As Crônicas de Guerra de Alastírr

2 Zyria Rasch 2 - A Superfície


— Estão prontas? — Zyria olhou para trás mais uma vez. Seu pelotão estava decidido, podia ver. As escamas emanavam o tom azul da confiança, era tudo que precisava. — Não vamos esquecer delas também. — Passou a mão sobre a cauda enquanto a repousava na areia. Fechou os olhos e se concentrou, ainda não tinha se acostumado com a sensação da transformação. Sentir sua cauda partir-se em duas ao som da descamação não era nada agradável. Quando terminou, estava com pernas como qualquer humano da superfície, com uma única exceção: as escamas em sua pele refletia os tons do arco-íris sob os raios de luz do sol que penetravam o lago, assim como seus olhos também ficariam ao sair da água. Perdeu algum tempo se acostumando a sensação dos dedos na areia bem como com as outras articulações e quando viu todas prontas virou-se de volta para a superfície.

Havia tanto tempo que Zyria não saía do lago que a fez esquecer do quão perturbador era a sensação. Primeiro veio a falta de ar seguida da tontura momentânea. Sentiu as guelras na cintura murcharem e penetrarem na pele enquanto as narinas se abriam para respirar. Mas a pior sensação era a da falta de mana. O Rulvuk Zaphyrr, diferente da maioria dos rios e lagos, era repleto da energia divina, e trocá-lo pela escassa atmosfera terrestre era quase uma tortura. Depois de quase rastejar alguns metros para longe da margem e se agarrar à primeira árvore que alcançou, Zyria se impulsionou para cima respirando fundo. Suas guerreiras faziam o mesmo atrás de si. Ela se recostou no tronco e enfiou-lhe as mãos, absorvendo pouco da mana armazenada na planta.

— Minha Rainha. — Kallya se aproximou, se ajoelhando em uma perna. — Veja. — Ela apontou para uma região no céu bem ao longe, ao nordeste. Nuvens cinzas e negras tomavam conta do azul-claro do céu, e não eram de chuva.

— Os anões... — Zyria murmurou. — Eles já devem ter começado à extrair os metais da montanha. Não temos muito tempo. — Se a atividade de forja estava tão ativa à ponto de escurecer o céu daquela distância, ou os anões estavam trabalhando como nunca ou há muito tempo. De qualquer forma, tinham que se apressar. Uma vez que eles fizessem armas o suficiente, nem mesmo elas ficariam à salvo. O coração de Malakvek havia ficado ainda mais importante.

— Sabemos quantos estão escoltando Malakvek?

— Não. Mas também não planejo um confronto direto. — Respirou fundo e repousou a mão sobre o cabo da espada na cintura. — Tentaremos ser mais discretas. Agora vamos. — Zyria levantou, chamando à atenção de todas e apontando para as terras úmidas à frente. Ou era como lembrava delas. A planície antes molhada e com eventuais poças estava seca. Parte de sua vegetação havia murchado e apenas alguns matos sobreviviam. As árvores não possuíam folhas, com exceção daquelas próximas ao lago, dando a impressão de estarem mortas. — Begoum... — Se amaldiçoou por não ter levado a estação em consideração. Mas isso pouco afetaria seus planos. A época do sol castigante não era suficiente para deixá-las debilitadas, ainda mais próximas de corpos d'água como o próprio lago e o pântano.

— Mas que visão rara. — Por entre algumas árvores, uma dupla surgiu. Um homem e uma mulher, trajando vestes azuis e pretas com um símbolo inconfundível bordado no peito.

— Iguisun Muntak... — Zyria murmurou enquanto passava os olhos da marca de Tiamat para encará-los. Ambos de pele morena, o homem parecia se deliciar com a surpresa, exibindo um sorriso numa mistura de alegria e confiança. A mulher estava sem expressão, parada um pouco mais atrás, movendo apenas os olhos. — Quanta honra. — Esboçou um sorriso, gesticulando o mais discreto que pôde para suas guerreiras pararem, e se prepararem.

— Eu que o digo. — O homem se curvou um pouco sobre a barriga. — À que devo a honra de ver a Rainha em pessoa?

— Vinhemos ver como andava a guerra por aqui. — Zyria olhou ao redor, fingindo analisar o local. — Pode não parecer, mas nos importamos com o que ocorre aqui em cima. Alguma informação de útil?

— Não em particular. Essa guerra não nos interessa tanto assim. Temos deveres mais importantes a cumprir.

— Ora, espero que não esteja falando de nos vigiar. — Zyria levou as mãos ao peito, fingindo um leve espanto. — Assim você acaba nos ofendendo. Estamos há quanto tempo sem causar um incidente?

O homem riu. — Incidente, claro. É assim que vocês chamam? Nós temos nomes diferentes para tais... Atos. — O sorriso se desfez, dando lugar à lábios neutros e um olhar semicerrado. Sua mão esquerda se moveu para a cintura, pairando sobre o vazio.

— E não é incidente? Não é assim que vocês chamam também o fato de terem perdido toda a sua... — Zyria parou de forma dramática, fingindo procurar a palavra no ar. — Divindade? Não foi um incidente vocês serem invadidos pelas mesmas mundaneidades que nós? — Zyria sorriu ao ver a expressão do homem passar para uma de raiva. Ele flexionou os joelhos e se inclinou para frente, sua mão se fechando em algo invisível.

A mulher, antes mais atrás, se aproximou e pôs a mão sobre o ombro do companheiro. — Aberon... — Ele voltou à postura normal, relaxado. — Zyria, não é? — A voz da mulher era doce e parecia trazer brisas suaves e confortáveis. Um aroma de flores preencheu o ar quando ela começou a falar. — Diga-me, o que traz vocês à superfície?

Apesar de saber que se contasse haveria uma luta ali, naquele momento, Zyria sentiu uma tranquilidade invadí-la, como se tudo estivesse bem e fosse ficar daquela forma. — Estamos indo atrás do cora...

— Minha Rainha. — Kallya se aproximou, imitando o gesto da humana. — Eles estão usando de magia para tentar nos manipular. — A guardiã real apontou para a espada da soberana. As escamas que a cobriam brilhavam em todos os tons do arco-íris, o indicativo de que a mana se fazia presente.

Como um estalo em sua mente, Zyria pareceu voltar a si. Ela encarou a humana, esta ainda com uma expressão neutra. — Não me diga que... Vocês chamam de Polvo, não é? Quem diria que vocês teriam alguém tão poderoso. — Zyria pegou na mão de Kallya, agradecendo. — Golpe baixo, vindo de vocês.

— Então vocês estão em busca de algo... Bom, não posso deixar vocês passarem. — Aberon respirou fundo, retomando a frente. — Deem meia-volta e tudo continuará como antes. — Ele gesticulou com a mão, apontou na direção do lago e simulou varrer uma poeira no ar.

Zyria apertou o punho para se controlar frente ao insulto, tentando manter a postura. — Vocês não estão mesmo preocupados? — Sua vez perdeu um pouco da compostura ao sair por entre os dentes cerrados enquanto ela apontava para o céu negro à distância. — Os anões parecem bem ocupados. Todo esse trabalho pode desequilibrar a guerra, e ninguém sairá à salvo quando eles produzirem armas o suficiente, vocês sabem disso.

— Nosso dever é apenas vigiar vocês. O que as outras raças fazem são problemas para as outras tribos. — Aberon arqueou os braços de baixo para cima em um arco, seus olhos se acenderam em um tom esverdeado ao passo que a terra tremeu. Uma grande parede de lama solidificada coberta por vinhas surgiu atrás da dupla e rodeou até as Sanärims, bloqueando qualquer possibilidade de avanço. — Imagine se nossa "divindade" — Ele enfatizou o termo. — Não tivesse se esvaído. — Abriu um sorriso ao final, cruzando os braços na altura do peito.

Zyria mordiscou o lábio. Sendo as Sanärims capazes de só controlar a água elas estavam numa desvantagem enorme. Mas também estava longe de acatar ordens de um mero humano. Sentiu o aperto da mão de Kallya no seu ombro e soube que suas guerreiras estavam prontas para o embate. Elas estavam em dez, eles em dois, talvez tivessem alguma chance. Não pode evitar o sorriso se formar em seu rosto, só o pensamento da batalha já lhe eriçava a pele, ainda mais contra dois humanos poderosos. Ao menor movimento da mão de Zyria em direção à espada, Aberon ergueu o braço.

— Eu pensaria mais de uma vez antes de tomar essa decisão. — Ele apontou a palma da mão para baixo e diversas adagas emergiram da terra, pairando em pleno ar apontadas para o grupo das Sanärims. — Essa é uma das vantagens de controlar mais de um elemento. De ser divino. — Ele estufou o peito, exibindo agora um meio sorriso.

— Você gostou mesmo da palavra, não é? — Zyria deu um passo para trás por puro instinto. As lâminas pareciam comuns, não sendo capazes de ferí-las, se não estivessem na forma humana. — Tudo bem. — Ela ergueu as mãos aos céus. — Como um gesto de boa fé, irei retornar desarmada. — Ela desceu a mão devagar até o cabo da espada, tirando-a junto à bainha escamada e erguendo-a à sua frente. — Ertroise. — No momento em que Zyria soltou a arma para que ela caísse, as escamas tanto do cabo quando da bainha se soltaram, vindo de encontro à sua pele de forma a revestí-la, encontrando seu devido lugar sem problemas, encaixando-se pela base e fixando-se umas as outras. Nessa forma, apenas a cabeça ficava desprotegida. O mesmo som se repetindo atrás de si a aliviou, suas guerreiras a haviam imitado com perfeição. A dupla humana sequer reagiu. — Vocês nunca lutaram contra Sanärims, não é mesmo? Deveriam saber que essas lâminas não são capazes de penetrar nossas escamas.

A expressão de Aberon, antes, sem dúvidas de surpresa, mudou mais uma vez para seu sorriso confiante. Com um estalar de dedos, as simples adagas se transformaram em espadas longas, mas não era só isso. As lâminas irradiavam diversas cores, assim como as das próprias Sanärims.

— Essa magia! — Zyria se espantou de início, mas quando passou a reparar nas espadas, sentiu a raiva crescer dentro de si. — Essas lâminas... Quantas de nós foram necessárias? — As suas próprias escamas ganharam um tom vermelho-vivo. — Muito benevolente dizer que nos vigiam enquanto por debaixo dos panos vocês nos exploram. — Seus dentes debatiam-se, fazendo sua fala sair tremida. Fazer uma única espada de escamas Sanärims demandava tempo, e não era um processo benevolente. As escamas eram arrancadas na forma aquática quando estivessem bem nutridas de mana e mais espessas do que na forma humana, e não havia formas ou magias para aliviar a dor. Era um processo diferente da descamação que haviam acabado de fazer, no qual o elo com cada peça era quebrado por completo. O comum era cada guerreira da raça possuir uma única arma, feita das próprias escamas, ou da de familiares, em um processo que durava quase uma estação inteira. Exibir tantas lâminas arco-íris, como eram chamadas, da forma que Aberon estava fazendo era mais do que uma afronta. Zyria conseguia sentir. Suas escamas vibravam não só pelo estado de raiva, mas pela dor que ela conseguia sentir ao ver todas aquelas armas. Sua mente foi invadida pelos gritos de agonia, de sofrimento. Não iria deixar barato. Agora pouco importava se ele conseguia utilizar a magia dos filhos do Ar, era pessoal. — Jöllgimme Prebet. — Disse de forma suave e ouviu Aberon gritar um último aviso, mas pouco importava, ela estava indo com tudo. — Aksthovern. — Sentiu a marca de seu Zodíaco se acender nas costas, o Precursor do Caos. Sua visão foi coberta pela escuridão e onde antes estava Aberon e a mulher humana agora se resumia a duas silhuetas vermelhas, seus alvos. Sua espada foi de encontro à mão, o cabo de ossos de peixe frio ao toque. Pôde sentir Tiamat ao seu lado, o feitiço na ponta da língua. — Närim Jagec!

Zyria correu se agachando. Em resposta, as espadas de Aberon logo começaram a voar, vindo em sua direção. Antes de qualquer coisa, a rainha Sanärim tocou a ponta da espada na terra e sentiu-a absorver toda a mana necessária. Com as duas mãos, ela subiu em um corte ascendente. No meio do trajeto, sua espada liberou uma explosão laminar de água que se espalhou como uma onda no lago. Com força suficiente para empurrá-la para trás, as diversas armas controladas pelo humano foram jogadas para os lados, liberando o caminho entre os dois. Assim que se recuperou, Zyria correu de novo, dessa vez sem preces. Queria sentir o momento em que sua lâmina perfurasse a carne de seu adversário. Mas no próximo passo, seus pés afundaram na terra e quanto mais ela se debatia, mais pressão sentia. Aberon passou a se aproximar a passos lentos, catando uma lâmina arco-íris no meio do caminho e brandindo-a à sua frente.

— Que exemplo patético você está dando às suas subordinadas. — Ele parou à alguns passos, se agachando. — Elas nem sequer se moveram diante à sua atitude pífia e desesperada. Não posso matá-la, para a minha tristeza, então seria bom se você voltasse para o lago. — Apesar da aparente calma em seu rosto, sua voz trazia uma ameaça que apesar de implícita era palpável.

— Patético? Posso dizer o mesmo de sua falta de experiência em combate. Diga-me, quantas vezes você já lutou pela sua vida? Fora das simulações de sua tribo? — Zyria se concentrou, estar presa em lama não era o fim do mundo. Segurou os espasmos de dor quando descolou suas escamas do corpo, mordendo os lábios de boca fechada. — Você já viu uma Sanärim lutar fora d'água? Imagino que não, já que as que você deve ter usado para fazer essas armas manchadas com nosso sangue deveriam estar presas em tanques cheios de água e mana. Assim como as terras úmidas ao redor do nosso lago. — Rostrern! — Suas escamas subiram rodopiando em torno de seu corpo, envolvendo-a em uma espécie de tornado e explodindo lama afora, levando-a junto. — Foi para essa batalha que você aprendeu essas técnicas. — As escamas passaram a flutuar enquanto Zyria guardava a espada na cintura. Com as mãos livres, ela conseguia controlar a trajetória delas ao menor gesto e sem pestanejar, mandou-as na direção do adversário.

Surpreso, Aberon não pode fazer nada se não recuar. Ele usava a espada que apanhou para defletir a maior quantidade de escamas possível, mas eram muitas que mesmo depois de golpeadas e desviadas, achavam seu caminho de volta à perseguí-lo, cortando-lhe nos braços, pernas e tronco.

Os movimentos de Zyria para controlar as escamas eram sutis, era uma dança. Quando ela parou, todas as escamas voltaram a pairar em torno dela, circulando devagar.

— E então? — Zyria olhou para as roupas de Aberon, agora já manchadas de vermelho e rasgadas pelas mangas e pernas. Com um gesto, as escamas sacudiram, se limpando do sangue que escorria pelas suas superfícies. — Quem está dando um exemplo patético agora? — Ela colocou uma das mãos na cintura. Alguns sons de provocação vieram das guerreiras atrás de si, junto de algumas batidas das armas contra as outras.

— Melhor vocês voltarem, antes que o outro apareça. — A mulher deu alguns passos para frente, passando de Aberon e encarando Zyria. Sua voz continuava suave, emanando uma fragrância calma e tranquila.

— O outro? Não sei se ficou claro, garota, mas não temos medo de vocês. Aliás, não sei por que enviaram alguém como você para cá. Polvos não fazem bons combatentes. Costumam ser frágeis. — Zyria deu dois passos para frente, levantando uma sobrancelha.

— Ela não está aqui para batalhar contra vocês. — Aberon se levantou ao fundo, sangue escorrendo da sua testa para o queixo. — Ela está aqui para lidar comigo. — Em um único gesto, ele rasgou a parte de cima da túnica até a altura da cintura, deixando o tronco nu. Logo abaixo do peito, no centro do abdômen, um símbolo se acendia em azul-celeste. Três linhas verticais contornadas por uma na horizontal, como se esta as amarrassem.

Zyria se controlou como pôde ao ver a marca, sentindo um leve arrepio. — E você acha que por isso vai conseguir me derrotar? Você não se compará à mim. — Ela fez menção a marca nas costas. — Conheça o poder do Precursor do Caos. — A Iguisun Muntak não estava brincando ao enviar aqueles dois para vigiá-las.

— Vou repetir pela última vez, voltem para o lago. — A voz de Aberon engrossou no final, ao passo que ele assumiu uma expressão séria e quase que sombria, estralando o pescoço. Assim que ele terminou de falar, a terra começou a tremer. A parede lamacenta que bloqueava a passagem começou a desmoronar, se esparramando para qualquer direção que se afastasse do homem.

— Esse não é um simples terremoto. — Kallya se aproximou, sussurrando ao ouvido da rainha.

— Sim. — Zyria respondeu, acenando com a cabeça. — O próprio fluxo de mana está sendo abalado. — Você! — Chamou a mulher humana. — Vai permitir que ele faça isso? Se continuar assim ele vai destruir tudo, e vai irritar os Deuses, não só Tiamat. — A mulher apenas deu de ombros, mantendo sua expressão neutra.

— O que iremos fazer, minha rainha?

Zyria olhou para o horizonte mais uma vez, observando toda aquela terra seca e o pântano mais ao fundo, manchando as cores claras do dia com sua aura sombria e escura. — Nós iremos atrás de Malakvek. — Ela cerrou os olhos enquanto tentava se equilibrar, o tremor estava ficando mais forte e pedaços de terra passaram a levitar, assim como algumas gotas de água. Aquele feitiço estava distorcendo tudo à sua volta, quebrando a natureza das coisas. Não entendia como os quatro deuses estavam permitindo aquilo. Talvez fosse por isso que eles retiraram os traços de divindade dos humanos.

— O tempo acabou. — Os olhos de Aberon se iluminaram numa mistura de marrom e azul, sua marca no abdômen ficando ainda mais forte. — Jöllgimme Prebet, Rostrern!

Por um segundo Zyria se confundiu quando ouviu a mesma palavra que seu próprio feitiço, mas era algo pior. O tremor aumentou e a rainha Sanärim sentiu-se puxada quando a terra sob seus pés começou a se mover. Logo ela e suas guerreiras estava se movendo em círculos em torno de Aberon. A cada volta elas se aproximavam, até que elas passaram a levitar. Não existia mais a força misteriosa que as puxava para baixo. Zyria começou a debater seus pés, tentando alcançar o chão de novo, mas ela apenas piorou as coisas, girando em torno de si mesma.

— Minha Rainha! — As guerreiras estavam todas na mesma situação, rodopiando em pleno ar.

Zyria mordeu os lábios, nunca havia testemunhado um feitiço parecido, que lhe tirasse toda a sustentação. Era quase como quando estava em água, mas ela não conseguia nadar no ar, pelo menos não com a mesma eficiência. Ela mexeu os braços, tentando se mover, mas nada muito notável aconteceu. Não tinha a membrana entre os dedos como quando submersa, nem a sua cauda. Não tinha... Talvez fosse isso. Zyria fechou os olhos, se concentrando em seu corpo. Imaginou-se sendo tocada pela água do lago, inundada em mana. Um frescor percorreu sua pele e sentiu a fina camada surgir entre os dedos da mão, também irradiando as cores do arco-íris. O ar se tornou mais palpável, sem dúvidas, mas ainda não era o suficiente para fazê-la nadar. Ela precisava de um ponto sólido de impulso. Tentou ainda lançar suas escamas no adversário, mas elas apenas obedeciam o fluxo do tornado e sem uma boa base para a dança não tinha como executar os movimentos de forma precisa, tudo estava um caos.

O excesso de pensamentos havia acabado por distrair a Sanärim e quando se deu conta, Zyria sorria enquanto rodopiava. Aquela situação não era tão ruim, ela já devia estar acostumada à toda aquela bagunça, afinal, era sua natureza. Ela fechou os olhos e passou a focar em seu entorno, na bagunça que estava sendo causada. A distorção era forte, e tinha como centro o próprio Aberon. Tudo estava girando em torno dele, como um grande redemoinho. O sorriso no rosto da rainha aumentou ao olhar para trás, indicando com um sinal de cabeça para suas guerreiras se prepararem.

Jöllgimme Prebet, — Zyria respirou fundo, sentindo aquela mistura de ar quente com as gotículas de água entrar pelas narinas antes de gritar. — Tiedortte Igel! — As gotas começaram a se cristalizar, os grãos de terra foram sendo tomados pela cor azul-clara do gelo. O frio surgiu junto de uma neblina emanando de sua própria pele e ela passou a girar mais devagar.

— Não pense que vou deixar! — O Zodíaco de Aberon se acendeu ainda mais forte em seu abdômen e o redemoinho tornou a acelerar.

Ventos, agora frios, se juntaram ao caos com toda sua fúria, passando como lâminas sobre a pele desprotegida de Zyria, mas ela não podia parar agora. Fez a prece à Tiamat na sua mente sem fraquejar e sentiu a ajuda da deusa chegar através do fervor em suas costas. A neblina aumentou conforme a temperatura foi baixando e respirar estava cada vez mais difícil. Zyria tamborilou os dedos dos pés e das mãos, quase sentindo como se pudesse prender o ar entre eles, estava chegando onde queria. Concentrou toda a magia em seus pés até conseguir congelar o ar o suficiente para se apoiar sobre ele, formando uma fina camada de gelo. Era a hora. Girou o corpo para encarar Aberon e, com toda força e delicadeza, se impulsionou com a ponta dos dedos. O som de gelo fino se quebrando logo se propagou, mas tinha servido ao seu propósito. Zyria sacou a espada, não desperdiçaria aquela chance.

Os planos da Sanärim foram abalados por um tornado que ganhou uma força incrível, jogando-a para cima conforme se aproximava. Os ventos fortes foram acompanhados por um zumbido que surgiu em seu ouvido e uma sensação de tontura. Essa região mais próxima tinha detritos em suspensão, recheada de terra e grama, o que dificultava a visão. Quando chegou bem perto, a ventania era brusca à ponto de paralisar-lhe o corpo. Zyria sequer conseguia mover as pernas e braços, como se presa por correntes invisíveis e bem apertadas. Tudo que conseguia fazer era segurar a espada com toda sua força para que não lhe escapulisse.

Aberon já não estava à vista. A neblina gerada pelo próprio feitiço de Zyria havia incorporado seu aspecto turvo ao fenômeno, reduzindo a visão da rainha Sanärim à poucos metros além de si mesma. Sem saber o que fazer, demorou um pouco para Zyria perceber que já não era puxada na direção de seu adversário e a sensação de tontura piorava a cada instante. Foi surpreendida por um brilho colorido brotando no canto de sua visão e pela suas costas. Sentiu algo rasgar-lhe a carne na região da cintura. Outros também surgiram acima, abaixo, por toda parte. Eram as lâminas arco-íris, elas estavam rodopiando junto ao tornado, deixando tudo mais perigoso. Zyria olhou em volta o máximo que pode à procura de suas escamas, mas a neblina estava densa demais para conseguir enxergar longe. Culpou a si mesma por perder o rastro delas, mordendo os lábios para conter-se quanto aos cortes que vieram em seguida.

— Você não me parece tão confiante agora, não é mesmo? — A voz de Aberon ecoou grave, vindo de todos os lados. — Cansei de ouvir esses gritos, sempre que tirávamos suas escamas era a mesma coisa. Se elas vão crescer de novo, por que se importam tanto?

— Por que nos importamos tanto? — Zyria apertou o cabo de sua espada com toda a força. Aquilo era uma declaração de guerra. Tamanho desprezo, descaso e subvalorização não iriam passar batidos. — Não subestimem... — Sua voz falhou. Os fortes ventos impediam sua respiração. — A conexão com nossas escamas! — O grito saiu com um espasmo, um pedido por oxigênio. Zyria fechou os olhos, abrindo sua percepção para os arredores. Conseguia sentir suas escamas, perdidas em meio ao tornado, mas não foi só isso. As espadas se fizeram presentes em seu radar também e só agora entendeu o porque de ter ouvido os gritos de dor e agonia. A conexão das escamas usadas naquelas armas não haviam sido quebradas por completo, remontando à suas donas. Havia lâminas ali feitas com escamas de mais de uma Sanärim sem qualquer relação direta. Zyria respirou o máximo que pôde, se segurando contra os novos cortes e soltando tudo em um único berro. — Vernir! — Sentiu as escamas reagirem e algumas até enfrentaram o fluxo, descendo ao seu encontro. Cada uma se reencaixou em sua pele como a combinação perfeita que eram. Mas isso não seria suficiente, aquelas lâminas eram capazes de atravessar a defesa de uma Sanärim, mesmo a de uma Rainha.

— Não adianta lutar. Uma vez dentro do meu redemoinho, você só sairá sem vida.

Zyria sentiu as lâminas mudarem de curso, subindo e descendo ao seu encontro. Sentiu suas escamas sendo arranhadas, mas tinha que focar em como sairia dali. Presa como estava, suas opções não eram muitas, então limitou-se a fazer o que era seu melhor. — Tiedortte Igel. — Dessa vez não gritou, falando mais como um sussurro, como se soprasse gentilmente uma pluma no ar. Até teve a impressão de uma pequena nuvem condensada sair de sua boca. O som do gelo se formando não demorou ao passo que o seu entorno se tornava mais frio. Ramificações como raízes se espalharam tomando conta de tudo, trazendo o tom azul-claro mais uma vez. A força soberana do tornado diminuiu, junto da tontura. Quando teve a certeza de que estava parada, algo estava errado. Ela continuava em pleno ar, flutuando. Conseguia mover o corpo, girando como antes, mas ainda não tinha no que se apoiar, não sentia nada puxando-a para baixo. Ela estava isolada em uma câmara de gelo, sendo obrigada a encarar fragmentos de seu reflexo espalhados à sua volta.

O silêncio não perdurou muito mais. Algo se partiu e um único vento atravessou o espaço, Aberon tentava retomar o tornado. Zyria tinha que agir o mais rápido possível. Ela tentou se mover usando as camadas congeladas de impulso, mas elas suportavam um único uso, se quebrando logo após e soprando mais vento adentro.

— Seus passos estão contados, não é mesmo? — A voz do humano ainda vinha de todas as direções. — É só uma questão de tempo até eu transformar essa sua prisão em destroços. Ou será que deveria derretê-la?

Zyria não respondeu. Mesmo para os humanos, poder usar os quatro deuses era algo difícil e que levava bastante tempo, ele só podia estar blefando. — Você é mesmo humano? — Perguntou como forma de distração enquanto percorria todos os cantos com os olhos.

— E o que serei, se não for um? Ah sim, os rumores... — Aberon fez uma pausa, fazendo sons de lamentação logo após. — É melhor você acreditar na morte, afinal, ela está na sua frente.

Múltiplos ventos adentraram ao romperem as paredes de gelo, o tempo de Zyria estava no fim e ela ainda não havia decidido o que fazer. Segurou sua espada com toda força, apontando para onde achava ser o centro de tudo. Mas a incerteza a fez exitar, não podia arriscar um golpe assim, tinha de ter certeza de onde seu inimigo estava. — Se você não é um, você não está com medo? Afinal eles são versões melhoradas de vocês. — Fechou os olhos, concentrando toda sua atenção na audição. Não era tão boa quanto à dos elfos, mas ainda era superior à dos humanos e anões.

— Versões melhoradas nossas? — A voz de Aberon ainda vinha de todos os cantos. Sem o tornado, só podia significar uma coisa, magia. — Nós fomos o ápice, qualquer coisa que vier depois é só imitação.

Um leve tom de raiva ao final da frase trouxe consigo ventos ainda mais fortes. Zyria já sentia-se envelopada quando percebeu o foco do feitiço, bem abaixo de onde estava, não podia perder mais tempo. Abriu os olhos e notou alguns fragmentos de gelo passarem por si, era a hora. Concentrou mais uma vez a magia atrás de si, tentando criar uma camada de gelo mais grossa que as demais. Embainhou a espada e se agachou, movendo o máximo de escamas para os braços enquanto os cruzava frente ao corpo. Assim que a plataforma ficou firme o suficiente, Zyria pulou. A parede de gelo à sua frente era grossa, e o ar capturado dentro dela parecia se mexer mesmo que um pouco, como se fosse fumaça presa. O choque foi duro e rachou apenas a superfície, mas era o suficiente. Revestindo um único punho, a rainha Sanärim começou a disparar violentos socos no mesmo ponto. No quinto, ela conseguiu abrir um buraco um pouco maior que a própria cabeça e o vento aprisionado quase a arrastou para longe. Ao olhar pela abertura viu os cacos de gelo caindo devagar, e lá embaixo, ainda em terra, Aberon. Sem pestanejar, ela usou ambas as mãos para abrir o máximo possível e quando sentiu a ventania atingir-lhe os pés, jogou-se para o outro lado.

Por um mísero instante, Zyria teve a impressão de flutuar, arreganhada em pleno ar, mas logo começou a cair. A descida não era tão rápida, como se algo a amortecesse. Não demorou muito para os pulmões da sanärim reclamarem da falta de ar. Por mais que ela respirasse com força, seu corpo clamava por mais, mas ela teria tempo para cuidar disso depois. Se esforçou para colocar o mínimo de postura e sacar a espada mais uma vez, recuando as escamas para o tronco.

— Você acha que me enfrentar cara-a-cara é a solução? — Aberon olhou para cima. O brilho do zodíaco em seu abdômen ainda era visível, azul e vívido. Sem nenhum movimento aparente do humano, as lâminas arco-íris brotaram de todos os cantos, rompendo o gelo acima e abaixo de Zyria. — A diferença de poderes é tão grande que qualquer tentativa chega a ser inútil.

As espadas voaram mais uma vez na direção de Zyria, mas dessa vez ela não sabia o que fazer. O ar ali parecia ser seco e, portanto, inútil. Talvez fosse hora de derreter as paredes, pensou. Abrindo os braços, ela se concentrou em chamar toda aquela água para si. Como a Sanärim que era, não era muito difícil. Clamou por Tiamat em sua mente sem ter nenhuma Magia pronta, tudo que precisava era exercer controle absoluto, uma única vez. Em resposta, o zodíaco em suas costas queimou, os pedaços de gelo que caíam consigo se aproximaram ao mesmo tempo que rachaduras surgiam na parede de gelo que a cercava. Zyria conseguia sentir, era como se correntes saíssem de suas mãos, tudo que ela precisava fazer era puxar. E ela o fez, em um único movimento e com toda sua força.

A torre entrou em colapso e blocos gigantescos começaram a cair, e a subir. A própria Zyria era o ponto de atração, e o gelo tocava em sua pele como se fosse suas próprias escamas. Algumas lâminas conseguiram achar seu caminho e a feriram nos pontos expostos, mas boa parte cravou sua ponta em um dos obstáculos. Os ventos furiosos voltaram a soprar, agitando a neblina e a sujeira, restaurando o furacão. Mas pouco importava já que ali no centro tudo estava calmo. Ao sentir o toque frio em sua pele, a rainha foi à loucura. Os cristais de gelo estavam repletos de mana, assim como a água do lago, derretendo em questão de segundos. Logo ela estava imersa em um enorme cubo d'água que não parava de aumentar. Em resposta, suas pernas se uniram e sua cauda escamada se formou logo depois, assim como as guelras na região da cintura. Sua própria lâmina arco-íris se acendeu, brilhando nos sete tons. Zyria deu uma pirueta para se acostumar e voltou a fitar Aberon, o qual sequer havia se movido, ainda olhando para cima.

— Você não acha que isso é o suficiente para me derrotar, não é? — Em um único gesto de mão, a água voltou a congelar, das extremidades para o centro do cubo.

— Você não acha que está nos subestimando? — Nutrida de mana como estava, ninguém seria capaz de pará-la, não quando se tratava de acessar os poderes de Tiamat. — Nós somos a raça mais poderosa que vocês podem enfrentar. — Ela derreteu a água mais uma vez, sem esforços, mas tudo não passou de uma distração. No meio tempo, as lâminas arco-íris foram reorganizadas em uma circunferência do lado de fora, cercando Zyria. Não só isso, mas ela estava flutuando de novo, juntamente com seu aquário particular. A água ondulava de baixo para cima, como se algo à empurrasse — Se não podemos cair até você... — Ela soltou sua espada, deixando as mãos livres e apontando as palmas para cima. Apertou os punhos com força e levantou os braços, sentindo-se levantar algo muitas vezes mais pesada que si mesma.

— Quantas vezes você vai rezar para sua Deusa de forma patética? — A voz de Aberon tremeu no final e as lâminas começaram a cair. — Mas o quê?

Zyria olhou para baixo triunfante. Viu o humano perder o equilíbrio ao passo que o chão sob seus pés se desmontou e torrentes d'água emergiram o lançando para cima. Logo o centro do tornado estava inundado e tanto Zyria quanto Aberon estavam dentro d'água. A Sanärim recuperou sua espada e não tardou em nadar, era hora de finalizar seu oponente.

Aberon parecia ainda surpreso, tapando o nariz e boca com a mão enquanto batia as pernas de forma desesperada. Mas assim que viu a oponente, fez um gesto que comandou todas suas lâminas para defendê-lo.

Zyria apenas sorriu. Em água as espadas não eram mais uma ameaça, já que por si só se moviam muito devagar para sua forma aquática, de forma que sequer entraram no alcance de sua própria arma. Seu oponente começou em vão a tentar nadar para longe até as paredes do tornado, mas ao colocar somente os dedos para fora, retraiu a mão, manchando a água de vermelho. O cheiro de sangue atiçou Zyria ainda mais e ela aumentou sua velocidade, preparando o golpe final. Quando Aberon virou para encará-la, sua expressão era de desespero e em um movimento arriscado, seu zodíaco no abdômen se apagou. O sorriso no rosto da rainha se desfez quando sentiu uma enorme pressão em suas costas e uma força a puxar para baixo, tirando todo o controle sobre seu corpo.

— Minha Rainha, minha Rainha!

A voz rompeu o silêncio absoluto, começando bem baixa e aumentando de forma brusca. Antes mesmo de abrir os olhos, Zyria sentiu todo seu corpo doer, soltando gemidos involuntários. Suas articulações pareciam enferrujadas, dando a impressão que qualquer movimento era capaz de quebrá-las. Apenas o pescoço se movia, sob muitos protestos. Devagar, ela abriu os olhos, sentindo gotas de água molharem suas pálpebras e depois escorrerem pelo rosto. A visão embaçada logo se definiu no rosto de Kallya, próximo até demais.

— Kallya... — Os olhos da subordinada brilharam e um sorriso se abriu. — O que aconteceu? — Com muito esforço, Zyria levantou o tronco, se vendo cercada por suas guerreiras. — Por quanto tempo fiquei apagada? Onde está a Iguisun Muntak?

— Pouco tempo. — A guardiã real ofereceu a mão, já de pé. — Ambos sumiram antes que pudêssemos nos dar conta. Ficamos preocupadas com você e não prestamos a devida atenção.

— Não tem problemas. — Depois de sentir um pouco mais os membros e passar a mão pelas escamas no tronco e pescoço, Zyria olhou ao redor. A planície estava alagada com montes de terra distribuídos de forma aleatória. As poucas árvores haviam desprendido parte de suas raízes e a grama seca fora quase toda arrancada. — Não podemos mais perder tempo. Temos que ir antes que eles voltem. — Seu primeiro passo fraquejou, sendo amparada por Kallya, mas Zyria não parou.

— E se eles forem atrás de nós? E se eles atacarem nossas casas? — Uma guerreira perguntou.

Zyria se virou, ainda apoiada. — Eles já estão atrás de nós. Vocês viram, não? As lâminas arco-íris... — Olhou ao redor, procurando-as em vão. — Querem prova maior do que essa? E nossos familiares ficarão bem, contanto que não saiam do lago. — E continuou a caminhar. Nenhuma outra guerreira disse uma palavra sequer, todas seguindo a rainha.

— Certeza que consegue continuar do jeito que está? — Kallya sussurrou ao seu lado, sem mover a cabeça.

— Não seja boba. — Zyria sorriu, olhando para frente. — Estamos falando do coração de um Begolkinkan, não vou parar por aqui.