As Crônicas da Tempestade

3 Capitulo 2 - Mais um na multidão


Capítulo 2- Mais um na multidão.


Completara dois dias desde que Dalai deixara a prisão do Reino da Terra e se a hospedara no castelo de Omashuu na companhia constante da Capitã Lian Fu. O que para Dalai se provara um verdadeiro tormento. Finalmente se via livre das correntes, e ainda se sentia prisioneiro. Sempre soubera como seria sua vida se o soltassem, provavelmente nunca iriam fazer isso se não obrigados pelas circunstâncias complicadas. Mas o pior de tudo eram os olhares. O tipo pacífico nunca fora sua praia, não possuía essa virtude que se esperava de um monge do ar, o que em sua tradição trazia um vexame para família. Os monges nunca tentaram ou fizeram questão de entendê-lo, mas não importa, pois sempre forjara o próprio caminho à ferro quente.

Era a manhã do segundo dia quando fora convocado para uma reunião com o general Raidou e o primeiro ministro Huaq.

— Você não pode ir assim a uma conferência com o primeiro ministro! — Uma das empregadas lhe disse antes que pudesse sair.

Ele caminhou ao espelho e deu uma boa olhada: via apenas um homem marcado pela dor. Seus cabelos pretos lhe caiam pelos ombros, quebradiços e sujos, a barba fina que cobria seu rosto era uma máscara de fuligem sem falar é claro do mau cheiro e das roupas esfarrapadas. Esses detalhes o aborreciam, nunca se preocupara com isso antes na prisão, já havia desapegado dessas coisas mundanas há muito tempo. Para ele o que importava era o interior, não o que vestiam.

Depois de um banho, de ter prendido o cabelo e ter feito a barba ele estava consideravelmente apresentável para a reunião. Quando saiu de seus aposentos Dalai reparou pelo canto do olho, Dai Lis à espreita, sempre o observando como se estivesse prestes a explodir. Ele gostava disso.

— Será que os senhores me fariam a gentileza de me mostrarem o caminho? Passei muito tempo preso em um cubículo, acabo me perdendo fácil nesse lugar.

Assim, os guardas guiaram o caminho, apenas não contavam que ele havia desaparecido. Sem qualquer ruído, o ex-prisioneiro escapuliu. Dalai mau virara o corredor e dera de cara com a Capitã Lian Fu, trazia na mão uma arma de projéteis com dardos tranquilizadores. Ele praguejou um palavrão obsceno e os dois se encararam por um instante.

— Onde estava indo Dalai? — ela perguntou severamente.

— Eu apenas estava esticando as pernas, sabe, pegando um ar — ele a observou leva a mão à cintura onde pendia um rádio — nada com que um moça bonita como você deva se preocupar, é claro.

— Nem ouse pensar em fugir prisioneiro, ou a próxima vez que nos encontrarmos será a sua última. Não temos tempo para perder com assuntos desnecessários, então poupe-me do trabalho de babá e finja só por um momento que é um adulto.

Dalai estreitou os olhos, indignado. Lá vinha ela com tal atitude, todo o palácio o olhava de cima como se fossem superiores. Desde pequeno convivera com mestres arrogantes que o tratavam como um verme, por que ali deveria ser diferente? Apenas se mudara para uma cela maior, mas ainda continuava encarcerado.

— Não preciso de babá alguma. Não pense que pode me deter, farei o que eu quiser, capitã — e um rajada de vento soprou pelo corredor levando todos os adornos das paredes. Lian Fu girou desferindo um chute lateral ardendo em chamas. No entanto, Dalai rolou por baixo e a derrubou com uma rasteira.

Lian Fu estava no chão assimilando o que aconteceu, só então reagiu se levantando com um pulo armando o próximo ataque. Mas um poderoso soco lhe acertou a lateral da cabeça fazendo seu mundo rodar. Dalai a arrebatou e colocou contra a parede, seus olhos verdes brilhando sob sua presa.

— Entenda capitã, eu sou muito superior a você e sua raiva. — Dalai a puxou para mais perto, o bastante para lhe sussurra no ouvido — Lamento por isso, odeio ter que ferir uma garota linda como você. Mas se esse for o preço pela minha liberdade, assim o pagarei.

Ele deixou-a cair, e seguiu seu caminho para o corredor que levava até os muros externos. A última visão de Lian Fu antes de cair inconsciente.


Dalai pulou os muros com bastante facilidade, fazia tempo desde a última vez que lutara com alguém e se sentia como um velho de sessenta anos: cansado e frustrado com o seu estado atual. Mas de que importa? Nunca mais voltarei a vê-los novamente, vou apenas desaparecer, ele pensou enquanto caminhava pelas ruas de Omashuu.

Ah Omashuu! A cidade estava tão pobre e deplorável quanto o dia que a vira pela última vez, o lugar perfeito para se fazer dinheiro rápido e recomeçar, outra vez. As ruas estavam especialmente agitadas aquela manhã, cochichos e fofocas sobre o dirigível da Nação do Fogo que chegara um dia atrás e a notícia da guerra já se espalhava rapidamente pelas vielas. Mães protetoras tentavam esconder seus filhos dos olhos dos soldados; e moribundos se alistavam para o exército com a promessa de comida e cama para se deitar a noite, uma tática comum em tempos de crises.

Guerra. Dalai havia se esquecido o porquê de eles o terem libertado: lutar. Sabia fazer apenas isso e, modéstia à parte, era um dos melhores no que fazia. Uma guerra sem esperança, nunca derrotariam o Avatar, não sozinhos. Ele continuou seu caminho pelas vielas vagando como um fantasma a procura de encontrar algo que o distraísse e lavasse essa culpa.

— Ei você ai! — alguém o chamou — É você mesmo ô cabeludo, que tal faturar uma grana preta?

— Fale mais, meu amigo...

Quem o chamara fora um homem alto e robusto, o que se esperava de um nativo da Terra, um homem ambicioso que adorava o dinheiro acima de tudo, tão comuns em cidades a beira da falência quanto ratos em um esgoto.

— Estou falando de lutas, você sabe, um contra um. parece que está passando por dificuldades financeiras e precisa de uma grana, não é? — o homem continuou passando o braço no pescoço do rapaz.

Dalai sacou a jogada do homem, ele provavelmente queria alguém para perder uma luta e quem melhor do que um estranho de outra nação?

— Claro, quanto vale a luta? — Dalai perguntou.

— Posso dar um saco de moedas por luta, se vencer é claro — ele acrescentou com desdém.

— Então temos um acordo.

A plateia gritava com a entrada de seu campeão das ruas, Moshu. O gigante trajava um robe de exibição verde trazendo o brasão nacional nas costas e uma boina cinza na cabeça, um homem tão orgulhoso quanto um nobre, porem rígido como uma rocha. O campeão fez seu percurso até a gaiola de ferro, como era chamada a arena circular que possuía uma proteção de ferro para não se acertar o público pagante, deixou cair o roupão para exibir uma carranca intimidadora. Do outro lado, entrou o desafiante vestindo calças simples e uma camiseta, sem muita cerimônia, Dalai caminhou até a gaiola em meio as vaias.

— Hora de morrer garoto — o campeão provocou alisando o proeminente bigode ornamentado com anéis dourados.

— Não acho que isso vá rolar vovô. — Dalai sorriu. A vibração da arena aquecia o sangue a cada nova martelada do coração. — Você que precisará de cadeiras de rodas quando isso acabar.

E soooou o gongo. A iniciativa veio do campeão, um movimento rápido lançando dois pedregulhos no rapaz. Dalai esquivou de um e aparatou o outro com o ar e arremessou de volta apenas para ser destruído pelos punhos do campeão. Dalai disparou em direção a Moshu em passos rápidos desviando das pedras que lhe eram jogadas. Uma, duas, três, quatro, até que uma o acertou no ombro o jogando ao chão. A plateia fez barulho para o magnífico golpe.

— Isso é tudo que você tem vovô? — Dalai falou em tom de desafio, se levantando com uma provável fratura no ombro. — Vai ter que fazer mais do que jogar umas pedrinhas pra levar a melhor!

O campeão não se deixou abalar e continuou seu ataque maciço com sequencias rápidas e mortais. Dalai rolou para lado e dando impulso com o ar, vou em direção ao oponente desferindo um chute de cima para baixo arremessando seu adversário ao chão com uma rajada de ar tão violenta que chegara a rachar a terra batida. O campeão rastejou até as correntes para usá-las de apoio. Dalai lhe enfiou um chute nas costelas.

— Vamos vovô! Levanta! — Dalai mandou e afastou-se.

O campeão se levantou com esforço apenas para cair com outro chute lateral indo parar do outro lado da gaiola. Mas isso não era o bastante para Dalai, estava apenas começando. Tomado pela sede de sangue contida a anos, ele reprimiu todo ar que pode em seu punho, formando uma esfera rotatória de vento, e desferiu o golpe no oponente. Por um instante tudo que puderam ver foi a cortina de poeira e o metal da gaiola retorcido, um golpe que errara propositalmente seu alvo.

— E então vovô, ainda acredita ser o melhor de Omashuu? — Dalai falou com o punho enterrado no aço centímetros do rosto do campeão que se limitou a negar com a cabeça. — Foi o que pensei. Não se culpe, não é vergonha nenhuma perder para o melhor.

Deixando o campão de lado, Dalai caminhou até seu contratante boquiaberto e disse:

— Meu pagamento — e o homem se apressou em pagar. Dalai sacudiu a bolsa medindo o peso — Foi divertido, chame-me outra vez se precisar de alguém para desbancar um campeão.

Assim Dalai se foi deixando metade de Omashuu espantada com o dominador de ar misterioso.