As Crônicas de Kanto
4 Viridian
Notas iniciais
O céu crepuscular que pairava sobre o planalto já estava tingido com um mosaico de tons róseos e alaranjados quando Red adentrou entre as escarpas, andando desapressado pela velha estradinha de tijolos que atravessava a Rota 22, as mãos enfiadas nos bolsos da calça. Charmander vinha logo atrás dele, acompanhando-o fora da pokébola. Red ligou o Pokégear para conferir o horário, eram cinco e vinte e um da tarde. Ainda tinha cerca de uma hora de luz do sol, tempo o bastante para ir e voltar de sua excursão antes do cair da noite. Ele levantou os olhos para o céu, inspirando o ar puro e fresco da rota. Lá no alto, uma revoada de Pokémon pássaros voava uniformemente sob as nuvens esparsas em direção às montanhas ocidentais. De algum ponto nos arvoredos à sua direita, ouviu o grito estridente de um Spearow trespassar a quietude, e este foi respondido por um segundo som, mais distante, vindo da direção oposta. Após isso, o silêncio voltou a imperar, absoluto, na Rota 22.
Paz, como isso é bom.
Ele gostava de lugares tranquilos como aquele, de momentos silenciosos quando tudo o que se podia ouvir era o som da própria respiração. E, naquele fim de tarde, Red precisava de uma dessas ocasiões mais do que nunca. O seu primeiro dia de jornada arrastava-se para o fim, e ele tinha muito no que pensar; no que havia feito e, principalmente, no que faria a seguir. Depois de sair de Pallet pela manhã, Red perambulou pela Rota 1 durante algum tempo, dando à Charmander o tempo de que precisava para recuperar as forças, e só então pôs-se a viajar de fato para a cidade de Viridian. A princípio, ele calculara que chegaria ao destino antes do almoço, dada a proximidade entre as duas cidades e ao fato de que já conhecia o caminho como a palma de sua mão, mas até então Red não tinha como saber que o caminho estaria apinhado de treinadores. A notícia de que uma nova leva de novatos sairia em jornada a partir daquele dia provavelmente havia os atiçado, e vários treinadores amadores de Viridian e Pallet tinham se espalhado ao longo da rota à espera dos novos desafiantes. Embora fosse algo imprevisto, Red não achou aquilo nem um pouco ruim. Ele aceitou cada um dos desafios de muitíssimo bom grado, e venceu todas as batalhas que lutou, a maioria sem grandes dificuldades. Isso não apenas cobriu o prejuízo dos 500 PBs que ele perdera para Green mais cedo, fazendo o seu saldo saltar para 7.900 PBs, como também proporcionou uma experiência de combate valiosa tanto para Charmander quanto para ele próprio. Red também constatou, entre uma batalha e outra, que ele fizera a escolha certa ao tomar o Pokémon de fogo como seu inicial. Charmander parecia gostar de lutar da mesma forma que ele, e quando finalmente chegaram em Viridian por volta das duas da tarde, após uma série de batalhas, vitórias e pausas para recuperar o fôlego, a chama em sua cauda crepitava intensamente, a despeito de seu cansaço. Red decidiu então tirar o resto do dia para descansar e traçar os seus próximos passos, deixando Charmander sob os cuidados do Centro Pokémon e aproveitando os espólios de combate para comprar algumas poções e outros remédios no Poké-Mart. Agora, antes do anoitecer, queria respirar um pouco, organizar os pensamentos e visitar um certo lugar.
— Mesmo assim…
Suspirou, e o som pareceu-lhe alto demais para aquele silêncio todo. Red ainda conseguia sentir vividamente o amargor da derrota no laboratório do Professor Carvalho. As vitórias que sucederam tamanha perda foram ótimas, óbvio, mas mesmo elas não conseguiram limpar aquela sensação desgostosa na boca. Red não sabia ao certo se era a derrota propriamente dita que o atormentava ou se eram as palavras afiadas de Green Carvalho o motivo do seu desalento. Possivelmente as duas coisas, pensou. No fim das contas, você não é tudo isso, foi que ele lhe dissera enquanto dava-lhe as costas e se afastava. Red bufou. Sabia que não adiantava ficar remoendo aquilo – perder fazia parte da vida de um treinador, ainda mais de um novato, e ele tinha plena ciência de que não era invencível – mas não conseguia evitar a frustração. Era engraçado como um único fracasso podia ser muito mais memorável do que uma infinidade de sucessos.
Ele balançou a cabeça de um lado para o outro, chegando à conclusão de que era melhor tentar deixar aquilo de lado. Com Charmander em seu encalço, continuou caminhando pela rota silenciosa. A estrada de tijolos começou a curvar-se suavemente para o sul à medida em que o terreno declinava e então sumiu cerca de uma centena de metros adiante, sendo substituída por um pequeno gramado e, depois, por uma estrada de terra que descia até onde a vista alcançava antes de fazer também uma curva, para o oeste. Red seguiu por este novo caminho, chutando algumas pedrinhas pelo chão terroso. Virou a curva bem a tempo de ver um bando de Mankeys atravessar a estrada. Os Pokémon de pelagem branca e corpo arredondado pararam subitamente para observar o estranho recém-chegado, mas logo deixaram de prestar atenção nele e continuaram andando, desaparecendo no arvoredo mais próximo. À distância, ele pôde ver mais claramente o contorno de uma cordilheira assomar no horizonte e, há algumas centenas de metros de onde estava, a superfície de uma lagoa tremeluzia fracamente com o que restava da luz do sol, cercada por relva baixa. Estreitando os olhos, Red conseguia ver, ainda, a silhueta de uma grande construção para além da lagoa. Ele continuou andando até lá.
Conforme se aproximava, refletiu um pouco e decidiu que partiria de Viridian na manhã seguinte. O ginásio mais próximo ficava na cidade de Pewter, localizada do outro lado da Floresta de Viridian. Ele conhecia bem a fama da floresta, de como ela era um labirinto natural muito fácil de se perder caso não se soubesse para onde estava indo, e por isso pretendia ir até lá tão cedo quanto possível, a fim de maximizar o tempo que poderia contar com a luz do sol. Red não tinha a menor ideia do quão demorada a travessia seria, mas ele esperava chegar em Pewter antes da noite. Suspirou. Aquilo, na verdade, era um incômodo. Afinal, Viridian também tinha um ginásio, mas ele fora fechado para reformas alguns meses antes e até então inexistiam previsões para a sua reabertura.
De qualquer maneira, atravessar a floresta ainda era a parte fácil, pensou Red. O verdadeiro problema era o ginásio. Ele comprimiu os lábios. Aquela não seria uma questão fácil de ser resolvida.
Em poucos minutos, alcançou a lagoa e contornou-a. A cabeça amarela de um Pokémon emergiu da água, e o Psyduck ficou bem ali, observando Red passar com aquele olhar vago e meio bobo que era característico da espécie. A construção agora estava muito maior, avultando sobre os arredores como uma antiga fortaleza, e Red precisou levantar a cabeça para olhar para o topo dela. Ele passou por uma cerca de madeira branca, o terreno começou a se elevar sob os seus pés, e, por fim, parou de andar quando alcançou o pátio externo do prédio, o chão novamente coberto por tijolos alaranjados.
Red prendeu a respiração, olhando para cima. Charmander ficou ao seu lado e seguiu o seu olhar. Ele tinha de admitir: de perto, a entrada do Indigo Plateau era assustadoramente imponente.
Era um prédio quadrado e grande de dois andares, de paredes laranja escuro e telhado quadrangular da cor de marfim. Seis janelas fechadas eram visíveis do lado de fora, dispostas uniformemente no andar superior. Canteiros bem cuidados de arbustos ornamentais davam vida à fachada, e uma baixa e ampla escadaria semicircular conduzia aos portões automáticos da entrada, ladeados por dois pilares grossos que sustentavam a cobertura da área. Havia, também, duas estátuas de Rhydon margeando os portões, uma de cada lado, de modo a parecerem guardas austeros resguardando um forte. Red observou que as decorações eram muito bem feitas, os Pokémon meticulosamente esculpidos na pedra. Durante algum tempo, ele manteve-se quieto, apenas olhando para o prédio, mas depois curvou os lábios num sorriso e agachou-se, afagou a cabeça de seu Pokémon e apontou para frente.
— Dê uma olhada, Charmander. Esse prédio é o nosso objetivo. Bom, na verdade é o que está além dele, mas primeiro temos que chegar até aqui. Estes são os portões do Indigo Plateau. Depois deste ponto, há um longo caminho adentrando cada mais fundo na cordilheira que termina em uma caverna chamada Estrada da Vitória, e após essa caverna, está o destino final da maioria dos treinadores de Kanto: o Planalto Índigo, onde sediam a Liga Pokémon. – Charmander olhou para ele. – É para lá que nós vamos. Mas, primeiro, nós temos que coletar todas as oito insígnias de ginásio para atravessarmos esses portões.
Red levantou-se. Tirou o boné, ajeitou os cabelos. Fitando o prédio, ele ponderou sobre o que havia acabado de falar e percebeu, pela primeira vez, o quão hercúlea era tamanha tarefa. Oito insígnias… essa vai ser uma jornada muito longa. Sentiu um súbito frio na barriga, se de excitação ou medo, não sabia dizer. Ouviu um sibilo baixinho e olhou para baixo, Charmander balançava a cauda ansiosamente enquanto encarava o prédio. Ele parecia-lhe curioso, como se tentasse compreender o significado da existência daquele lugar. Red não sabia se Charmander era capaz de entender o que ele dissera, mas vendo o olhar aguçado do monstrinho, ele quis acreditar que sim.
— O meu sonho, Charmander, é me tornar o maior treinador de todos. E, para isso, eu tenho que vencer a Liga Índigo – ele olhou para o Pokémon, que encarava-o de volta. – Eu quero que você faça parte deste sonho também. E então? Pode me ajudar com isso? Vou precisar da sua força.
O lagarto de fogo grunhiu para o seu treinador. A chama em sua cauda crepitou, parecendo, aos olhos de Red, brilhar mais forte do que antes. Ele riu e estendeu um punho fechado para o Pokémon:
— Nesse caso, conto com você, parceiro.
Charmander ergueu a cauda e, com um movimento delicado, bateu-a na mão fechada. Red sentiu a pele escamosa e quente roçar em seus dedos. Com aquele único gesto, sem que uma única palavra precisasse ser proferida, eles selaram um pacto: estavam juntos até o fim.
Um vento frio começou a soprar. Red ergueu os olhos para o céu, já era quase noite. Hora de voltar. Lançou um último e demorado olhar para os portões do Indigo Plateau, sabendo que um dia, com certeza, os atravessaria em direção ao seu sonho, então recolheu Charmander de volta a pokébola e deu meia volta, retornando pelo mesmo caminho por onde viera.
***
Quando chegou em Viridian, Red encontrou as ruas da cidade já iluminadas pelos postes de luz. O céu, outrora pintado pelas cores do entardecer, agora exibia um profundo tom de violeta e estava pontilhado por estrelas esparsas. Conferindo o horário no Pokégear, viu que eram seis e meia. O movimento era fraco, e ele sentiu-se grato por isso enquanto ia para o Centro Pokémon. Viridian, tal como Pallet, era uma cidade pequena, e Red não demorou mais do que dez minutos para chegar no local.
Um Centro Pokémon era facilmente reconhecível em qualquer lugar que estivesse, uma vez que suas paredes brancas e o telhado vermelho eram características inconfundíveis. As portas azuis de vidro abriram-se automaticamente com um zumbido baixo quando Red se aproximou delas. Dentro, o saguão era amplo, espaçoso e impecavelmente limpo. O piso bege parecia recém encerado e exibia um bonito mosaico na forma de uma pokébola no centro. Meia dúzia de computadores ficavam enfileirados ao longo da parede direita. No canto esquerdo, um elegante sofá vermelho em formato de “L” oferecia um assento confortável para os viajantes. Uma mesinha de vidro fora colocada diante do sofá, e na parede acima do móvel uma televisão de 32” estava ligada em algum canal de notícias, mas não havia ninguém assistindo. O saguão estava quase vazio, exceto por Red e um casal de treinadores apoiado no comprido balcão da recepção. A enfermeira não se encontrava presente.
Red já estava se dirigindo para as escadas que levavam ao segundo andar, onde ficavam os quartos, quando ouviu o rapaz resmungar para a garota ao lado dele:
— Estou te falando, se eu tivesse um Pokémon voador, de fogo ou coisa assim, eu teria vencido. – Disse, sua voz carregada com um misto de frustração e cansaço. Red observou-o de soslaio, era um menino baixo e com curtos cabelos castanhos, vestindo uma camiseta azul-marinho e bermuda cáqui.
A garota, que tinha um rosto sardento e curtos e belos cachos ruivos, deu uma risadinha zombeteira e disse:
— Sei, sei. Não quer admitir a derrota para aquela garota e vai ficar inventando desculpas agora?
— Não, é sério! Eu só perdi porque estava em desvantagem de tipo.
— Ah, conta outra, você perdeu porque é afobado. Ficou atacando de qualquer jeito e esqueceu de se defender e desviar. Eu duvido que um Pokémon com vantagem teria feito alguma diferença.
O menino estalou a língua e virou a cara, inconformado.
— Mas você não pode falar muito também, né? Afinal, ela também acabou com você. – Ele provocou. A menina apenas deu de ombros.
— Fazer o quê, acontece. Só que eu ainda aguentei mais tempo que você.
Red viu ele abrir a boca para retrucar, mas parou quando a porta automática atrás do balcão se abriu. Uma mulher branca de cabelo rosa, vestida com um uniforme de enfermeira, saiu do outro lado, acompanhada por um Pokémon rosa de corpo largo e ovalado. Ele aparentava ter pouco mais de um metro de altura e carregava um ovo numa bolsa na barriga, e vinha segurando uma bandeja com duas pokébolas. Red pegou a Pokédex e a apontou para ele:
“Chansey, o Pokémon ovo. Tipo Normal. Esse Pokémon, raro de ser encontrado e difícil de capturar, é conhecido por sua natureza gentil. É dito que ela traz felicidade para aqueles que a capturam. O ovo que carrega em sua barriga é extremamente nutritivo e possui um sabor delicioso, e ela o compartilha com pessoas e Pokémon feridos.”
— Obrigada por esperarem – disse a enfermeira. – Seus Pokémon já estão totalmente recuperados.
Chansey – exclamou o Pokémon, pondo as pokébolas sobre o balcão. Cada treinador pegou uma e a guardou.
— Obrigado, Enfermeira Joy. – Eles agradeceram em uníssono, fazendo uma reverência.
— E então, você quer voltar lá para fora? Sabe, para continuar assistindo as batalhas? – Indagou a garota.
— Não, eu passo. Eu até estou um pouquinho curioso para saber se alguém vai derrotar aquela menina, mas já deu de batalhas por hoje. Eu estou indo para o quarto.
— Se é assim, acho que eu já vou subir também. A gente se vê mais tarde?
— Claro.
Eles então afastaram-se do balcão, passando por Red sem dar-lhe muita atenção e subiram para o andar superior. Do que eles estavam falando?, pensou Red. Tinham mencionado uma garota e parecia que ambos haviam sido derrotados por ela. Aquilo era curioso.
— Boa noite – cumprimentou a Enfermeira Joy. – Você precisa de alguma coisa?
— Ah… boa noite – Red percebeu, meio constrangido, que estava parado bem no meio do saguão já havia algum tempo. Ele foi até o balcão. – Não é nada. É só que eu acabei ouvindo aqueles dois conversando e fiquei curioso. Acho que eles tinham acabado de batalhar.
— Devia ser isso mesmo. Parece que tem alguém batalhando no campo de batalha nos fundos. Aqueles treinadores de agora vieram tratar dos seus Pokémon, então devem ter vindo de lá também.
— É mesmo? – A enfermeira assentiu em resposta. – Interessante. Eu vou lá dar uma olhada, então. Obrigado pela informação.
— Disponha.
Red deixou o saguão e atravessou o curto corredor da direita, que conduzia ao refeitório, e empurrou gentilmente as portas duplas para entrar no cômodo, onde várias mesas compridas com espaço para até seis pessoas ficavam arranjadas em ambos os lados da cantina, separadas por um corredor central que permitia a passagem dos transeuntes. Ele já tinha passado lá mais cedo e sabia que havia uma porta nos fundos, à direita, que dava para o exterior. Caminhou até ela, mas antes que pudesse tocar na maçaneta, outro treinador abriu-a pelo lado de fora. Red viu brevemente a expressão amargurada em seu rosto antes dele atravessar o refeitório e sumir de vista. Seria outro derrotado? Ele abriu a porta um pouco para o lado e saiu.
O campo de batalha localizava-se imediatamente após a saída, quase idêntico em tamanho e aparência ao do laboratório em Pallet. Os postes para além dos canteiros de flores e das árvores baixas que margeavam o campo projetavam dedos de luz branca sobre ele, fazendo com que sombras bruxuleantes pintassem o chão de terra batida com um obscuro e abstrato mosaico. Haviam alguns treinadores espalhados pelo local. Todos eles estavam prestando atenção na batalha que se desenrolava diante de seus olhos. Red aproximou-se para de observar melhor o combate, parando um pouco à frente de um rapaz loiro e alto que estava escorado na parede.
— Bulbasaur, Investida! – Bradou uma voz feminina.
— Rattata, evasiva e depois revide com o Ataque Rápido! – Ordenou o treinador adversário. Sua voz soou um tanto aflita.
Red percebeu quase de cara que aquela batalha estava perto do fim. O Rattata arfava pesadamente, parecendo fazer um grande esforço para manter-se de pé, e em contrapartida o Bulbasaur aparentava estar em plena forma. Em resposta aos comandos dos seus treinadores, ambos os Pokémon se mexeram. Bulbasaur trotou velozmente na direção do seu alvo, mas o rato roxo, com muito esforço, conseguiu sair do caminho a tempo de evitar um golpe direto. Em seguida, ele preparou-se para contra-atacar com o Ataque Rápido, mas no mesmo instante Bulbasaur virou-se para ele e sua treinadora gritou em alto e bom som:
— Chicote de Vinha!
E antes que o treinador do Rattata tivesse tempo para reagir, dois longos cipós irromperam debaixo do bulbo nas costas de Bulbasaur e açoitaram o Pokémon rato. Foram precisos apenas dois acertos para que Rattata caísse fora de combate. Como Red imaginara, ele já estava no limite de suas forças.
— Rattata está fora de combate, o Bulbasaur é o vencedor! – Uma menina gritou da lateral oposta do campo. Ao que parecia, ela atuava como juíza.
— É isso aí, Bulbasaur! Você mandou muito bem! – Disse a treinadora.
Enquanto o treinador do Rattata recolhia o seu derrotado monstrinho para a pokébola, retirando-se logo em seguida para dentro do Centro Pokémon, a vencedora correu até o inicial de grama e agachou-se na frente dele, fez um cafuné em sua cabeça e depois espirrou nele um pouco da Poção que tinha em mãos.
— Caramba, ela venceu de novo – murmurou o garoto loiro atrás de Red. – Com essa já foram quantas? Seis? Sete?
Red virou-se para ele. O rapaz tinha a aparência de um universitário e era claramente mais velho do que os outros. Seus ondulados cabelos loiros caíam até a altura do pescoço. Uma barbicha por fazer no queixo era o único pelo em seu rosto.
— Essa garota venceu todas até agora? – Perguntou Red.
— Uhum. Ela apareceu aqui mais cedo dizendo que queria batalhar e começou a desafiar os treinadores que estavam por perto.
— Hum…
Red observou a garota terminar de tratar do seu Pokémon. Quando acabou, ela levantou-se e olhou ao redor, dizendo:
— E então, quem é o próximo?
Ela mostrou-se surpresa por um instante quando seu olhar parou em Red. A garota franziu o cenho. Era como se estivesse tentando se lembrar de algo importante.
— Ei, você aí – chamou, apontando para Red. – Por acaso a gente se conhece?
— Eu acho que não.
— Que estranho – ela murmurou. – Você me é familiar.
A garota caminhou até ele e parou bem na sua frente, estudando o seu rosto com um olhar curioso enquanto segurava a ponta do queixo. Ela era mais baixa que ele e precisou levantar a cabeça para olhá-lo diretamente. Red foi pego de surpresa com a aproximação repentina, mas acabou aproveitando para observá-la melhor também. Ela tinha a pele clara e cabelos castanhos compridos e lisos que alcançavam a sua dorsal. O penteado era encimado por um chapéu fedora branco com faixa vermelha e o desenho de um semicírculo também vermelho na frente. Vestia uma regata azul com detalhes pretos, saia vermelha, meias ¾ azul bebê e calçava tênis All Star vermelhos com cadarços brancos. Possuía também uma pulseira preta de pano em ambos os pulsos. No entanto, o que mais chamou a atenção de Red foram os seus olhos, grandes e com íris de um maravilhoso tom profundo de azul. Era praticamente impossível não olhar para eles.
Red prendeu a respiração. Ele achou-a uma garota muito bonita. A proximidade entre eles, lentamente, começou a fazer o seu rosto esquentar. Felizmente, ela levantou as sobrancelhas e recuou um passo, batendo uma mão fechada na palma da outra.
— Ah, eu me lembrei! Você é o Red, não é? Da escola aqui de Viridian.
— Sou eu, sim. Você me conhece?
— Sim, quer dizer, a sua fama pelo menos. Eu era da turma 10-C, meus colegas espalhavam muitos rumores a seu respeito. Diziam que quando o assunto era batalhar, você era um dos melhores da escola.
— Eu não sei se é para tanto – disse Red, esfregando a nuca meio sem graça. – Mas eu sou bom, sim. Isso eu garanto.
— Hum… É mesmo? – Ela estreitou os olhos para ele. Red teve a impressão de que ela estava o avaliando. — Se é assim, Red, o que acha de uma batalha? Sabe, eu tenho curiosidade de saber se os boatos sobre você são verdadeiros há um bom tempo. Essa parece ser a oportunidade perfeita para descobrir, você não acha?
— Uma batalha, hein? – Red sorriu, ajeitando o boné na cabeça. – Para a sua sorte, eu estava pensando exatamente a mesma coisa. Eu aceito o seu desafio – só então ele deu-se conta de um detalhe importante. – Eu ainda não sei o seu nome…
— Ah, foi mal, eu esqueci de me apresentar. O meu nome é Blue.
— Blue – repetiu. – É um nome bonito. Acho que é desnecessário, mas eu também vou me apresentar direito. Eu sou Red, da cidade de Pallet.
— É um prazer.
Blue caminhou até a extremidade esquerda do campo de batalha, de onde ela estava batalhando anteriormente, com Bulbasaur seguindo-a nos calcanhares. Red posicionou-se na extremidade oposta, já sacando a pokébola de Charmander e maximizando-a. Ele olhou para o Pokémon de grama, notando, de repente, que ele era um tanto familiar, e só então percebeu que aquele era o mesmo Bulbasaur que ele havia visto mais cedo no laboratório do Professor Carvalho. Red involuntariamente sorriu, aliviado. Parece que ele também foi escolhido no fim das contas.
— Vai ser uma batalha de um contra um sem limite de tempo, beleza? – Disse Blue.
— Eu só tenho um Pokémon comigo, então não tem jeito. Por mim, tudo bem.
Blue olhou para a garota que estava atuando como juíza mais cedo. Ela se posicionou na lateral do campo de batalha, bem no meio deles, e exclamou levantando um dos braços:
— Podem começar!
— Bulbasaur, vai!
— Charmander, eu escolho você!
O lagarto de fogo materializou-se sobre o chão de terra logo à frente do seu treinador, bem a tempo de ver Bulbasaur se posicionar diante dele com as quatro pernas tensionadas como se estivesse prestes a atacar. Ao perceber que aquilo se tratava de uma batalha, Charmander imediatamente ficou alerta, pondo-se a balançar insistentemente a cauda de um lado para o outro. Red disse:
— Faça as honras.
— A escolha é sua – disse Blue. – Bulbasaur, Investida!
Bulbasaur – Ele gritou ao arremeter na direção de Charmander, a cabeça baixa pronta para atingir o alvo.
— Evasiva!
Charmander pulou para a direita no último segundo e Bulbasaur passou direto por ele, forçando-se a parar bruscamente, deixando um rastro de poeira baixa para trás. Red viu que havia ali uma enorme diferença de velocidade, Charmander era muito mais rápido e ágil. Apesar disso, ele sabia que era melhor não tomar aquilo como uma vantagem absoluta. Cada batalha e treinador era uma caixinha de surpresas.
— Agora é a nossa vez, Charmander! Ataque com o Arranhão!
— Bulbasaur, *Crescimento!
Charmander sibilou e correu até o seu adversário. Seus braços estavam estendidos, as garras prontas para açoitar. Bulbasaur, porém, não se moveu. Ao invés disso, ele permitiu-se ser atingido diretamente numa das bochechas. Red levantou as sobrancelhas. Ele viu o rosto do Pokémon de grama contorcer-se em uma careta de dor, mas este firmou as quatro patas no chão e, por um instante, seu corpo pareceu inflar como um balão antes de voltar ao normal.
— Chicote de Vinha!
— Charmander, evasiva e depois Brasa!
Os cipós surgiram das costas de Bulbasaur e Charmander saltou para trás com um reflexo. As vinhas moviam-se rapidamente pelo ar, contorcendo-se como duas serpentes verdes. Bulbasaur balançou-as contra Charmander, produzindo um reverberante som de chicote. O Pokémon de fogo evadiu com êxito os primeiros golpes e eles acertaram o chão, levantando terra e deixando sulcos rasos no local do impacto, mas passados alguns segundos ele pareceu ficar confuso com os movimentos velozes das vinhas e acabou sendo atingido na barriga. A força empurrou-o para trás, ele soltou uma lamúria de dor. O golpe era pouco efetivo, mas parecia ter causado algum dano, e Red entendeu que aquele era o efeito do Crescimento: o movimento aumentava o poder de ataque do usuário.
Charmander, no entanto, não se deu por vencido. Ele recuperou o equilíbrio rapidamente e estufou o peito, disparando uma pequena chama incandescente que brilhou no ar noturno até acertar Bulbasaur no rosto. O monstrinho guinchou e recolheu os chicotes. Blue olhou a cena com preocupação. Suas mãos estavam firmemente fechadas.
— Vamos acabar logo com isso, Bulbasaur – disse. – Ataque com a Investida de novo!
— Charmander, pule por cima dele!
Red sorriu, divertido, ao ver a surpresa desenhar uma expressão pasma no rosto de Blue. Bulbasaur investiu contra Charmander, e quando eles ficaram a centímetros um do outro, o lagarto pisou na cabeça do Pokémon de grama, usando-a como um trampolim para saltar. Bulbasaur ficou notavelmente desnorteado e freou desajeitadamente, quase tropeçando e caindo no processo. Charmander aterrissou atrás dele e virou-se – as suas costas estavam desprotegidas.
— Brasa!
— Bulbasaur, evasiva!
Mas Bulbasaur não reagiu a tempo. Ele tentou se virar e correr para sair da linha de tiro, mas o fogo acabou acertando-o em seu flanco. Bulbasaur cambaleou. Sua respiração vinha na forma de arfadas desreguladas e suas pernas estavam trêmulas. Apesar disso, não caiu. Red ficou maravilhado com a sua resistência, era incrível ele ainda conseguir se manter de pé depois de receber dois golpes super efetivos em seguida.
— Bulbasaur! – Blue gritou. – Você está bem?!
B-bulba – O Pokémon balbuciou como se dissesse “sim”, a voz entrecortada pela respiração.
— Seu Bulbasaur é duro na queda. – Disse Red.
— Você ainda não viu nada – disse Blue entredentes. Seu cenho estava franzido. – Eu sei que nós ainda podemos vencer, Bulbasaur. Acerte ele com o seu melhor Chicote de Vinha!
As vinhas surgiram novamente, desta vez, aparecendo com ainda mais velocidade do que antes. Uma delas atingiu Charmander na altura do peito com um golpe violento antes que Red pudesse gritar uma evasiva. O inicial de fogo resfolegou, sentindo as dores do ataque direto, mas conseguiu desviar do segundo chicote que vinha por cima. O cipó estalou ao acertar o chão, fragmentos de terra seca foram jogados ao ar, e um sulco bem mais profundo que os da primeira leva de ataques ficou entalhado no local como uma cicatriz.
A boca de Red entreabriu-se. Os ataques de Bulbasaur estavam realmente mais fortes. Seria aquele o efeito da sua habilidade, *Super Crescimento? Ele lembrava-se de ter lido que os Pokémon iniciais de grama recebiam um aumento súbito de poder quando se aproximavam do limite de suas forças. Vendo o estado de Bulbasaur e a potência daqueles chicotes, aquela era a única explicação possível. Somado ao efeito do Crescimento que Blue ordenara mais cedo, os ataques do Pokémon haviam adquirido uma nova força bastante respeitável.
Red soube que a situação havia ficado perigosa. Ele adorou aquilo. Então vocês não vão desistir, não é?
Os chicotes vieram de novo, serpenteando na tentativa de encontrarem o seu alvo. Red sabia que apesar de Charmander ser resistente a ataques de grama, ele não resistiria a muitas pancadas daquelas. Tinha que acabar a batalha depressa se quisesse vencer.
— Charmander, evasiva e Cortina de Fumaça – bradou Red. – Esconda-se e depois acerte ele com os seus melhores Arranhões!
— Não deixe ele fazer isso Bulbasaur, pegue-o agora! – Gritou Blue.
Bulbasaur continuou atacando, forçando Charmander a tomar o máximo de cuidado possível para evitar os golpes. Ele desviou de quase todos. Um o atingiu de raspão no braço, outro, também de raspão, pegou em sua bochecha direita. Ele esforçava-se para acompanhar a movimentação imprevisível do Chicote de Vinha, os olhos vidrados, e quando a primeira brecha apareceu – uma pausa célere, uma interrupção de uma fração de segundo – abriu a boca e expeliu uma fumaça densa e escura que alastrou-se rapidamente pelo campo de batalha. Havia aprendido aquele ataque mais cedo, pouco antes da chegada em Viridian. Ambos os Pokémon foram ocultos pelo movimento. Red e Blue fitaram a fumaça negra, apreensivos e em silêncio. Durante alguns demorados segundos, não se ouviu nada. Os Pokémon pareciam esperar, concomitantemente, para ver o que o outro faria.
De repente, os estalos do Chicote de Vinha, que haviam cessado, voltaram a reverberar. Red imaginou o Bulbasaur golpeando a esmo na escuridão a fim de acertar Charmander. Instantes depois, a fumaça começou a se dissipar devido aos golpes incessantes do Pokémon de grama. Quando o campo voltou a ficar visível, Charmander não estava mais na frente de Bulbasaur.
O inicial de grama percebeu, tarde demais, que ele estava oculto em sua visão periférica, bem ao lado da sua cabeça, com o braço erguido para atacar. O primeiro arranhão de Charmander acertou Bulbasaur logo abaixo de seu olho esquerdo, o segundo, a bochecha direita, e o terceiro e último, vindo de baixo, pegou-o no queixo no que pareceu ser um acerto crítico. Bulbasaur gemeu de dor, cambaleou e, por fim, desabou desacordado.
— Bulbasaur está fora de combate, Charmander é o vencedor! – A juíza gritou, apontando o braço para Red.
— Boa, Charmander! Você foi muito bem!
Chaaar – Charmander estava ofegante, mas virou-se para Red com uma expressão feliz no rosto. Ele correu para o seu treinador, e Red ajoelhou-se com os braços abertos, recebendo-o com um abraço quando o lagarto pulou nele.
Blue, por outro lado, parecia chocada. Ela ficou parada por um momento, fitando o seu Pokémon derrotado diante dela como se não acreditasse no que estava vendo e, somente quando ele começou a se remexer na terra, pegou o frasco de Poção e correu aos tropeços até Bulbasaur. Blue agachou-se ao lado do seu companheiro caído, mas quando tentou espirrar o remédio nele, descobriu que o conteúdo havia acabado. Ela rangeu os dentes e jogou o frasco para o outro lado com força. A embalagem de plástico quicou no chão com um som seco.
— Olha só – disse o garoto loiro. – Finalmente ela perdeu.
Red recolheu Charmander para a pokébola. Ele estava machucado, mas um pouco das poções que ele comprara mais cedo cuidariam dos ferimentos, não havia necessidade de levá-lo para a Enfermeira Joy por enquanto. No campo de batalha, Blue acalentou Bulbasaur em seus braços e fez um cafuné em sua cabeça enquanto sussurrava algo para ele que Red não conseguiu ouvir. O Pokémon soltou um grunhido baixinho em resposta, e então ela o tragou para a pokébola. Red sentiu-se um pouco mal vendo aquela cena, mas não havia o que fazer – em uma batalha, só um dos lados saía vitorioso. Apesar disso, fora uma boa luta. Blue lhe dera mais trabalho do que a maioria dos treinadores com quem tinha batalhado mais cedo.
Red andou até ela. Blue continuava no chão, cabisbaixa, e só notou a sua presença quando ele parou diante dela. Red estendeu-lhe a mão.
— Foi uma ótima batalha. O seu Bulbasaur é muito forte, você tem um excelente Pokémon em mãos.
Blue levantou ligeiramente o rosto para olhá-lo. Seus olhos estavam marejados.
— Você está…
Ela comprimiu os lábios com força e deu-lhe um tapa na mão. Sem dizer uma única palavra, Blue levantou-se e marchou para o Centro Pokémon, pisando forte ao passar por Red. Ela bateu a porta com força quando entrou no refeitório e sumiu de vista.
Um silêncio pesado caiu sobre o campo de batalha, mas logo dissipou-se, pois os treinadores que assistiram a batalha começaram a parabenizar Red pela vitória. Entretanto, ele não estava prestando atenção nos arredores. Red ficou ali parado, encarando a mão em que Blue havia batido durante alguns segundos antes de olhar para o céu, perdido em pensamentos. A noite havia avançado naquele meio tempo e a abóbada celeste agora estava negra, pontilhada por uma infinidade de estrelas.
Perder é mesmo difícil, não é?
Ele enfiou as mãos nos bolsos e voltou para o Centro Pokémon.
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