As Crônicas da Tempestade
20 Capitulo 17 - O preço da vitória
Capítulo 17 — O preço da vitória
— Finalmente veio se juntar a nós general — Yako cuspiu com escárnio.
— Desculpe por deixá-lo esperando Yako, estava ocupado massacrando alguns fanáticos religiosos no caminho. — O general provocou sem tirar os olhos do inimigo, sempre avaliando a situação — Dalai, avance para o templo e encontre a Rainha da Terra, meus homens lhe darão apoio em alguns minutos. Encontre Laya e a mantenha segura até lá.
O rapaz ainda desnorteado assentiu com a cabeça e quando foi abrir a boca para dizer alguma coisa foi silenciado por Raidou com gesto de mão.
— Discutiremos isso quando isto estiver resolvido. Anda logo e vá terminar o que veio fazer esta noite...
O rapaz agradeceu em silêncio com uma mensura e partiu para a borda do telhado. Tão rápido quanto uma flecha, o segundo mestre do ar barrou seu caminho, mas novamente outra parede de chamas os separou, dando ao jovem a chance de fugir.
— Sabemos como isso termina Yako — Raidou disse enquanto desabotoava a farda militar e a atirava no ar revelando o corpo musculoso marcado por cicatrizes da guerra — Mande seus homens se renderem e serão poupados. Tem a minha palavra. Não há necessidade de continuar com esse banho de sangue.
Yako girou seu guan dao acima da cabeça e armou a guarda.
— Para que se tornem prisioneiros de tiranos? Nós dois sabemos que um de nós vai morrer esta noite, não é general. — Yako afirmou, mas não havia raiva em sua voz nem mesmo dor, apenas uma aceitação silenciosa. Um acordo entre dois mestres que estavam dispostos a dar suas vidas por seus ideais e não se renderiam antes que o último resquício de vida deixasse seu corpo.
Raidou suspirou, já não havia mais a necessidade de palavras. O general entrou em guarda e chamou o inimigo com um gesto com a mão. O primeiro mestre do ar avançou jogando uma rajada de ar que arrancava as telhas de tijolos do telhado. O general pacientemente jogou o corpo para o lado esquivando da massa de ar. Seus olhos sempre analisando o inimigo que corria em sua direção iniciando uma sequência de ataques com as palmas da mão que o general esquivou-se com um bom trabalho de pés. Uma, duas, três vezes e aparou o último golpe com o ante braço.
Como um raio, o punho de Raidou se afundou na cara do mestre do ar fazendo seu mundo rodopiar. Depois outro soco incandescente azulado estourou em seu estomago lhe envergando para frente e roubando o ar de seus pulmões e assim nem pode ver o chute que deslocou sua mandíbula e apagou seu mundo.
Yako observou a tudo calado. Levou a mão ao pescoço e apanhou seu colar de madeira com entalhes em espiral, que simbolizava sua posição como líder do seu povo, e ergueu a frente em desafio. Raidou entendeu e arrancou sua dog tag que usava no pescoço e também a apresentou. Ambos deixaram cair seus símbolos ao mesmo tempo, e ao tocarem no chão, dois mestres avançaram preparados para matar.
Dalai agarrou um poste de energia e desceu rodando por ele até cair sem jeito no chão de ladrilhos. Acima, no telhado, podia ver os ataques cruéis riscando o céu noturno: chamas azuis e ondas de vento. O rapaz sentiu as pontas dos dedos do pé adormecerem. Seu tempo estava acabando. Se agarrando a um bloco de pedra como apoio, se levantou e correu em direção ao templo ignorando dezenas de antigos irmãos que corriam de um lado para o outro. Dalai abriu seu caminho até os enormes portões, desviando-se de estilhaços e pedaços de pedras que voavam de um lado para o outro em meio as explosões.
Assim que adentrou o templo sentiu uma enorme angústia. Estirados pelo até então grandioso salão se empilhavam centenas de camas improvisadas onde mortos repousavam e moribundos e amputados rezavam por suas vidas e pelo fim dos bombardeios. Como foi que chegamos a este ponto? O que estamos comprando com essas vidas que perdemos?
Ninguém o notou. E como poderiam? Estavam todos tão assustados com a guerra que mal conseguiam raciocinar, toda a disciplina acumulada através dos anos se chocara com a realidade. Um povo pacífico que nunca vira a guerra de frente não tinha chances contra o exército da Nação do Fogo, um Estado formado por combates há séculos.
Dalai passou pelo salão sem problemas. Aquela não era a primeira vez que ia a Kyoshi, quando em serviço já viera algumas vezes visitar o templo em homenagem ao avatar, por isso já conhecia bem o lugar. E se havia um bom lugar para servir de esconderijo, ele já fazia ideia de onde.
Yako deu o primeiro golpe. Uma investida com sua lança em um ataque embalador na altura do pescoço onde o general se esquivou jogando apenas o tronco para o lado e continuou em disparada armando uma sequência rápida de dois jabs de direita em chamas. O mestre do ar rodopiou o corpo e as esferas de fogo passaram sem tocá-lo. Agora a seu alcance, Raidou lançou uma rasteira de fogo azul, mas Yako saltou para trás em uma cambalhota já rodando seu guan dao dissipando mais duas bolas de fogo e tentou se afastar.
Mas Raidou era um combatente experiente e sabia que o velho mestre buscava por uma distância segura para que pudesse atacar com sua lança, então se aproximar foi o que fez. O general impulsionou o corpo para frente, foi aí que Yako desferiu um novo ataque visando seu pescoço vindo pela lateral. No último momento Raidou rolou para o lado arfante pela esquiva difícil.
Agora era a vez do mestre do ar atacar.
Sem deixar o inimigo descansar, Yako varreu o horizonte com uma rajada cortante de seu guan dao. Raidou pulou jogando suas penas para frente em um movimento acrobático descendo com um arco de chamas que foram facilmente repelidas pelo mestre. E Yako girou a lança acima da cabeça reunindo o ar, preparando para o ataque mortal.
— Isso termina agora Raidou! — Yako gritou por cima do zunir do ar acima
— Concordo plenamente.
O general puxou a energia do universo. Sentiu as células se encherem de poder a percorrer todo seu corpo. Mais poder. Raidou se permitiu passar do limite que um ser humano comum poderia aguentar. Suas veias se expandiram e quase saltaram de seu pescoço e braços para a passagem de tanta energia, permitindo o raio a revestir todo seu punho ao invés de apenas dois dedos.
À sua frente, um ciclone se formava. Yako se sentia um deus! Reunindo toda energia que podia armazenar em seu corpo criava a mais terrível força da natureza. Uma força capaz de destruir uma frota inteira de dirigíveis da Nação do Fogo. Mas isso vinha um preço: esse seria seu último ato. Mestres mais jovens poderiam sem dúvidas pagar um preço mais brando por tal técnica, mas para um homem aos 72 anos significava perder toda energia vital que lhe restara. Aquela monstruosidade seria o seu legado! Em seu último ato traria a vitória aos seus discípulos, estes que criariam um mundo melhor, um mundo sem ele. Em poucos instantes seu trunfo estaria completo...
Yako fechou os olhos por um instante e se deixou esquecer do combate, do ataque, de tudo. Havia apenas o bater de seu coração e sentiu-se em paz. Foi com esse sentimento que deixou este mundo.
Pois nesse momento um feixe de destruição abriu um buraco em seu coração.
A porta do monastério abandonado veio abaixo. Dalai mancou para dentro do corredor escuro iluminado apenas por lâmpadas de luz amarelada, o rapaz sentiu as pernas fraquejarem, entretanto se forçou a continuar. A prioridade era encontrar a Laya, não havia tempo para fraquezas. O túnel se abriu em uma larga câmara antiga onde diversas outras passagens se ramificavam como um enorme formigueiro conectando a toda a ilha, um engenhoso meio de fuja em caso de emergências. Que naquele momento um jovem da Tribo da Água percorria levando uma rainha nos braços.
— Kaijin! — Dalai gritou, e sua voz ecoou por toda a câmara. E o jovem que levava a rainha parou. Uma extensa ponte sobre um abismo era tudo que os separava.
O herdeiro da Tribo da Água do Norte se virou para seu inimigo. Não havia nada em sua expressão, nem raiva ou ódio, apenas o rosto gélido de um soldado que seguia ordens.
— Não posso acreditar que ainda possa se mexer — ele falou observando o estado de seu rival, seus olhos se demoraram na mancha de sangue — Você é mesmo um desgraçado feito de aço. Talvez seja realmente um monstro.
Dalai deu um passo em sua direção.
— Deixe-a aí e eu não o impedirei de fugir.
Kaijin deslizou a rainha dos braços e a agarrou pela cintura e com movimento da mão livre dobrou a água da garrafa que trazia na perna formando um facão afiado de gelo.
— Não posso deixá-la, sabe muito bem disso — Kaijin disse e pôs a lâmina na garganta de Laya — Se tentar nos seguir, ela morre.
O Filho da Tempestade o encarou sério. Sua mão tremia, devia ser pela perda de sangue ou talvez pela raiva. Sentia-se cada vez menos consciente.
— Não me obrigue a ter de te matar — Dalai pediu sentindo a sede de sangue lhe subir à cabeça.
Kaijin deu um passo atrás preparado para arrastar a garota.
— Isso não vai acontecer. Porque esse é o seu fim — o gelo saltou de sua mão em direção ao coração do rapaz, se tornando água no percurso, tão rápido quanto um chicote. Dalai por reflexo jogou o corpo para o lado evitando o ataque e contra-atacou com suas últimas forças com uma rajada cortante na diagonal.
O tiro foi certeiro. A rajada cortou o rosto de Kaijin no lado direito destruindo seu olho. O dominador de água soltou Laya para o lado e se debateu de dor. Visto a derrota certa, sem opção, o dominador de água bateu em retirada pelos túneis selando a passagem ao cortar um pilar de pedra. Dalai se arrastou para perto Laya e a envolveu em seus braços.
— Graças a deus, pensei que a perderia para sempre — ele sussurrou.
Os ventos se desfizeram. O cadáver de mestre Yako despencou do céu e caiu na praça em frente ao Templo Sagrado. Tal cena fez ambos os lados cessarem os ataques para assistirem ainda perplexos o General Demônio do alto do templo erguer a bandeira da Nação do Fogo sobre a cabeça anunciando a vitória. Havia lágrimas de ambos os lados, seja de felicidade pelos vitoriosos ou pela perda dos Nômades do seu grande líder e mentor.
Mas no fundo Raidou sabia que na guerra não havia vencedores, apenas mortos e vivos, e naquela noite trágica esperava que houvesse restado vivos para enterrar seus mortos. Raidou observou melancólico os monges recuperarem o corpo de mestre Yako e o levarem em silêncio. Já não havia mais a vontade de lutar, pois no fundo aquela nunca fora uma luta justa. Fora um massacre.
A muitos quilômetros dali o Avatar via Kyoshi queimar do convés de um navio mercador, e jurou pelas suas vidas passadas que vingaria os bravos homens que deram suas vidas aquela noite, jurou que esmagaria a Nação do Fogo. Esse é o tipo de Avatar que gostaria de ser: um espírito de destruição e vingança.
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