Theon desmontou de seu cavalo, tremendo. Sua respiração falhava a cada movimento que fazia, até mesmo ao se abaixar para tocar o corpo caído. Mereena estava de bruços, com os cabelos esparramados pela relva, ensanguentados. O Greyjoy teve vontade de chorar; mas não o fez. Precisava ser forte. Por ela, pelos dois. Com todo o cuidado do mundo, virou a loba e colocou-a em suas pernas. Seu rosto estava uma mistura de terra e suor. Bem abaixo do seio esquerdo, havia um profundo corte, que encharcara todas as sedas azuis do vestido. Haviam ainda algumas escoriações fortes por todo o corpo, e em sua testa o sangue agora secava. O rapaz rapidamente levou o próprio rosto ao peito da jovem, e num primeiro momento, nada ouviu. Desesperou-se. Será que chegara tarde demais? Pelos Deuses, não. Por tudo de mais precioso, não. Não podia ter chegado. Repetiu o gesto e após um certo tempo, pôde escutar levemente algumas batidas fracas. Estava viva!

Levantou-se e montou, ajeitando Mereena em seu peito. Cavalgou o mais rápido que podia pela floresta escura e chegou gritando ao castelo. O pai da moça aguardava ansioso no portão, e ao ver a filha naquele estado, se segurou para manter a compostura e não cair em lágrimas.

— Mereena! Theon, graças aos Deuses! — O homem tomou a primogênita em seus braços, se dirigindo rapidamente aos aposentos da mesma. Robb o seguiu, assim como Jon, que carregava uma Arya preocupadíssima em seus ombros. Sansa passava por ali e ao ver o protegido do pai, foi rapidamente ao seu encontro.

— Theon, o que está acontecendo? — Greyjoy tremia. De raiva, ansiedade, medo. Medo de perder sua prometida. Medo de perder a herdeira do Norte, a sua Lady das Ilhas de Ferro — Pelos Sete, você está pálido! O que houve com minha irmã?

— Sua irmã foi atacada por um cervo, numa clareira próxima. Ela está muito ferida. Não sei se ela vai suportar — O rapaz caiu de joelhos, sentindo-se derrotado. Ele não estava com ela. Ela não o ouviu, e vice-versa. Era culpa dele não tê-la impedido de ir naquela caçada idiota. Idiota! Idiota era ela de não o escutar.

— Bom, Mereena pode ser uma selvagem às vezes — A ruiva ajoelhou-se de frente ao kraken, que tinha os olhos azuis banhados em lágrimas — Mas ela é muito forte, Theon. Isso eu tenho certeza. Ela vai voltar, e pior do que estava antes — Sansa revirou os olhos — Logo estará correndo pelo pátio novamente, para desgosto de mamãe e para a alegria do papai — Soltou um riso inocente, muito belo de se ver e ouvir — agora vá.

— Ir pra onde, senhorita Sansa?

— Para o quarto da minha irmã. Creio que a primeira pessoa que ela gostaria de ver ao acordar é você, Theon — Disse, levantando-se e dando a mão ao jovem para que fizesse o mesmo — Então vamos! Vá depressa!

Um tanto abobalhado, Theon subiu as escadarias correndo, por algumas vezes tropeçando em seus próprios pés. Chegando ao quarto de Mereena, abriu a porta sem cerimônias, assustando os Starks ali presentes. Pela primeira vez desde a queda de Bran, Lady Catelyn estava de pé; infelizmente, para cuidar da filha mais velha, que também se acidentara. Meistre Luwin já havia retornado da jornada e limpava cuidadosamente o sangue dos ferimentos da jovem, adormecida. Robb tinha ido atrás dos homens que o protegido enviara para procurar pela irmã, avisando que as buscas haviam cessado. Jon protegia contra o peito a caçula da família, que chorava nervosa. O bastardo acariciava os cabelos da menor e plantava pequenos beijos em sua testa. Ned abraçava Cat junto de si, ambos sentados na cama.

A cabeça do Greyjoy começou a rodar ao ver a menina inerte. Agora, com a testa limpa, era possível ver uma cicatriz no lado direito que começava a ficar rosada. O sangue provindo do corte abaixo do seio também fora estancado e agora estava protegido com bandagens de linho, um pouco avermelhadas. O rapaz podia ver que sua Lady respirava, mas ainda assim com muita dificuldade. O Meistre deveria ter-lhe dado leite de papoula, pois esta dormia tranquilamente, vez ou outra franzia o rosto e gemia de dor. Lorde Eddard foi quem quebrou o silêncio.

— Nem tive tempo de agradecer-lhe, Theon. Fez muito bem em trazê-la rapidamente para cá. Graças a você, minha primogênita está a salvo — O refém permitiu-se sorrir, ainda que tristemente. Mal sabia o lorde que ele faria de tudo para que aquela loba ficasse em segurança...

Se Mereena realmente se casasse com Joffrey, Theon planejava pedir autorização para integrar a Guarda Real. Faria o juramento — e o sacrífio, para ele, que se deitara com dezenas de mulheres nortenhas — de castidade e de lealdade à família real. Tudo para garantir que sua futura Rainha estivesse sendo bem cuidada. Assim, poderia estar perto dela e protegê-la de quaisquer coisas. Mas infelizmente, não poderia tocá-la, sentir seus lábios frios nos dele, aconchegá-la nos braços nas noites de tempestade.

Não poderia tê-la para si.

— Não fiz mais do que o necessário, meu senhor. Prestei um juramento quando cheguei aqui ao senhor e a senhora Stark...

— E à minha filha também. Me lembro como se fosse ontem — Ned cortou o rapaz, calmamente — Aquele serzinho de cabelos castanhos correndo com você por todos os cantos do castelo...e quando você a ensinou a atirar? Nem os Deuses os aguentavam. Vocês dois tiveram uma boa infância — Dessa vez, Theon sorriu verdadeiramente, nostálgico. Sempre que se lembrava disso, pensara em como tudo seria diferente se estivesse nas Ilhas de Ferro. Provavelmente, não teria tido companhia para suas artimanhas, já que a irmã sempre o desprezou — Mas o inverno está chegando e as crianças têm que crescer. E é sobre isso que eu quero conversar com você — Os olhos azuis se arregalaram. Lorde Eddard queria conversar com ele? — Acompanhe-me, por favor — Beijou o rosto da esposa, que segurava fielmente a mão pequena da filha — Volto num instante, meu amor — E deixou os aposentos, com Greyjoy a tiracolo.

Saíram rumo à um quarto afastado, com pesadas portas de ferro. Retirando uma chave fina, o Senhor do Norte a abriu, fazendo com a cabeça para que Theon entrasse.

O cômodo estava um breu, exceto pela luz da lua que cintilava pela janela. Todos os móveis estavam cobertos. Havia algo por trás de um dos panos, suspenso em uma parede. Ned se aproximou dela e puxou o tecido. Era uma pintura de uma mulher muito bonita. O refém pareceu reconhecê-la; ela lhe lembrava alguém. Tinha cabelos castanhos que ia até o meio da cintura, com alguns cachos nas pontas. Os olhos azuis faíscavam e combinavam com a coroa de rosas da mesma cor em sua cabeça. A moça aparentava não ter mais de catorze anos e usava a mesma capa prateada com a qual Mereena não vivia sem. Mereena...isso, Mereena! Aquele quadro era de alguém muito parecido com sua antiga prometida, exceto pelo tom dos olhos e pelos lábios; Meri os tinha um pouco mais cheios e menores. Ambos os homens ficaram um tempo observando a obra, até que Lorde Stark suspirou.

— Bonita, não? — Virou-se na direção do protegido, que afirmou com a cabeça.

— Muito.

— Essa mulher, Theon, era minha irmã. Lyanna era o nome dela. Ela sempre foi...temperamental — Acrescentou, com os olhos brilhando — muito parecida com Arya e com Mereena. Como você já pôde perceber, ela se assemelha muito à sua futura esposa — Futura esposa? O que Eddard estava dizendo? O rapaz virou-se bruscamente na direção de seu amo, bastante confuso — Bem — O mesmo respirou profundamente — Eu pretendia contar para ela primeiro, mas devido aos acontecimentos...isso não foi possível. Creio que gostaria de saber do que eu falo, não é? — O futuro lorde de Pyke concordou veemente — Consegui convencer Robert. Mereena já não é mais a prometida de Joffrey — Uma alegria inesperada tomou conta do peito de Theon. Seu plano havia dado certo, afinal! Agora sua loba estava livre!

— O senhor quer dizer...que agora eu posso ter a mão dela novamente? — Seu sorriso ia de orelha à orelha. Ned gostaria de poder fazer o mesmo.

— Desculpe dizer-lhe com estas palavras, Theon, mas você nunca a teve — A face do rapaz bateu no chão — Quando eu lhe pedi que fingisse ser o protegido da minha filha, você o fez, mas também a iludiu. E a magoou com isso. Robb me contou sobre o ocorrido no jantar — Aquele filho da...- mas também me contou da sua insistência em não se afastar dela. Achei isso louvável vindo de você, já que todos sabem de suas...aventuras — A face de Theon ficou rosada.

— Senhor Stark...sei que o senhor sabe da minha má fama quanto a relacionamentos, e sei também que os Sete Reinos estão cheios de cavaleiros e Sors que podem dar à Meri muito mais do que um dia eu darei, e sei que eu sou só o filho de Balon Greyjoy, mas eu finalmente percebi que eu amo sua filha. Eu amo aquela donzela, creio que desde aquele dia há quase dez anos atrás eu a amei. Eu a quero, e prometo que farei de tudo para protegê-la. Por favor, senhor, eu lhe imploro — Apesar de seu um galanteador barato, daquela vez o rapaz falava a verdade e Eddard podia ver isso em seus olhos azuis. Porém, no fundo, tinha medo; como todo os pais, não queria confiar sua princesinha para um qualquer que poderia a trair, a violentar...mas será que o Greyjoy era capaz disso? Felizmente, Ned tinha suas dúvidas.

— Você tem alguma ideia do porquê de eu ter lhe trazido justamente aqui? De ter lhe mostrado o quadro de minha irmã? — O rapaz negou, um tanto desconfiado — Porque ela era só uma criança quando Rhaegar a raptou. Não deveria ter mais do que a idade de Mereena. Ela se envolveu com a antiga família real...e acabou onde está agora, já fazem 14 anos. Eu não quero que isso aconteça com minha filha. Não mesmo. Então, eu estou pedindo-lhe um favor.

— Estou escutando, meu senhor.

— Se você a ama de verdade...cuide dela — O homem deu um suspiro profundo — veja bem, Theon, eu não sou eterno. Logo, a velhice me pegará e eu deixarei esse mundo. Quando isso acontecer, se vocês já estiverem casados, será Mereena quem assumirá o Norte. Você sabe o quanto minha filha quer isso. E eu quero que quando isso aconteça, ela possa governar com alguém que realmente a ame, e a possa ajudar com as tarefas. Diga-me, rapaz, você aceita isso? Eu posso confiar minha filha à você? — O coração do Greyjou se descompassou pela terceira vez naquele dia. Aquilo era uma grande responsabilidade caindo sobre os ombros. Será que ele estava certo daquilo? Era óbvio que ele a amava, mas não estava certo se queria aquela vida.

— É...claro, meu senhor.

Obviamente, o Senhor do Norte não se convencera com aquela resposta.