As Crônicas da Tempestade

4 Capitulo 3 - Um motivo qualquer


Capitulo 3 — Um motivo qualquer

Omashuu, Reino da Terra.

O som metálico do Trem da Terra trouxe Dalai de volta a realidade. Lá estava o trem, o trem que o levaria para bem longe do Reino da Terra, para bem longe dessa guerra, ele tinha apenas que entrar e desaparecer. O que há com você Dalai? Por que está hesitando? Ele refletiu observando o trem deixar a estação, Por que você deveria se importar? Eles o prenderam por anos! Eles são seus inimigos, todos eles. Você cumpriu sua pena, não deve nada a ninguém….

As coisas estavam acontecendo rápido demais, seus instintos lhe mandavam virar as costas e fugir antes que acabasse cruzando o ponto sem retorno. No entanto, o coração batia indignado com sentimentos que Dalai pensava ter enterrado para sempre. Era isso que Iann iria querer? Ele teria orgulho de um desertor? Ele ainda lutava com o conflito interior quando uma mão quente lhe tocou o ombro e o sacudiu de leve. A mão pertencia a uma criança toda suja com o aspecto de ter tomado banho na lama tão magra que ele podia contar seus ossos sem dificuldade.

— Moço, você tem um yaun para me ajudar? Não como nada há dois dias — ela o perguntou, seu olhar mostrava desespero, medo de ter de dormir mais uma noite de barriga vazia.

Dalai sorriu para a garota, afagou seu cabelo encardido e com um movimento rápido das mãos tirou uma moeda da orelha dela. Ele se permitiu a satisfação de vê-la arfar com o truque e lhe lançar um olhar maravilhado.

— Tome é para você — ele disse pousando a moeda nas mãos da garotinha com uma piscadela conspirativa — Vá compre algo gostoso para comer.

A menina sorriu. Aquele foi o sorriso mais sincero e caloroso que Dalai já vira em anos, um sorriso tão puro e doce de partir um coração. Ele ficou observá-la enquanto ela se afastava correndo para a barraca de churrasquinho no final do terminal. Isso lhe trazia recordações de um passado distante pertencente a outro homem, outra vida. Suspirou desejando voltar ao passado, fazia muito isso ultimamente.

Foi então que duas figuras apareceram saídas de um beco e bloquearam o caminho da menina, lhe tomaram o dinheiro, riram e lhe deram uma bofetada. Ao ver aquilo Dalai se levantou sobressaltado e correu até a menina, mas com aproximação do rapaz as figuras fugiram.

— Você está bem? — ele perguntou ajudando-a a se levantar.

A menina o afastou e levantou-se com a mão sobre a bochecha inchada.

— Desculpa moço, eles levaram a moeda que você me deu — sua voz era embaçada tomada pelo comodismo, não era a primeira vez que isso acontecia, Dalai sabia. O mundo não mudara desde que fora preso, o Reino da Terra era a terra dos fortes e sempre seria.

— Ei, não tem problema, era apenas uma moeda, o importante é que você está bem — ele disse ajudando a tirar o pó de suas roupas — Vamos, eu te levo para casa.

— Mas e o seu trem?

— Perdi a vontade de viajar.

Durante todo o percurso caminharam em silêncio absoluto, a menina não queria falar e Dalai não iria forçá-la. Caminharam por algum tempo deixando o movimento do terminal ferroviário e entrando nos bairros silenciosos das periferias de Omashuu. A menina morava em um antigo casebre de dois andares caindo aos pedaços, tão velho que até mesmo as vigas de madeira, de tão gastas e corroídas, poderiam desabar a qualquer momento em cima dos moradores, estes que insistiam em remendá-las e escorar com tábuas partidas.

— Mamãe, cheguei — a menina chamou quando chegaram à varanda.

Um minuto depois uma mulher apareceu a porta. Estava tão suja e faminta quanto a filha, em uma das mãos segurava um balde e na outra trazia uma arma de projéteis usadas por não dominadores.

— Quem é você? — ela perguntou se virando ao estranho ao lado de sua filha.

— Esse é meu amigo, o moço que me ajudou na estação quando os caras do Deng apareceram — a menina se apressou em apresentá-los — E moço, essa aqui é a minha mãe.

Embora a menina não percebesse, Dalai podia sentir o olhar desconfiado da mãe, um olhar fulminante que faria qualquer coisa para proteger sua filha.

— Eu já estou de partida, só vim trazê-la em casa para garantir que não fosse atacada de novo — ele falou por fim — tenham uma boa noite.

Dalai já ia dando as costas:

— Espere. — A mulher chamou pousando a arma de cano duplo no encosto da porta — Venha jantar conosco.

— Eu não posso. Tenho realmente que ir agora.

— Eu insisto. — A mulher despejou a água suja no quintal e acenou para dentro — Prazer meu nome Nae e ficaríamos felizes se você se juntasse a nós.

Algum tempo depois estavam os três junto à mesa compartilhando uma refeição humilde e contando histórias. Dalai experimentou uma certa nostalgia que não sentia há anos, bom desde que fora expulso dos Nômades do Ar, sentir esse sentimento familiar doía um pouco, mas também era reconfortante.

— Isso sempre acontece? — Dalai perguntou a mulher após a refeição e da menina ter ido para a cama — Sempre as machucam e levam suas coisas?

Nae suspirou pesarosa deixando de lado um prato que esfregava.

— Desde que meu marido morreu eu e Lin tivemos de nos virar com o que podíamos, a falta de alimentos e de dinheiro não são nosso maior problema. Sempre há pessoas que gostam de viver do trabalho dos outros, e como somos apenas nós duas, esses homens se aproveitam de nós já que não podemos nos defender.

— Já tentou a polícia? — Dalai indagou, pelo que se recordava Omashuu era uma das poucas cidades em que ainda funcionava o sistema.

— A polícia? — ela riu amargamente — eles são os piores, tiranos que obrigam os cidadãos a pagarem impostos pela "proteção", mas quando precisamos se fingem de cegos e permitem que homens como aqueles nos oprimirem.

Ele ouvira as histórias de como as coisas estavam difíceis em Omashuu mas pareciam piorar cada vez mais. Não é problema seu, ele dizia a si mesmo, apenas vire as costas e vá, elas não precisam de um criminoso como você para defendê-las. Se fizer alguma besteira, Raidou vai te encontrar, talvez encontre até mesmo elas e as machuque.

— Como posso ajudar? — ele se pegou dizendo.

A mulher riu de desgosto.

— Não jogue seu tempo fora, garoto, esses não são caras que você queira irritar, não é à toa que heróis morrem cedo por aqui. — Ela suspirou juntando-se a ele na mesa — Não há como pará-los. São como moscas, mesmo se os afastassem por um tempo outros tomariam seu lugar. Talvez outros até piores.

Dalai cerrou os punhos.

— Me diga onde posso encontrar os homens de hoje cedo — ele disse. E naquele momento Nae soube, aqueles olhos queimavam em uma fúria destruidora — E prometo que nunca mais irão incomodá-las


Já era altas horas da madrugada quando um rapaz entrou pela porta do bar do Pingente Solar. O barmen observou enquanto o rapaz fazia seu caminho até o balcão e puxava uma cadeira.

— Me dê sua bebida mais forte — ele pediu e se virou para ver quatro homens que bebiam ao fundo do bar.

Servida a bebida, o barmen a pôs no balcão e aconselhou o rapaz:

— Sei no que está pensando e não faria isso se fosse você.

O rapaz lhe lançou um olhar repleto de desdém:

— Se fosse você cuidaria da sua vida, amigo. Me preocuparia mais com o estado deles quando eu acabar — ele disse e pegou o copo erguendo-o bem alto para que todos pudessem ver — Senhores! Eu quero propor um brinde aos meus caros amigos — Dalai apontou para os quatro ao fundo — A esses homens que estão aqui essa noite gastando o dinheiro roubado de crianças e mulheres indefesas! Um brinde a esses homens que são o orgulho de nossa pátria, esses que não possuem um pingo de honra ou dignidade!

A clientela olhou feio para o rapaz já imaginando o terrível fim que levaria. Os quatro homens se levantaram e um deles, provavelmente o líder, disse:

— Quem diabos você pensa que é moleque? Para chegar aqui e nos insultar dessa forma?

O rapaz pousou sua bebida no balcão e coçou a cabeleira.

— Eu sou o homem que veio para lhes dar uma surra jamais vista antes — Dalai disse simplesmente — E em qualquer outro que perturbar as famílias dessas redondezas! Então... cavalheiros, qual de vocês quer ser o primeiro?

O líder fez sinal e um deles avançou em Dalai tentando agarrá-lo, mas o rapaz escapuliu por entre seus braços e passou o pé por entre suas pernas e o derrubou por cima do balcão. Feito isso agarrou a cabeça do bandido e a acertou com força no tampo de madeira. O vermelho pintou o balcão quando o sujeito escorregou inconsciente para o chão ladrilhado.

— Que tal irmos lá para fora? — Dalai sugeriu aos quatro remanescentes depois pegou seu copo e tragou a bebida.

Do lado de fora, os cinco homens se encararam por um momento, estudando-se. Dois bandidos sacaram facas de suas vestes e investiram no jovem. Dalai avançou também ao seu encontro e deu uma rasteira com o ar no primeiro e se desviou do golpe do segundo. O metal mordeu seu peito em um segundo ataque e um filete de sangue desceu pelo corte superficial.

— Hora de morrer moleque — gritou o líder enquanto puxava o aço de um poste de luz e revestia suas mãos.

Dalai esquivou de outro golpe de faca e lançou seu atacante para longe com uma rajada de ar. O líder dos bandidos saltou e socou a terra elevando uma onda de pedregulhos pelo chão. Mas o rapaz deu impulso com o ar atirando-se para cima em uma cambalhota pousando em cima de um poste para evitar a onda que levou satomóveis e destruiu hidrantes.

— Isso é tudo que tem? Chega de brincadeiras, vamos acabar logo com isso! — Dalai berrou

Dalai reprimiu ar nas mãos até formar uma rajada tão fina quanto a lâmina de uma espada e a arremessou no ladrão. Mesmo erguendo uma barreira de pedras de nada adiantou, a terra foi cortada como papel alcançando a carne do bandido a retalhando. Sangrando e derrotado, o bandido tentou correr, mas Dalai se projetou à sua frete e o ergueu pela gola colocando-o contra a parede.

— Aonde pensa que vai? — Dalai o ergueu mais alto e sorriu — Então você gosta de roubar de mulheres e crianças, não é? Eu deveria matá-lo, mas prometi a alguém que nunca mais faria isso, nem mesmo vermes como você.

— P-por favor! — o bandido suplicou — Eu vou deixá-los em paz, eu te imploro.

— Ah! Implora é? Nunca mais ouse dar as caras em Omashuu outra vez, entendeu? Ou vou te achar e realmente te matar — Dalai vociferou. O homem sentiu os olhos insanos do rapaz e via que falava sério — Suma!

Mancando o homem fugiu para nunca mais voltar.


Ao amanhecer Dalai voltou a casa de Nae e bateu a porta.

— Dalai — a mulher olhou-o exaltada — o que ouve com você? O que é esse sangue na sua roupa?

— Eles não voltarão a te incomodar — Dalai disse sério — devem estar agora saindo de Omashuu. Pegue — e enfiou a bolsa de yuans nas mãos da senhora — Pegue sua filha e saiam desse buraco. Boa sorte em sua nova vida...

Sem esperar uma resposta Dalai se virou e foi embora. Seu coração de pedra agora voltara a bater e se lembrou pelo que vale a pena lutar, ele podia ser um criminoso e um assassino, e daí? Isso não o impediria de salvar milhares de vidas que se perderiam nessa guerra. Ele iria sim, derrotar o Avatar, custe o que custasse.

O sol já surgia por trás da montanha quando Dalai cruzou os muros do castelo real, renovado e agora com um objetivo em mente. Pulou a janela e invadiu a sala do conselho de guerra onde os generais da Terra e do Fogo estavam reunidos.

— Já estávamos decidindo como iríamos arrastá-lo de volta para Valu. Que bom que nos poupou o trabalho de caçá-lo — comentou o general Raidou por trás da mesa fumando um cachimbo ornamentado. — Mas pelo visto ainda resta um pouco de juízo em sua cabeça de vento.

— Então senhores, como derrotaremos o Avatar?

Notas finais
Yo galerinha. Desculpe qualquer erro de português ou concordância, sabe eu sou novo nisso. Valeu pelo apoio. Ass: Cavanhaque Maroto