As Crônicas da Tempestade

25 Capítulo 22 - Ascensão inesperada


Notas iniciais
Ei pessoal, tudo bem? Desculpe ter desaparecido por tanto tempo, estava tendo alguns problemas de novo com a depressão e espero não ter negligenciado tanto assim essa história que significa tanto para mim. Mais um vez quero agradecer por lerem minha história e peço desculpas pela falta de comprometimento com vocês. Ass: Cavanhaque Maroto

Capítulo 22 – Ascensão

Nitrus, Nação do Fogo

Uma esfera incandescente quase arrancou sua cabeça.

Por um momento Lana pensou que encontraria suas vidas passadas mais cedo do que imaginava. Tudo aconteceu tão rápido que mal teve tempo de se abaixar quando o arco de fogo seguiu direto na altura dos ombros. Era assustadora a forma como Atakano não ligava nem um pouco para a saúde do Avatar.

— Sua reação está lenta! — Atakano sibilou e, como para provar o que dizia, avançou para cima com uma sequência rápida de socos, já esperados por Lana que ergueu os braços para proteger o rosto. No entanto, o último soco se transformou em uma cotovelada imprevista e acertou em cheio a jovem; logo em seguida a veterana agarrou seu antebraço, passou as pernas por trás e a bandou.

— Você me acertou! — Lana rugiu do chão levando a mão ao supercílio o qual escorria sangue por cima do olho — Isso foi um golpe baixo!

Mas a líder da resistência se limitou a sorrir.

— E agora você está morta. Cadáveres não reclamam... — mas Lana ainda a encarava ressentida. Yuzu suspirou e coçou a cabeleira — Ora vamos, não está esperando que seus inimigos joguem limpo o tempo todo. Isso não é um torneio ou exibiçãozinha em que todos vão deixá-la vencer só porque é o Avatar. O que fazemos aqui é real, não se engane, pessoas vão morrer antes do fim dessa guerra, se pretende não ser uma delas é melhor aprender depressa.

Lana se levantou pressionando o sangramento. A forma de fazer as coisas de Atakano ainda a irritava, da mesma forma como havia lidado com o traidor no dia em que chegara, uma exibição desnecessária. No entanto, não havia ilusões, a única forma de vencer era descendo até o nível deles. Por isso Dalai era tão forte, ele não se limitara às forma padrões de dominação, seu talento natural somados ao estilo formado das ruas lhe davam essa força assombrosa. Para vencê-lo teria que deixar de lado seu orgulho e aprender com essa assassina.

— Já chega por hoje — Atakano disse enquanto se virava para pegar uma camiseta limpa jogada sobre uma cadeira.

— Mes... Digo, Yuzushi, onde conseguiu isso? — ela apontou com o queixo para a horrenda queimadura nas costas nuas da mulher. A pele repuxava quando ela mexia os braços para pôr a camisa.

— Diz essa coisa feia? Consegui no mesmo dia em que perdi a coisa mais importante da minha vida. — Ela disse e pela primeira vez Lana notou uma tristeza na voz da mulher — Isso foi a muito tempo, uma lembrança de nunca perder o foco. — Ela jogou uma toalha para a garota — Mantenha pressionada por algum tempo, o corte é superficial, não deve demorar muito para parar de sangrar.

— Não ia precisar disso se alguém não tivesse me acertado — Lana resmungou e, vendo que a outra se adiantara, acrescentou — Ainda é cedo para encerrarmos.

Atakano lavou o rosto em uma bacia sobre a mesa e completou:

— Acho que esqueceu quem é que está no comando aqui, garotinha. Tenho mais o que fazer do que tentar dar um jeito em você, ou seja, encontre outra pessoa para ouvi-la lamentando.

Nos últimos dias Atakano vinha agindo de forma estranha. Se retirava mais cedo e as vezes desaparecia durante horas a fim sem que ninguém soubesse seu paradeiro, porém sempre aparecia a tempo para os treinos ou para tratar de um assunto importante da resistência. Lana sabia que ela escondia algo, deveria estar agindo pelas costas da Lótus Branca, mas até ter certeza uma observação cautelosa seria a melhor jogada.

Lana ainda sentia os músculos gemerem quando adentrou o refeitório. Se é que podia ser chamado assim, apesar do nome o lugar não era mais do que um cômodo escuro e cavernoso com diversos caixotes enfileirados para servirem de mesas e banquinhos de madeira. O local já estava meio cheio, as melhores mesas haviam sido ocupadas pelo pessoal da resistência, esses que riam alto e se afogavam na bebida.

— Não sei como esses malditos mineiros conseguem engolir essa gororoba — Kaijin exclamou se sentando do outro lado da mesa. Ele remexeu a tigela de madeixa testando a consistência da comida — Esse troço parece lavagem para porcos. Juro que agora entendo por que bebem tanto, só estando bêbado para conseguir comer uma coisa dessas.

Lana sorriu para ele que retribuiu o favor. Um dos poucos sorrisos que trocavam em semanas, depois do incidente em Kyoshi parecia haver uma barreira entre os dois. Lana não saberia dizer o que acontecera ou o que desencadeara isso, mas tinha certeza de que algo havia mudado. Kaijin ainda se culpava pela fuga da Rainha da Terra e do terrível destino dos Nômades do Ar embora soubesse que não havia como mudar o inevitável. Essa culpa transparecia nos pequenos momentos, um olhar perdido para o nada, um suspiro profundo.

— Temos que conversar sobre a missão — as palavras dele soaram tão frias aos ouvidos dela. Lá está o príncipe da Tribo, Lana pensou com amargura.

Nos últimos meses pouco sobrara do velho Kaijin, o jovem dominador de água mudara muito desde Kyoshi. Eu também mudei, ela pensou com amargura. Depois da derrota para o exército da Nação do Fogo e para o Filho da Tempestade, ambos se culpavam pela morte de centenas de Monges do Ar. Se tivessem sido mais fortes no dever... Talvez mestre Yako ainda estivesse entre eles e Firion não os mandaria para aquele buraco infernal.

— Estou preocupada — ela respondeu honestamente se virando para ele — Já estamos de molho a quase dois meses nessa caverna. Aparentemente a resistência está indo bem, mesmo que lentamente, mas sinto que há algo mais. Atakano vem agindo de forma estranha ultimamente. Mesmo nos treinos tem estado distraída, tem alguma coisa acontecendo por debaixo dos panos, Kaijin.

— Relaxe. Apenas se concentre no treino e se dedique a aprender o que puder com aquela mulher. Em breve não vai faltar ação. Se Yuzushi Atakano está mesmo maquinando algo logo saberemos. — Ele uniu os dedos de modo a formar um triangulo sobre o tampo da mesa — Estou mais preocupado com o nosso outro assunto...

Lana olhou para os dois lados se certificando que ninguém estaria perto o bastante para ouvi-los.

— Não acho uma boa ideia falar disso aqui, estou sendo vigiada de perto. Acho que ainda não perceberam que foram descobertos. Mas são bons o bastante para que demorasse alguns dias para eu desconfiar — Lana sorriu ansiosa — Será que já sabem do Firion?

Kajin lhe deitou um olhar de censura, o mais frequente nos últimos tempos.

— Não. A informação está muito bem guardada, Atakano não deve fazer a mínima ideia da chegada de mestre Fírion.

— Então do que se trata?

— Dalai — ele disse e a viu fechar a cara. Kaijin retirou um pedaço de papel com um embaralhado de letras. — Está ficando mais ousado. Foi visto há duas noites se esgueirando pela floresta, precisamos de uma dúzia de homens para espantá-lo, e o desgraçado desapareceu como fumaça. O maluco vem causando danos consideráveis com sua brincadeirinha de guerrilha.

— Não estou muito surpresa.

— Preciso saber que posso contar com você para derrotá-lo da próxima vez. Não perca a cabeça como em Qiuã, um soldado furioso é um soldado morto. Seja constante como as ondas. Sempre.

Lana revirou os olhos ao ouvir o velho mantra da Tribo da Água.

— Pode deixá-lo comigo. Eu mesma vou matá-lo.

— Ótimo — ele disse e depois sua expressão se abrandou um pouco — Se tivermos sorte toda essa loucura irá terminar em breve e nunca mais haverá guerras.

Uma sirene ecoou pelo refeitório cortando os murmurinhos e conversas, pois, aquele era uma convocação de guerra, algo estava para acontecer. Tão subitamente quanto começou, o chamado terminou e o salão ficou abarrotado com os membros da resistência reunidos ali para saber do que se tratava toda aquela confusão. Do meio da multidão de mineiros um corredor foi aberto para que sua líder passasse.

Seu rosto era uma máscara séria e decidida enquanto caminhava até a cabeceira da mesa principal, dali parou e fitou seus guerreiros, seus irmãos.

— Companheiros, lutamos juntos inúmeras batalhas nos últimos meses, foi uma longa jornada até aqui e juntos conseguimos nos fazer ouvidos. Vocês não estão aqui hoje reunidos porque atenderam meu chamado, mas sim porque acreditam que possam fazer a diferença. Tenho muito orgulho de chamá-los de irmãos, e tenho certeza que morreriam por mim, no entanto não é isso que peço hoje, peço que tenham coragem para viver por vocês, que construam um futuro para aqueles que amam! — seu punho desceu na mesa e os pratos tilintaram — Finalmente chegou o grande dia, essa é a hora de reaver o que nos é de direito: nossa Liberdade. Essa noite nossos companheiros de todos os cantos de nossa querida nação se preparam para a lutar e contam conosco para acabar com a tirania da Senhora do Fogo e seus militares. Essa noite não somos homens ou mulheres estranhos, somos parte de algo maior e mais belo e forte. Hoje vamos vencer!

A plateia juntou-se a ela ao coro de urros e murros nas mesas. Eles a veneravam como uma salvadora. Lana apenas fitou a cena petrificada, então era isso que tramavam pelas suas costas, realmente Atakano era uma ameaça a Aliança.

— Parece que descobrimos o que ela estava tramando afinal — Kaijin disse, sua voz abafada pelo barulho.

Durante aquela noite homens e mulheres de todas as classes sociais que acreditavam nos ideais revolucionários foram para as ruas para protestar em toda a nação, fosse se chocando contra as tropas reais ou quebrando janelas e saqueando lojas. Quarteis foram incendiados e burgueses poderosos perseguidos e presos, e em alguns casos até linchados pelo povo.

A rebelião caiu com força e coordenação em cima da guarda real tomando rapidamente pontos estratégicos e erguendo bloqueios nas estradas principais e aprisionando oficiais militares para futuras barganhas. O caos fora plano de fundo de todo o espetáculo aquela noite para os que se aproveitavam para espalhar a destruição por onde passassem.

Na capital real, a resistência era maior por parte da guarda real que reprimia os rebeldes com força. Bolas de fogo incandescente riscavam as ruas destruído casas e iniciando incêndios e raios mortais cruzavam o céu noturno em uma batalha sangrenta entre compatriotas. Os gritos podiam ser ouvidos à quilômetros da metrópole e o sangue escorria pelas ruas como em uma corredeira vermelha.

Lana nunca esqueceria aquela noite, mesmo se quisesse. Lutava como nunca fizera antes tendo total consciência que cada golpe que desferia era totalmente intencionado a tirar uma vida, com um movimento destruía completamente uma pessoa, seu passado, presente e futuro. Sentia-se suja não só fisicamente, mas mentalmente também, no passado sonhara com o dia em que poderia lutar pelo bem do mundo, mas não havia ali nenhuma glória, nenhuma beleza ou grandeza apenas assassinatos. Nada nesse mundo poderia ser conquistado sem sacrifícios, disso sabia muito bem e mesmo assim a que ponto chegara? Essa era a tal liberdade que Atakano sempre falava?

Pelo canto do olho podia ver sua mestra duelando contra três dominadores. Ela dançava no campo de batalha como uma fera selvagem destroçando todos que se opunham a ela. Algo lhe dizia que aquela noite estava longe de terminar.