As Crônicas de Orbe
4 QUARTA HISTORIA,
CENA 1
A Mesa Virada
Era pouco depois do início da tarde, e até as clareiras pareciam arder no acampamento. Milhares de soldados e integrantes de companhias livres ocupavam a base do morro sobre o qual Neão fora erguida. O céu permanecia cinzento, e o vento frio atravessava o vale sem encontrar obstáculo.
“E, para piorar, temos este maldito vento.”
Mesmo coberto pela armadura e por uma pele de Fenrir, Rickon sentia os ossos tremerem sob o sopro constante do Norte. Definitivamente, o outono não era uma estação de que gostasse.
“Mas, se tudo der certo, termina esta noite.”
O cerco já durava uma semana. Até aquela manhã, Atur conduzira ataques progressivos, pressionando as defesas de Neão sem comprometer todo o exército. Isso mudara quando recebera a carta de Rober. A estratégia de camadas fora substituída por uma única investida, brutal e decisiva, a ser realizada naquela noite.
Rickon não conseguia esconder a decepção. A mudança encerrava muitos dos planos que cultivara desde o início da campanha.
“A única coisa boa é que eles ainda não sabem disso...”
Neão era uma cidade difícil de conquistar. Sua proximidade com o Torrente permitia que os reinos aliados do sul enviassem auxílio com relativa rapidez. Para piorar, fora construída no alto de um morro e possuía apenas duas entradas, uma ao norte e outra ao sul. Os portões de madeira maciça, protegidos por largas placas de ferro, completavam muralhas tão altas que faziam a cidade parecer mais uma fortaleza.
As baixas seriam inevitáveis.
“Mas, se não formos rápidos, teremos sorte se restar alguém vivo para contá-las.”
O pavilhão de Atur Kaiser erguia-se à sua frente. No topo da tenda negra, o estandarte das espadas cruzadas atrás da coroa de ferro agitava-se com violência.
Os guardas fizeram uma reverência quando Rickon se aproximou da entrada.
“Estranho. Não vejo nenhum Raider...”
Atur trouxera três dos cinco que o serviam: Andrei, o Furioso; Elke, o Inquebrável; e Gunter, o Machado Sorridente. Guerino da Muralha e Rae, o Pastor, haviam permanecido em Pugna com a princesa Mikaella.
— Como estão as coisas na entrada sul, Tanos Rickon? — perguntou Atur Kaiser, sem tirar os olhos do mapa.
— Meus homens estão prontos, Majestade. — A vela bruxuleava, fazendo as sombras dos dedos de Atur percorrerem o desenho das muralhas. — Não encontrei nenhum dos Raiders. Posso saber o motivo?
Atur o encarou por alguns instantes. Conservava os mesmos olhos frios de que Rickon se lembrava. Aos trinta e três ciclos inteiros, o rei era alto até mesmo para um baláziano. Tinha cabelos negros, pele alva e olhos de um azul glacial. Trajava a armadura de aço sobre uma proteção de couro e cobria os ombros com uma pesada pele de urso.
— Estão com Tanos Manuelk. Iniciaremos o ataque esta noite — respondeu, mudando de assunto. — Espere pelo menos meio tempo depois do início do confronto no portão norte antes de mover suas tropas.
— Alguma notícia de Rober? — Rickon perguntou, embora já conhecesse a provável resposta. Atur enviara batedores ao Torrente, e ele fizera o mesmo.
— Não resistirá por muito tempo. Agiu bem: contratou companhias livres e duas embarcações, com as quais montou um bloqueio no trecho mais estreito do rio. Ainda assim, diante da quantidade de inimigos, é apenas uma questão de tempo até que as companhias o abandonem ou sejam vencidas. — Atur lançou-lhe um olhar frio. — Se sairmos vitoriosos, ficarei em dívida com ele. E você também, Tanos.
— Com certeza, Majestade. Se todos sairmos vivos, tratarei de considerar o que fazer a respeito.
Atur afastou-se do mapa e deixou o corpo cair numa cadeira. Pegou uma taça de vinho e voltou a observá-lo com seus olhos de inverno. De todas as pessoas que conhecera, o rei era a única que Rickon jamais conseguira compreender. Aquilo o enfurecia mais do que o amedrontava.
— Terminamos por hoje, Tanos Rickon.
Rickon fez uma reverência e se preparou para sair.
— Antes que vá — prosseguiu Atur —, reforce minhas ordens a todas as companhias: nenhum saque, nenhuma invasão de residência e nenhuma violência contra os habitantes de Neão. Quem desobedecer será executado.
— Será feito, Majestade.
Atur levou a taça à boca.
— Espere. Ainda tenho uma última pergunta.
Rickon se virou, surpreso.
— Acha que venceremos, Tanos?
Observou atentamente a figura imponente diante dele. Atur não parecia temer nada, mas seus olhos e sua expressão impassível jamais revelavam tudo.
“Está me testando?”
— Com certeza, Majestade. Nós venceremos.
— O que lhe dá tanta certeza? Esta é uma batalha em que estamos em completa desvantagem.
— É verdade. — Rickon sorriu e retomou o caminho da saída. — Por isso, cabe a mim virar a mesa.
Fez outra reverência e deixou o rei entregue aos próprios pensamentos.
“Lamento, Atur, mas terei de mudar um pouco as coisas...”
CENA 2
Os Mortedrai
O salão parecia ainda mais pesado sob o clima denso e sufocante. Divisar atravessara muitas guerras ao longo de sua história, mas era a primeira vez que corria o risco de desaparecer. Também era a primeira vez que Rikario sentia aquele tipo de medo: um temor silencioso, capaz de lhe consumir o espírito e fazê-lo imaginar a perda de tudo que amava.
— Não há dúvida, Majestade — informou Raider Matros. — Balázios prepara algo grandioso para hoje. Raider Adler confirmou, da muralha norte, que todos os batalhões estão entrando em formação aos pés da cidade.
— Então o ataque será no portão norte... — Rikario voltou-se para o pai, que escutava em silêncio. — Peço permissão para seguir ao portão sul com uma força menor, a fim de evitar qualquer surpresa. O responsável por aquele lado é Tanos Rickon Mester, e ele não é um homem que devamos subestimar.
Roborion Mortedrai recostou-se no trono enquanto avaliava as possibilidades. Aos quarenta ciclos inteiros, envelhecera pouco e ainda parecia estar no auge de sua força.
— Se Atur Kaiser pretende nos atacar desta maneira, é um verdadeiro tolo — declarou o rei com sua voz grave. — Neão não cairá em uma única noite. Mesmo que caia, o preço será muito maior do que o exército que ele trouxe pode pagar. — Examinou os presentes. — Respondam-me: por que Atur abandonaria uma estratégia eficaz para realizar um ataque que lhe custará mais da metade dos homens?
— Algo deve ter acontecido — arriscou Rikario.
O cerco isolara a cidade havia dias. Nenhuma notícia entrava ou saía, e todos eram obrigados a trabalhar com suposições.
— Exatamente — disse Roborion. — Alguma coisa colocou Atur numa situação desesperadora, e sua única saída é tentar uma investida maciça. Se acredita que romperá Neão em uma noite, engana-se. — Tornou a olhar para o filho. — Faça como sugeriu. Siga para o portão sul com um pequeno contingente e leve Raider Matros. O restante reforçará o norte.
— Majestade — chamou Bor Mikel Aradine, do fundo do salão. — E se algo acontecer? Talvez fosse prudente enviar mais soldados. Tenho algumas companhias contratadas dentro da cidade. Posso acompanhar o príncipe Rikario e Raider Matros. Além disso, conheço Tanos Rickon. Sei como é perigoso e talvez possa ser útil.
Roborion não gostava de Mikel. O homem era ganancioso demais e possuía uma concepção de honra bastante flexível.
“Mas não posso dispensar alguém que conhece Rickon.”
Se Mikel permanecesse perto, também seria mais fácil vigiá-lo.
— Pode fazer como sugeriu, Bor Aradine. Espero que seja útil ao meu filho.
— Assim será, Majestade.
— Muito bem. Quanto aos demais, eu estava pensando... — Roborion se interrompeu ao ver a filha descer as escadas. — O que faz aqui, Mitzi? Não mandei que permanecesse com as outras damas?
— Mandou, meu pai. Mas já faz muito tempo que não recebemos notícias. Acredito que também possa ajudar.
— Pode ajudar ficando com sua mãe e as demais. Rikario, acompanhe sua irmã de volta.
Rikario suspirou ao ver a expressão séria da irmã.
“Ela é uma filha do Norte, afinal.”
Seguiu ao encontro dela.
— Você deveria facilitar as coisas — disse enquanto percorriam o corredor. — A situação já é complicada o bastante para...
— Sou tão filha dele quanto você, Rikario. Nasci no Norte como você. Por que não tenho o direito de participar?
— Duas palavras: rainha Lauren.
— Ela nunca entenderia. Para nossa mãe, devo viver como as mulheres do sul. O pior é que convenceu nosso pai dessa loucura.
Lauren viera de um dos Reinos Menores do Sul. Seu casamento com Roborion fora parte de um acordo para expandir o comércio de Divisar. Não era uma mulher feia, embora o tempo tivesse sido menos gentil com ela do que com o rei.
Para Lauren, Mitzi era uma dama e, portanto, seu lugar ficava na corte, não em salões onde se discutia guerra. Roborion aceitara aquela visão, em parte porque a filha era a única ruiva de Neão e aprendera cedo a valer-se da aparência incomum para conseguir o que desejava.
— Eu a entendo, pequenininha — provocou Rikario, embora a diferença de altura entre eles fosse mínima. — Mas vamos esquecer isso por enquanto. Depois conversarei com nosso pai.
— Ah, você conversará com ele? — Mitzi perguntou com cinismo. — Gostaria de ver como pretende fazê-lo mudar de ideia, pequenininho.
Rikario sorriu. Se o fato de terem vindo ao mundo no mesmo dia não fosse suficiente para que gostasse dela, sua personalidade certamente seria.
“Nenhum de nós puxou nossa mãe. Ainda bem.”
— É melhor entrar.
— Se não existe outro jeito... Mas antes, diga-me: como estão as coisas?
— Balázios investirá com força esta noite. Eles estão ficando sem tempo, mas não se preocupe. Não atravessarão aquelas muralhas sem perder mais homens do que podem sacrificar.
— Faz sentido terem escolhido hoje.
— Por quê?
Mitzi lançou-lhe um olhar divertido.
— Hoje é o primeiro dia do ciclo lunar. Portanto, não...
— ...teremos lua — completou Rikario.
— É realmente uma pena que eu precise ficar de fora. — Ela o abraçou. — Mas não há nada que eu possa fazer agora. Cuide-se.
— Você também.
Mitzi entrou, e Rikario permaneceu no corredor por alguns instantes.
“Sem lua, teremos problemas com os arqueiros. Preciso levar isso ao conselho.”
Se agissem depressa, ainda poderiam compensar a escuridão.
“É mesmo uma pena que você não possa participar.”
Riu ao se lembrar da irmã e retornou ao salão.
CENA 3
Espadas Livres
Aquele era, sem dúvida, um grupo estranho.
O sulista ruivo — se é que aqueles cabelos desbotados mereciam ser chamados de ruivos — apresentara-se como Pedro.
“Se esse for mesmo o nome dele.”
Parque usara tantos nomes ao longo da vida que já fora João, Carlos, Mateus e até Antonius, sendo o último responsável por uma dor de cabeça memorável. Para aquele grupo, entretanto, continuava sendo Parque.
Pedro falava demais, tinha um gosto terrível para piadas e carregava uma flauta de canos que tocava incessantemente. Parque gostaria de saber se manejava a espada tão bem quanto manejava aquele tubo.
“Descobrirei mais tarde.”
Havia também Raed, um pélgano que, para sua sorte, falava pouco. Ainda assim, conseguia ser irritante por causa do sotaque áspero.
Parque lutara poucas vezes ao lado de pélganos. Pélago ocupava a extremidade sul de Orbe, distante dos conflitos do Norte. Seus guerreiros eram conhecidos pelas espadas curvas, as chamadas cimitarras, embora Parque duvidasse da eficiência delas diante de armaduras pesadas.
Raed tinha pele morena, olhos ligeiramente puxados e estatura mediana. O desconforto que demonstrava sob tantas camadas de roupa revelava que não estava acostumado ao frio.
“Um pélgano no Norte. Isto já seria estranho o bastante.”
— Temos novas ordens — anunciou Sam. — Seguiremos sob o comando de Tanos Rickon, junto com outros grupos.
Sam e Bartz eram os mais estranhos entre todos.
Bartz era o maior homem que Parque já vira. Ultrapassava os homens mais altos por pelo menos uma cabeça e meia e possuía a força de um demônio do gelo. Sob a armadura de ferro, parecia ainda mais monstruoso. Os cabelos longos e acinzentados tocavam-lhe os ombros, e os olhos castanho-escuros sustentavam uma expressão fria e poderosa.
Era o primeiro Derekth que Parque encontrava. Os boatos sobre aquele povo pareciam bastante próximos da realidade.
Sam provavelmente também era um Derekth, ao menos pela tonalidade dos poucos fios de cabelo que escapavam do capacete. Não era tão alto quanto Bartz, mas tampouco podia ser considerado baixo. Usava uma cota de malha sem aberturas visíveis e jamais retirava o elmo. Sua voz saía abafada, obrigando Bartz a repetir parte do que dizia.
Curiosamente, era Sam quem liderava o grupo.
— Com o Tanos? — perguntou Pedro. — Ora, até degenerados irrepreensíveis como nós têm um pouco de sorte, não acham?
Parque balançou a cabeça.
“Já está frio demais, e ainda preciso ouvir as merdas desse sujeito.”
Apesar disso, iniciar uma incursão sob o comando de Rickon era uma boa notícia. Como mercenários — ou Espadas Livres, como eram chamados no Norte —, receberiam pouco além do pagamento se sobrevivessem. Os soldados regulares certamente tomariam os melhores despojos antes deles.
“Mas, se estivermos com o Tanos, talvez as coisas sejam diferentes.”
— Fale por si — respondeu Sam. — Agora se mexam. Mandaram-nos ser rápidos.
O grupo recolheu os pertences e se juntou às companhias que entravam em formação. Parque conhecia a guerra o bastante para perceber que algo estava errado. Não havia razão aparente para interromper uma estratégia de cerco que vinha funcionando.
“Temos um problema. Um problema grave.”
Já participara de campanhas nas quais Rickon estivera presente, embora nunca sob seu comando direto. O Tanos de Val da Aurora era contraditório, imprevisível e manipulador. Entre todos os homens que Parque conhecera, Rickon era um dos poucos que realmente temia.
A área designada ficava afastada do restante do acampamento. Quando chegaram ao pavilhão de Rickon, muitas dezenas de homens já esperavam, em sua maioria Espadas Livres.
O vento encontrava cada abertura das armaduras e transformava a espera numa tortura.
“É como correr nu sobre a neve.”
Parque se perguntou como Raed e Pedro suportavam aquilo. Para Bartz e Sam, porém, a temperatura devia parecer agradável. As Ilhas de Skrathos ficavam no extremo norte de Orbe e, até onde sabia, lá só existia inverno.
Rickon saiu do pavilhão.
— Ótimo. Parece que todos chegaram. Hoje realizaremos um ataque maciço contra Neão. — Fez um sinal, e alguns soldados atiraram sacos diante dos grupos. — Retirem suas armaduras e vistam o que encontrarem aí. Voltarei mais tarde com novas instruções. Até lá, permaneçam nesta área.
O Tanos se afastou sem oferecer explicações.
Rickon beirava os quarenta ciclos, mas ainda era forte e astuto como um verdadeiro lobo. Sua armadura negra trazia, em detalhes dourados, o busto de Fenrir sobre duas espadas cruzadas. O elmo lembrava a cabeça da criatura, e a pele que lhe cobria os ombros também pertencera a um dos lobos gigantes.
— Sou só eu ou isto está fedendo? — perguntou Pedro.
— Não é só você, meu colega estúpido — respondeu Parque. — Parece que fomos envolvidos em algo grande.
Bartz abriu um dos sacos. Lá dentro havia roupas e peças de armadura usadas por uma companhia mercenária do Norte.
“No que está pensando, Tanos?”
Raed examinou as roupas com preocupação. Sua expressão sugeria que começava a se arrepender de ter atravessado Orbe. Pélago possuía o mar de um lado e um enorme deserto do outro; seus habitantes vestiam-se para o calor, não para o vento cortante do Norte.
— Vocês esperem aqui — disse Bartz, traduzindo as palavras abafadas de Sam. — Voltaremos logo.
— Talvez devêssemos encontrar um lugar quente para nos trocar — sugeriu Pedro depois que os dois Derekths se afastaram.
— Boa ideia — concordou Raed. — Não sei se conseguirei fazer isso aqui fora.
Armaram uma pequena barraca e acenderam uma fogueira. Sam e Bartz só retornaram uma hora depois. Parque esperava finalmente ver o rosto de Sam, mas o líder usava uma capa que lhe cobria a cabeça e quase todo o corpo.
“Ele realmente esconde alguma coisa.”
— Sabe — começou Pedro —, talvez falte um pouco de confiança entre nós...
O olhar de Bartz o silenciou. Sam pousou a mão sobre o braço do companheiro, fazendo-o relaxar.
— Todos escondem alguma coisa — disse Sam. — Não pergunto por que um pélgano veio lutar tão longe de casa. — Fitou Raed e depois Pedro. — Nem por que um sulista de Hebron serve a um reino inimigo do seu povo. Muito menos por que um pirata abandonou o mar para participar desta guerra.
Seus olhos ocultos pelo elmo voltaram-se para Parque.
“Como descobriu?”
Parque abandonara a pirataria havia dois anos. Todos os piratas carregavam a marca do grupo a que pertenciam; a dele, um martelo sobre uma caveira, ficava no ombro esquerdo. Não se lembrava de tê-la deixado visível. Na maior parte de Orbe, aquela marca era uma sentença de morte.
Teve vontade de exigir uma explicação, mas decidiu permanecer calado.
“Sam está certo. Todos nós temos algo a esconder.”
CENA 4
Defensores de Neão
As tochas amenizavam o frio e lançavam alguma luz sobre a muralha. Do alto, Adler possuía uma visão privilegiada do exército de Atur Kaiser. Quando a escuridão se tornasse completa, seus arqueiros seriam os primeiros a atacar.
— Senhor! — chamou um soldado. — Aqui está o óleo.
Homens carregavam baldes largos até as posições dos arqueiros. Mais tarde, mergulhariam neles as pontas preparadas para as flechas incendiárias.
“Isso resolverá parte do problema.”
Adler não percebera, até receber o aviso de um dos soldados, que aquela seria uma noite sem lua. Mandara preparar imediatamente uma contramedida. O fogo revelaria as formações inimigas e permitiria que os arqueiros corrigissem a pontaria depois da primeira saraivada.
— Distribuam os baldes ao longo desta parte da muralha. Quero uma reserva em cada posição.
Observou os batalhões espalhados pela base do morro.
“São muitos. Quando a noite cair, não conseguiremos vê-los.”
O vento agitou seus cabelos claros e encaracolados. Aos trinta e dois ciclos completos, Adler passara a maior parte da vida defendendo Neão. Aquela era sua cidade. Sua esposa e seu filho o aguardavam em casa, mas ele não lutava apenas por eles. Lutava porque aquele era o seu dever como Raider.
Ainda se lembrava do dia em que Roborion lhe concedera o título.
O Norte não valorizava o nascimento da mesma maneira que os reinos do sul. Ali, o aço era capaz de elevar um homem, e fora por meio da espada que Adler conquistara seu lugar. Também seria por ela que expulsaria os invasores.
— Roger, assuma por alguns instantes — ordenou ao segundo em comando. — Vou verificar o trabalho do comandante Rener.
— Sim, senhor.
Roger tentou esconder a aflição, mas Adler a percebeu. Gostava do rapaz. Era forte como um filho do Norte deveria ser e possuía a esperteza concedida por Perpétuo. Se sobrevivesse àquela noite, avançaria rapidamente.
Havia uma diferença entre guerrear para conquistar e guerrear para defender. Ao defensor cabia queimar os campos para negar alimento ao inimigo, envenenar os poços para impedir que saciasse a sede e abandonar aqueles que viviam longe demais das muralhas para serem salvos.
“É o preço.”
O Norte vivia pela espada e, pela espada, encontraria o próprio fim. Adler, contudo, acreditava que naquela noite o fim pertenceria a Balázios.
Desceu a escada interna e seguiu até o portão norte. Rener era um grande comandante e o melhor aluno que já tivera. Aos vinte e três ciclos e meio, vinha de uma família importante de Neão, o que significava que o aço corria em seu sangue muito antes de nascer. Também sofria do terrível mal de ser um mulherengo incorrigível.
“Não me surpreenderia se já tivesse meia dúzia de bastardos.”
— Vejo que mantém tudo sob controle, comandante — comentou Adler.
Rener abriu o sorriso largo e despreocupado de sempre. Usava uma cota de malha e uma manta feita de peles de raposa. Deu uma ordem para que os homens abrissem passagem e foi ao encontro do Raider.
— Perguntava-me quando viria conferir meu trabalho. Fiz alguma coisa certa?
O deboche era um defeito frequente entre os talentosos. Ainda assim, Rener tinha motivos para estar satisfeito.
A primeira linha era formada por lanceiros, encarregados de manter os invasores afastados. Atrás deles estavam soldados com escudos, espadas, clavas e maças, preparados para um combate prolongado. Arqueiros ocupavam as duas escadas que ligavam o pátio às muralhas, prontos para atingir qualquer baláziano que atravessasse o portão.
“Uma boa formação.”
— Ainda há trabalho a fazer, mas servirá por enquanto — respondeu Adler.
— Como disser, Raider.
Rener olhou para a comitiva que se aproximava.
— Ele não deveria estar protegendo o portão sul com o príncipe?
Adler também estranhou a presença de Raider Matros, acompanhado de algumas centenas de homens.
— O que o traz aqui? — perguntou. — O sul estava tão tranquilo que veio procurar ação?
Matros lançou-lhe um olhar pouco receptivo à provocação e ergueu a mão. O batalhão atrás dele entrou em descanso.
— Aradine — respondeu com raiva. — Ainda matarei aquele desgraçado. O príncipe mandou-me reforçar este portão.
“Então discutiram.”
Adler nunca gostara de Mikel Aradine. Fosse pelo caráter duvidoso ou pela antiga amizade com Rickon de Val da Aurora, o Bor representava muito pouco daquilo que um filho do Norte deveria ser. Se Rikario separara Matros e Mikel, provavelmente fizera a melhor escolha.
“Se Aradine discutisse ordens comigo, eu acabaria matando-o.”
— Seja bem-vindo — disse Rener. — Sempre podemos usar mais homens.
— Como quiser. — Matros observou o céu. — Está escurecendo depressa demais, não acham?
Antes que Adler pudesse responder, três chamados de corno subiram da base do morro.
Arauuu... Arauuu... Arauuu...
“Começou.”
— Atenção! — berrou Rener. — Formação! Quero todos vocês prontos para morrer por esta cidade, embora certamente não a mereçam. Agora andem!
O pátio se transformou em caos. Soldados correram para as posições, e Matros conduziu seu batalhão até o local indicado. Adler voltou a subir as escadas, sentindo o peso da armadura e do frio.
Os arqueiros o aguardavam com as mãos tensas sobre os arcos.
“Estão nervosos.”
Ao longe, o exército de Balázios iniciou a marcha.
“Partiram agora para não precisarem de tochas quando estiverem ao alcance.”
Não importava. Balázios não venceria. Não naquela noite.
CENA 5
Fogo na Escuridão
O céu escurecia depressa enquanto Atur avançava em direção a Neão. A subida era pior do que esperava. O vento empurrava os homens para trás, e o terreno irregular castigava pernas já fatigadas por uma semana de cerco.
O flanco esquerdo, comandado por Tanos Manuelk, seguia atrasado. O direito, sob a liderança de Raider Elke, também perdia terreno. Rickon deveria abandonar a simulação no sul depois do início do ataque e contornar a cidade com seus homens, reunindo-se à investida principal.
“Logo cabe a mim virar a mesa.”
Atur lembrava-se das palavras com que o Tanos deixara o pavilhão. Havia nelas uma insinuação de que os acontecimentos não seguiriam o plano. Aquilo o incomodava.
— Majestade, o aríete precisa de mais homens — informou Raider Andrei.
De todos os Raiders, Andrei, o Furioso, era o mais confiável. Apesar do nome, mantinha-se sempre calmo no campo de batalha. Atur ainda não sabia o que fizera para receber o título.
O primeiro aríete avançava com dificuldade. Dois cavalos o puxavam, mas homens eram necessários para guiar os animais e impedir que a máquina tombasse nas pedras.
— Vocês seis! — Atur apontou para os soldados mais próximos. — Ajudem no aríete.
Muito tempo passara desde o início da marcha. Na escuridão, já não conseguia enxergar os outros batalhões nem os caminhos que percorriam.
“Um preço pequeno pela vantagem.”
As muralhas de Neão começavam a se destacar à frente, iluminadas por incontáveis tochas. Atur decidira manter seu exército no escuro. A escolha retardava o avanço, mas impediria que os arqueiros identificassem imediatamente os homens e os aríetes.
Trouxera três máquinas, uma para cada batalhão. A separação diminuía o risco de perder todas numa única saraivada.
“Você cairá.”
Somente os Tanos e Raiders conheciam a gravidade da situação. Para os demais, aquela era apenas a etapa decisiva do cerco. Atur não queria imaginar como lutariam se soubessem que, em caso de derrota, ninguém retornaria a Balázios.
A carta de Rober lhe oferecera duas escolhas: retirar o exército e voltar como derrotado ou arriscar tudo em uma única noite. Se fracassasse, os reforços que Rober tentava conter no Torrente se uniriam aos defensores de Neão e destruiriam o que restasse da campanha.
— Majestade — sussurrou Andrei. — Entramos no alcance.
“A qualquer momento...”
A formação tornou-se mais lenta e silenciosa. A própria respiração de Atur parecia alta demais. Na muralha, sombras se moveram entre as tochas.
— Majestade...
— Estou vendo.
Os arqueiros abaixaram os arcos. Um comando distante cortou a noite, e o céu pareceu incendiar-se.
— ESCUDOS!
As flechas caíram sobre a formação trazendo fogo e destruição. Atur não esperava que os defensores tivessem preparado pontas incendiárias. Uma flecha raspou sua armadura; outras três se cravaram no escudo. Antes que os homens se recuperassem, outro clarão surgiu no alto.
— TODA VELOCIDADE À FRENTE!
Uma nova saraivada desceu. O fogo revelava os sobreviventes aos arqueiros e transformava cada formação atingida num alvo ainda mais visível. Um soldado próximo teve a pele que usava sobre a armadura incendiada. Lançou-se ao chão, mas o movimento apenas espalhou as chamas. Seus gritos se misturaram à marcha.
“A música que tocarei no fim desta guerra será escrita com os gritos de vocês.”
Quando o portão já estava próximo, os cavalos do primeiro aríete relincharam em agonia. Atur viu os animais tombarem sob dezenas de flechas. Alguns soldados ainda tentaram salvar a máquina.
— DEIXEM O ARÍETE! SIGAM PARA O PORTÃO!
Muitos homens sobreviveram às primeiras saraivadas, mas o flanco direito era castigado sem interrupção.
“Encontraram o segundo.”
No lado esquerdo, Manuelk abandonara o próprio aríete e dispersara os soldados, que corriam com escadas em direção às muralhas. Restava apenas a máquina de Elke.
O Inquebrável fazia jus ao nome. Atur jamais conhecera alguém capaz de erguer uma formação defensiva tão sólida. Nem mesmo Edor, seu irmão, conseguira superá-lo naquele aspecto.
“Mesmo traidor, Edor foi um gênio.”
— Raider Elke! — gritou Atur ao alcançar o flanco.
— Majestade? O que está fazendo...
— Não há tempo. Este é o último aríete. Os outros foram perdidos.
Outra chuva de flechas caiu. Atur abaixou o corpo e ergueu o escudo. Quando tornou a se levantar, Elke permanecia de pé, mas uma flecha lhe atravessava o pescoço.
Mais um nome para a conta de Neão.
— TODOS PROTEGENDO O ARÍETE! FORMEM UMA PAREDE DE ESCUDOS!
Homens substituíram os mortos e feridos. Outras escadas foram erguidas contra as muralhas. Manuelk conseguira alcançar o alto pelo flanco esquerdo, obrigando parte dos defensores a abandonar os arcos e sacar as espadas.
Atur procurou o contingente que deveria vir do sul. Um grupo finalmente apareceu entre as sombras.
— Onde está Tanos Rickon? — perguntou a Gunter, que liderava os recém-chegados.
— Disse que ficaria para trás mais algum tempo, Majestade, para dar maior credibilidade ao ataque simulado.
“Não gosto disso. O que pretende, Rickon?”
— Leve os homens ao aríete. Derrubem aquele portão.
Gunter obedeceu. Uma nova parede de escudos se formou enquanto soldados exaustos eram substituídos junto à máquina.
“Enfim, uma oportunidade.”
— Majestade! — gritou alguém.
Óleo escorreu do alto da muralha, cobrindo o aríete, o portão e os homens ao redor.
— AFASTEM-SE!
Uma flecha incendiária atingiu a estrutura. Em um instante, tudo foi envolvido pelo fogo. Soldados correram em desespero, e a parede de escudos se desfez. Os arqueiros aproveitaram a abertura.
Atur observou a cena com repulsa.
“Não fracassarei. Não me tornei rei para isso.”
Ergueu o corno que trazia às costas e soprou.
Auuu... Auuu... Auuu...
— NÃO EXISTE VOLTA! — bradou quando os rostos se viraram em sua direção. — SE PERDEREM AQUI, PERDERÃO TUDO!
Tocou novamente e ergueu o escudo.
“Que Perpétuo receba minha alma.”
Correu para o aríete em chamas. Dezenas de soldados o acompanharam. Sob o óleo incendiado, as tábuas externas do portão começaram a queimar, enquanto o calor deformava encaixes e expunha pontos frágeis entre as placas de ferro. O que deveria destruir o aríete também enfraquecia a própria entrada.
Os homens empurraram a máquina e golpearam uma vez. Depois outra. E outra.
Atur sentia o calor atravessar a armadura e queimar-lhe a pele. Por um instante, achou quase engraçado finalmente não sentir frio.
CENA 6
A Flecha Solitária
— ATIRAR! — ordenou Rikario.
As flechas incendiárias subiram da muralha sul e desapareceram na escuridão. Nenhum grito respondeu. Nenhuma formação foi revelada pelas chamas.
“Onde estão?”
O combate no portão norte podia ser ouvido mesmo daquele lado da cidade. O choque distante do aríete, os gritos e o brilho ocasional das saraivadas mostravam que a verdadeira batalha ocorria lá.
— ATIRAR!
Outra chuva de fogo caiu sobre um terreno aparentemente vazio.
— Alteza, talvez devamos aceitar que nenhum ataque acontecerá aqui — disse Mikel Aradine. — Rickon provavelmente levou todos os homens para o norte.
Rikario já estava cansado das opiniões do Bor. Precisara afastar Raider Matros para impedir que os dois chegassem às vias de fato. Naquele momento, porém, Mikel podia estar certo.
“Ou é exatamente isso que Rickon deseja que eu pense.”
Se permanecesse no sul, talvez condenasse o portão norte. Se partisse, poderia abrir o caminho para a armadilha que temia.
“Perpétuo, mostre-me o caminho.”
— Siga para o norte, Alteza — insistiu Mikel. — Assumo este lado. Se qualquer coisa acontecer, darei o alarme.
A proposta era tentadora. As companhias contratadas por Mikel poderiam sustentar o portão por algum tempo.
— Que seja, Bor Aradine. O comando é seu. Deixarei metade dos arqueiros para qualquer eventualidade.
— Parece desnecessário. Rickon já deve estar contornando a cidade.
— Ainda assim, eles ficarão.
Pouco antes, tantas flechas incendiárias cruzavam o céu do norte que a batalha parecia um festejo distante. Agora, os clarões haviam diminuído.
“Um mau sinal.”
Rikario pensou na mãe e em Mitzi, protegidas no castelo.
“Venceremos.”
Mover os soldados demorou mais do que esperava. Seguiam em marcha acelerada pelo centro de Neão. Como quase todas as cidades do Norte, excetuando Pugna, Neão não era grande. Muito tempo antes, toda aquela região pertencera a um único reino governado por um rei e seus Tanos. Guerras sucessivas o haviam dividido, e Balázios conservara a maior parte das antigas terras.
“Os herdeiros do reino original.”
— Alteza — chamou o capitão Harl, que cavalgava próximo. — Você viu?
Rikario olhou para trás.
Uma única flecha incendiária subiu em linha reta sobre o portão sul. Não descreveu o arco de um disparo contra o inimigo. Apenas ascendeu, permaneceu visível por alguns instantes e caiu dentro da cidade.
“O que foi aquilo?”
Os soldados aguardavam suas ordens.
— Vamos voltar!
CENA 7
O Portão Sul
A flecha subira em linha reta. O sinal combinado.
Rickon conduzira seus homens até o portão sul assim que a vira. Mikel deixara a entrada aberta apenas o suficiente para que atravessassem sem chamar a atenção dos vigias mais distantes. As roupas entregues às Espadas Livres imitavam as das companhias contratadas pelo próprio Bor; sob a escuridão, ninguém teria motivos para estranhá-las.
“A comoção na muralha, porém, pode nos custar caro.”
— Bor Mikel — cumprimentou Rickon ao atravessar o portão.
Os mercenários continuavam entrando em silêncio. Mikel aguardava com suas companhias, enquanto alguns homens fechavam novamente a passagem. Corpos de arqueiros espalhavam-se pelo alto da muralha.
— Tanos Rickon. — Mikel fez uma reverência respeitosa. — Peço desculpas pelo contratempo. Temos um príncipe muito precavido.
Rickon conhecia Mikel havia cerca de sete ciclos. O homem possuía uma ambição maior do que qualquer poder que pudesse alcançar. Filho de um cavaleiro do sul com a herdeira de um Bor de Divisar, tornara-se senhor de Três Pedras depois da morte do avô materno. A província era isolada, mas fazia fronteira com as terras de Rickon.
Não fora difícil atraí-lo com promessas, ouro e a possibilidade de ampliar os próprios domínios.
Mikel era mais comerciante do que filho do Norte.
“E foi exatamente isso que decidiu esta guerra.”
— Vejo que teve algum trabalho — disse Rickon, observando os mortos.
— Rikario deixou metade dos arqueiros. Precisei esperar que se espalhassem pelas posições antes de agir. — Mikel olhou para a rua por onde o príncipe partira. — Já deveríamos estar a caminho do castelo.
— Então não vamos perder mais...
O som de centenas de passos subindo a rua interrompeu a frase. Rickon sentiu o sangue gelar mais do que o vento daquela noite conseguira.
Rikario reapareceu à frente de um contingente maior do que o seu. O príncipe deteve-se ao ver os arqueiros mortos e os portões ocupados.
— QUE LOUCURA É ESTA, ARADINE? — berrou. — O QUE VOCÊ FEZ?
“E lá se vai o elemento surpresa.”
— ATACAR! — ordenou Rickon antes que Rikario pudesse organizar os homens.
As companhias de Mikel iniciaram o confronto. O primeiro choque transformou a rua estreita numa massa de escudos, lâminas e corpos comprimidos. Os soldados de Rikario avançaram com fúria, ultrapassando parte dos mercenários e alcançando a linha de Rickon.
O espaço reduzido impedia manobras amplas. Bastava brandir a espada para encontrar um inimigo.
Rickon desviou de uma estocada e cortou a garganta de um soldado. Antes que o homem terminasse de cair, perfurou outro abaixo da proteção do braço.
“Nunca acabam.”
Um guerreiro mais alto surgiu entre os defensores, manejando uma espada longa com força assustadora. Rickon tentou uma finta, mas o homem percebeu o movimento e respondeu com um golpe contra seu abdômen. A lâmina raspou a armadura.
“Bastardo.”
Rickon atacou com maior velocidade: direita, esquerda, frente e depois um corte transversal. Repetiu a sequência, obrigando o adversário a ceder terreno. Quando o homem perdeu o equilíbrio sobre um cadáver, sua espada encontrou uma abertura entre a couraça e o cinto.
Ao redor deles, o chão começava a desaparecer sob os corpos. Um baláziano tropeçou num braço decepado e teve o peito atravessado antes de recuperar o equilíbrio.
“Preciso terminar isto depressa.”
Mikel permanecia atrás de suas próprias linhas. Os poucos inimigos que o alcançavam já estavam feridos e eram rapidamente abatidos por seus guardas.
“Covarde. Mas preciso que continue vivo.”
O combate começava a favorecer Rikario. Os soldados de Divisar mantinham a disciplina e substituíam as primeiras linhas, enquanto as companhias de Rickon perdiam homens em ritmo alarmante.
“Preciso encontrar o príncipe.”
Se capturasse Rikario, poderia encerrar a resistência. Caso ele permanecesse protegido atrás das fileiras, porém, a batalha acabaria antes que Rickon o alcançasse.
Um golpe o derrubou. Quando abriu os olhos, um soldado erguia um machado sobre sua cabeça. Rickon tentou recuar, mas um cadáver bloqueava o caminho. Levantou a espada para aparar o primeiro ataque e sentiu os braços estremecerem.
O homem ergueu o machado outra vez.
“Isso deve servir.”
Rickon arrancou um punhal do corpo ao lado e o lançou. A lâmina atravessou o olho esquerdo do adversário e saiu pela nuca.
Permaneceu no chão por alguns instantes, recuperando o fôlego.
“Supostamente, esta seria a parte fácil.”
Quando se levantou, viu que a proporção de soldados em pé se tornara sombria para seu lado. Reunir todos numa formação defensiva poderia prolongar o combate, mas não produziria a vitória.
Então Bartz surgiu no centro da rua.
O Derekth avançava como um demônio do gelo. Sua espada longa atingiu três homens num único movimento. Antes que os corpos tocassem o chão, ele matou outros dois. Golpes de clava e espada encontravam sua armadura, mas pareciam incapazes de interrompê-lo.
Sam apareceu logo atrás, usando dois machados. Era menor, porém mais rápido. Os dois lutavam em perfeita coordenação: Bartz rompia as formações; Sam atravessava os espaços abertos e impedia que os inimigos cercassem o companheiro.
“Perpétuo colocou dois monstros no meu caminho e, desta vez, eles estão do lado certo.”
Rickon procurou Rikario entre os defensores. Encontrou o príncipe próximo ao centro, comandando o avanço.
Uma ideia começou a se formar.
“Vamos descobrir quem Perpétuo favorecerá esta noite.”
CENA 8
O Último Avanço
O capitão Harl fora o primeiro a notar a flecha solitária e também o primeiro a avisar Rikario. Perguntava-se o que teria acontecido se o príncipe não tivesse decidido retornar.
“Provavelmente Neão já teria caído.”
Rikario conduzira o combate com inteligência. Primeiro enviara os soldados mais leves para desgastar os invasores; depois, lançara a infantaria contra as linhas enfraquecidas. O chão coberto de corpos e o recuo dos balázianos indicavam que a vitória estava próxima.
“Mas ainda não terminou.”
Harl desviou a espada de um inimigo que avançara demais e o atingiu abaixo do queixo.
— TODA A FORÇA À FRENTE! — ordenou Rikario.
Em poucos minutos, os defensores organizaram o ataque que deveria encerrar a batalha. O restante das tropas de Balázios havia recuado até o portão e formado uma barreira defensiva.
O primeiro choque foi contido. O segundo também. Depois do quarto, a irritação tomou conta do príncipe.
— FLANCO ESQUERDO! CONTORNEM A FORMAÇÃO!
Uma parte dos homens deixou a linha principal e circulou os invasores pela base da muralha. A defesa de Balázios pareceu ceder. Abriu-se no centro, e cerca de uma centena de guerreiros explodiu pela passagem como a ponta de uma flecha.
Harl quase riu do que parecia um ataque suicida. Então percebeu o destino daquela investida.
Rikario.
“Pretendem levar o príncipe para o túmulo.”
— PROTEJAM O PRÍNCIPE! — Harl berrou enquanto forçava passagem entre os soldados. — PROTEJAM O PRÍNCIPE!
— Eles estão vindo! — gritou um homem ao seu lado. — Por Tetros, o que é aqu...
A frase morreu quando Bartz alcançou a primeira linha.
Harl jamais vira alguém tão alto. O Derekth desceu a espada, e dois defensores caíram. Um soldado acertou-lhe as costelas com uma clava, enquanto outro tentou uma estocada contra a abertura da armadura.
Bartz ignorou o golpe na lateral do corpo. Partiu o capacete do primeiro homem e girou a espada num arco que atingiu o segundo e mais dois defensores.
“Por Perpétuo, o que estamos enfrentando?”
Harl ergueu o escudo. A espada do gigante atravessou madeira, metal e carne. O impacto o lançou ao chão.
Por alguns instantes, ficou surpreso por ainda estar vivo. O corte no abdômen não parecia profundo, mas o braço esquerdo jazia a alguns passos, ainda preso ao que restara do escudo.
O sangue escapava depressa demais.
“Preciso permanecer acordado.”
Pressionou o ferimento com o braço que lhe restava e observou o avanço inimigo. Sam surgiu pelo lado oposto, abrindo caminho com os dois machados. Atrás dos Derekths, Rickon e seus melhores homens corriam diretamente para Rikario.
O príncipe lutou. Bloqueou o primeiro machado de Sam, recuou e tentou alcançar espaço para a espada. Bartz se colocou às suas costas e impediu a retirada. Os guardas foram derrubados um após o outro.
Harl tentou levantar-se, mas a visão escureceu.
“Se eu resistir, talvez ainda consiga salvar alguém.”
Quando tornou a enxergar, Rikario estava de joelhos. Sam mantinha um machado junto à garganta do príncipe, e Bartz protegia-lhe as costas.
— ABAIXEM AS ARMAS! — bradou Bartz. — ABAIXEM AS ARMAS OU O PRÍNCIPE MORRE!
O combate cessou de maneira irregular. Primeiro perto de Rikario, depois ao longo de toda a rua. Centenas de homens permaneceram imóveis, com espadas e lanças apontadas, sem saber se avançavam ou obedeciam.
“Então era isso.”
Harl sentiu sangue na boca.
“Só preciso aguentar mais um pouco.”
CENA 9
Três Escolhas
“Funcionou.”
Sam pressionou o machado contra a garganta de Rikario. Bartz guardava-lhe as costas, mas nem mesmo a presença do gigante lhe trazia segurança.
Dos oitocentos homens que haviam entrado pelo portão sul, pouco mais de trezentos continuavam de pé. Apenas cerca de sessenta alcançaram o príncipe. À frente deles havia centenas de defensores, imóveis por causa do refém.
— LARGUEM AS ARMAS! ESTE É O ÚLTIMO AVISO! — repetiu Bartz.
— Nem uma palavra — murmurou Sam, encostando um punhal nos lábios de Rikario.
Rickon se aproximou com os sobreviventes.
“Foi uma boa jogada”, pensou Sam. “Agora quero ver como nos tirará daqui.”
Bastava um movimento errado para que a luta recomeçasse. Naquela proporção, os homens de Rickon seriam exterminados.
— Senhores! — começou o Tanos, elevando a voz. — Estamos num impasse. Não quero matar o príncipe Rikario Mortedrai, e imagino que nenhum de vocês deseje ser responsável pela morte dele.
As espadas permaneceram erguidas.
Rickon continuou:
— A esta altura, o portão norte já deve ter caído. Com o príncipe em nosso poder, também vencemos deste lado.
Bartz compreendeu o papel que lhe cabia e aproximou a lâmina da garganta de Rikario. Um fio de sangue desceu pela pele do príncipe.
“O Tanos também gosta de teatro.”
— Temos três escolhas — disse Rickon. — Na primeira, vocês atacam. O príncipe morre, a maioria de vocês também, e a cidade ainda é tomada. Na segunda, tentam fugir. O príncipe morre, e a cidade é tomada. — Sua voz se tornou menos agressiva. — Na terceira, vocês se rendem. O príncipe vive, vocês também, e a cidade é tomada. Esta é minha escolha favorita.
O silêncio prolongou-se.
Rikario foi o primeiro a escolher.
Ergueu a espada de repente e golpeou para trás. Sam desviou o rosto por pouco. O movimento foi instintivo: puxou o machado que mantinha junto ao pescoço do príncipe, e a lâmina abriu-lhe a garganta.
Rikario caiu de joelhos. Tentou respirar, mas apenas sangue lhe escapou pela boca. Seus olhos permaneceram fixos nos homens de Divisar até que o corpo tombou sobre as pedras do portão sul.
Por um instante, ninguém se moveu.
— NÃO! — gritou um dos defensores.
Alguns avançaram, mas pararam quando os arqueiros das companhias de Mikel surgiram sobre a muralha e apontaram as flechas. Outros mercenários fecharam a rua atrás deles. A morte de Rikario não abrira caminho para a vitória; apenas os deixara sem comandante e cercados entre duas forças.
— PAREM! — Rickon ergueu a voz acima dos gritos. — O príncipe fez a escolha dele. Vocês ainda podem fazer a sua. Lutem e morram aqui ou larguem as armas e vivam para servir a Divisar em outro dia.
Então a primeira espada tocou o chão.
Outra a seguiu. Depois outra. Em pouco tempo, o som do metal contra as pedras percorreu toda a rua.
Rickon ordenou que os feridos fossem separados e que as armas dos rendidos fossem recolhidas. Harl, ainda consciente, foi encontrado entre os corpos e levado com os demais defensores.
Depois, o Tanos se deteve diante do corpo de Rikario.
— Eu o queria vivo — disse a Sam.
— Eu também — respondeu ele, com a voz abafada pelo elmo. — Mas o príncipe escolheu lutar.
Sam observou o Tanos organizar os sobreviventes.
“Conseguimos entrar. Agora ainda precisamos tomar o restante da cidade.”
CENA 10
O Preço do Aço
A luta prolongava-se mais do que Rener desejava. Quando o portão cedeu, acreditara que ainda seria capaz de deter os balázianos no pátio.
“Mas não consegui.”
O óleo lançado por Adler deveria destruir o último aríete. Em vez disso, o fogo queimara as tábuas externas da entrada e deformara parte dos encaixes que sustentavam as placas de ferro. Os golpes seguintes abriram uma brecha, e os invasores atravessaram antes que os defensores conseguissem reorganizar a formação.
“Imagino que ele tivesse uma boa razão. Não havia como prever.”
Rener examinou os mortos e os feridos espalhados pelo pátio. Enfiou a espada no peito de um baláziano que agonizava perto dos seus pés.
— Que Perpétuo o receba e o devolva, se for digno — murmurou.
Depois seguiu para o combate.
Levantou o escudo no instante em que um machado desceu. O impacto pareceu forte, mas o braço de Rener quase não se moveu.
“Muito barulho para um golpe tão fraco.”
Girou o corpo e passou a lâmina pelo pescoço do inimigo.
“Próximo.”
Apesar da invasão inicial, os defensores tinham eliminado boa parte dos balázianos que não alcançaram as muralhas. Rener começava a acreditar que poderiam recuperar o portão.
“O que me preocupa é como Adler está lidando com os homens lá em cima.”
O martelo atingiu o escudo com um estampido. Madeira e metal se partiram, e Rener foi lançado para o lado.
— Nunca lhe ensinaram a não baixar a guarda numa guerra? — perguntou uma voz mortal.
Rener avaliou o novo adversário. Reconheceu a armadura e o enorme martelo.
— O pior é que ensinaram. — Apanhou outro escudo no chão e sentiu uma fisgada no braço. — Prometo que não voltarei a decepcioná-lo, Raider Andrei, o Furioso.
Andrei se aproximou sem responder.
Rener sabia que não deveria vencer aquele combate. Ainda assim, firmou os pés.
— Por Divisar!
O primeiro golpe fez o escudo inteiro vibrar. Rener suportou o choque e aproveitou a abertura para estocar. A espada atravessou uma junção da couraça e entrou no peito de Andrei.
“Acertei.”
O Raider recuou meio passo. Sangue escureceu a roupa sob a armadura, mas sua expressão continuou controlada. Girou o martelo sobre a cabeça e o desceu outra vez.
Rener preparou a defesa. O golpe mudou de direção no último instante e subiu por baixo do escudo.
O estalo do braço quebrado foi quase tão alto quanto o impacto.
“Merda.”
Rener tentou se afastar, mas Andrei não lhe deu espaço. Tropeçou num corpo e caiu de costas. A dor no braço partido o impediu de respirar.
O Raider ergueu o martelo para esmagar-lhe a cabeça.
Rener rolou. A arma atingiu as pedras, espalhando cascalho e fragmentos de osso. Ele chutou a lateral do joelho de Andrei. A perna do Raider cedeu, e os dois foram ao chão.
Rener se lançou sobre ele. Pressionou a espada contra a abertura da armadura, no mesmo ponto que já atingira. Andrei largou o martelo e fechou as mãos ao redor de seu pescoço.
A força do Raider era assustadora. Rener sentiu a garganta se fechar e a visão escurecer.
“Só mais um pouco.”
Empurrou a espada. A lâmina entrou mais fundo.
As mãos apertaram seu pescoço.
“Só mais um pouco.”
O sangue de Andrei alcançou seus dedos. O corpo do Raider perdeu a força, e os braços caíram ao lado do tronco.
Rener permaneceu deitado durante vários instantes, tossindo e procurando ar. O pescoço ardia, mas o braço quebrado doía ainda mais.
“Eu o derrotei.”
Quase riu ao imaginar a reação de Adler quando soubesse que seu antigo aluno vencera um dos maiores guerreiros do Norte.
Retirou o escudo preso ao braço num grito de dor. Depois se levantou com dificuldade e olhou para o restante do pátio.
“Só mais um pouco e poderemos...”
— Era um grande guerreiro — disse alguém às suas costas. — O melhor com quem já lutei.
Rener se virou. Os olhos azul-gelo foram a primeira coisa que reconheceu. Depois viu a parte do rosto queimada, os cabelos longos e negros e a armadura marcada pelo fogo.
— Que surpresa... — Firmou a espada na única mão que ainda lhe obedecia. — Não espera que eu me renda, não é, Atur Kaiser?
Atur voltou-se para ele como se apenas naquele instante percebesse sua presença. As histórias diziam que o rei de Balázios era frio.
“Estão erradas. Ele é o próprio inverno.”
— Não — respondeu Atur. — Qual é o seu nome?
— Rener. Rener Tarkan.
Atur olhou para Andrei caído.
— Eu me lembrarei de você, Rener Tarkan. — Ergueu a espada. — Serei breve.
Rener pensou no pai idoso que tanto admirava, na mãe, verdadeira filha do Norte, e nos irmãos ainda jovens demais para a guerra. Pensou também em Cintria. De todas as mulheres que conhecera, nenhuma lhe fora mais querida.
“Se eu pudesse vê-la mais uma vez...”
Então não pensou em mais nada.
CENA 11
A Surpresa de Rickon
Tanos Manuelk Berifor atacou Raider Adler com violência e conseguiu fazê-lo perder meio passo.
“Mas apenas meio passo”, avaliou Gunter.
A situação na muralha era desesperadora. Adler não seria vencido facilmente.
“Não como Raider Matros.”
O outro defensor caíra depois de três golpes do machado de Gunter. Adler, porém, parecia feito do mesmo aço que empunhava.
Uma espada raspou a garganta de Gunter.
— Desgraçado!
Não fora ferido, mas a vida passara diante de seus olhos. Procurou Manuelk e o encontrou combatendo Adler frente a frente. Outros defensores avançaram contra Gunter.
“Terei de deixar o Tanos sozinho por enquanto.”
Manuelk resistia bem. Era um dos maiores espadachins que o Norte conhecera, e Gunter acreditou que conseguiria ajudá-lo antes que se esgotasse.
Demorou mais do que esperava para derrubar os homens que o cercaram. Quando terminou, percebeu que os balázianos haviam perdido quase toda a muralha. O fogo impedia que enxergasse o pátio, e ele não sabia se Atur ainda estava vivo.
“Não há tempo para pensar nisso.”
Correu na direção em que deixara Manuelk.
Chegou a tempo de ver a espada de Adler sair do abdômen do Tanos. Manuelk caiu de joelhos e depois tombou sobre as pedras, imóvel.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Chegou tarde, Gunter — disse Adler, sombrio. — Mais um pouco e ainda encontraria minha espada estripando o Tanos.
Gunter avançou com o machado. Adler desviou, bateu com o escudo contra o cabo da arma e respondeu com uma estocada. Gunter recuou. O Raider continuou atacando, obrigando-o a ceder outro passo, e depois mais um.
“Como ainda consegue lutar desse jeito?”
Adler passara a noite comandando a defesa, enfrentara Manuelk e ainda se movia como se a batalha tivesse acabado de começar.
Gunter viu Atur surgir na muralha com cerca de uma centena de soldados. Precisou conter a alegria. Adler também percebeu os reforços e recuou para reorganizar seus homens.
Atur fez o mesmo.
— Onde está Tanos Manuelk? — perguntou, ofegante.
— Morto, Majestade.
O rei olhou para o corpo. Manuelk fora um homem honrado, até onde a palavra permitia que um homem daquela posição fosse.
“Ao menos deixou um filho”, lembrou Gunter.
— Faremos a perda valer a pena — disse Atur, distante.
Depois ergueu a voz para Adler:
— Venci no pátio. Por que não se rende e encerramos isto?
— Não acontecerá, Atur — respondeu o Raider. — Tenho o dobro dos seus homens e não vejo entre eles ninguém capaz de me vencer.
Antes que Atur respondesse, centenas de guerreiros apareceram pela muralha, vindos da direção do portão sul. Vestiam as armaduras dos defensores de Neão.
— Perdão, senhor — anunciou o soldado que liderava o grupo ao se aproximar de Adler. — Houve uma emboscada. O príncipe foi morto, e Aradine nos traiu.
“Rikario morreu?”
A informação correu pelos dois lados em forma de murmúrios. Gunter percebeu o impacto sobre os homens de Divisar. Muitos baixaram os escudos, como se a morte do príncipe tornasse inútil qualquer resistência.
— Ouviu, Atur? — Adler respirou profundamente. — Agora sou eu quem pergunta: por que não se rende?
— Isso não acontecerá.
— Talvez tenha vencido batalhas em situações piores — disse Adler, erguendo a espada —, mas garanto que eu não estava em nenhuma delas. Agradeço por tornar minha vingança mais prazerosa. HOMENS, AVAN...
A palavra terminou em sangue.
O soldado atrás de Adler atravessara-lhe o corpo com a espada. Ao mesmo tempo, os supostos reforços de Neão atacaram os defensores. O golpe foi tão repentino que, em menos de meio tempo, toda a resistência havia terminado.
Até Atur pareceu confuso.
— Majestade, a vitória é sua — declarou o homem que matara Adler.
Retirou o capacete e se ajoelhou.
Gunter reconheceu Rickon.
Os demais fizeram o mesmo. Sob as armaduras de Divisar estavam os homens que haviam partido com o Tanos. Depois da rendição no portão sul, eles tinham abandonado os uniformes das companhias e vestido as armaduras dos defensores derrotados. Marcharam pelas muralhas como se fossem reforços enviados a Adler.
A troca fora realizada longe dos olhos dos sobreviventes que poderiam denunciá-los. Até o último instante, Adler acreditara estar recebendo aliados.
“Impossível”, pensou Gunter. “Ele é mesmo um lobo.”
— Rikario Mortedrai morreu no portão sul, Majestade — acrescentou Rickon. — Recusou-se a se render e tentou continuar lutando.
Atur pronunciou o nome devagar:
— Tanos Rickon Mester... Que bela surpresa. Imagino que explicará tudo depois.
O tom não era o frio habitual. Parecia afiado como uma navalha, o que nunca representava bom humor.
— Com certeza, Majestade. Mas devo dizer que tudo só foi possível graças à ajuda de Bor Mikel. O plano e a abertura do portão foram façanhas dele.
Gunter examinou Mikel. O homem pouco lembrava um filho do Norte. Tinha olhos claros, mas cabelos castanho-escuros e pele ligeiramente parda.
“Duvido que tenha aço no sangue.”
Sua opinião, porém, não importava. Apenas a de Atur possuía algum valor naquela muralha.
— Eu me lembrarei disso — disse o rei. — Agora, levantem-se. Ainda temos um castelo para tomar.
CENA 12
A Queda de Neão
— Rápido! — repetiu o soldado. — O rei foi claro. Não há tempo a perder. Já deveríamos ter partido!
Mitzi ainda não conseguia acreditar no que ouvira.
“Como poderia?”
Pouco antes, conversara com Rikario. Agora diziam que o irmão estava morto, vítima da traição de Mikel Aradine.
Lauren parecia lidar melhor com a situação. Seguia ao lado da filha em direção à passagem dos criados, sem permitir que o desespero lhe reduzisse o passo. O castelo se transformara num labirinto de gritos e passos apressados. Os balázianos haviam entrado na cidade, e as últimas defesas tentavam ganhar tempo para a fuga da família real.
Roborion se recusara a acompanhá-las. Dissera que cairia com o reino que ajudara a erguer, mas deixara instruções claras: mãe e filha deveriam seguir para Maestria e buscar auxílio.
“Enquanto estiver viva, ainda temos uma chance”, dissera o pai.
Mitzi queria chorar. Não compreendia como seu mundo podia transformar-se num inferno em uma única noite.
— Vejam o que encontrei — disse um baláziano ao aparecer no corredor.
Outros homens surgiram atrás dele.
— Alguns ratos tentando abandonar o castelo — comentou um deles.
O soldado que conduzia as mulheres desembainhou a espada e se colocou à frente delas.
— Não passarão por mim.
— Engraçado — respondeu o baláziano, sacando a própria arma. — Eu ia dizer o mesmo.
— Fujam! — ordenou o guarda. — Eu ganharei tempo.
Mitzi e Lauren voltaram pelo caminho de onde vieram. O coração da princesa parecia golpear-lhe as costelas. Sua mãe, entretanto, não demonstrava medo. Mitzi sempre a considerara frágil. Naquele instante, viu nela uma verdadeira filha do Norte.
“Recomponha-se, Mitzi. Recomponha-se.”
Viraram por um corredor estreito que conduzia às cozinhas. De lá poderiam alcançar outra passagem preparada para a fuga. Atrás delas, os homens praguejavam. O guarda devia ter sido difícil de derrubar, mas não os detivera.
— Só mais um pouco — disse Lauren. — Ficaremos bem. Só mais...
Ela se calou quando entraram na cozinha.
Alguns soldados de Balázios haviam cercado as criadas que não conseguiram fugir. Parte deles já violava abertamente a ordem de Atur contra qualquer violência aos habitantes da cidade. Mitzi tentou recuar, mas um homem agarrou seus cabelos e a lançou contra uma mesa. Outro fez o mesmo com Lauren.
— Estas duas parecem importantes — alertou um dos soldados.
— Não me importa. Esperei a noite inteira pela minha vez.
Mitzi lutou, mas outros se aproximaram para contê-la. O medo logo se transformou em fúria.
— ENCOSTEM EM MIM OU EM MINHA FILHA E PAGARÃO POR VIOLAR UMA RAINHA E UMA PRINCESA!
Todos pararam.
Mitzi nunca imaginara que a mãe fosse capaz de tamanho desafio. Os soldados também pareceram surpresos.
— Que desgraça pensam que estão fazendo? — bradou o líder do grupo ao entrar na cozinha. — O rei proibiu qualquer violência contra os habitantes da cidade. Afastem-se delas e entreguem as armas. Vocês responderão por desobedecer a uma ordem direta.
Os infratores hesitaram.
— AGORA!
Foram desarmados e colocados sob escolta. Um dos homens devolveu a Mitzi a parte rasgada do vestido sem conseguir encará-la.
— Quanto às duas — prosseguiu o comandante —, levem-nas ao salão. Atur decidirá o que fazer com elas.
O salão estava lotado quando chegaram. Soldados formavam um círculo e gritavam com euforia. No centro, Roborion Mortedrai enfrentava Atur Kaiser num duelo até a morte.
Lauren perdeu a frieza que conservara durante toda a fuga. Suas mãos tremiam, e os olhos permaneceram presos ao marido.
Mitzi sentia o mesmo medo, mas a raiva a impedia de demonstrá-lo. Durante o caminho, os soldados haviam comentado a punição reservada aos homens da cozinha. Nenhuma execução apagaria o que ela presenciara.
Atur derrubou Roborion.
Lauren levou a mão à boca, mas o rei de Divisar rolou para longe da espada e se levantou antes do golpe seguinte.
Roborion empunhava Tormenta, uma lâmina longa que exigia as duas mãos. Costumava dizer que jamais perdera um combate enquanto a carregasse. Atur também usava uma espada longa, mas sua arma parecia inferior àquela.
“Isso é bom.”
Atur estava exausto. A armadura trazia marcas de fogo, e sangue escorria de vários ferimentos. Roborion, que passara a noite dentro do castelo, ainda se movia com vigor.
“Se continuarem assim, meu pai pode...”
Tormenta atravessou uma abertura lateral da armadura de Atur, logo abaixo das costelas. A lâmina penetrou fundo, mas de viés, sem atingir o centro do abdômen.
— NÃO! — gritaram os balázianos, avançando para ajudar o rei.
— PARADOS! — Atur berrou. — ESTE É MEU DUELO! PUNIREI QUALQUER HOMEM QUE NÃO O HONRAR COMO TAL!
Os soldados obedeceram.
Atur voltou os olhos para Roborion.
— Belo golpe.
Envolveu a mão esquerda, protegida por tiras de couro, ao redor da lâmina de Tormenta. Em vez de recuar, avançou sobre a espada, reduzindo o espaço entre os dois e impedindo Roborion de recuperar a arma.
— Mas termina agora.
Atur girou o corpo e desferiu um único golpe.
— PAI! — gritou Mitzi.
A cabeça de Roborion caiu antes do restante do corpo.
Lauren desabou. Mitzi tentou correr, mas o soldado que a vigiava segurou-a pelos braços.
— Maldito! — gritou para Atur. — MALDITO!
O rei retirou Tormenta do próprio corpo e pressionou a mão sobre o ferimento.
— Você perdeu o juízo? — perguntou o guarda a Mitzi. Depois se dirigiu a Atur: — Majestade, está bem?
— O suficiente. — O rei examinou a jovem. — Então esta é a filha de Roborion. E aquela deve ser sua esposa.
— Aproveitador! — Mitzi tornou a gritar. — Jamais teria vencido se Mikel não tivesse nos traído.
Queria obrigá-lo a responder. Queria ver vergonha, irritação ou qualquer emoção em seu rosto, mesmo que aquilo lhe custasse a vida. Sustentou o olhar do conquistador, mas, por uma fração de segundo, sentiu o próprio espírito congelar.
— Imagino que já tenha dito tudo o que precisava — respondeu Atur no tom gélido de sempre. — Levem as duas. Decidirei mais tarde o que será feito.
Lauren não tirou os olhos do corpo de Roborion, nem mesmo quando os soldados a ergueram. Mitzi continuou encarando Atur.
“Farei você pagar. Juro por Perpétuo que farei.”
CENA 13
O Início da Guerra
Atur deixou o corpo cair no trono de Neão.
“O preço foi alto, mas conseguimos.”
Fitou o corpo de Roborion no centro do salão.
“Lutou bem.”
— Majestade, trouxemos um Irmão de Negro — informou um soldado.
— Aproxime-se.
O homem envolto numa túnica escura ajoelhou-se diante do rei e começou a abrir a armadura ao redor do ferimento.
“Aquilo quase foi meu fim.”
— Pegue a espada de Roborion — ordenou Atur a um soldado.
Tormenta era uma arma extraordinária, feita de aço excelente e equilibrada apesar do tamanho.
“Agora compreendo como atravessou minha defesa.”
Rickon entrou no salão acompanhado de Mikel, Gunter e outros oficiais. A presença dos dois primeiros deixou um gosto amargo na boca de Atur. A vitória fora alcançada graças a eles, mas Rickon agira sem revelar o plano, e Mikel traíra o próprio reino. Se refletisse demais sobre aquilo, acabaria mandando matar os dois.
“Por enquanto, deixarei as coisas como estão.”
— E então? — perguntou.
— A cidade foi tomada — respondeu Rickon depois da reverência.
— Muito bem. — Atur esperou enquanto o Irmão de Negro suturava o ferimento. — Envie todos os homens disponíveis ao portão norte. A passagem deve ser reparada antes da chegada dos reforços. Os feridos serão tratados, e os mortos, reunidos fora das vias principais.
Rickon assentiu.
— Não temos tempo a perder. Rober não poderia vencer; sua função era apenas nos conceder esta noite, e foi o que fez. A esta hora, sua batalha no Torrente provavelmente já terminou. Até que os Goluns de Vale Profundo cheguem, teremos de defender Neão com o que restou. Envie batedores. Preciso saber o que aconteceu com ele.
— Como desejar, Majestade. Distribuirei os homens e...
— Mais uma coisa. — Atur fitou os presentes. — Minhas ordens de não saquear, invadir residências ou violentar os habitantes foram dadas antes do ataque e continuam em vigor. Soube que alguns homens as desobedeceram. Raider Gunter, os responsáveis já identificados serão executados ao amanhecer. Investigue qualquer outra denúncia e aplique a mesma pena aos culpados.
— Será feito, Majestade — respondeu Gunter.
— Gostaria de tratar de outro assunto — começou Rickon.
— Tratarei de qualquer assunto com você mais tarde, Tanos. Dispensados.
Rickon conteve a resposta, fez uma reverência e saiu com os demais.
— Majestade? — chamou o Irmão de Negro.
— Sim?
— Terminei. A lâmina entrou de lado e, por sorte, não parece ter atingido nenhum órgão vital. Ainda assim, a ferida é profunda. Consegui estancar o sangue, mas existe risco de infecção. O senhor precisa permanecer em repouso.
— Gostaria de poder obedecer, Irmão, mas nós dois sabemos que não o farei.
Atur apoiou-se no braço do trono e se levantou devagar. Do lado de fora, homens corriam para reparar os portões, enquanto os sinos de Neão anunciavam a queda da cidade.
— A guerra apenas começou.
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