As Crônicas de Guerra de Alastírr
4 Zyria Rasch 4 - O Jölluntir
Notas iniciais
— Parece que nem tudo está seco. — Zyria disse ao puxar seu pé para fora da lama. O Pântano do Regresso agora era só uma paisagem sombria à direita e, apesar de ainda estar numa área pantanosa, em nada se assemelhava com o outro. A única semelhança era a cor verde-musgo desbotada da vegetação rasteira. Aqui não havia grandes árvores, muito menos Lamvorts. Não havia nenhuma vegetação viva e nem mana nas águas. Tudo se resumia à mato alagado. — Kallya, — Virou-se para encarar a guardiã, cabisbaixa, andando alguns passos atrás.
— Pois não?
Zyria não continuou de imediato. Todas as suas guerreiras, pelo menos as que sobraram, imitavam o gesto. Estavam assim desde que saíram do pântano, e Zyria sabia que a culpa era dela. Nenhuma delas queria entrar lá, e ainda assim seguiram a ordem de sua rainha. Uma ordem que levou à morte de algumas que não foram retiradas de debaixo do gelo há tempo. Sua própria imprudência e desconsideração pelas suas guerreiras havia causado aquelas mortes, mas não tinha como voltar atrás.
— Vamos descansar por aqui, enquanto ainda há luz. Essa água não é tão rica em mana, então vamos precisar de mais tempo para absorver.
— Não deveríamos esperar mensagem das rastreadoras? Podemos estar perto demais para parar agora. — Kallya falou baixo, como se forçasse as palavras a sair de sua garganta, sem ainda olhar nos olhos da velha amiga.
— Vamos descansar, Kallya. — Zyria botou as mãos nos ombros da companheira. — Os últimos dias não foram fáceis. — Conseguiu arrancar um sorriso cansado, o primeiro desde que saíram do lago. — Assim que as rastreadoras voltarem decidirei o que fazer. — Ao passar o comando para as demais, as escamas mostraram um leve tom de felicidade, ou talvez de alívio. Uma por uma, elas se sentaram onde estavam. Não havia nenhum lugar bom para acampar, a vegetação era muito esparsa e baixa, e o nível da água não era suficiente para dormirem dentro também. — Ficarei de vigília por enquanto. — Zyria alegou por fim.
A longa caminhada revelou um lugar calmo e silencioso, interrompido apenas por um vento ocasional. Não parecia haver nenhum animal vivendo por ali, pelo menos não na superfície. Aquele local se dizia intocado, era o que Zyria conseguia sentir. Talvez por falta de tempo, mais chances de ser por medo. Havia criaturas que até elas, Sanärims temiam, assim como os Elfos, Anões e Humanos. Mas não era com essas que tinha que se preocupar agora.
As rastreadoras voltaram próximo do cair da noite, ambas. As notícias eram boas. Um grupo largo com uma carroça havia passado há não muito tempo e se apressassem o ritmo no início da manhã, elas o alcançariam em questão de meio dia de viagem.
— Uma carroça é? Me pergunto como ela passou pelo por essas terras. — Zyria disse de forma irônica.
— Eles foram para terra firme logo após saírem do Pântano, minha rainha. Podemos seguir o curso deles ou tentar flanqueá-los, o que acha? — Disse uma das rastreadoras.
— Dá para saber em quantos eles estão?
— Cinco, minha rainha.
— Sete. — A outra retrucou.
— Não dá para ter certeza. — A primeira relutou, dando um passo à frente. — Como não sabemos o tamanho ou peso do coração de um Begolkinkan, não dá para ter certeza. Mas fora a carroça detectamos mais três cavalos.
— Certo. — Zyria afirmou, olhando para as duas e encerrando a briga. — Iremos fazer os dois. Não somos muitas, mas nos dividiremos. A maior parte seguirá por terra seca, seguindo o rastro deles enquanto um grupo menor os flanqueia. Entendido? — Esperou ambas acenarem com a cabeça antes de dispensá-las, iria ficar mais um pouco de ronda.
Zyria esperou bastante, até que a lua estivesse bem alta no céu e todas suas guerreiras estivessem dormindo. Checou sua espada e escamas, pensando e repensando em sua decisão. Estava tentando se convencer de que era o melhor à se fazer. Não queria arriscar perder mais nenhuma companheira por nada, por apenas uma possibilidade. Se afastou do grupo da forma mais silenciosa que conseguiu, indo para o norte, para a estrada de terra seca. O vento que soprava não era quente nem frio, mas trazia com ele uma sensação de tensão, como se ela estivesse andando sobre uma ponte gelo fino e o menor erro fosse quebrá-lo, jogando-a direto num abismo sem fim. Era essa a sensação que Zyria estava tendo, que a qualquer momento ela poderia ser engolida pelo ambiente à sua volta.
— Não tão silenciosa quanto imagina.
Zyria congelou, virando para trás em câmera lenta e na ponta dos pés para enxergar Kallya parada, sorrindo.
— Há quanto tempo eu te conheço? — Ela cruzou os braços, quebrando o quadril para o lado e batendo um dos pés na lama.
— Não me faça perguntas difíceis. — Zyria protestou, revirando os olhos. — Uns cento e trinta e sete anos, eu acho.
— Que por mera coincidência, talvez do destino, é a sua idade. — Kallya se aproximou, levando a mão direita até o ombro da rainha. — Consigo adivinhar o que você vai fazer só pelo olhar, quem dirá por suas palavras e atitudes.
— Se sabe o que vou fazer, por que está aqui? Volte e fique com as outras. — Zyria apontou para o acampamento. — Se eu não voltar até amanhã a noite vocês podem voltar para o Lago e decretar a missão como um fracasso.
— Do que você está falando? Não é como se pudêssemos ficar sem uma Rainha. Você não deixou nenhuma herdeira, que eu saiba, pelo menos. — Kallya moveu a mão do ombro para o rosto, abrindo um sorriso caloroso. — Além de que não poderíamos deixar seu cor-. Deixe para lá. Está fora de questão.
— Não vou arriscar mais nenhuma vida, Kallya. Você acha que não consigo perceber que muitas não queriam estar aqui? — Zyria abaixou o rosto. — Nem sei como continuaram me seguindo depois do pântano, depois de quase matá-las.
— Não diga isso. — De forma gentil, a guardiã levantou o rosto da rainha pelo queixo. — Você nos salvou lá atrás.
— Salvei? Será que foi eu mesmo? Já não sei, e é por isso que preciso ir sozinha. — Com as próprias mãos, Zyria retirou as da amiga, olhando-a nos olhos. — Até o fim do dia. Se tudo der certo, estarei voltando com o coração de Malakvek.
Zyria não esperou uma resposta, saindo a passos apressados, já não se importava com o barulho. Chegar na terra seca foi um alívio e logo viu as marcas de lama manchando a terra clara, assim como os sulcos das rodas da carroça. Ela respirou fundo, se dando a certeza de que não voltaria atrás.
O sol já havia nascido há algum tempo quando Zyria percebeu que estava se aproximando. As marcas estavam frescas o suficiente para até ela saber que era questão de pouca distância até encontrá-los, era hora de parar e pensar. Cinco ou sete não importava muito, só se fossem guerreiros muito habilidosos. Seria bom se ela conseguisse roubar o coração sem ser percebida, mas as chances eram ínfimas. Zyria puxou a espada junto da bainha, alisando as escamas um pouco gastas nas extremidades. Tinha que se certificar de polí-las quando voltasse para casa.
— Uma bela espada. — A súbita voz fez Zyria saltar da árvore em que estava recostada, olhando para todos os lados. Um humano alto, de ombros largos e vestindo um sobretudo branco surgiu do outro lado da estrada, batendo a roupa como se tivesse alguma sujeira. — São escamas de Sanärims, não? Nunca vi nenhuma, mas dá para dizer só de olhar, belíssimas.
— Você nunca viu uma escama de Sanärim? — Zyria deu dois passos para trás sem se dar conta. O homem não parecia apresentar uma ameaça, mas seu olhar atravessava o corpo da rainha como se enxergasse suas entranhas. — De qual tribo você é? Não reconheço essa roupa. — O sobretudo não possuía nenhuma marca ou símbolo em peculiar, todo liso.
— Te olhando melhor... — Ele deu um passo à frente, esticando a cabeça. — Você é uma Sanärim, não? Esse tom de azul em sua pele e o mais importante, seus olhos. — Ele abriu um sorriso, sinalizando que sim com a cabeça algumas vezes.
Zyria não respondeu. Não era comum para outras raças enxergarem o tom azulado das ninfas na forma bípede. Devagar, ela começou a sacar a espada. — Algum problema com isso?
— Não. — Ele ergueu as palmas das mãos. — É que você é a primeira que encontro. Me chamo Ravir. — Um sorriso brotou em seu rosto, ficando por alguns segundos. — Mas o que uma de vocês faz tão longe dos rios?
Zyria guardou a espada, endireitando-se e dando as costas. — Com licença. — E voltou ao seu caminho. Não demorou até que ela começasse a ouvir os passos pesados atrás de si. Ravir a seguia de forma escancarada, sem sequer manter uma distância para não ser visto. Zyria respirou fundo, parando e levando a mão à espada. — Por que está me seguindo? — Perguntou sem se virar.
— Não estou a seguindo. — A resposta veio um pouco depois, quando ele parou ao seu lado olhando para frente. — Acontece que estamos indo na mesma direção, apenas.
— Ah é? Então diga-me o que tem para lá.
— Terras ao Oeste. — A resposta veio pronta, logo após. — Não me interessa muito o que tem para lá.
— Então você está mesmo atrás de alguém... — Zyria foi diminuindo o tom, como se fosse uma informação secreta.
— Bem, pode-se dizer que sim.
— Você sabe que as nações estão em guerra, não sabe? — O homem agia com tamanha calma que Zyria achou ser um completo desligado social. Talvez fosse alguém que havia se isolado do mundo nos últimos anos. Não, não era o caso. A aparência dele era muito bem cuidada para isso.
— Sim. — De repente, o semblante de Ravir mudou. A impressão de tranquilidade e felicidade sumiu, indo para uma mais séria e sombria. — Talvez ainda possamos fazer alguma coisa, não é mesmo? — Ele voltou para o sorriso descontraído, encarando a rainha.
Zyria deu um sorriso meio torto de volta. Ela nunca foi de acreditar em coincidências e podia jurar que Ravir tinha o mesmo objetivo que ela: o coração de Malakvek. — E o que você sabe sobre essa guerra? — Ela voltou a andar, o convidando a caminhar junto. — Não me olhe com essa cara. Vivemos tão intocadas em nossos lares aquáticos que não sabemos de muito que ocorre na superfície.
— É uma guerra que sempre existiu, de forma fragmentada. — Ele voltou a expressão séria, assim como seu tom de voz. — Anões contra Begolkinkans é o conflito que predomina, apesar destes nunca terem de fato revidado. Vocês contra a união dos Elfos e os Lamvort; e os Ribunkinkan atormentado os dois.
— Não é como se tivéssemos culpa.
— Sim, eu sei. Ou pelo menos é o que vocês dizem. O maior problema são os humanos. — Ele parou por um momento, olhando para baixo e coçando o queixo. — Os humanos foram criados para parar esses conflitos, e o fizeram muito bem. A questão é que o tempo de paz apenas fez com que as populações crescessem e se aprimorassem no uso de Magia e técnicas de combate. Além de que, agora com os humanos ao seu lado, as raças elevaram o nível da guerra. Antes cada uma detinha controle sobre apenas um elemento e suas derivações. Mas os humanos são capazes de controlar mais de um, tendo sido abençoados pelos Deuses com o que chamam de... — Ele chegou a abrir a boca para falar, mas cortou na primeira letra, como se tivesse errado a palavra. Ficou um tempo pensando até desistir. — Deixa para lá. O que importa é que os humanos e sua multi aptidão deixou tudo mais complicado, e perigoso.
Zyria ouvia à tudo atenta. Nunca havia conhecido um único indivíduo que soubesse tanto e falasse com tamanha naturalidade. Era como se ele vivesse para coletar aquelas informações, sem se envolver com todo o ocorrido. — Então, quem você acha que vai vencer a guerra?
— É isso que vou descobrir, se há alguém digno de vencer essa guerra, ou se teremos que intervir de fato. — Ravir voltou a andar, seus passos parecendo fazer o chão tremer.
— E quem são vocês? Alguma organização secreta? Uma quinta tribo, talvez? — Zyria riu um pouco, tentando dar um tom cômico às perguntas, mas não obteve uma resposta. A afirmação de que eles teriam que intervir a incomodava. O fato dele se referir aos "humanos" também dava a impressão de que ele não fazia parte da mesma raça. — Talvez uma raça nova? — A última pergunta não veio às risadas, foi falada num tom sério e sob um olhar intenso. Ainda eram só rumores, mas faziam todo o sentido.
— Nós? Não, eu estou sozinho... — De primeira ele pareceu responder à pergunta, mas a segunda impressão era como se ele estivesse se convencendo de algo. — Sabe, essa guerra destruiu algumas verdades e conceitos. Quem pensaria que os Begolkinkan perderiam a guerra ao leste? — Ravir parecia falar consigo mesmo, andando enquanto olhava para o céu.
Zyria procurou a mancha negra, ainda longe, mas sempre presente. — Os anões são populosos e mais concentrados que qualquer outra raça, até do que nós. Já os Begolkinkan são o completo oposto, estou errada?
— Não. — Ele sorriu. — Vejo que é bem informada para quem vive debaixo d'água.
— É um privilégio quando se vive algumas centenas.
— Ah sim, a longevidade élfica. As vezes eu esqueço que...
Zyria sacou a espada em um único movimento, a apontando para o pescoço do homem. — Não ouse usar esse termo para se referir a nós. Somos Sanärims. Iguisun Sanärim.
— Mas não é isso? — Ravir não se moveu, excepto pelos olhos, fitando Zyria de baixo à cima com uma expressão neutra. — Tiamat se ins...
— Eu sei muito bem como nascemos, não preciso de um forasteiro para me dizer. — Zyria pressionou a ponta da lâmina contra o pescoço de Ravir, deixando-a no limite da tensão antes do corte.
— É a isso que se resume a rixa entre vocês? — Ele pinçou a ponta da espada com os dedos e a puxou para baixo. Zyria até tentou impedir, mas seus esforços nem sequer o abalaram. — Por que não aceitar sua origem? Longevidade, aparência física. Tiamat as criou à imagem dos Elfos de Ælfric, se isso não é segredo para vocês, por que negar?
— Porque nós não somos Elfas. Não importa em quem ou no que Tiamat se inspirou. Somos nós mesmas. Temos nossos costumes, nossa sociedade, cultura, características, tudo. — A raiva crescendo em Zyria fez seus braços tremerem, deixando difícil embainhar a espada. — Não deixarei você dizer que somos cópias deles!
— E por que não? Nós somos como cópia dos humanos. — Ravir disse sem mudar de expressão. — Com algumas melhorias, confesso. — Ele abriu um meio sorriso. — Então a rixa de vocês é uma questão de identidade?
— Exato! Identidade! Não tem como uma raça ser cópia da outra... — O tom de Zyria foi dos gritos aos sussurros conforme ela processava a informação. — Có-Cópia dos Humanos? — A tremedeira mudou de causa, indo da raiva ao medo. — Então você é um... — Assim que seu cérebro assimilou, Zyria deu alguns passos instintivos para trás, colocando a espada entre os dois.
— Jölluntir? Sim. Achei que já tinha percebido, Zyria Rasch. — Os olhos de Ravir brilharam quando falou o nome da rainha. Não nas cores do arco-íris como os das Sanärim, mas divido em apenas quatro: Prata, castanho, azul e vermelho. Zyria saltou para trás, entrando em postura de combate. — Não se preocupe. Não precisamos lutar, não agora.
— Mas se você é um Jölluntir, você veio para...
— Parar a guerra? Bom, ainda não. Minha tarefa por enquanto é outra. — Ele olhou para a estrada em que estavam seguindo. As marcas da carroça já estavam bem recentes e os três cavalos se faziam evidentes agora. — Você está atrás de Malakvek, não é? Por quê?
Zyria deu mais alguns passos para trás apesar de Ravir não ameaçar nenhum movimento. — Engano seu. Estou apenas em busca de informações.
— Não adianta mentir para mim. — Ele se aproximou de uma árvore à margem. Primeiro acariciou seu tronco, arrancando uma lasca logo depois. — Eu percebo mentiras como se fossem mana. — Seus olhos à fitaram como se conseguisse ver através da pele.
— Entendi. — Zyria respirou fundo algumas vezes, diminuindo a tremedeira e embainhando a espada. Ravir não parecia estar ali para lutar, pelo menos não agora. — Como um Filho dos Deuses você deve saber do poder que o coração de um Begolkinkan tem. Em tempos de guerra se torna uma arma inestimável.
— E o que você planeja fazer com o coração se o pegar?
— Quando eu pegá-lo, — Zyria pigarreou, reforçando a certeza de que iria obter o artefato. — vou espalhar sua mana infinita por todos os rios e lagos, enriquecendo nossos lares com mana.
— E depois?
— Como assim "e depois"? Não tem depois. Você sabe a situação que a maioria de nós vive? — Zyria abriu os braços, apontando de um lado para o outro. — A mana da natureza é escassa, não só nos rios e lagos, mas também em superfície. São poucos os lugares com uma fonte de mana constante e confiável. Nós somos dependentes de mana para viver, diferente dos outros.
— É por isso que vocês atacam os Elfos então? E até os humanos, pelo que ouvi falar... — Ravir estreitou os olhos, abaixando o tom de voz.
Zyria desviou o olhar para o chão ao seu lado. Era vergonha? Ou talvez culpa? Não, não tinha sentido ela se sentir assim. Ela apertou o punho e encarou Ravir com toda sua coragem. — Não se pode chamar de ataque quando eles não reclamam. É apenas uma troca de favores.
— Até o que vocês matam no processo? Não me leve a mal. — Ravir levantou as duas mãos. — Apenas busco entendê-las. Entender a todos vocês.
— Não matamos porque queremos. Diferente dos humanos, dos elfos, dos anões e de todos os outros! Somos filhas da Deusa da Fertilidade, não há quem preze mais a vida do que nós! — Ela levou a mão ao peito e suas escamas à seguiram, armadurando todo seu busto em um tom vermelho.
— Então vocês prezam pela vida? — Ravir olhou para as próprias mãos e depois para o próprio corpo. Ao pronunciar algumas palavras num tom baixo, sua pele brilhou como o próprio sol, virando uma massa luminosa que diminuiu de tamanho e mudou seu contorno. Em questão de segundos o Jölluntir havia tomado uma aparência feminina com uma pele num leve tom de azul.
Zyria ficou perplexa e boquiaberta. Ela até iria falar alguma coisa, mas quando escamas brotaram em Ravir sua mente deu branco. Ele havia se transformado em uma Sanärim, ali na frente dela, e o único sinal que o destoava de suas companheiras eram os olhos ainda dividido nas quatro cores. — O que pensa que está fazendo?
— Tentando entender vocês. — A voz ficou mais aguda e baixa. Ele começou a apalpar o próprio corpo. Primeiro o busto e desceu pela cintura e quadril. — É a primeira vez que tomo uma forma feminina, no entanto.
A Rainha Sanärim ficou ali, parada, olhando enquanto Ravir passava a mão repetidas vezes sobre as escamas e o próprio corpo sem nenhum sentimento de vergonha alheia, pelo visto.
— Por que eu tenho mais escamas do que você? — Ele perguntou.
— Porque eu acabei de... — Zyria parou, se perguntando por que raios estava respondendo àquilo. — Não! Não tente arrancá-las. — Ela avançou, impedindo que Ravir puxasse uma escama da própria pele.
— Entendo. — A expressão em seu rosto continuava neutra, ou melhor, atenta ao próprio corpo. — Consigo sentir uma vontade enorme de consumir mana, essa é a Mana Devec? É quase como... — Ele parou de falar, olhando fixo para Zyria e a pegando pelos ombros. Depois moveu uma mão para o rosto da Sanärim, passando o polegar pela bochecha direita.
Calafrios rápidos percorreram Zyria de cima para baixo, seguidos pelo calor do toque que ela conhecia bem enquanto sentia sua mana indo embora. — Narigel. — Concentrou a mana sobre sua pele onde Ravir a tocava. Pouco a pouco os dedos do Jölluntir começaram a ser cobertos por uma fina camada de gelo e seus movimentos pararam. Zyria então o empurrou para longe, passando a mão por onde ele tocou com certo desgosto. — Não faça isso de novo.
— De fato. — A pele de Ravir voltou à brilhar e em instantes ele havia voltado à sua forma normal. — Agora posso dizer que as entendo mais um pouco.
— E então?
— Não posso deixá-la ir atrás de Malakvek.
Zyria alcançou sua espada na cintura, o olhar de Ravir deixava claro que ele não a deixaria passar sem lutar. — Não precisamos fazer isso. Você não precisa fazer isso.
— Deixar vocês terem o coração de um Begolkinkan é um erro.
— Achei que sua missão fosse outra que não parar a guerra. — Ela retrucou, atenta ao menor movimento. Ravir ainda não havia se mexido, mas seu olhar fixo parecia como a ponta de uma espada apontada para seu pescoço desprotegido. Qualquer movimento errado e ela teria sua garganta cortada.
— Eu não vim aqui para parar a guerra, ainda. Mas não muda o fato de que fomos criados para isso. — Ele esticou o braço e murmurou algumas palavras. Uma extensão de ar vibrou, como se em alta temperatura, e um cobertor invisível foi puxado aos poucos, revelando uma espada longa. A região do guarda-mão era semiesférica e espinhos negros e brancos saíam encurvados na direção do cabo, englobando a mão da empunhadura. A lâmina era reta e de dois gumes, mas nada disso chamava mais atenção que o metal, numa mistura de azul e laranja quase que aleatória, dançando da base até a ponta. — Jöllgim Mnorek. Sabe o que é?
Zyria apertou o cabo da própria espada com força e respirou fundo. Seu corpo estremeceu e suas escamas quase saltaram para fora da pele quando sentiu a quantidade absurda de mana que havia acabado de ser liberada no ar. Ativados pelos sentidos, seus olhos passaram a enxergar rastros de uma fumaça espectral circundando Ravir e sua arma. Era uma aura que nunca sequer sentiu antes, de nenhum humano ou elfo e muito menos delas mesmas. Suas mãos tremiam, mas isso não a impediu de entrar em postura, sacar a espada e apontá-la para o Jölluntir. — Você vai se arrepender de tentar me parar. Jöllgimme Prebet, — Sentiu a marca em suas costas se acender e sua visão diminuir, deixando apenas Ravir visível como uma forma rubra. — Aksthovern. — Ouviu o mesmo grunhido de quando debaixo d'água no pântano e sentiu a presença invadir sua mente, empurrando sua consciência para fora.
— Vocês e seus Zodíacos... — O tom de desaprovação foi claro. — Vamos acabar com isso rápido para que você possa voltar para o seu povo. — Ele apenas balançou sua arma como quem não queria nada. A cor da fumaça mudou do branco para o prata, o mesmo do seus olhos, e ventos furiosos brotaram na direção da Sanärim que cruzou os braços à sua frente.
Não havia nada demais naquela magia, mas era forte o suficiente para impedir Zyria de avançar. Ela tinha a sensação de que levantar a ponta do pé era o gatilho para ser jogada para trás. Uma voz baixa chegou aos seus ouvidos seguida do som de lâminas cortando o vento, mas Ravir permanecia parado. Sem sequer ter visto, ela sentiu algo golpeá-la nos braços e região das costelas. Estas estavam protegidas pelas escamas, mas esses foram cortados de leve como se a ponta de uma adaga a tivesse ferido. E não parou por aí. Sentiu golpes subsequentes na cintura e quadril, nos pés e mãos e até nas bochechas. Com esforço moveu a espada mais uma vez, a tocando na bainha. — Ertroise. — Ao invés de destacar as escamas, fez com que elas se movessem pelo seu braço até seus devidos lugares, protegendo as partes expostas de seu corpo, com exceção da cabeça. Os impactos continuaram e arranhões foram surgindo nas escamas, quebrando o padrão arco-íris. Zyria sentiu que era só questão de tempo até sua defesa ser quebrada, não poderia ficar parada. — Tiedortte Igel! — Tentou congelar o ar ao seu redor, como fez contra Aberon, mas em nada se comparava. Assim que uma fina camada de gelo surgia à sua volta, os ventos a quebravam, jogando os estilhaços nela própria.
— É inútil. Não tem por que lutar contra alguém tão mais forte. — A voz de Ravir era forte, potencializada pelos uivos furiosos dos ventos.
— Claro que tem. — Zyria começou com um sussurro, relembrando todas as vilas subaquáticas que já visitou. Quanto mais longe elas estavam do Turbilhão das Correntes, menos mana estava presente na água, o que as deixavam mais fracas. — Não fale como se você soubesse de tudo. Você não viu o que eu vi. — Zyria abaixou os braços de forma a encarar o oponente. — Mana é tão importante quanto oxigênio para nós, é o nosso alimento e podemos morrer por falta dela. É demorado, mas morremos em um longo sofrimento. Você percebeu, não? Então não diga que é inútil.
— E o que você acha que vai acontecer se você pegar o coração de Malakvek? A guerra vai continuar, e vocês se tornarão parte dela. Os anões vão deixar de ir atrás dos humanos e irão atrás de vocês, menos populosas e mais fracas. Vocês terão que passar o resto de suas vidas sem sair na superfície, acha isso justo?
— Nós somos filhas da Deusa da Água, não fale como se viver submersas fosse uma tortura. Estamos preparadas para isso. — O rugido voltou a ecoar na mente de Zyria, Leviatã estava perdendo a paciência. — E mais fracas? Tem certeza? — Ela se concentrou, reunindo toda mana que ainda tinha em seu corpo e um pouco daquela ao redor. Percebeu quando perdeu controle dos membros, entregando-os aos seus instintos e sendo atingida por uma sensação de êxtase.
— Parece que a subestimei. — Ravir falou meio despretensioso, seus olhos correndo Zyria de cima a baixo. Com um único movimento da espada, os ventos ficaram ainda mais fortes a ponto de entortar os troncos das árvores mais finas. Um turbilhão de folhas e galhos secos se formou entre os dois, fechando-se em um túnel.
Zyria sentiu a mana se acumular nas costas quando a temperatura abaixou e o ar voltou a congelar. As escamas se destacaram uma por uma, desafiando os ventos e formando um paredão flutuante à sua frente. Sua mão apertou com força o cabo da espada e a lâmina brilhou nas suas sete cores. — Iguimör. — O gelo não durou muito, derretendo em gotas d'água que desafiavam a física ao flutuar imóveis. Mais gotas passaram a brotar do chão, tomando conta do espaço entre ela e Ravir. — Kizzek. — Os pingos tomaram formas pontiagudas como as da ponta de uma flecha, na direção do jölluntir, e dispararam. Alguns foram diretos e retos, outros descreveram arcos para atingí-lo pelas laterais. Zyria testemunhou a fumaça em torno de Ravir mudar de cor, indo do prata ao vermelho conforme os ventos pararam. Quando as gotas se aproximaram, sublimaram de imediato.
— Vahim. — A palavra foi dita de forma suave enquanto o ar se distorceu, ondulando.
A névoa rubra se expandiu e o ar que havia se congelado em volta de Zyria derreteu e evaporou quando a temperatura aumentou de forma brusca. O chão parecia pegar fogo, como se ela estivesse pisando sobre brasa, ou ainda lava. Suas escamas murcharam e sua pele se enrugou em questão de segundos. Reagindo o mais rápido que pode, a sanärim focou seu feitiço à sua volta, reunindo o máximo de água que pode para cobrir seu corpo como uma segunda pele e chamando as escamas de volta.
Ravir permanecia no mesmo lugar. Seus olhos, agora na cor vermelha, fitavam Zyria como se fosse uma presa, fixos e ferozes. — Não me faça ter que continuar. — A voz saiu um pouco trêmula, mas não como se ele estivesse com medo, e sim como se segurasse para não avançar com tudo.
— Mesmo vocês não conseguem evitar toda a ferocidade de Glyx? — Zyria esboçou um sorriso. — Deveria aprender algo com os humanos, eles conseguem. — Tentou provocá-lo de forma à criar uma única brecha. A fina camada de gelo que conjurou em torno de si não duraria muito mais tempo.
— Talvez eu tente, depois daqui, quando tudo acabar. — Ravir se mostrou inabalado. — Mas por hora...
A temperatura aumentou e a fumaça entre os dois ficou densa, prejudicando a visibilidade e dispersando-se para a floresta adjacente. Zyria só conseguia enxergá-lo como uma sombra borrada, ainda imóvel. Ela se pegou dando passos instintivos para trás, nunca sequer viu um humano trazer tanto calor quanto Ravir estava fazendo agora. O pensamento de fugir passou pela sua cabeça mais de uma vez, e seria a melhor decisão à ser tomada, de fato. Mas ela havia deixado suas guerreiras para trás e não haveria honra em retornar de mãos vazias. Ela precisava do coração de Malakvek. E se não conseguisse passar daqui, não iria recuperá-lo.
— Vejo que não vai desistir, não é mesmo? — Ravir disse. Em seguida, a onda de calor desapareceu e a neblina foi aos poucos perdendo sua força. A aura em torno do homem ficou incolor, mas ainda estava presente. — Não queria ter que fazer isso, mas...
Ravir não precisou completar. Seu entorno coloriu-se num azul profundo e Zyria entendeu num piscar de olhos. Ele tentaria derrotá-la usando os poderes de Tiamat. Poderes que elas, Iguisun Sanärim, dominavam há séculos.
— Não seja tão arrogante. — A rainha sentiu sua mão tremer de raiva em volta do cabo da espada, e não precisou pensar duas vezes. Sua espada se iluminou nas sete cores ao passo que ela iniciou a corrida.
Ravir permaneceu parado, a ponta de sua espada apoiada no solo frente à cintura. Foi quando Zyria ficou mais próxima que ele agiu. O tom laranja de sua lâmina desapareceu, sendo tomado pelo azul ao passo que ele a arqueou para cima, deixando um rasto de fumaça gélida ao som de gelo se quebrando. — Ravonur. — Foi a única palavra dita antes que ele enfiasse a espada no chão. Estalagmites de gelo brotaram ao seu redor, fechando-se em um círculo. Mais coroas brotaram, sucessivas, cobrindo todo o território entre ele e a rainha.
Zyria sequer reteve o passo, muito pelo contrário. Ela acelerou até o último instante, saltando o mais alto que pode. Viu em câmera lenta os espinhos de gelo brotarem próximos à suas pernas. Ela apenas tocou a ponta da espada em um deles e todos derreteram, ao mesmo tempo. Terminou o pulo com uma cambalhota e quando seus pés tocaram o chão molhado ela teve a mesma sensação de quando havia adentrado o pântano. A mana presente ali era das mais refinadas que já havia presenciado. Muito mais poderosa do que aquele lugar poderia prover. Talvez fosse essa a diferença entre os Jölluntir e as demais raças, a capacidade de tocar em Mana Profunda.
Naquele momento ficou claro a diferença entre os dois. Mas ela não poderia parar. Riscou o solo fazendo uma de suas magias preferidas, vendo pequenas correntezas avançarem na direção de seu oponente. — Igard! — Berrou e cobras emergiram dos fluxos na água, com as bocas abertas e presas à mostra. A rainha seguia logo atrás com a espada na altura da cabeça enquanto a segurava com as duas mãos.
— Donfal. — Os lábios de Ravir se moveram devagar e despretensiosos, como se não considerasse tudo aquilo perigo algum.
Zyria viu uma por uma de suas cobras parando se mover, se mantendo erguidas e começando a congelar a partir da cabeça. Mas não era só isso. Ela própria teve seus movimentos parados de forma brusca e contra sua vontade, como se estivesse paralisada. Em seguida, sentiu a temperatura de seu corpo baixar ao passo que seus membros se tornavam frios e sua pele perdia o tom azulado, indo para um vermelho. Uma dor a atingiu no crânio, como se algo o prensasse e a borda de sua visão se escureceu por um instante. Finas camadas de gelo formaram-se na ponta de seus dedos e então ela entendeu o que estava ocorrendo. Ravir estava congelando tudo à sua volta, inclusive a água presente no corpo da sanärim. Pouco a pouco Zyria perdeu controle de seu corpo. A primeira prova veio quando a espada caiu de suas mãos, o cabo escorregando pelos dedos sem mobilidade. Tentou mais de uma vez comandar os membros, mas os estímulos não chegavam, parando no meio do caminho. Ela conseguia ouvir momento por momento de seu sangue congelando por dentro das veias, se dirigindo ao coração. A pressão em seu crânio aumentou e a visão voltou a se apagar pelas bordas, a porção negra ainda maior a cada piscar de olhos.
O rugido de Leviatã a trouxe de volta a si. A visão estabilizou e ela conseguiu raciocinar. Não tinha porquê se desesperar diante de tal magia. Ela era uma filha das águas, a mais forte de todas, aquilo não era nada. Zyria se concentrou, fechando os olhos e desacelerando os batimentos cardíacos. Sentia o avanço do gelo em seu corpo milímetro por milímetro, a mana que lhe invadia e fazia baixar a temperatura de forma à congelar toda a água presente. E seria essa mesma mana que ela iria usar, essa e aquela trazida ao solo por Ravir feitiços antes. Os Jölluntir até poderiam ser mais fortes no geral do que as Sanärim, mas não quando se tratava de água, não quando se tratava de Tiamat e muito menos em manipulação de Mana. Ela estava ali para provar isso.
O berro começou mais como um grunhido de dor monotônico ao passo que suas cordas vocais lutavam contra a rigidez e fragilidade da baixa temperatura. Seu coração virou a fonte de calor de seu corpo, bombeando seu sangue como se fosse água fervente. Pouco a pouco, Zyria foi retomando a sensibilidade de seus membros, vendo sua pele retomar o azul de sempre. Pensou em ficar parada para tentar enganar seu oponente, mas ter toda aquela energia percorrendo seu interior impossibilitou a ideia. O êxtase de experimentar mana profunda era um dos vícios de sua raça, e ela se sentia sucumbindo cada vez mais. E não podia dizer que Leviatã também não estava gostando daquela sensação. Assim que recuperou o movimento das extremidades, tamborilou os dedos no ar enquanto ajeitava sua postura e berrava com toda sua força. Havia esquecido o feitiço, mas sentia que precisava soltar a voz o mais forte que podia no momento. Pequenas ondulações se formaram na camada de água em que pisava, se desfazendo nos pés de Ravir. Por um segundo pode jurar que ele estava indiferente, mas um arquear milimétrico das sobrancelhas era o suficiente para ela acreditar que ele estava surpreso, e era apenas o começo.
Mana era o combustível das Sanärims, assim como o ar para os humanos e a lava para os Begolkinkan. Absorver mana de boa qualidade significava não só feitiços mais poderosos, mas também uma melhoria em todas as suas capacidades, físicas e mentais. Zyria apontou sua espada na direção de Ravir e fez com que suas escamas se destacassem de seu corpo. Em seguida, novas escamas, menores e mais finas, brotaram em sua pele, cobrindo o espaço exposto.
Ela iria com tudo.
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