As Crônicas de Nárnia e a Rainha Do Futuro
1 Encontrando os Reis Antigos
Notas iniciais
Encontrando os Reis Antigos
– Pare de rir, Lúcia! Não tem a menor graça! – reclamava Edmundo, sentando ao lado de sua irmã mais nova.
Edmundo e Lúcia Pevensie. Dois adolescentes, o garoto não passa dos 17 e a menina tem aproximadamente 16. Ele é alto e tem os cabelos negros e os olhos castanhos que, no momento, estava focado no teto do trem. Qualquer garota sentiria-se atraída por ele, mas Edmundo nunca imaginou-se com alguém.
Claro, como qualquer garoto, já sonhara com alguém, mas ele nunca correra atrás. Preferia cuidar de sua irmã mais nova, para que esta não caísse em mãos de cafajestes. Ele, a partir do momento que seus irmãos, Pedro e Susana, haviam ido partido para os Estados Unidos, sentiu-se na responsabilidade de afastar qualquer menino que, a seu ver, não deveria se aproximar de Lúcia.
E era exatamente esse o motivo da risada da menina.
Assim que chegaram à estação de Cambridge, a garota havia chamado à atenção de um garoto da mesma idade, que saia do trem. Ele mexera com os cabelos castanhos e longos e os olhos azuis.
Edmundo dera um ataque de ciúmes e Lúcia entrara no trem, rindo. É claro, ele não assumiria que sentia ciúmes da irmã mais nova.
– Ah, Edmundo, admita! Você teve uma crise de ciúmes! – ria a garota.
Parecia até que já haviam esquecido a última aventura em Nárnia. Mas não se deixe enganar, eles jamais esqueceriam um segundo sequer naquele outro mundo deles. Onde eles sentiam que lá era sua verdadeira casa. Mas também tinham que se lembrar a cada segundo que não poderiam mais retornar. Isso arrasava o coração de ambos.
– Não tive crise nenhuma! – insistia Edmundo, olhando para o teto.
Lúcia continuava com seus risinhos, fechando os olhos de tempos e tempos e imaginando como riria mais se estivesse em Nárnia. Mas, infelizmente, não voltaremos mais, pensou ela. Suspirou. Sentira falta de sua família enquanto estava a bordo do Peregrino da Alvorada, mas agora sabia que a saudade que se abatia em seu coração era algo que jamais poderia superar.
Os irmãos estavam tão absortos em seus pensamentos que nem repararam que o trem estava vazio. Ou quase. Havia apenas uma garota do outro lado do vagão. Murmurava consigo mesma sem parar. Mas os Pevensie sequer perceberam sua presença, quanto suas vestimentas, que, sejamos sinceros, não pareciam com roupas da década de 50. Para nós, do século XXI, seria bem comum.
A garota vestia uma calça jeans escuras, uma blusa branca com o desenho de uma caveira, uma jaqueta de couro preta e um tênis All Star preto. Ela saíra para seu compromisso com tanta pressa que nem lembrara que suas roupas eram décadas a frente de onde iria.
Lena Price estava encostada à parede oposta do vagão, com um pequeno papel em mãos. Havia apenas dois nomes ali.
– Edmundo Pevensie e Lúcia Pevensie. – murmurou baixinho, receosa que os meninos do outro lado ouvissem.
Lena estava em uma missão de retornar com os reis antigos para Nárnia. Nárnia estava prestes em entrar em uma guerra, e Aslam ordenara-lhe que voltasse a seu mundo de origem e buscasse os dois. Fora uma tentativa falha. Ela não fazia ideia de onde começar a procurar. Sabia apenas que deveria ir à Inglaterra na época da Segunda Guerra Mundial.
Os irmãos Pevensie, que estavam muito ocupados em meio seus pensamentos, ouviram o murmúrio da estranha garota, que se propagara por todo o vagão. Eles se entreolharam. De onde ela nos conhece, pensaram.
Edmundo virara-se novamente para a garota e finalmente notara suas vestimentas. Que menina estranha, pensou, analisando desde os All Star até seu cabelo curto e meio enrolado. Estava prestes a respondê-la com um “De onde nos conhece?” quando percebeu que ela não os olhava. Seu olhar estava centrado no pedaço de papel em suas mãos. Edmundo, sem nem mesmo ver seus olhos, admitiu a si mesmo que ela até que era bonita. Mas continua estranha com essas roupas.
Lena apertou seus dedos finos ainda mais nas extremidades do papel, nervosa e preocupada. Questionava-se a cada segundo. Cada segundo era um a menos de sua busca. E poderia procurar por toda a Inglaterra e nunca achá-los. Tinha apenas um papel com seus nomes; não conhecia nem suas feições. Como raios Aslam me põe para achar esses reis sozinha?!
– Pevensie... – ela sussurrou novamente, atraindo a atenção dos irmãos.
Eles se entreolharam novamente, decidindo fingir que não eram eles. Afinal, a garota parecia saber apenas seus nomes, senão já teria tentado falar com eles. Mas Edmundo não conseguia tirar os olhos da garota. Achara-a muito bonita e... Diferente. Não havia uma menina que conhecia que tinha os cabelos tão curtos. Nem roupas tão diferentes. Provavelmente não é daqui, concluiu por fim.
Lúcia, que estava sentada ao lado, analisava cada movimento de seu irmão e notou quando ele ficou tenso observando a garota, parando de repente de irritá-la sobre meninos. Ela virou o olhar para a garota que parecia não tê-los notado ainda e analisou-a, imaginando o que poderia ter atraído a atenção de Edmundo, além de ter murmurado seus nomes.
Estatura mediana e esbelta. Não muito alta nem muito baixa. Morena, com os cabelos curtos e um pouco enrolados. Mas isso nem sempre atrai o Ed, pensou. Analisou-a mais atentamente. Suas roupas, com certeza, não eram da Inglaterra. Tinha um jeito despojado, encostada à parede, com os pés cruzados.
Ela mordeu o lábio superior e Lúcia levantou uma sobrancelha. Isso não era normal. Quando alguém fica nervoso, geralmente morde o lábio inferior. Mas ela, não. Seus músculos ficaram tensos e ela mordera o lábio superior.
Lena de repente se jogara em um assento. Amassou o papel e o tacou contra a parede e, antes que constatasse que parou aos pés de Edmundo, curvou-se, apoiando os cotovelos nos joelhos e tapara o rosto com as mãos.
– Mas que droga! Como Aslam me manda procurar esses reis sem eu saber ao menos onde começar?! – reclamou, sem se importar com o casal.
Não me importo se acharem que sou doida, pensou, não devo nada a eles mesmo! Ela estava frustrada, e muito. Tanto que nem reparou quando Edmundo pegou o papel, desembrulhou-o e mostrou-o a Lúcia.
“Edmundo Pevensie e Lúcia Pevensie”
Será?!, pensou ele. Não... Eles não poderiam retornar a Nárnia e Aslam deixara isso bem claro. Apenas Eustáquio voltaria. Mas quando ouviram a garota mencionar a si mesma sobre os reis e Aslam, um pontinha de esperança se ascendeu no coração deles.
Lúcia assentiu positivamente e levantou-se. Edmundo sabia exatamente o que ela queria. Ela iria falar com a garota e ele não teria escolha a não ser acompanhar. Levantou-se também e, lado a lado com a irmã, aproximou-se da garota e parou à sua frente. Lúcia limpou a garganta, chamando a atenção dela.
A garota levantara o olhar para encará-los e Edmundo pôde constatar que seus olhos não tinham uma cor específica. Variava de um castanho cor de madeira para um verde folhagem. Os mais lindos olhos que já vi, constatou no subconsciente.
Lena levantou os olhos e teve o olhar preso por um par de olhos castanhos misteriosos que mais pareceram-lhe correntes. Perdeu a fala momentaneamente, mas juntou toda a força de vontade que tinha para olhar para a garota e livrar-se do feitiço que os olhos castanhos do menino jogara sobre ela.
– Sim? – perguntou, indagando-se mentalmente se eles haviam ouvido seus resmungos.
– Acho que isso é seu. – falou o menino, entregando-lhe o papel.
Lena levantou-se, ficando frente e frente com eles. Era aproximadamente uns dez centímetros mais baixa que ele, mas era mais alta que a garota.
– Ahn... Obrigada... – falou, pegando o papel cuidadosamente, tentando não manter o contato físico.
– Olá. – falou a garota. – Sou Lúcia Pevensie e esse é Edmundo, meu irmão.
Lena olhou-os surpresa e desconfiada. Está sendo fácil demais... Levantou uma sobrancelha, indagando, e Edmundo percebeu o quanto o movimento fora gracioso.
– Provem.
Ela deveria desconfiar, afinal, qualquer um poderia se passar por eles. Principalmente quando ela não sabia quais suas feições.
– Sou a Rainha Lúcia, a Destemida e ele é o Rei Edmundo, o Justo; antigos reis de Nárnia. – falou a garota.
Lena arregalou os olhos. Obrigada, Aslam, facilitou muito meu trabalho, agradeceu mentalmente. Fez uma reverência. Era uma rainha também, mas devia respeito aos salvadores de Nárnia.
– E quem és senhorita? – indagou Edmundo.
– Ah, perdão. – apressou-se Lena. – Sou a Rainha Lena, a Guerreira, atual governante de Cair Paravel.
Os dois estavam prestes a fazer uma reverência, quando Lena colocou a mãos nos ombros deles, impedindo-os. Levantaram-se com um olhar interrogativo.
– Eu que devo reverenciá-los. – respondeu por fim.
– Mas porque nos requisitar? – perguntou Edmundo. – Aslam havia dito que não voltaríamos mais.
– Tem razão... Não voltariam mais. Nárnia passa por problemas e o próprio Grande Leão pediu-me para voltar a esse mundo e requisitá-los...
– Espera, voltar?! – perguntou Lúcia.
– Sou deste mundo também, mas não desta época.
– Como?! – perguntou Edmundo, como se tivesse ouvido, mas não entendido uma palavra sequer.
– Vim do ano de 2013.
Eles arregalaram os olhos e Lena apressou-se a explicar-se.
– De Nárnia tem como viajar pelo tempo também, mas apenas a pedido de Aslam. E foi o que fiz. Só esqueci-me de pelo menos disfarçar-me. – falou, analisando as próprias roupas.
– Mas o que é de tão importante em Nárnia, para que Aslam reveja a decisão? – perguntou Lúcia.
Lena deu um passo atrás, analisando a situação rapidamente. Como Edmundo reagiria se soubesse? Tenho certeza que ele seria o mais afetado, pensou Lena. Por fim, ela resolveu que contar a verdade seria a melhor solução. Respirou fundo e, enquanto pronunciava as palavras que desejava ser apenas uma brincadeirinha, olhava atentamente para o rosto de Edmundo, prevendo sua reação.
– A Feiticeira Branca voltou, com força total.
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