As Crônicas de Guerra de Alastírr

3 Zyria Rasch 3 - O Pântano do Regresso


Notas iniciais
Alcançando o primeiro objetivo, Zyria se depara com um novo obstáculo. Como ela irá se sair?

— É por isso que as planícies são chamadas de terras de ninguém? — Falou alguma guerreira mais atrás.
— Sim, não, um pouco. — Zyria fez questão de falar alto o suficiente para abafar os murmúrios que haviam começado. — As planícies são muito limpas para os Elfos e muito pobres em pedras para os Anões. Algumas tribos humanas podem fazer suas casas nelas, mas são tão longe de tudo que não deve valer a pena. E se a própria Iguisun Muntak não está por aqui, não deve haver nenhuma outra.
— E quanto às plantações? Ouvi falar que os humanos enterram alimentos e depois os pegam para comer. — Kallya se juntou à conversa, demonstrando certo interesse. — Seria bom ter algo assim, não?
— Seria bom se pudéssemos fazer isso com Mana. — Zyria passou a língua nos lábios só de imaginar. — Mas sim, também ouvi falar dessas tais plantações. Coisa de Ælfric, sem dúvida. Estou mais preocupada com outra coisa. — Zyria olhou para todos os lados. Já estavam no terceiro dia de viagem e o céu continuava limpo, exceto pela massa de nuvens escuras à nordeste que estavam um pouco mais próximas. Ela esperava uma perseguição da Tribo da Água, não tinha como eles as deixarem vagar livre por terra. Eles deviam estar esperando uma oportunidade de atacar, tinha de ser isso.
— Tudo está muito quieto, não é mesmo? — Kallya chegou ao seu lado, falando baixo.
— Sim, mas isso pode ser pela presença do Pântano. — Zyria apontou para o horizonte, as copas do complexo de árvores já era visível, tomando quase a paisagem inteira com seu verde-escuro. E só de olhar, mesmo daquela distância, uma sensação sombria tomava conta da mente da rainha Sanärim. Uma aura intensa permeava a vegetação, de forma que até a luz do sol parecia evitar tocá-la. — Não somos as únicas que devem temê-lo. Mas em tempos de guerra tudo estar tão vazio é estranho. — Zyria nunca testemunhou ou participou de uma guerra antes, mas algo dentro de si dizia que tinha coisa errada. O saque de armas de suas guerreiras a alertou. Um som de vento que começou baixo ganhou força. Um, dois... Não. Três, sem dúvidas. Três seres se aproximavam, e não eram pequenos como aves. Mas nada era visível no céu, não havia sequer nuvens. A planície também não mostrava nada além de mato e alguns arbustos humildes demais para esconderem humanóides.
— E eu aqui me perguntando quem à essa altura ousaria se aproximar do Pântano do Regresso. — Três humanos surgiram em pleno ar, flutuando, não muito longe do grupo de sanärims.
Zyria tentou acalmar suas guerreiras que já mostravam os dentes pontiagudos e apontavam suas armas para os estranhos. — E vocês são? — Ela procurou nas vestes azul-clara por qualquer um dos quatro símbolos, mas não encontrou. — Pelas cores eu arriscaria a Ribukin Muntak, estou certa? — Ela não sabia se agia de forma amistosa ou hostil. A Tribo do Ar sempre foi muito neutra junto dos Ribukinkan Áureos, mas algo nesses três não trazia tal neutralidade.
— A nossa tribo é coisa do passado. — O homem mais a frente apontou para o próprio peito, onde havia um remendo na roupa. — Mas não precisa nos temer. Nós podemos estar aqui para lhes ajudar, não é? — Ele olhou para os outros dois indivíduos que o acompanhavam. — Diga-me, o que faz tão perto do Pântano do Regresso à essa altura, Zyria Rasch?
Zyria deu meio passo para trás, assustada por ele saber seu nome. Seu olhar encontrou o de Kallya, a qual sugeria o silêncio sobre o objetivo delas ali. — Soubemos que os Anões ganharam a batalha no Leste. — Ela começou, esperando para ver a reação.
— E então? — Ele a fitou. — Sim, os Anões ganharam, e o que tem isso?
Pela resposta, eles não deviam saber de Malakvek, e que permanecesse assim. — Vocês não podem ver? — Zyria apontou para a nuvem negra. — Logo eles terão armas o suficiente para acabar com todos nós.
— Ainda não vejo o que as trouxe tão longe de seu lago. Pelo contrário, vocês deveriam estar se preparando para se defender, não? — O homem inclinou a cabeça para o lado, fixando os olhos nos de Zyria.
— Não é óbvio? Viemos em busca de aliança, uma forma de pará-los.
— Aliança? Vocês não vieram em busca de poder? Então não posso ajudá-las, e talvez vocês devessem dar meia-volta, o Pântano não é lugar para vocês. — Ele se virou e começou a ganhar altitude, indo para longe e desaparecendo no céu limpo.
— Como ousa falar assim com nossa — Kallya começou o protesto, pondo a mão no cabo de sua arma nas costas, mas um único gesto de um dos companheiros do homem a calou. Sua boca ainda se mexendo, mas sem emitir nenhum som.
— Devolva a voz dela. — Zyria cerrou os olhos, encarando as duas orbes azuis por debaixo do capuz.
— Seja o que for que estão fazendo, eu não entraria no Pântano se fosse vocês. Ele tem estado bastante agitado nos últimos dias. — Com outro gesto, a voz de Kallya voltou e os dois companheiros seguiram o homem.
— Vamos deixá-los irem embora assim? — Uma guerreira perguntou, incitando as outras.
— Silêncio! — Zyria se virou furiosa. — Não temos tempo a perder. Lembrem que nossa missão é pegar o coração de Malakvek, não participar da guerra com lutas sem sentido. Já perdemos um tempo considerável. — Disse a últioma frase mais para si mesma do que para a tropa. A batalha contra Aberon as fizeram diminuir o ritmo de forma a conservarem energia caso a Tribo enviassem unidades atrás delas. E os três dias de viagem estavam começando a surtir efeito. À essa altura as sanärims já não andavam com as escamas no corpo, mas sim revestindo as armas. Seus olhos já não refletiam o arco-íris com tanta intensidade, predominando duas ou três cores. Suas peles estavam começando a voltar ao tom azulado. O ritmo estava abaixo do normal e o cansaço vinha bem mais rápido. O ar da superfície não era rico em mana como o lago e as reservas corporais não iriam durar muito mais sob aquele sol e calor. Zyria amaldiçoou Aberon e a mulher. Por causa deles, ela decidiu tomar um curso longe do rio que subia até o Pântano, resultando naquela situação. Por sorte o Pântano não parecia longe, na verdade ele parecia se aproximar delas, e depois se afastava. Ficou nesse ritmo por alguns instantes até a rainha sentir um aperto no braço.
— Algo de errado? — Kallya a olhava com certa preocupação, mas as gotas de suor escorrendo pela testa acusavam seu cansaço da mesma forma.
— Só um pouco. — Zyria sinalizou para que o grupo parasse. Precisavam apenas descer uma leve colina e andar mais um pouco para chegar ao Pântano, mas naquele estado seria perigoso caso os boatos fossem verdadeiros. Parando para olhar, ela reparou que a vegetação havia mudado à um bom tempo. O mato já não estava amarelado, retomando um verde quase vívido e alguns arbustos se atiçavam para cima. Com cuidado para não cair de vez, Zyria se agachou e encostou a testa na terra e para sua felicidade, conseguiu sentir a umidade correr bem profunda, e um pouco de mana também. — Tiamat, concedei-nos sua benção e nos permita desfrutar do seu belo toque à este mundo. — Orou, mas não sentiu seu Zodíaco nas costas se acender, um mau sinal. Só que ela não iria parar ali. Enterrou suas mãos na terra, conseguia sentir a água correr bem ao fundo daquele solo e se sua deusa não queria colaborar, iria fazer a magia à força. Usando da sua própria reserva corporal, tentou conectar-se ao seu elemento, seu berço e sua vida. E ele respondeu. Pôde sentir a água atender ao seu chamado, forçando seu caminho para cima. A terra vibrou, como se não quisesse permitir a passagem, mas de nada adiantava. Ouviu Kallya a chamar mais de uma vez, mas não podia se desconcentrar agora. Até que tudo explodiu. O momento em que toda a água saiu do solo foi de alívio, fazendo Zyria cair para trás e levantar a cabeça, respirando fundo e sendo invadida pela sensação se prazer. Gotículas pairavam em pleno ar como se o tempo tivesse parado para elas, cercando toda a tropa. Uma poça se formou à sua frente, mas mais importante que a quantidade era a qualidade. O toque na primeira gota a revelou sua mana, sendo absorvida por sua pele e indo direto para suas veias. As sanärims não tardaram em pegar tudo para si, fragmento por fragmento.


— Estamos aqui — Zyria olhou para trás, para suas subordinadas mescladas por entre a vegetação escura. A terra molhada as faziam se sentir em casa e ela nunca cansava de ver as escamas revestindo o corpo de uma sanärim quando esta estava se preparando para o combate. Da sua visão, estavam todas amarelas, uma mistura de euforia, excitação e suspense, mas todas pareciam prontas. O curto descanso as serviu muito bem. Retirou o último galho da sua frente, revelando uma vista inédita. Montes de lama se amontoavam em torno de árvores cujas raízes saltavam para cima como as pernas de uma aranha. Buracos pareciam ser o padrão por aqui, tanto no grande tronco quando nas próprias raízes. Galhos quebrados flutuavam a torta e à direita pelos caminhos de água turva formados por entre a flora, longe do cristalino que estavam acostumadas. A vegetação não era densa como nas florestas élficas, mas parecia sugar parte da luz do sol, trazendo um tom sombrio e uma sensação desconfortável. Não havia barulho senão pelo fraco som de correnteza conforme a água adentrava ainda mais no bioma.
— Minha Rainha, não tenho certeza se é seguro ficar aqui. Parece que a vida abandonou esse local há muito tempo.
Zyria nada disse, apenas pediu silêncio com os dedos enquanto se aproximava da beira. Seus pés afundavam mais e mais a cada passo, produzindo um barulho único. A terra era bastante úmida, mas foi quando tocou a ponta do dedo do pé na água que ela se sentiu invadida por uma quantidade absurda de mana, e não era uma mana qualquer, era bem refinada. Magia poderosa corria naquele local, e não era uma que ela identificava. Estendeu o braço para impedir que o esquadrão avançasse, não estava com uma boa impressão, Kallya devia ter razão. Captou um som distante bem quando leves ondulações alcançaram a água aos seus pés. — Recuar, vamos dar a volta e monitorar as saídas como havíamos planejado. Eles já passaram por aqui. — Não tinha certeza da última informação, mas seu instinto não costumava falhar. Pôde ouvir o suspiro de alívio das subordinadas, mas a verdade é que não estava gostando nada daquilo. Quando virou-se para entrar na floresta, a mata pareceu fechar-se para elas. Uma densa fileira de árvores se formou, bloqueando o caminho.
Um forte barulho de água atraiu a atenção de volta para o pântano bem quando uma gigantesca árvore se aproximou. Maior que todas as outras, suas raízes se mexiam uma por uma, se lançando à frente e puxando o largo tronco. Sua cor ficava em algum lugar entre o marrom-escuro e o preto. Seus galhos já não portavam folhas, muito menos frutos.
— Faz tempos que não vejo as belas Sanärim por aqui. — A voz era grave e retumbante, gerando dolorosas marteladas nos ouvidos sensíveis das ninfas — Essa Mana... Lívina... Não, não mais. Deveria ficar honrado por ser visitado pela nobreza?
— Você disse Lívina — Zyria deu um passo à frente, desencorajada por Kallya. — Conheceu minha mãe?
— Entendo... Conheci, de fato. Grande guerreira. Uma pena que já não está mais entre nós.
— Como você sabe?
— Porque se ela estivesse, vocês saberiam que é proibido para vocês pisarem nesta terra. — A árvore não tinha um rosto à mostra, mas seu aborrecimento era notável na voz.
— Então você é um dos Lamvorts Ancestrais que tanto ouve-se falar? — Alguns puxões de Kallya fizeram Zyria perceber que as árvores que as cercavam iam cada vez mais se aproximando, encurralando-as.
— Ancestrais? — Uma risada pesada ecoou. — Bom, pode-se dizer que somos sim. Mas diga-me, o que as trazem aqui? À ponto de quebrarem o tratado?
— Não procuramos briga, apenas alguns humanos que se aventuram por suas terras. — Havia algo de assustador na forma como o Lamvort riu. O fato de não ter um rosto para olhar deixava tudo ainda mais perturbador.
— E esperam conseguir informação de graça? Não. Tínhamos um trato, e vou honrá-lo. — O Lamvort emanou uma aura verde-musgo que espalhou-se pela superfície da água ao seu redor, encobrindo todas as árvores no alcance.
— Garotas, armadura completa! — Ao comando, todas as Ninfas revestiram-se com suas escamas, exceto na região dos olhos. Zyria pulou para dentro do pântano, deixando a água até metade das coxas e encarando a grande árvore. Concentrou-se, drenando para si o máximo de mana possível e ativando o Zodíaco em suas costas. — Igel Symir! — Liberou toda a energia na sua forma predileta. Toda a água ao seu redor, junto com as primeiras árvores, foi congelada. Blocos de gelo brotaram dando o formato final de flor. Zyria subiu no gelo com um salto e fez menção para seu esquadrão seguí-la. Puxou de sua cintura a espada, destroçando a primeira árvore congelada no seu caminho de modo a incentivar suas guerreiras. — Vocês ai atrás, foquem em abrir uma rota e fuga. — Se todos os boatos fossem verdade, e se sua mãe preferiu fazer um trato com os Lamvorts anciões, a batalha não seria fácil. No mínimo ela, como Rainha, tinha que garantir a segurança de suas guerreiras.
— Patético. — Raízes e vinhas brotaram de sob o gelo, fragmentando-o em plataformas e lançando-se nas ninfas. As que não conseguiram reagir foram amarradas e arrastadas para debaixo d’água. — Lívina teve uma razão para fazer um trato comigo.
— O que pensa que está fazendo? — Levar uma Sanärim para debaixo d’água não ia garantí-lo nenhuma vantagem, pelo contrário. Ainda mais em águas tão ricas em mana.
— Não se engane. A água aqui é rica em mana, mas pobre em oxigênio. Não dou mais do que alguns minutos para suas guerreiras sufocarem.
Zyria fez menção de avançar, mas os gritos de suas guerreiras a impediram. Algumas lutavam para não serem capturadas, outras se seguravam onde podiam para não serem puxadas. Seu olhar cruzou com o delas, em súplica por ajuda. Não iria deixá-las na mão. Se afastou do Lamvort e desencaixou suas próprias escamas como fez contra Aberon, comandando-as pelo campo de batalha. As vinhas eram resistentes não se partindo no primeiro golpe e cada tempo ganho era uma das suas arrastada para dentro do pântano.
— Formação Coral! — Zyria berrou, começando a entrar em posição. Quando todas se juntaram lado a lado, fechando o círculo, metade do pelotão já tinha sido levada. Zyria passou a olhar para a água, a turbidez escondia qualquer movimento. Apenas algumas ondulações ocasionais davam um pequeno traço de onde estavam. — Eu vou atrás das outras, foquem em se defender das raízes.
— Espere Zyria! — Kallya berrou, mas sua rainha já havia partido.
— E pensar que você seria tola.
Zyria ignorou Lamvort, pulando pelas placas de gelo até onde viu uma de suas guerreiras ser levada. Reencaixou suas escamas no meio do caminho e quando saltou para o mergulho, iniciou a transformação de sua cauda. A água estava morna apesar de seu feitiço, talvez por causa da estação ou pela grande quantidade de mana. Mas mais importante que isso era que Zyria mal conseguia enxergar um palmo à sua frente. Ela conseguia ouvir e até sentir as movimentações ali embaixo, e só.
As guerreiras capturadas estavam sendo arrastadas em alta velocidade e o pântano era mais fundo do que aparentava. Montes de lama atrapalhavam a percepção. Zyria começou a nadar devagar. A própria água ali era mais pesada conforme ela sentia grãos de terra tocarem-lhe a cauda. O Lamvort também não estavam blefando sobre ter menos oxigênio, as guelras se abriam ao máximo a cada inspiração, chegando a arder pelo esforço. Ela seguiu as movimentações mais próximas, sempre com a mão no cabo da espada. Quando chegou perto da primeira, conseguiu ver o contorno das raízes arrastando a sanärim de um lado para o outro. A guerreira nem sequer reagia, talvez já desmaiada. Sem hesitar, Zyria se aproximou e golpeou a planta com sua espada uma, duas, três vezes até sentir atravessar o tecido vegetal por completo. Empurrou a subordinada até a superfície, jogando-a sobre as raízes de uma árvore inanimada e aproveitando para respirar um pouco pelas narinas. Movimentar a espada debaixo daquela água era um esforço que sequer estava acostumada e se fosse uma espada como a dos humanos tinha certeza de que não conseguiria. Deu um breve olhar para garantir que a formação estava se saindo bem contra as vinhas e já estava pronta para mergulhar.
A próxima guerreira capturada estava longe, na direção oposta em que veio. Sem perder mais um segundo, Zyria se dispôs a nadar, suas guelras ardendo mais uma vez pela falta de oxigênio. No meio do caminho, sentiu algo se aproximar e se enrolar em sua cintura, vindo de trás.
— Eu falei que você é tola, adentrando em meus domínios. — A voz do Lamvort ecoou na mente de Zyria.
— Me parece que você é o tolo. A água é nosso domínio. — Zyria se debateu, mas a raiz que a segurava era mais forte e resistente que as demais. Tentou golpear com sua espada, mas era difícil mirar em si mesma e os movimentos não traziam potência o suficiente.
— Não aqui neste pântano, sob minhas raízes. Sua mãe reconheceu isso e propôs nosso tratado, e o que você fez? Acabou com tudo.
Zyria sentiu sua cintura ser espremida e boa parte de seu oxigênio ir boca afora. — Só queríamos uma passagem, você que forçou essa luta. — Alguns pontos pretos começaram a surgir em meio ao marrom da água. Sentiu a força na ponta dos dedos começar a ir embora e seu raciocínio ficar cada vez mais lento.
— Não precisa se preocupar, farei bom uso de suas escamas.
Zyria até queria responder, mas já não conseguia pensar direito. Apenas repudiou a ganância da árvore, assim como todas as outras raças que as cobiçavam. Os pontos negros foram aumentando até tomarem conta de quase toda sua visão. Sua consciência dos próprios membros do corpo foram se esvaindo, até que viu o brilho de sua espada começar a descer, para longe de seu alcance.
— Zyria... — Uma voz doce e suave surgiu, bem baixa como se a chamasse de um local distante, ecoando pelo espaço. — Zyria! — Agora alta e imponente, sem nem um único pingo de doçura e suavidade, a voz se fez reconhecível. — O que pensa que está fazendo? — Os cabelos longos e pretos eram inconfundíveis, flutuando na água como algas delicadas e finas. — Tenha mais postura e seriedade. Um dia você vai assumir tudo isso aqui. Somos as Arautos de Tiamat, a raça mais forte. Você tem o poder, basta acreditar. Se você usar esse poder mais uma vez, poderá por todas nós em perigo. Acho que não está na sua hora ainda. Talvez na próxima você possa vir, essa de agora é importante. — As frases vinham uma após a outra, confundindo a mente da rainha. Se não fosse as mudanças na expressão do rosto, no arranjo do cabelo e no número de rugas Zyria jamais perceberia a diferença temporal entre cada uma delas. As memórias estavam sendo escolhidas de forma aleatória e mostradas uma após a outra sem intervalo, resultando numa chuva de frases ora motivadoras, ora não.
— Mãe... Digo, Lívina. — Zyria endireitou a postura, olhando firme e prendendo a respiração como costumava.
— O que foi, querida? — Um rosto jovem se sobrepôs, sorrindo com ternura.
— Não consigo ver o meu signo. — Zyria ouviu a própria voz, de quando mais nova. Lembrou com clareza da situação. Era ela olhando para o lago, tentando enxergar seu primeiro Zodíaco.
— Deixe-me ver, querida. — Sua mãe a pegou pelos ombros, girando-a para ver as costas. — Naides. Um bom signo, fará de você uma grande rainha no futuro.
— É o mesmo que o seu?
— Não, o da mamãe é um pouco diferente.
— Será que vou conseguir ter um igual ao seu?
Antes que a resposta viesse, a memória mudou. Agora Zyria estava mais velha, coberta pelas suas escamas e já com sua lâmina arco-íris em mãos, encarando sua mãe à sós.
— Por que você está buscando uma luta, e não é isso que queremos. — Lívina estava séria, ajeitando algum acessório de cabelo.
— Mas isso não é parte de ser Rainha? De comandar todas elas? Não devemos abaixar nossas cabeças apenas porque vivemos debaixo d’água! — A Zyria da memória não esperou uma resposta, dando as costas e saindo.
Lívina ainda fez menção de falar algo, mas paralisou ao olhar para as costas da filha, seus olhos refletindo uma nova marca, um novo zodíaco.
— Não entendo. O que você quer? — Zyria olhou ao redor, procurando a imagem de sua mãe mais uma vez. — Eu já aceitei meu destino, aprendi a controlar meu zodíaco. O que mais você quer de mim? — Gritou. — Busquei tempos de paz, cuidei das outras tribos e nos ausentei da guerra até agora.
A imagem de Lívina apareceu mais uma vez, séria. — Já aceitou mesmo? Você pode até controlá-lo, mas já o aceitou de verdade?
— Não entendo. Se eu não o tivesse aceitado, eu não seria capaz de controlá-lo, não? — Zyria tocou as próprias costas e sua visão voltou a escurecer. Ao som de bolhas se formando, a sanärim sentiu uma correnteza passar, tentando empurrá-la para trás. De repente, um rosnado gutural ecoou e o símbolo de seu zodíaco apareceu, a marca de Leviatã, brilhando num azul escuro e seus olhos se acendendo em vermelho. Toda a água parecia mover-se na direção dele, levando Zyria junto até que ficou cara-a-cara. Em um piscar de olhos, ela estava de volta ao interior do pântano. A raiz ainda comprimia sua cintura, mas não sentia tanta dor assim. Sua espada ainda estava em sua mão e suas costas pegava fogo, um calor que se espalhou do centro para as extremidades do corpo. Bolhas e fumaça começaram a emanar de sua pele e sua lâmina se acendeu em um vermelho quase laranja. O aperto em sua cintura sumiu conforme a vinha se retraiu ao som de um grunhido de dor. Zyria nadou para a superfície, descamando a cauda sem esforço. Subiu em uma plataforma de gelo e quase a derreteu antes de controlar sua própria temperatura.
— Não imaginei que conseguiria sair de lá viva, mas agora pouco importa. — Ao comando do Lamvort, mais raízes e vinhas brotaram na direção do grupo de sanärims que ainda se defendia.
Zyria olhou para o grupo, vendo Kallya e as outras tendo dificuldade e sentiu certo desprezo. Se não conseguiam ao menos se defender daquilo, não poderiam se chamar de guerreiras, muito menos fazer parte de sua tropa.
— Vamos, acabe com tudo. — Um sussurro ecoou em sua mente, da mesma voz do rosnado.
Zyria cobriu seu corpo com as escamas e colocou sua espada frente aos olhos à um palmo de distância. A lâmina antes vermelha e fumegante foi retornando ao arco-íris original e a fumaça começou a descer ao invés de subir. Microcristais de gelo se formaram pouco antes de uma camada gélida encobrir a arma. O calor que a rainha sentia em seu corpo desapareceu, substituído por um intenso calafrio e um sorriso de uma orelha a outra enquanto se curvava sobre os joelhos flexionados. A plataforma sob seus pés se solidificou e aumentou de tamanho, tomando agora toda água ainda líquida e emendando os fragmentos anteriores.
— Você não se importa com as que ainda estão lá embaixo?
Sem responder, Zyria avançou com uma velocidade incrível, deslizando sobre o gelo enquanto desviava dos ataques com primor. Os que não eram desviados eram aparados pela espada e cortados. — Isso é tudo que tem? — Provocou. Sua visão estava afiada, as coisas se moviam devagar demais, dando muito tempo para sua reação. Pela primeira vez o Lamvort pareceu virar para encará-la. O lugar onde o elfo deveria estar estava vazio, identificável apenas por um buraco do tamanho de um. — Vou mostrar que seres como você não deveriam existir. Que até Deuses erram.
— Eu não sou fruto de nenhum Deus, garota. — O chão tremeu e uma parede de troncos e videiras emergiu do lago, destroçando o gelo. Zyria parou sua corrida admirando o tamanho do obstáculo entre ela e o Lamvort, bem maior do que poderia pular ou escalar. — Já acabou? — Ele provocou, gritando uma risada ao final.
Com calma, Zyria relaxou o corpo e deixou a ponta da espada tocar o chão ao seu lado. Os troncos eram grossos o suficiente para resistir à alguns golpes e não seria problema se tivesse o tempo para isso. Mas outras raízes brotaram, se comportando como tentáculos e atacando toda vez que ela entrava no alcance.
— Minha Rainha. — Kallya se aproximou acompanhada das outras guerreiras. — Como podemos ajudá-la?
— Não interferindo. — Zyria sequer virou para encarar a guardiã. — Se concentrem em salvar as outras que foram levadas. — Gesticulou pelo pântano. — Elas ainda estão por aí.
— E depois?
— Recuem. Não preciso de ninguém me atrapalhando.
Kallya relutou, mas um olhar firme a convenceu da ideia. Zyria se afastou alguns passos, garantindo sua segurança. Andou de um lado para o outro, analisando cada parte da parede à procura de um ponto fraco, mas era uma mata fechada por completo. Era como se o pântano começasse a partir dali agora. — Uma boa hora para sair e darmos a volta. — Zyria pensou.
— Não. Vamos forçar nosso caminho. — A voz disse em sua cabeça.
— Sim, vamos. — Respondeu no pensamento. — Quem diria que um glorioso Lamvort Ancião se esconderia atrás de uma barreira, se acovardando. — Ela levantou a cabeça, olhando para o topo da parede enquanto falava em alto e bom tom.
— É meu dever proteger este pântano, não importa o que você diga.
— Não quero machucar seu lar, apenas busco respostas. O paradeiro de uma escolta humana. — A voz na mente de Zyria resmungou, dizendo-a para atacar de imediato e destruir tudo à sua frente, mas ela se conteve e sentiu a punição queimando em suas costas. — Apenas nos diga se eles já passaram por aqui, eles estão com algo que é nosso.
— Desde quando o coração de Malakvek pertence à vocês?
— Então eles passaram por aqui. — Zyria concluiu, embainhando a espada e sorrindo. Mandou a voz na sua cabeça embora com muito esforço, sentindo o calafrio ir embora e suas costas queimar como se marcadas por ferro quente. — Não temos mais o que fazer aqui. Meninas! — Virou-se para encontrar suas companheiras retirando as sanärims levadas de debaixo dos blocos de gelo. — Vamos dar à volta.
— Não pense que deixarei vocês irem assim.
— É orgulho que sinto dessas palavras? — Zyria olhou sobre o ombro, suspirando. Vinhas haviam se destacado da parede e se aproximavam com velocidade. — Por favor, poupe-nos tempo. — Em um movimento preciso e veloz, ela desviou, sacou a espada e cortou todas as plantas. Deixou a marca se acender mais uma vez, apenas por um breve momento. Conseguiu sentir a mana penetrar pelas suas costas e se espalhar pelo corpo, bem mais do que contra Aberon. — Tiedortte Igel! — O congelamento começou pelas vinhas, indo até a parede e subindo até que toda a mata foi coberta. Ela embainhou a espada mais uma vez, dando um último olhar antes de virar as costas de forma definitiva.

Notas finais
Comente o que achou do capítulo, sobre tamanho, narrativa, descriçõe. O que vier à mente. E claro, comente o que tem achado da história e das personagens.