia um Côr, uma espécie de banheira de madeira larga o bastante para caber duas pessoas que era aquecida com lenha por baixo, nunca tinha visto uma sabia que eram muito caras.

— Pois é, até que é arrumadinho – Hadhade olhou bem ao redor – Para um finzinho de mundo serve muito bem – começou a rir como de costume.

Amber o fitou incrédula como ele podia dizer isso, não podia entender, o local parecia saído de uma das histórias que a mãe lhe contava de princesas e foi então que ela pensou em algo muito obvio.

— Hadhade... – chamou a atenção dele – Quanto você pagou para ficarmos aqui?

O olhar que Hadhade lhe deu foi de diversão e surpresa depois deixou o corpo cair em um divã e soltou algumas gargalhas deixando Amber com um pouco de raiva.

— Você consegue quando se esforça, não? – olhou para ela com diversão – Para mim uma ninharia – esticou o corpo como um gato.

— Quanto? – perguntou firme não iria deixar ele se esquivar.

— Três Hins de ouro...

Sentou na cama, aquilo era muito dinheiro seus pais trabalhariam vários meses para ganhar um Hin de ouro e na vila levaria pelo menos muito tempo para fazer aquela quantia – Com o que você trabalha Hadhade? – perguntou ainda em choque.

— Sou mercador – respondeu ainda deitado no divã.

“Mercador?”, aquilo era estranho andar com tanto dinheiro pelo deserto sem nenhuma proteção, “Afinal o que ele fazia indo para aquela aldeia?”, Amber olhou serio Hadhade deitado no divã enquanto levava uma uva à boca.

— Mercador de que?

— Ai temos um problema – levantou-se sorrindo enquanto olhava a menina com um olhar cumplice – Se eu contasse teria de te matar – depois deixou o corpo cair dando risada...

Aquilo foi à gota para estourar sua raiva, apenas saiu do quarto e bateu a porta, “Quem ele pensa que é para me tratar assim”, sabia que não devia estar brava, não era um direito seu saber e além do mais Hadhade tinha salvado sua vida, mas isso não mudava em nada seus sentimentos no momento.

Desceu as escadas com passos rápidos cruzou o salão sem prestar a menor atenção e quando viu estava do lado de fora observando as estrelas no céu e não foi possível evitar lembrar da vila, dos pais e de Alayla e as lágrimas começaram descer, olhou para o seu lado direito e encontrou Pacato amarrado no estábulo.

— Melhor levarmos você para o estábulo, não? – se esforçou para colocar um sorriso no rosto enquanto falava com o animal e limpava as lágrimas do rosto – Este não é lugar para animais bonzinhos como você – passou a mão no focinho de Pacato e recebeu mordidinhas, aquilo lhe arrancou algum riso verdadeiro, olhou ao redor procurando o que deveria ser o estábulo encontrou no lado esquerdo um local que se identificava como o que buscava pegou a corda e arrastou Pacato até lá.

Assim como a hospedaria era feito de tijolos de areia embora não tivesse recebido pintura nem grandes detalhes, era um local grande e com alguma luz das várias tochas acesas, ficava um pouco atrás da Oásis da Ni´ha, como era o nome do local onde estavam.

Não perdeu tempo em procurar alguém uma vez que não tinha encontrado ninguém na entrada arrastou Pacato até uma baia e o colocou lá depois de arrumar um pouco de feno – Você vai ficar bem agora – beijou o focinho do animal e depois se virou para hospedaria, teria de lidar com Hadhade agora.

Um ruído de metal veio das baias do fundo. Amber parou. Três homens vestidos de escuro trabalhavam à luz de uma única tocha. Um deles cortava a correia de uma sela; outro já conduzia duas éguas cinzentas para fora da baia, enquanto o terceiro remexia os alforjes deixados pelo proprietário.

— Pegamos as duas cinzentas e o castanho do mercador – sussurrou o maior. – Vendemos antes do amanhecer e ninguém encontra nosso rastro.

Foi então que a viram.

— Mas que...? – o homem dos alforjes se ergueu, incrédulo.

— Não era para ter ninguém aqui – praguejou o outro, soltando a correia da égua.

— É só uma menina – decidiu o maior, sacando a faca. – Entrou na hora errada. Eu cuido dela; vocês terminem com os cavalos.

Amber compreendeu que não a procuravam. Eram ladrões de montaria, e ela se tornara um problema apenas por ter visto seus rostos.

Deu dois passos para trás enquanto os observava vindo em sua direção quando maior se adiantou para alcança-la virou e correu para trás, mas só conseguiu dar alguns passos antes de cair para trás com um puxão em seu cabelo.

— Não é culpa sua, garotinha. Você só estava no lugar errado – disse o homem, erguendo a faca.

Começou a chorar, definitivamente a morte estava lhe perseguindo.

— Ops – disse enquanto entrava no estábulo – Será que vocês poderiam soltar a menina?

Não pode confiar nos ouvidos até ver Hadhade entrando desarmado o homem que agarrava seu cabelo o soltou para encarar Hadhade.

— Infelizmente isso não é uma opção e para você também não – fez um sinal para o comparsa que sacou uma adaga.

Amber olhou Hadhade encarando os três homens e por um segundo o que viu foi uma víbora do deserto olhando um grupo de ratos-saltador, não conseguiu se mexer. Estava presa sob o olhar de Hadhade paralisada por uma pressão que lhe impedia de respirar e pensar, quando recobrou a consciência Hadhade estava agachado a sua frente e os outros homens mortos.

— Você está bem? – perguntou a Amber que se mantinha caída no chão.

Os olhos de Hadhade eram apenas morte, “Sou um mercador”, ele havia dito “Sim um mercador da morte”, e antes que pudesse conte-lo o nome saiu de seus lábios – Morticínio...

— Hó... Então você descobriu – olhou bem seriamente a menina – Uma pena já tinha tudo arranjado com o dono do lugar você iria ficar com ele, teria uma vida confortável e segura, uma pena Amber... Você sabe o que vou ter que fazer, não sabe?

Não chorou era engraçado como o medo tinha desaparecido.

— Sim... Mas poderia me dizer o que vem depois?

— É o nada. Agora menina gostaria de saber o que vem depois do nada?

Não entendeu aquela pergunta, mas aquilo não a impediu de responder.

— Sim...

CENA 11

O Pão e o Trigo

Aquela era a maior borboleta que Aleyah já tinha visto era do tamanho de sua mão e misturava as cores azuis e vermelhas.

Aleyah amava essas cores, “Uma manhã haixir (bonito / lindo / gentil)”.

— Veja Anrian, o tamanho daquela borboleta – Aleyah chamou a atenção de seu irmão enquanto apontava atônita para a planta onde ela tinha pousado.

— É realmente enorme – Calebe falou interrompendo a leitura – E você sabe de que espécie é?

Aleyah parou encarando o irmão surpresa.

O irmão vinha se mantendo bem afastado desde que voltarão da viajem ao Reino de Capital, achava que tinha feito algo que o tivesse chateado, pois ao contrario de Arev que sempre era mal consigo e suas irmãs que na maioria das vezes a ignoravam, “Só falam comigo quando querem saber alguma coisa...”, Calebe era gentil e legal, “Então a raiva já passou?”.

— Dhi (não) – se aproximou mais do irmão enquanto suas servas a seguiam a alguns metros – De que espécie é?

O irmão estava sentado em um teccár próximo à fonte, aquele era seu lugar favorito e de Aleyah também, vestia-se incrivelmente bem nas cores do amarelo e preto o tecido era cetim como era a moda em Pélago e tinha várias borboletas sombreadas em linhas de ouro, o Kura que o irmão usava era longo e tinha um corte justo, achou a vestimenta excelente, por sua vez Aleyah usava um mantra como era de seu agrado o conjunto consistia em um vestido vermelho e azul de um tecido fino e rendado que deixava os ombros expostos chegando até suas canelas onde apresentava om corte mais aberto e na cabeça o sad de pedras do sol.

— É uma morphasia kindria – começou observando a borboleta com Aleyah ao seu lado – Nativa de Kindra é a maior borboleta que se pode achar em Pélago.

— A maior de Pélago?! – exclamou em dúvida e surpresa – Não de Orbe?

— Não de Orbe – riu da expressão assustada da irmã tentando imaginar uma borboleta maior – Em Maestria nos vales de...

— Alteza – os guardas chamaram ao entrarem no borboletário – O The´zar lhe procura. Por favor, deve nos acompanhar, o Príncipe Arev já se encontra no local.

Aleyah viu a cara de raiva de seu irmão ao ouvir aquilo, últimamente ele estava sendo muito requisitado pelo seu Pai e para piorar com Arev que ela sabia que ele não gostava.

— Muito bem me levem até ele – falou cansado enquanto se levantava – E depois lhe conto mais sobre a maior borboleta de Orbe – concluiu acariciando os cabelos vermelhos sangue da irmã.

— Zhir (sim), Ficarei águardando! – sorriu enquanto o via seguir com os guardas – Ele não parece feliz... – falou dando voz aos pensamentos.

— Sim, últimamente é possível ver Príncipe Calebe muito exausto, mas é natural Alteza devido a urgência dos tempos – Opala respondeu sentando-se no teccár.

— É verdade Princesa – Dinara continuou seguindo o exemplo da outra serva – Mas não se preocupe ele ficará bem.

Olhou as duas servas enquanto inflava as bochechas, aquilo não a agradava queria passar mais tempo com o irmão como antes.

— Veja princesa – Opala seguiu com um tom gentil – Príncipe Calebe esta sendo treinado para herdar o trono e quando isso acontecer ele vai precisar muito de você!

Aquilo a surpreendeu, não via nenhuma forma de um The´zar precisar de uma princesa, olhou desconfiada para Opala.

— Por que ele precisaria de mim? – Aleyah perguntou apoiando os braços no chão e esticando o corpo para frente.

— Veja Princesa Aleyah – Opala disse levantando um dedo – Quando Príncipe Calebe virar The´zar terá de lidar com muitos problemas entre eles aliados e inimigos.

— Inimigos? – Aleyah perguntou surpresa como seria possível alguém ser inimigo de um The´zar.

— Sim – Dinara seguiu os pensamentos da outra serva – Existem muitos mesmo agora que se opõem ao The´zar Mariel, alguns diretamente e outros indiretamente e estes últimos são os mais perigosos!

— E por que ele não os mata? – Aleyah não entendia por que tolerar inimigos ainda mais um The´zar.

— Veja Princesa – Opala suspirou enquanto seguia – Ele precisa deles, precisa da sua ajuda – Opala viu que a menina não entendia o motivo – Por exemplo, existe um homem que faz pão e existe o homem que vende o trigo para o homem que faz o pão. O homem do trigo não gosta do homem que faz o pão e sempre fala mal dele pelas costas e o homem do pão sabe disso – Opala olhou seriamente para Aleyah – Então Princesa por que o homem que vende o pão não briga com o do trigo?

— Por que ele não lhe venderia mais trigo? – Aleyah respondeu imaginando se o motivo era tão simples.

— Exato! – Opala assentiu satisfeita junto com Dinara.

— Mas então por que o homem vende trigo para o homem do pão se ele não gosta dele? – Aleyah seguiu o pensamento que lhe incomodava.

— Uma excelente pergunta... – Opala ficou impressionada com a lógica da menina – Você é muito esperta Princesa.

— Sim – Dinara seguiu os elogios de Opala – Princesa Aleyah é muito esperta!

Aleyah ficou vermelha enquanto recebia os elogios das servas e de uma expressão confusa passou para uma constrangida depois para uma orgulhosa e finalizou com uma de inquisição.

— A resposta é simples – Opala continuou – Ele não conhece mais ninguém que precise de trigo – esperou para ver como Aleyah lidaria com a informação e após algum tempo.

— Mas se é assim mesmo que eles brigassem um ainda precisaria do outro – Aleyah olhou mais confusa para servas tentando entender o que elas queriam lhe ensinar.

— De fato Princesa – Opala assentiu com uma grande admiração diante a menina que era compartilhada com Dinara – Mas uma vez que eles brigarão abertamente a negociação vai ficar complicada concorda Princesa?

— Zhir (sim) – Aleyah continuou confusa diante o raciocínio apresentado.

— Possivelmente o homem do trigo possa aumentar o preço? Interromper a venda por um tempo? Vender somente mais do que o homem do pão precise? Existem muitas formas do homem do pão perder por brigar com o do trigo diretamente.

Aleyah conseguiu entender aquilo, mas ainda faltava uma pergunta sobre isso – Por que o homem do trigo não fez isso antes?

— Não havia motivo – Opala respondeu já esperando aquela pergunta – Entenda Princesa eles não eram inimigos diretos antes da briga e sim indiretos.

Aleyah conseguiu entender o pensamento aquilo lhe fazia sentido, “Então meu pai é o homem do pão, mas...”, Aleyah olhou as duas servas a fintando com expectativa aquilo a incomodou lhe pareceu que estavam lhe testando, mas decidiu ignorar e fazer a pergunta que lhe surgiu – Entendi por que meu pai não pode matar os outros – olhou a servas que a viam com olhares ávidos de expectativa – Mas se meu pai é o homem do pão quem é o do trigo?

Ambas as servas demonstraram uma satisfação imensa ao ouvir a pergunta de Aleyah, mas fizeram o melhor que puderam para se manter concentradas.

— Veja Princesa – Opala seguiu – Imagine que o homem do pão é muito ocupado e como o homem do trigo fala mal dele sempre pelas costas como é possível o homem do pão saber que o homem do trigo fala mal dele?

— Alguém contou para ele? – perguntou confusa, mais uma vez se perguntando se a resposta era tão simples.

— Exato! – Opala sorriu – Neste caso minha Princesa existem muitos homens do trigo e seu irmão vai precisar de ajuda para descobrir quem são e como lidar com eles – Olhou seriamente para Aleyah – E por isso que seu irmão ira precisar de você.

Aquilo a deixou surpresa, não imaginava que isso existisse e então pela primeira vez Aleyah pensou que existiam muitas coisas além do seu mundo que não fazia ideia.

— Mas por que eu? – aquela pergunta lhe pareceu valida – Meu irmão não teria homens melhores para isso?

— Sim ele terá – Dinara respondeu – Mas existem coisas que uma mulher é melhor que um homem e encontrar inimigos indiretos ou homens do trigo são uma delas, existem muitas outras é claro – Dinara segurou uma mão de Aleyah enquanto Opala segurava a outra – Existem muitas armas que apenas mulheres podem usar e que se tornam ainda mais poderosas sendo usadas por uma Princesa. Então gostaria de aprender como ajudar seu irmão?

Aleyah, não pensou para responder só havia uma resposta – Zhir! (sim).

— Muito bem iremos lhe ensinar como dançar esta dança – Dinara respondeu ainda segurando as mãos de Aleyah junto com Opala.

— Sim – Opala seguiu as palavras da outra serva – Faremos de você a melhor dançarina que existe!

Aleyah apertou as mãos das servas imaginando o que e tudo aquilo iria significar para sua vida dali para frente e teve a impressão que seu tempo iria ficar bem pequeno.

CENA 12

O Preço da Aliança

Cinco meses depois.

Arev viu o irmão entrar no salão e como sempre estava impecável, ao contrario dos outros que se vestiam como a moda Pélgana ditava, mas sem muita pompa, Calebe parecia estar em um concurso contra todas as mulheres da alta nobreza de Pélago.

“Você gasta tempo demais com sua aparência quando podia estar praticando como se espera do Príncipe herdeiro...”.

Calebe parou ao seu lado a diferença de tamanho não era muito grande “Uma cabeça eu diria...”, mas isso não era o que perturbava Arev e sim os dois anos que os separavam, “Mesmo que eu seja mais qualificado... Ainda assim...”.

— Gostaria de saber quem foi que lhe deu o direito de me fazer esperar Calebe – The´zar Mariel inqueriu assim que o filho terminou de lhe fazer reverencia – Desperdiçar meu tempo é um pecado que costumo cobrar caro!

— Não possuo palavras que possam expiar minha transgressão – Calebe olhou seu pai nos olhos enquanto adquiria uma postura humilde – Assim sendo me comprometo em cumprir qualquer castigo duas vezes mais do que a sentença de meu Soberano.

Arev escutou tudo com desdém, entretanto não podia negar que o irmão tinha uma boa oratória, e para seu próprio desgosto sabia que seu pai iria suavizar no castigo uma vez que Calebe disse que iria o cumprir com mais severidade, “As coisas nem sempre irão como você quer...”.

— Muito bem – Mariel disse de seu trono de mantas – Irei decidir seu castigo mais tarde – fez sinal para um dos homens se aproximasse – Tenho preocupações mais urgentes e assuntos de maior importância – olhou o filho em pé – Calebe este é Claudio Malaquite, dono da Companhia do Comércio Dourada a terceira maior de toda Orbe.

— Hari´kha (As honras) – Calebe juntou as mãos e deixou os braços na horizontal unidos pelas palmas das mãos coladas enquanto se curvava levemente como exigia o cumprimento em Pélago.

— E por sua vez – Mariel continuou a apresentação – O pai da sua noiva.

Arev engasgou, ao seu lado Calebe tinha entrado em choque como todos os outros presentes.

“De onde veio isso?”.

— Gostaria de uma Explicação meu The´zar – Xezar Osmar questionou – Imagino que esse seja o vosso desejo ao compartilhar essa informação agora – Osmar olhou mais seriamente para Mariel – Ou estou errado?

— Não está, Xezar – Mariel se levantou e fez sinal para que os escravos parassem de abaná-lo. Seus guardas se aproximaram. – O senhor Claudio, além de grande comerciante, é marido da irmã do Xezar Assel – Mariel voltou-se para Assel, um pouco atrás dos demais. – Não é mesmo, Xezar?

— É como disse meu The´zar – Assel disse – É um homem muito estimado em minha casa e um excelente marido para minha irmã.

— Como podem ver, o homem tem muito a acrescentar – Mariel desceu até o primeiro degrau do trono. – Xezar Ariel partiu para Capital com oitenta e quatro ikhizar e noventa transportes militares. É a maior força que Pélago já reuniu numa única operação, mas continua sendo uma frota que podemos abastecer e comandar. Não levaremos milhares de navios para anunciar nossa chegada a toda Orbe. Levaremos apenas os necessários para tomar o porto, desembarcar o exército e impedir que Capital receba auxílio pelo mar.

Arev sentiu o salão ficar mais silêncioso. Até então, todos falavam em guerra contra Balázios. Mariel, porém, não pronunciara o nome do reino.

— Nosso objetivo não é saquear Capital – continuou o The´zar. – Precisamos do reino funcionando: o porto aberto, os tributos recolhidos, os celeiros abastecidos e os selos reais obedecidos. Pélago assumirá o controle da cidade e de sua administração. Se destruirmos aquilo que desejamos governar, venceremos apenas ruínas.

Mariel voltou os olhos para Claudio.

— É aqui que entra a Companhia do Comércio Dourada.

Claudio deu um passo à frente. A satisfação desapareceu de seu rosto e cedeu lugar à precisão de um homem habituado a contar moedas e distâncias.

— Coloquei cinquenta e quatro embarcações mercantes a serviço da operação – explicou. – Elas transportam grãos, água, madeira, cordame, óleo e peças de reposição. Meus estaleiros em Kindra e Praia Verde manterão a frota navegando, e minhas casas de crédito pagarão soldos e compras durante seis meses, mesmo que as rotas sejam interrompidas.

Fez uma breve pausa antes de revelar a parte mais delicada.

— Nos últimos cinco meses, meus navios entraram em Capital como cargueiros comuns. Levaram guerreiros em pequenos grupos, registrados como marinheiros, carregadores e artesãos. Armas seguiram escondidas em fundos falsos de caixas de trigo e ferramentas. Quatro armazéns próximos ao porto já estão sob o controle de homens leais ao Xezar Ariel. Quando o sinal for dado, eles armarão os infiltrados, fecharão as correntes do canal e tomarão as torres portuárias por dentro.

Agora Arev compreendia o casamento. Não se tratava apenas de premiar um comerciante, mas de amarrar à família de Mariel o homem que financiava a conquista.

— Claudio Malaquite não nos oferece somente navios – concluiu Mariel. – Oferece abastecimento, crédito, acesso e silêncio. Em troca, sua casa se unirá à minha. A filha dele, pelo que ouvi, também é encantadora.

— Com toda certeza meu The´zar – Claudio disse com um grande sorriso – Betânia é uma menina adorável é exatamente bela como sua mãe e inteligente como seu tio, eu mesmo lhe ensinei os números além dos mapas e letras – virou-se para Calebe – Tenho certeza que Príncipe Calebe não lhe encontrará nada em falta.

— Estou ansioso para conhecê-la senhor Claudio – Calebe disse mantendo o maior esforço possível para não transparecer nenhum mal humor.

— Fico feliz em ouvir isso – Claudio disse tentando manter sua euforia sob controle.

— Muito bem – Mariel concluiu – Iremos oficializar o casamento após as notícias de Xezar Ariel – Mariel olhou o filho que se mantinha bem serio – Até lá seguimos com os festejos do noivado.

Arev observou todos concordar, alguns mais felizes que outros, estava claro o motivo de escolher Claudio o problema era por que escolher Calebe, “Eu teria sido uma escolha muito melhor”.

Calebe era o Príncipe herdeiro teria de casar com a princesa de algum reino ou a filha de algum Xezar.

“A filha de alguém como Claudio é mais indicada para alguém em minha posição... A não ser que...”.

Existia um boato que tinha ganhado força últimamente que dizia que Calebe não se interessava por mulheres se este era o caso com certeza seu pai achou por bem acabar com isso de uma vez casando o filho o mais rápido possível.

“E se assim, não haveria candidato melhor que Claudio para isso”.

Arev olhou o irmão ao seu lado sem nenhuma expressão, mas lá no fundo sabia que isso significava uma profunda tristeza.

“Viu as coisas nem sempre saem como você quer Calebe!”.

CENA 13

O Portão das Marés

Dezessete dias depois.

Da popa do ikhizar, Saride observou Capital crescer diante da frota. A cidade se erguia branca e azul sobre a colina, cercada por cais, armazéns e torres de pedra. Na entrada do canal, duas fortalezas sustentavam a corrente de ferro que poderia bloquear o porto em poucos minutos.

Ariel reunira pouco mais de duzentas embarcações, uma força imensa, mas ainda possível de abastecer e comandar: oitenta e quatro ikhizar, noventa transportes militares e cinquenta e quatro cargueiros da Companhia do Comércio Dourada. Os navios de guerra formavam dois arcos além dos faróis; os transportes águardavam fora do canal; os cargueiros, com autorizações verdadeiras e manifestos falsos, aproximavam-se dos cais como faziam havia meses.

— Começa agora – disse Ariel, ao lado de Saride. – Tudo o que preparamos será posto à prova hoje.

— Assim como disse, meu Xezar.

A princípio, nada pareceu acontecer. Pescadores recolhiam redes, guindastes descarregavam mercadorias e os sinos do porto marcavam a troca da guarda. Então três bandeiras vermelhas subiram no mastro do principal armazém da Companhia.

Era o sinal.

Nos telhados das torres do canal, os sentinelas desapareceram quase ao mesmo tempo. Homens vestidos como carregadores retiraram armas de caixas com fundos falsos. Outros fecharam as ruas que levavam aos quartéis e empurraram carroças atravessadas para impedir a passagem da cavalaria. A corrente de ferro começou a descer lentamente sob as águas.

Meses antes, os primeiros guerreiros pélganos haviam entrado em Capital como marinheiros, pedreiros e estivadores. Depois vieram os armeiros, os capitães e os homens que compraram guardas endividados. Naquela manhã, quase dois mil soldados já estavam dentro da cidade. A frota não precisava conquistar o porto do lado de fora. Precisava apenas ocupar aquilo que seus agentes abririam por dentro.

O ikhizar de Ariel atravessou o canal.

No cais, uma companhia de soldados de Capital os águardava com escudos erguidos. À frente deles estava um homem de barba curta e armadura azul.

— Xezar Ariel – apresentou-se. – Sou o capitão Ricardo Teves. Sua Majestade ordenou que eu o conduzisse ao Alto da Colina. O restante de sua frota permanecerá fora do porto até que esclareça sua presença.

— Hari’kha, capitão – cumprimentou Ariel. – Também desejo esclarecer tudo depressa.

Ricardo olhou para os navios além do farol.

— Mais de duzentas embarcações não costumam acompanhar uma visita diplomática.

— Nem uma guerra costuma esperar convites.

— Que guerra?

— A que começou em Neão e que Capital fingiu poder controlar com decretos. O restante pertence ao seu rei.

Ricardo não gostou da resposta, mas apontou para a carruagem. Ariel, Saride e o capitão entraram; seis cavaleiros os acompanharam. Os demais soldados permaneceram no cais, sem perceber que os carregadores atrás deles já haviam tomado as portas dos armazéns.

A carruagem subiu pelas avenidas abertas até o castelo. Saride reconheceu vários sinais do plano. Uma fita azul presa a uma janela indicava uma casa segura. Um carro quebrado diante do quartel oeste bloqueava o portão principal. Próximo ao mercado, homens de Claudio Malaquite descarregavam sacos de trigo sobre o acesso ao arsenal. Nada parecia parte de uma invasão quando visto isoladamente.

“A cidade caiu em pequenos pedaços antes que alguém percebesse o desenho inteiro.”

Alto da Colina continuava tão grandioso quanto na coroação de Felipe, pouco mais de seis meses antes. O castelo horizontal formava um grande “V” de pedra polida, com três torres pintadas de branco e azul. No jardim, fontes alimentavam espelhos d’água e cascatas douradas. A riqueza de Capital permanecia intacta.

Era precisamente por isso que Ariel a desejava.

Na entrada, retiraram a cimitarra de Saride e revistaram suas roupas. O guerreiro não resistiu. O plano não dependia de uma lâmina escondida.

O salão do trono estava mais protegido do que na visita anterior. Doze guardas cercavam Felipe Meneai e Fernando; outros quatro ocupavam as portas. Alguns nobres haviam sido chamados para testemunhar a reunião. Felipe usava a mesma coroa da cerimônia, mas não tinha a expressão insegura que Saride recordava. Mantinha uma das mãos sobre o braço do trono e a outra próxima à espada cerimonial apoiada ao lado.

— Fez boa viagem, Xezar Ariel? – perguntou o rei.

— Melhor do que me seria permitido, Majestade.

— Então explique por que duzentos e vinte e oito navios cercam meu porto.

Ariel não demonstrou surpresa com a precisão.

— Oitenta e quatro navios de guerra, noventa transportes e cinquenta e quatro cargueiros. O bastante para encerrar uma guerra, não para destruir um reino.

— Qual guerra? – Felipe inclinou-se para a frente. – Balázios tomou Neão há quase seis meses. Pélago não enviou um soldado quando Richard Quena reagiu, nem quando Alevede e Partas se juntaram à campanha. Agora aparece diante da minha cidade dizendo que veio salvar o Norte?

— Não vim salvar o Norte.

Fernando se aproximou de Felipe e falou algo em voz baixa. O rei ouviu sem desviar os olhos de Ariel.

— Então veio fazer o quê?

— Assumir o controle de Capital.

Um murmúrio atravessou o salão. Os guardas apertaram as lanças.

Ariel continuou:

— Pélago manterá o porto aberto, os celeiros abastecidos e os tribunais funcionando. Seus oficiais continuarão administrando aquilo que conhecem, mas o exército, o tesouro e as relações com os outros reinos ficarão sob nossa autoridade. Capital sobreviverá. Apenas deixará de decidir o destino de Pélago.

Felipe riu uma única vez, sem humor.

— E você chama isso de sobrevivência?

— Chamo de alternativa à destruição.

— Você votou a favor do decreto na Reunião Gama – lembrou Felipe. – Foi o primeiro de Pélago a apoiar o fim da escravidão. Agora pretende usar o mesmo decreto como justificativa para uma invasão.

Ariel permitiu que o silêncio se prolongasse.

— Votei porque precisava que ele fosse aprovado.

A resposta atingiu Felipe com mais força do que uma ameaça.

— Você já planejava isso.

— Eu precisava que Capital acreditasse ter vencido Pélago com palavras. Precisava que Mariel recebesse uma ofensa grande o bastante para unir os Xezar. E precisava descobrir quais casas comerciais perderiam dinheiro com o decreto e estariam dispostas a financiar uma mudança de poder. Sua Reunião Gama me deu as três coisas.

— Então comprou uma guerra com o meu voto.

— Não. Você a comprou com a convicção de que os Quatro Poderes ainda obedeciam a Capital.

Felipe olhou para Fernando. O conselheiro permanecia imóvel, mas a mão fechada sobre a toga denunciava que também começara a entender.

Ariel retirou um documento do interior da roupa.

— Esta é a sua abdicação. Você reconhecerá um conselho provisório sob a proteção de Pélago, ordenará que as guarnições entreguem as armas e permanecerá vivo, sob custódia.

— Um rei cativo para legitimar suas ordens.

— Um rei vivo para impedir que a cidade sangre.

Felipe desceu os degraus do trono.

— Um rei vivo também seria uma bandeira para a resistência. Você sabe disso. Assim que eu deixasse de ser útil, sofreria um acidente numa torre ou adoeceria durante a viagem.

Ariel não negou.

— Assine e talvez descubra que está errado.

— Se eu assinar, todos saberão que estou errado.

Um sino tocou ao longe. Depois outro. Não era o ritmo habitual de Capital.

Um oficial surgiu na porta lateral, ofegante.

— Majestade, as torres do canal foram tomadas! A corrente está no fundo, e homens armados controlam os armazéns!

Antes que terminasse, um terceiro sino ecoou da cidade baixa.

— O Portão das Marés – murmurou Fernando.

O portão fortificado que ligava as docas ao restante da cidade fora construído para conter invasores desembarcados no porto. Naquele momento, porém, era aberto por soldados que já estavam do lado de dentro.

Um dos guardas da porta puxou a tranca e lançou uma espada curta pelo chão. A arma deslizou até Saride. O homem usava a armadura de Capital, mas o cumprimento que fez com a cabeça era pélgano.

A infiltração chegara ao castelo.

— Protejam o rei! – ordenou o comandante da guarda.

O salão explodiu em movimento.

Saride alcançou a espada antes do primeiro golpe. Aparou a lança de um guarda, girou o corpo e atingiu o homem com o punho da arma. Dois soldados pélganos entraram pela porta lateral; atrás deles, ouviam-se aço, passos e ordens contraditórias nos corredores.

Os guardas de Felipe não recuaram. Formaram uma barreira diante do trono enquanto Fernando tentava conduzir os nobres para uma passagem interna.

— Fechem a saída norte! – gritou Felipe. – Fernando, leve-os para a torre!

Não era a ordem de uma criança assustada. Felipe compreendia que os nobres vivos poderiam organizar a resistência e que Fernando era mais valioso do que qualquer joia do castelo.

Ariel continuou parado entre os degraus e o centro do salão.

— A cidade já está perdida, Felipe.

— A cidade não é o porto.

— Hoje, é. Sem o porto, Capital não recebe comida, reforços nem moeda. Quando meus navios desembarcarem, seus quartéis estarão isolados e suas torres sem comando.

— Então precisará conquistar cada rua.

— Só se você obrigá-los a lutar.

Felipe puxou a espada cerimonial. A lâmina era mais leve do que parecia e, embora não fosse um guerreiro, ele não a segurou como uma criança. Assumiu uma guarda simples, aprendida para cerimônias e duelos de corte.

— Eu não ordenarei que se ajoelhem.

— Então ordenará que morram? – perguntou Ariel.

— Ordenarei que decidam por si mesmos.

Saride derrubou o último guarda entre ele e o rei. Tinha um corte no ombro e sangue escorrendo pela mão, mas ainda se movia com a precisão que o tornara temido em Pélago.

— Afaste-se – Felipe o advertiu.

Saride avançou.

O primeiro choque de lâminas fez o rei recuar um passo. No segundo, Felipe usou a lateral do trono para limitar o movimento do adversário. Não possuía a técnica de Saride, mas conhecia o salão e percebia depressa onde poderia compensar a falta de experiência. Aparou um golpe, desviou de outro e acertou o rosto de Saride com o pomo da espada.

O guerreiro cambaleou. Uma linha de sangue se abriu acima de sua sobrancelha.

Felipe atacou de novo. Por um instante, obrigou Saride a ceder terreno diante de todos.

— Majestade! – Fernando tentou alcançá-lo, mas Ariel bloqueou o caminho.

— Deixe-o escolher – disse o Xezar.

Saride abandonou a pressa. Passou a observar os ombros do rei, o apoio dos pés e o instante em que sua respiração falhava. Felipe percebeu a mudança tarde demais. O pélgano simulou um golpe alto, recebeu a defesa esperada e girou a lâmina por baixo. A espada de Felipe voou até os degraus.

Saride apontou a arma para o peito do rei.

— Ajoelhe-se.

Felipe olhou para a espada caída, depois para a coroa refletida no ouro do trono.

— Um rei não é a coroa – respondeu. – E um reino não pertence a quem se senta naquela cadeira.

Em vez de se ajoelhar, lançou-se sobre Saride.

O golpe foi rápido. A lâmina atravessou o peito de Felipe antes que ele alcançasse o adversário. O rei ainda conseguiu agarrar o braço de Saride e permaneceu de pé por um instante, como se recusasse até mesmo a cair diante de Ariel.

— Você pode tomar a cidade – disse com dificuldade. – Mas nunca fará parecer que ela o escolheu.

Saride retirou a espada. Fernando amparou Felipe antes que tocasse o chão. O rei tentou respirar mais uma vez e então ficou imóvel nos braços do conselheiro.

O combate cessou pouco a pouco. Os guardas sobreviventes baixaram as armas ao verem o corpo do rei.

Saride voltou-se para Fernando.

— Já basta – ordenou Ariel.

O conselheiro fechou os olhos de Felipe. Quando se levantou, havia lágrimas em seu rosto, mas sua voz permaneceu firme.

— Se me matar, os capitães lutarão sem comando. Se me prender, farão o mesmo. A cidade se dividirá entre os que acreditam poder vencê-lo e os que tentarão saquear o que restar.

— Por isso você continuará livre – respondeu Ariel. – Sob vigilância.

— Não basta. Se quer minha cooperação, quero garantias.

Ariel o avaliou com novo interesse.

— Fale.

— Nenhum saque. Nenhuma punição coletiva. Os templos, hospitais e celeiros permanecerão sob administração de Capital. Os soldados que entregarem as armas serão libertados depois de registrados. Os nobres presentes ficarão como garantias, não como cadáveres. E seus homens obedecerão às leis da cidade enquanto estiverem dentro das muralhas.

— Em troca?

— Ordenarei que as guarnições parem de lutar, abrirei os celeiros para evitar pânico e manterei os funcionários em seus postos. Direi ao povo que Felipe morreu recusando-se a abdicar, mas também direi que continuar a batalha hoje custaria milhares de vidas sem devolver-lhe o trono.

— Você preservará a arrecadação e reconhecerá a autoridade militar de Pélago.

— Reconhecerei a ocupação. Não a legitimidade.

Ariel quase sorriu.

— Para esta noite, é suficiente.

Fernando retirou a coroa da cabeça de Felipe e a colocou sobre o assento do trono, não no colo de Ariel.

— Isto não o torna rei.

— Não pretendo ser rei de Capital – respondeu o Xezar. – Pretendo que o reino obedeça a Pélago.

Do lado de fora, os sinos continuavam tocando. Pelas janelas altas, Saride viu os primeiros ikhizar cruzarem o canal aberto. No alto das torres portuárias e sobre o Portão das Marés, as bandeiras de Pélago substituíam as de Capital.

A cidade não havia sido destruída, nem estava completamente dominada. Ainda existiam quartéis, bairros e nobres capazes de resistir. Mas seu porto, seu rei, seu conselho e suas rotas de abastecimento estavam nas mãos de Ariel.

Capital começara a cair meses antes, quando o primeiro soldado atravessara seus portões vestido de carregador.

Naquela manhã, apenas descobrira isso.


Notas finais
Esse demorou, tentarei ser mais rápido com o próximo!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.