As Crônicas De Nárnia - Expresso Londres
16 Nos Meus Braços
Notas iniciais

POVs Lilian
Tive alguns dias para organizar tudo para a viagem rumo a America na qual eu acompanharia vossa majestade, a rainha Susana em seus assuntos governamentais. Obviamente que na sua ausência aquele que cuidaria de tudo seria Pedro com quem, aliás, eu não falava desde o jantar no palácio real. Acreditei que ele estivesse me evitando depois de descobrir sobre meu falso relacionamento com Caspian, aliás, o que ele veio a descobrir não foi sobre a mentira até porque para desfazer aquele mal entendido eu teria de explicar porque tive que levar meu vizinho naquela reunião, e se eu fizesse isso perderia muito mais do que meu amante, perderia meu emprego e entre os dois eu estava mais preocupada com o segundo. Assim, eu ignorei o fato de que Pedro poderia não querer mais me ver, e apenas me dediquei ao meu trabalho que era o que realmente me importava. No interfone o zelador do meu prédio me ligou avisando:
– O carro enviado pela rainha já está a sua espera Liliandil! Precisa de ajuda com as bagagens?
– Não Felix, obrigada eu estou levando apenas uma mala! –respondi.
– Tudo bem.
Arrumei tudo que precisaria e na data marcada acompanhei a rainha até o aeroporto onde pegamos um jatinho particular que nos levou rumo aos Estados Unidos. Nós nos hospedamos no mesmo hotel, em quartos diferentes obviamente, mas que ficavam no mesmo andar um ao lado do outro. Ocupei-me toda aquela semana com os pedidos de Susana, e tentei não me deixar incomodar com seu humor e com suas indiretas mesquinhas, apenas me foquei no meu trabalho e ignorei todo o resto. Quando finalmente regressamos duas semanas mais tarde do que o previsto, tudo parecia ter passado por uma mudança radical. Quando cheguei ao gabinete para meu primeiro dia de trabalho acabei descobrindo pela própria Lucia que a mesma estava engatando um relacionamento com o príncipe Edmundo, irmão de Pedro, o que me deixou feliz por ela afinal Edmundo parecia ser uma boa pessoa.
Mas as novidades não pararam por aí, eu também recebi um buque de rosas vermelhas de Pedro junto com um cartão que foi enviado ao meu apartamento assim que regressei da America. Neste cartão dizia em letras e frases bonitas que ele estava me dando um pé na bunda, nada do que eu já não esperasse, e pra dizer a verdade eu estava aliviada com aquilo, talvez se ele se resolvesse com sua esposa ela parasse de pegar tanto no meu pé.
Quanto ao meu vizinho, raramente o via em casa. Não cruzamos muito pelos corredores, e nas poucas vezes que nos vimos estávamos ambos ocupados demais para trocar uma palavra sequer. E assim, acho que acabamos nos afastando de vez. Eu estava exatamente como queria estar, vivendo cem por cento para minha carreira sem nenhuma distração masculina pra me atrapalhar...
Fui encarregada do evento em que o governador me pediu para tratar, e aquela foi uma semana agitada, mais do que eu esperava, mas pelo menos pude ficar longe de Susana. Na noite do jantar depois de tudo bem organizado por mim lá estávamos todos em uma grande mesa no restaurante preferido do governador.
– Adorei o seu vestido Lil! –disse Lucia que estava sentada ao meu lado à mesa.
– Obrigada Lu, foi presente da rainha, pasme. –cochichei enquanto os políticos conversavam.
– Quanta evolução!
– Nada, ela só não queria que eu fizesse feio em suas coletivas. Acabei escolhendo este para o jantar, já que ninguém me viu com ele antes.
– Ficou perfeito em você! Também adorei o que você fez no cabelo!
Ela se referia as mechas mais escuras que agora davam ao meu cabelo um tom mais castanho do que loiro ao qual eu estava acostumada. Meus olhos estavam pintados com maquiagem escura e forte, e meus lábios levemente cobertos por um gloss incolor, meu vestido por sua vez era preto do tipo justo nas curvas e solto na saia deixando minhas pernas livres e era fechado em cima, um vestido bastante elegante e comportado sem deixar de ser sensual.
Durante o jantar, todos seguiram com os assuntos de praxe até finalmente descontrair e entrar em conversas mais pessoais. A longa mesa estava dividida entre os familiares do governador e alguns poucos aliados do partido, assim como pela rainha e Pedro em uma das pontas, e o restante da família real que eram convidados de honra do governador que comemorava suas bodas com sua esposa. Havia uma boa música sendo tocada pela banda que convidava os presentes para a dança na pista lateral. Depois de um tempo, notei Edmundo se erguer de seu lugar e ignorar as regras da família e tirar Lucia para uma dança, ela sem jeito aceitou e foi fulminada pelos olhares de Susana que provavelmente não aceitava ver o cunhado confabulando com uma reles secretaria, foi algo saboroso de se ver.
– Me concede o prazer da dança senhorita Liliandil? –disse um dos sobrinhos do governador.
– Ah, eu não sou muito boa nisso. –disse meio sem graça.
– Por favor, eu insisto.
Ele parecia tão gentil que eu acabei aceitando. Deixei minha pequena bolsa de mão sobre a mesa e o segui até a pista. O vinho fazia um efeito maior quando se bebia sentada e depois se colocava de pé, e eu senti ele chegando a minha cabeça quando cheguei a pista e acabei tropeçando em meus pés. O sobrinho do governador me apanhou pela cintura e me apoiou contra seu corpo com um sorriso galante. Ele não era lá muito atraente, mas era charmoso e muito educado. Acabei me apoiando em seus ombros com as palmas de minhas mãos enquanto dançávamos uma canção lenta e agradável.
Embora o momento não fosse oportuno para lembranças, por alguma razão minha cabeça foi tomada por uma melancolia estranha, enquanto ao meu redor eu via os pares dançando romanticamente entre sorrisos e carinhos discretos. Tudo estava em clima de plena felicidade por conta da comemoração do casal principal, e aquilo me fez sentir uma melancolia estranha, principalmente quando vi Pedro e Susana dançando agarrados como um casal comum apaixonado. Não sei como eu fui acreditar que o que houve entre Pedro e eu poderia ser sério, era obvio que assim como todos os casais ele e a rainha tinham problemas, e eu fui apenas mais uma válvula de escape para Pedro. Assim como provavelmente Caspian teria sido para Susana...
“Droga porque eu simplesmente não consigo desenvolver um pensamento sem colocar Caspian no meio deles?” era o que eu me perguntava enquanto deitava meu rosto no ombro do filho do governador. Aquela noite parecia estar indo bem, mas eu não conseguia controlar o que se passava na minha cabeça. Eu sentia falta dele, sentia falta de nossas conversas descompromissadas nas escadas, de beber cerveja sentada na janela ouvindo as estórias absurdas que ele me contava, sentia falta das piadinhas sem graça, e das indiretas que ele me dava sempre que me via vestindo algo mais sensual. Sentia falta de quando ele chegava pela manhã sem que eu visse e me abraçava depositando beijos carinhosos no meu pescoço.
“Meus Deus, será que ele estava mesmo falando sério quando disse que estava apaixonado por mim?” mesmo que fosse aquilo já devia ter passado, ele já devia ter superado porque nunca mais nos falamos e conhecendo Caspian como eu conhecia seria absurdo.
“Porque eu sinto falta dele?”
– Eu não estou em sentindo muito bem, eu acho que vou ao toalete sim? –eu me dirigi ao filho do governador logo me afastando dele.
Andei rápido entre os casais, e andei até a mesa apanhando minha bolsa e fui para o banheiro onde lavei o rosto, e me olhei no espelho tentando controlar meus pensamentos, mas não conseguia, então decidi sair dali, mas não sem antes apanhar uma garrafa de champanhe e fugir daquele restaurante. Andei pelas ruas com aquela garrafa nas mãos como se fosse uma sem teto alcoólatra, mas tudo que eu queria era apagar os olhos de Caspian da minha memória.
“Encher a cara sozinha na rua é uma ótima ideia Lilian”.
Pra ajudar, o tempo resolveu se armar e despencar de chuva sobre minha cabeça. Corri o quanto pude pra me livrar da chuva fria que me banhava, mas meus sapatos não ajudaram e acabei torcendo o pé na calçada e quase caí. A garrafa já havia sido jogada fora depois de eu tê-la bebido inteira, e eu mal conseguia parar em pé. Sentia frio, e por alguma razão só conseguia chorar feito uma criança abandonada. Retirei os sapatos e os joguei longe logo seguindo rua abaixo descalça e com o vestido ensopado assim como meus cabelos. Abracei meu corpo para fugir do frio, e controlei minhas lagrimas, então próximo da calçada notei quando um carro começou a diminuir a velocidade e parou ao meu lado, evitei olhar pois não queria nenhuma engraçadinho se metendo comigo, mas então reconheci a voz:
– Lilian? –não acredito que era ele. – Lilian tá fazendo o que nessa chuva?
Me virei tremendo de frio, e olhei para dentro do carro que parou de vez. Era Caspian. Eu não disse uma só palavra, apenas continuei parada ali encarando ele até que as lagrimas caíssem de novo pelo meu rosto, mas acho que se não tivesse feito som algum ele não teria percebido debaixo de toda aquela chuva.
– Meu Deus, o que houve com você? –disse ele saindo do carro. – Entra eu vou te levar pra casa. –disse andando até mim, e me segurando pelos ombros.
– Eu fiz tudo errado. –eu dizia, e nem sequer sabia do que estava falando.
– Do que tá falando Lil? –disse ele me olhando com aquele olhar preocupado.
– Eu não sou assim... –eu dizia entre o choro.
– Você tá bêbada? –disse ele.
– Não. –retruquei.
– Droga Lil, o que você fez? Vem entra no carro. –disse abrindo a porta do carona e me colocando pra dentro.
Ele fez a volta no carro correndo da chuva então entrou e sentou-se ao meu lado. Caspian me olhou, e tocou meus cabelos depois se virou e apanhou um, sobretudo do banco de trás e colocou sobre mim.
– Toma veste isso, você tá gelada. –ele disse esfregando as mãos nos meus ombros como se quisesse me aquecer.
– Eu fui tão burra. –eu resmungava sem quase entender o que eu mesma dizia.
– Você não devia ter bebido. –ele disse enquanto girava a chave do carro.
Não demorou muito até chegarmos no meu prédio, eu sei porque embora tenha dormido a maior parte do caminho senti quando o carro parou e a voz do porteiro se manifestou ao lado da janela do meu banco.
POV Caspian
Não fazia ideia do que havia acontecido com a Lil naquela noite, mas encontrar ela daquele jeito descalça toda molhada pela chuva e com aparência de quem tinha vagado por aí completamente bêbada me deixou preocupado. Assim que chegamos ao prédio eu chamei Felix para me ajudar, já que ele tinha um guarda chuva, abri a porta do carro que eu tinha comprado recentemente e peguei Lil no colo. Ela estava delirando não sei se por causa do álcool ou pelo frio, mas ela batia queixo. Avisei Felix que subisse comigo depois de chavear o carro, e levei Lil até o apartamento dela, carregando-a pelas escadas. Felix abriu a porta pra mim, já que eu não possuía mais a chave do APE dela, e depois eu entrei enquanto ele descia e nos deixava sozinhos. Deixei Lil sobre o sofá enquanto ela parecia estar desmaiada, fechei a porta depois fui até o banheiro onde deixei a banheira se encher com água bem quente enquanto eu voltava para a sala e encontrava Lil delirando.
– Onde eu to? –ela dizia. – Eu preciso voltar pro jantar.
– Você não vai a lugar algum do jeito que você tá. –retruquei tocando o rosto dela e o erguendo. – No máximo você deveria ir pra um hospital.
– Eu não estou doente, to bêbada.
–Ah que bom que você sabe disso. –disse tentando pegá-la pela cintura.
– O que vai fazer? –ela disse passando as mãos ao redor do meu pescoço.
– Você precisa de um banho quente. –segurei ela totalmente no meu colo e andei rumo ao banheiro.
– Você não vai me ver nua. –ela resmungou naquele tom enrolado.
– Como se eu fosse me aproveitar de uma cachaceira. –resmunguei enquanto ela aconchegava o rosto na curva do meu pescoço.
Entrei no banheiro e coloquei Lilian sentada na privada, enquanto ela se escorava na pia. Era uma cena triste de se ver, principalmente porque eu conhecia aquela garota e me fazia mal vê-la naquele estado decadente como se fosse qualquer uma, como se fosse uma rejeitada. Desliguei a água que já preenchia a banheira e voltei para Lil me ajoelhando diante dela e avisando:
– Eu vou ter que tirar o que você ta vestindo.
– Porque tá fazendo isso? –disse ela enrolando a língua.
– Por que eu me importo com você... –respondi e então levei minhas mãos ate o zíper do vestido dela e logo a ajudei a se livrar dele.
Lilian não protestou estava bêbada demais Ra brigar comigo, então peguei ela no colo e a levei até a banheira onde a coloquei submersa. Tomei cuidado para que ela sentasse direito e colocasse a cabeça sobre a beirada coberta por uma toalha dobrada então antes de me afastar ela envolveu os braços no meu pescoço e me puxou pra perto quase me fazendo cair na banheira com ela.
– Lil? –eu segurei as mãos dela enquanto ela dizia.
– Não vai embora, não me deixa aqui. –ela dizia baixinho.
– Eu não vou, eu vou procurar toalhas secas você não vai ficar aí a noite toda.
– Eu to com medo. –ela choramingava feito criança.
– Medo do que? –eu dizia tocando o rosto dela todo borrado pela maquiagem.
– Não me deixa vomitar, eu odeio vomitar.
– Te faria bem.
– Não gosto.
– Me solta um pouquinho Lil! –eu ri da força que ela me segurava. – Vai quebrar meu pescoço!
Ela fez um biquinho infantil, que se não fosse o estado trágico em que ela se encontrava eu acharia uma graça. Depois disso ela me soltou afundando os braços na água quente, e fechando os olhos recostando a cabeça na toalha assim me deixando levantar. Deixei ela se aquecer um pouco depois a retirei da água enrolando-a em toalhas secas e levando-a para seu quarto onde a coloquei na cama.
– Você vai me matar por te colocar molhada em cima da cama! –eu acabei rindo enquanto ela parecia dormir.
Eu tentei secar os cabelos dela com um secador. Nem eu acredito que tava cuidando dela daquele jeito, depois de tudo que aconteceu eu achei que conseguiria ficar longe, mas ver ela daquele jeito me deixou péssimo, e me fez sentir responsável então eu não tinha outra coisa a fazer a não ser cuidar dela. Com os cabelos e o corpo já quase secos eu retirei as toalhas debaixo dela, e a envolvi com os cobertores, deixando ela bem confortável.
– Caspian... –disse ela de olhos fechados puxando minha mão e se virando para o lado oposto da cama me obrigando a abraçá-la. – Fica comigo, não vai embora... Eu... To...
E aos poucos ela acabou dormindo agarrada no meu braço me impedindo de ir embora. Eu podia deixá-la dormindo sozinha, mas... Eu não queria. Acabei me deitando as suas costas e abraçando ela para afastar o frio que ainda a fazia tremer. Por fim, depois de mexer nos cabelos dela por longo tempo eu acabei dormindo com ela ali nos meus braços...
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